Cadê os Morgans? / Did You Hear About the Morgans?

Nota: ★★½☆

Anotação em 2010: Uma comedinha romântica com todas as características básicas do gênero: previsível, descartável, com algumas coisas bem bobinhas, gostosinha, divertida, com monte de ótimas piadas.

Tem duas características marcantes. A primeira: Hugh Grant está cada vez pior, cada vez mais careteiro. Não há uma tomada em que não faça uma, duas ou mais caretas.

A segunda: o diretor e o supervisor musical estavam absolutamente inspirados. A escolha das músicas incidentais é brilhante. Volto à trilha sonora depois.

Cadê os Morgans? pertence àquele subgênero que o cinemão comercial americano adora, e que eu chamo de Gente da cidade grande detestando e depois amando a vida no interiorzão bravo. Para lembrar só alguns outros desse subgênero: Presente de Grego/Baby Boom, de 1987, em que a personagem de Diane Keaton, uma executiva extremamente bem sucedida de Manhattan, enfia-se numa cidadezinha minúscula no norte do Estado; o recente Recém Chegada/New in Town, de 2009, em que a personagem de Renée Zellweger, uma executiva muito bem sucedida da ensolarada Miami vai para uma minúscula cidade gelada de Minnesotta; Quando o Amor Acontece/Hope Floats, de 1998, em que a personagem de Sandra Bullock deixa Chicago e vai de volta para sua pequena cidadezinha de Smithville, no Texas.

Pertence também a um outro subgênero, que tem sido freqüente ultimamente, para o qual ainda não dei nome – a comédia romântica com um toquezinho de policial, de thriller, como o também recente Uma Noite Fora de Série/Date Night, com Steve Carell e Tina Fey.

         Uma puladinha na cerca, e a mulher bota o marido pra fora de casa

É assim: Paul e Meryl Morgan (Hugh Grant e Sarah Jessica Parker) estão separados há três meses. Paul deu uma puladinha na cerca – coisa inocente, uma trepadinha ocasional durante uma viagem a trabalho –, mas Meryl, rígida, o botou pra fora de casa. Então, quando a ação começa, tem três meses que ele liga constantemente para ela, sugerindo que se encontrem para conversar, manda presentes todos os dias – e ela nada, durona, rígida.

Claro, os dois são extremamente bem sucedidos em suas carreiras, têm um monte de dinheiro. Ele é um advogado de sucesso, tem seu próprio escritório. Ela é dona de uma imobiliária, é um fenômeno, já saiu em capa de revista. Claro, moram em Manhattan, a capital do mundo, o umbigo do capitalismo.

Um belo dia, Meryl finalmente aceita jantar com ele. Com horário marcado – saindo do jantar, às 21 horas, ela tem um compromisso, vai se encontrar com um francês rico para mostrar um imóvel para ele. Jantam, conversam – Meryl continua durona, rígida. Mas saem juntos do restaurante, caminham pelas ruas de Manhattan até o lugar onde ela se encontraria com o cliente francês rico – e, lá, os dois testemunham o assassinato do sujeito, vêem o assassino.

A vítima era um contrabandista de armas, que estava colaborando com o FBI para fazer os federais chegarem a outro contrabandista de armas mais perigoso ainda. Então, sabem-se duas coisas: o assassino do francês vai atrás do casal que o viu matar; e, se capturado, ele levará a polícia ao contrabandista que mandou matar o outro.

Claro: Paul e Mary entrarão no programa de proteção de testemunhas; ganharão novos nomes, novas identidades, e serão levados para bem longe – para os confins do Wyoming, numa minúscula cidade chamada Ray, onde ficarão sob a guarda de um delegado federal, Clay (Sam Elliott) e sua mulher Emma (a simpática Mary Steenburgen).

         Piadinhas com o cinema – e também com a política

Quando Paul e Meryl chegam ao Wyoming, estamos aí com uns dez, no máximo 15 minutos de filme. O que virá em seguida é previsível – comedinha romântica é a coisa mais previsível do mundo –, mas recheado de boas piadas. E, se Hugh Grant faz mais caretas que Jim Carey, os veteranos Sam Elliott e Mary Steenburgen estão muito bem, e muito engraçados, como o casal de cowboys naquele fim de mundo perdido no meio do nada.

Na primeira noite, Meryl pergunta se a casa tem TV a cabo. Clay responde que não, mas tem muitos filmes em DVD, a maioria com John Wayne e Clint Eastwood. Meryl vai ver – e o espectador também verá trechinhos – de Rastros de Ódio/The Searchers, o grande clássico de John Ford, e um dos filmes da série Dirty Harry.

O casal rico da grande metrópole também ficará sabendo que a cidade de Ray tem apenas 14 democratas, e todos os demais habitantes da cidade sabem seus nomes. Aliás, 13, porque um deles morreu recentemente.

E, quando Meryl conhece Emma, que acabou de comprar novas espingardas, não consegue conter o espanto e exclama: – “Sarah Palin!”

Sim: o diretor e roteirista Marc Lawrence faz questão de deixar bem claro que é anti-republicano.

Marc Lawrence é nova-iorquino como seus personagens centrais. Nasceu no Brooklyn, em 1959. Tem no currículo um pequeno crime: é o autor do roteiro de Forças do Destino/Forces of Nature, uma comédia romântica idiota com Sandra Bullock e Ben Affleck. Mas é o co-roteirista de Miss Simpatia/Miss Congeniality, uma comedinha bastante agradável, e também de sua continuação, Miss Simpatia II.

Este aqui foi seu terceiro filme como diretor. Já havia feito antes uma outra comédia romântica com Hugh Grant e a gracinha Drew Barrymore, Música e Letra, de 2007.

         Uma trilha sonora cheia de maravilhas

Na minha opinião, a melhor coisa do filme é de fato a escolha das músicas incidentais. É uma maravilha. Tem algumas canções country, para identificar que estamos no interiorzão bravo – “Why don’t you love me”, com o velho Hank Williams, e duas do Allman Brothers Band, uma delas “Jessica”, a deliciosa faixa instrumental que é meio a marca registrada do grupo. Tem “True Love Ways”, de Buddy Holly, o gênio pioneiro do rock’n’roll morto em 1959, aos 23 anos de idade. Tem Los Lobos, “Shakin’ shaking shakes”. E tem Bob Dylan, Paul McCartney e George Harrison – respectivamente “Rollin’ and tumblin’”, do disco Modern Times, de 2006, “Dance Tonight”, de Memory Almost Full, de 2007, e “Between the devil and the deep blue sea”, do ultimo CD de George, Brainwashed, de 2002.

E ainda, para encerrar, como moral da história, enquanto rolam os créditos finais, a versão de Stevie Wonder para “We Can Work it Out”, assinada por Lennon-McCartney, na verdade Paul McCartney puro.

Com as boas piadas, com as gozações com os republicanos, com essa quantidade de belas canções, as caretas de Hugh Grant saem baratas. Uma comedinha romântica descartável, é claro, mas bem divertida.

Cadê os Morgans?/Did You Hear About the Morgans?

De Marc Lawrence, EUA, 2009

Com Hugh Grant (Paul Morgan), Sarah Jessica Parker (Meryl Morgan), Sam Elliott (Clay Wheeler), Mary Steenburgen (Emma Wheeler), Elisabeth Moss (Jackie Drake), Michael Kelly (Vincent)

Argumento e roteiro Marc Lawrence

Fotografia Florian Ballhaus

Música Theodore Shapiro

Montage3m Susan E. Morse

Produção Columbia Pictures, Castle Rock Entertainment, Relativity Midia

Cor, 107 min

**1/2

Título em Portugal: Ouviste Falar dos Morgans?

2 Trackbacks

  1. […] vai passar o Natal na casa da família e leva a noiva para que todos conheçam. A noiva, Meredith (Sarah Jessica Parker, ótima, num papel perfeito para ela), é toda caretinha, formal – e os Stones, ao […]

  2. […] que elenco! Interpretações maravilhosas de todo mundo. Tá certo: agora que a gente viu Hugh Grant repetindo suas caretas em diversos outros filmes, pode-se estar um pouco cansado delas. Mas isso é […]

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