Orgulho e Preconceito / Pride & Prejudice


Nota: ★★★½

Anotação em 2009: No segundo baile mostrado em Orgulho e Preconceito – um filme belo em todos os aspectos, de visual suntuoso, com um trabalho de câmara absolutamente admirável -, o jovem diretor Joe Wright se permite um momento de criatividade. De repente, num passe de mágica, como respondendo ao toque de uma varinha de condão, todos os demais dançarinos e os espectadores, todo o resto da humanidade desaparece, e Lizzie e Darcy, os imortais personagens criados por Jane Austen 200 anos atrás, ficam sozinhos no mundo.

É uma maravilha de seqüência.

Um veterano diretor americano já havia feito exatamente isso que o jovem inglês fez agora. Na cena do baile – sim, também numa cela de baile – de Amor, Sublime Amor/West Side Story, de Robert Wise, de 1961, em que se vêem pela primeira Maria e Tony, o Romeu e a Julieta nova-iorquinos do musical criado por Jerome Robbins, Arthur Laurents e Leonard Bernstein, acontece a mesma coisa. Lá, o resto do mundo ficava flu, sumia numa espécie de neblina, e só Maria e Tony apareciam nítidos, jovens e belos, longe deste insensato mundo.

Joe Wright foi ainda mais radical: fez evaporar completamente a multidão.

A citação de West Side Story não está aqui para desmerecer o diretor inglês. Ninguém inventa roda alguma – nem precisa inventar. O importante é usá-la bem – e esse rapaz, que estava com ridículos, parquíssimos 33 anos quando fez a nova versão cinematográfica do romance publicado em 1813, usa muitíssimo bem todos os recursos que o cinema já criou para construir um filme admirável. 

aorgulho1Sua câmara é uma das mais competentes da praça. Faz lembrar – pode parecer loucura, sendo ele tão jovem – a câmara de Hitchcock, de Brian De Palma, do melhor Lelouch. Raras vezes ela fica quieta, parada, estática – a eterna lição: cinema vem de kinema, kinema = movimento. Está sempre se mexendo, sempre andando para a frente, para o lado, em torno de si mesma, em torno dos personagens. Mas não é uma coisa frenética, rápida demais, que canse o espectador. Ao contrário: é suave, gentil. Para muitos espectadores, pode simplesmemte passar despercebida.

Há diversos planos-seqüência ao longo de todo o filme. O primeiro vem bem no comecinho, depois de duas ou três tomadas que apresentam Lizzie Bennet (Keira Knightley) ao espectador – uma mocinha que passeia pelo campo lendo um livro, seguramente um romance. Lizzie está chegando à sua casa; passa entre roupas penduradas nos varais, prossegue andando fora da casa. Sem corte, a câmara a abandona por um momento e entra por uma das portas na casa dos Bennets; lá dentro está Jane (Rosamund Pike), a primogênita e mais bela das seis filhas; Lydia e Kitty passam correndo por ela, em uma brincadeira infantil; a câmara prossegue andando pela casa, volta-se para outra porta, encaminha-se para ela, e Lizzie reaparece lá fora, aproximando-se de uma janela atrás da qual estão seus pais, o sr. e a sra. Bennet, ela excitada, contando alto para o marido – a quem chama de sr. Bennet – que a residência mais rica da região acaba de ser ocupada. Só aí há um novo corte. 

Diversos outros planos-seqüência aparecerão ao longo do filme.

E aqui cabe um parênteses, um fast forward no tempo: em 2007, dois anos depois deste Orgulho e Preconceito, no seu filme seguinte, Desejo e Reparação/Atonement, o diretor Joe Wright criaria um longo, imenso plano-seqüência, um dos maiores e mais deslumbrantes da história do cinema – a chegada de Robbie Turner, o trágico personagem do romance de Ian McEwan, interpretado por James McAvoy, à praia em que os maltrapilhos, maltratados, famintos, derrotados, agonizantes soldados ingleses se reúnem para fugir de Dunquerque na Segunda Guerra.

Voltamos para o filme de 2005, a Inglaterra dos 1790. Em Orgulho e Preconceito, quando não há planos-seqüência, e sim tomadas mais curtas, a câmara sempre flui, anda, desliza pelos ambientes, tanto internos quanto externos – e que interiores e exteriores as equipes da direção de arte e de produção acharam para servirem de moldura à história, que capricho maravilhoso.

E a câmara flui, anda, desliza. Nos bailes (e os bailes são momentos importantíssimos, essenciais, especiais, na vida daquelas pessoas), a câmara chega a dançar junto com os personagens. É de fato um trabalho admirável.

aorgulho2Há alguns momentos em que o diretor Joe Wright não consegue se conter e sai um pouco da sua narrativa firme, madura, tranqüila. Há um momento no trabalho de montagem em que a gente tem vontade de ficar de pé e aplaudir: Lizzie sopra suavemente uma flor; corte rápido, fusão com a seqüência seguinte, uma bola de fogo explode numa festa.

Lizzie acaba de ouvir uma verdade dolorosíssima sobre Darcy e sua própria família; corta, vem um plano geral, uma paisagem verde deslumbrante, muita chuva, ruído de chuva, de trovão; pequenininha no plano imenso, Lizzie corre, esbaforida – e, embora ela esteja lá longe, figura pequena na tela que mostra uma grande paisagem, o ruído de sua respiração ofegante está forte, como se a tomada fosse um grande close-up. Brilho puro.

         Baita elenco perfeito

Não há grandes dúvidas: a escola de interpretação inglesa é uma das melhores do mundo, se não for a melhor. Este filme é mais uma das incontáveis provas disso. Todo o elenco está nunca menos do que perfeito. Keira Knightley, essa jovem deusa, está extraordinária; seu rosto lindo mostra esperança, angústia, decepção, raiva, desejo, dúvida, alegria. Brenda Blethyn, a maravilhosa atriz de Segredos e Mentiras/Secrets & Lies, Laura – A Voz de uma Estrela/Little Voice e Desejo e Reparação, é tudo que se poderia esperar da sra. Bennet – atrapalhada, agitada, nervosa, chata, intolerável na sua cantilena de uma nota só à procura de um marido rico para as filhas. O canadense Donald Sutherland, um dos poucos não britânicos do elenco, faz um sr. Bennet contido, um tanto submisso, um tanto sem forças para nada, um tanto enfastiado, às vezes um tanto sábio. A figura imperial, majestosa de Judi Dench cai como uma luva para o papel de Lady Catherine. Matthew Macfdadyen é um ótimo Darcy – carrancudo, fechado, com imensa incapacidade de interagir com o mundo. E Tom Hollander consegue fazer o caricatural sr. Collins sem ser uma caricatura – sua interpretação é um show.  

Não vi o Orgulho e Preconceito de 1940, com Greer Garson como Lizzie e Laurence Olivier como Darcy, nem conheço o diretor Robert Z. Leonard – e costumo em geral achar dispensáveis as refilmagens de obras clássicas. O romance de Jane Austen rendeu pelo menos cinco séries de TV – em 1938, 1952, 1967, 1980 e 1995. Ao diabo todas as minhas opiniões anteriores: valeu a pena refilmar. Este filme é um brilho – assim como foi um brilho o Razão e Sensibilidade/Sense and Sensibility dirigido por Ang Lee em 1995, com roteiro de Emma Thompson, e com ela, Kate Winslet, Tom Wilkinson e Hugh Grant nos papéis principais, depois que a história tinha virado série de TV em 1971 e 1981.   

Depois do Razão e Sensibilidade de 1995 e deste Orgulho e Preconceito de 2005, o cinema fez, em 2007, O Clube de Leitura de Jane Austen/The Jane Austen Book Club, sobre um grupo de pessoas da Los Angeles de hoje que lê a autora inglesa, e Amor e Inocência/Becoming Jane, baseado em uma recente biografia da escritora e focalizando um episódio de sua juventude – seu encontro com o jovem irlandês Tom Lefroy. 

Jane Austen está na moda, ou, muito melhor, Jane Austen não sai de moda. Ainda bem.

Quando este belo filme se aproximava do fim (e, os filmes bons, a gente não quer que acabe), me ocorreu algo que é comentado nos especiais do DVD do filme sobre a Jane Austen real: essa figura fascinante, que não sai da moda nunca, que é atual hoje como há 200 anos, que morreu jovem e solteira, sabia dar a seus personagens aquilo que ela própria não teve muito em vida – a felicidade do amor.

Orgulho e Preconceito/Pride & Prejudice

De Joe Wright, Inglaterra-França, 2005

Com Keira Knightley, Matthew Macfadyen, Donald Sutherland, Brenda Blethyn, Rosamund Pike, Jena Malone, Judi Dench, Simon Woods, Tom Hollander, Kelly Reilly, Carey Mulligan

Roteiro Deborah Moggach

Baseado no romance de Jane Austen

Música Dario Marianelli

Produção Focus Features

Cor, 129 min.

***1/2

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