
Nota: 



Anotação em 2009: O Cais da Maldição/The Big Steal, de Don Siegel, é uma porcaria. Mas, antes mesmo de ser uma porcaria, ele é sobretudo um caso de falsa identidade. Vende-se como um film noir, um thriller, e é na verdade uma comédia tipo Os Trapalhões, ou tipo Jerry Lewis, o que é a mesma coisa. Só que não tem graça alguma.
Vamos por partes, como diria o Dexter.
Sim, ele se vende como um policial, um noir. É preto-e-branco, é de 1949. Veja-se o título original – The Big Steal. Remete diretamente a The Big Sleep, À Beira do Abismo; The Big Heat, Os Corruptos; The Big Combo, O Império do Crime – todos bons noirs.
Veja-se o título brasileiro: O Cais da Maldição. Coisa mais noir. E, no entanto, existe um cais só no comecinho da história, ele não tem nada de maldição – e o resto todinho do filme se passa bem longe do mar, em poeirentas estradinhas do interior do México.
Noir precisa de femme fatale – e este filme aqui não tem femme fatale alguma. A heroína, interpretada por Jane Greer, uma atriz sem presença forte, sem beleza estonteante, sem nada de femme fatale, só quer saber de casar com um sujeito grande e bonitão.
Vou tentar uma sinopse, mas acho que não vou conseguir ser rápido.
Um brutamontes com jeito de Mike Tyson e Q.I. de minhoca
É mais ou menos assim: cachorro persegue gato que persegue rato que também é perseguido por gata; gato e gata, imaginem os senhores o que acontecerá com eles.
Ou, explicando melhor: sujeito grandão, brutamontes, cara e jeito de jab à la Mike Tyson e Q.I. de minhoca, Vincent Blake (interpretado por William Bendix, perfeito para o papel – só fez papel assim, na vida, o tadinho), ataca herói em camarote de navio que está atracando no porto mexicano de Vera Cruz. Sabemos que o atacado é o herói porque ele é Robert Mitchum, com uma cara de novinho pacas, e aquele imenso topete puxado pra trás, que, depois da luta contra o brutamontes no camarote do navio, se desalinha um pouco.
O herói se chama Duke Halliday. Bom nome – faz lembrar Doc Holliday, o bêbado tísico amigo de Wyatt Earp no tiroteio no O.K. Corral em Tombstone.
Duke Hallyday, que está sendo seguido por Vincent Blake, está por sua vez seguindo Jim Fiske (Patrick Knowles).
No cais de Vera Cruz, ao desembarcar, tentando fugir antes que o brutamontes Vincent Blake acorde depois de ser surrado, o herói Duke Halliday passa por uma americana, Joan Graham (o papel de Jane Greer, uma atriz tão sem-gracinha quanto um adolescente dançar com a irmã, ou chupar bala sem tirar o papel).
Joan Graham também está atrás de Jim Fiske, porque essa figura ficou noivo dela e pediu a ela emprestado todo o dinheiro que ela havia juntado na vida dura de trabalhadora – US$ 2 mil.
Jim Fiske dá um jeito de fugir de Joan Graham. Logo depois que ele foge, chega Duke Halliday. Os dois passam a perseguir Jim Fiske. Atrás dos dois segue Vincent Blake.
Esta é a trama.
Como uma comédia pastelão-trapalhão – só que sem graça
Legal – mas, voltando ao Dexter, ou ao Jack, os que gostam de cada parte separadinha, por que o filme parece com os dos Trapalhões, ou os de Jerry Lewis, que não é a mesma coisa mas é igual, quer dizer, é o original que o nada trapalhão e sim espertíssimo Didi macaqueou?
Legal, vamos por partes. Que tal esta seqüência? Herói Duke e heroína Joan estão nas estradas mexicanas perseguindo o vilão Jim. Vilão Jim vê sinal de “Estrada em construção; use desvio”; desce do carro, troca o sinal de lugar. Herói e heroína caem feito patinhos, entram na estrada em construção – e lá adiante vão dar no trecho em obras. Não podem passar de jeito nenhum, diz o chefe da obra. Heroína desce, conversa em espanhol com o chefe da obra, conta uma história para ele: está fugindo para se casar com aquele grandão bonitão que está com ela – o herói; mas o pai dela, sujeito malvado, está vindo atrás, não quer o casamento, quer casá-la com sujeito baixinho, feio. Chefe da obra fica encantado com belo casal, ajuda-os a seguir em frente – e impede que o perseguidor deles, o tal do Vincent Blake, prossiga pela mesma estrada, achando, é claro, que Vincent Blake é o pai cruel da heroína.
Bem, se essa seqüência não for o mais autêntico estilo trapalhão das comédias amalucadas, o que seria, então?
Mas tem mais, tem muito mais. A barreira da língua, ladies and gentlemen! É tudo no mais puro estilo screwball comedy: tanto o rato quanto o gato quanto o cão, todos americanos, estão no México – e a gozação que o filme faz da incapacidade de os americanos falarem em qualquer outra língua que não seja a deles é fantástica, é sensacional.
Ah, mas então é uma boa comédia?
Nâni, nâni. É um filme idiota, de merda, que pretende ser um policial, mas acaba sendo, apesar dele mesmo, uma imitação ridícula de uma comédia amalucada – só que sem graça! Os risos que o espectador dá é do ridículo total da coisa. Da sua falta de graça por estar perdendo o seu tempo vendo tanta idiotice.
Mas péra lá: é do Don Siegel, pô! O Don Siegel, o cara que fez grandes westerns, que fez grandes policiais, que ensinou Clint Eastwood boa parte do que ele sabe!
Verdade. O filme é de Don Siegel.
Euzinho, pessoalmente, nunca tive grande respeito por Don Siegel. Para mim, ele é o criador de Dirty Harry, o policial fascista. Mas babei quando Clint Eastwood, ao fazer a obra-prima que é Os Imperdoáveis, dedicou seu filme a Don Siegel e Sergio Leone, os diretores que ensinaram o ofício a ele. Sergio Leone tudo bem, eu sempre tinha reconhecido como um gênio. Quando Clint o colocou ao lado de Don Siegel, como tendo aprendido com os dois o que fazia, passei a pensar em ver coisas feitas por ele, porque provavelmente ele era bom, e eu é que não sabia.
Depois de ver esta porcaria, penso o seguinte: Don Siegel pode ter feito bons filmes, ou alguns filmes que tivessem algo de bom. Ainda não vi nenhum. Este aqui é apenas um exemplo do que de pior o cinema pode fazer. Merda, merda pura. Para ser ruim, este filme precisaria ser muito melhor do que é.
O Cais da Maldição/The Big Steal
De Don Siegel, EUA, 1949
Com Robert Mitchum (Duke Halliday), Jane Greer (Joan Graham), William Bendix (Blake), Patric Knowles (Fiske), Ramon Novarro (Ortega), Don Alvarado (Ruiz)
Roteiro Gerald Drayson Adams, Daniel Mainwaring
Baseado em história de Richard Wormser
Fotografia Harry J. Wild
Música Leigh Harline
No DVD. Produção RKO
P&B, 72 min
1/2