Não se Preocupe, Estou Bem! / Je Vais Bien, Ne t’en Fais Pas


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Não se Preocupe, Estou Bem! é um filme propositamente, estudadamente simples, despojado, seco – e com um final cortante como peixeira de baiano. É um filme sobre família, relações familiares, o fosso entre as gerações, e sobre perda e como lidar com ela.

É forte, impressionante, duro, duríssimo.

Não conhecia o diretor Phillippe Lioret – jamais tinha ouvido falar dele, assim como jamais tinha ouvido falar dos atores principais, Mélanie Laurent, Kad Merad, Isabelle Renauld, Julien Boisselier, Aïssa Maïga. Peguei na locadora para experimentar, para conhecer – quando a gente vai ficando velho, tem a tendência a preferir o já conhecido, o já testado, mas às vezes luto contra isso.

jevaisbien3É óbvio que o título – que é a tradução literal do francês, mas aqui ganhou um ponto de exclamação que não existe no original – quer dizer exatamente o contrário. É sempre assim. Robert Guédiguian tem um filme que se chama A Cidade Está Tranqüila, e a Marselha de Guédiguian jamais está tranqüila; Godard fez Tout Va Bien, Tudo Vai Bem, e é claro que com Godard nunca as coisas vão bem. Logo depois de Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore fez Stanno Tutti Bene, no Brasil Estamos Todos Bem – e eles estavam bem mal.

Pois o diretor Phillipe Lioret constrói seu Não se Preocupe, Estou Bem! com um despojamento impressionante. Assim que o filme terminou, fiquei pensando que tenho escrito aqui, volta e meia, que o diretor tal faz seu filme como se estivesse soltando rojões, fogos de artifício, dizendo o tempo para o espectador: vejam como eu sou genial!

Lioret faz exatamente o contrário. Faz tudo para o espectador não prestar atenção a ele – e reparar só na história. Não há um movimento de câmara que chame a atenção, não há qualquer tipo de efeito ou truquezinho espetacular, bombástico. É tudo simples, seco. A narrativa é a mais despojada que se possa imaginar.

         A filha chega de Barcelona de ônibus

jevaisbien2A ação começa numa estação rodoviária de Paris – e, a rigor, isso já é um imenso diferencial. Em 99,99% dos filmes, viaja-se de avião, mesmo que em percursos não gigantescos. Pois aqui estamos numa estação rodoviária.

Um casal – Paul e Isabelle Tellier (Kad Merat e Isabelle Renaud) – está esperando a filha que chega de Barcelona. Chama-se Lili (ninguém usa o nome oficial, Elise), é uma bela jovem de 19 anos, foi passar as férias de verão na fascinante cidade espanhola. Está chegando com uma amiga nova, feita na viagem, Léa (Aïssa Maïga), uma moça linda, negra, sorriso imenso; Lili está fazendo as apresentações da amiga aos pais quando chega o namorado de Léa, Thomas (Julien Boisselier). Cumprimentam-se, e os dois grupos se separam. No caminho para o carro do pai, no estacionamento, Lili faz elogios a Léa, diz que ela está estudando para ter o PhD; a mãe, Isabelle (Isabelle Renauld), pergunta o que é isso, e Lili diz que é o que vem depois do mestrado: “Deixa meu diploma técnico no chinelo”.

Antes mesmo de chegar ao carro, Isabelle conta para Lili que Loïc, o irmão gêmeo dela, saiu de casa cinco dias atrás e ainda não voltou. Lili se assusta, faz perguntas, quer saber o que houve; o pai diz que os dois discutiram, e Loïc foi embora. Lili insiste, quer saber sobre o que foi a discussão, Paul diz que foi o de sempre, a bagunça no quarto de Loïc.

Loïc gosta de música, toca violão e guitarra, compõe. Lili visitará um amigo dele, que mostrará para ela uma canção que ele escreveu para a irmã antes de sair de casa. 

A família mora num lugar chamado Vigneux, um subúrbio de Paris, bem distante da cidade, um tanto parecido com aqueles subúrbios americanos de classe média, de casas iguais – boas, sólidas, mas não ricas, e iguais a todas as outras do bairro, sem qualquer atrativo especial. São pessoas simples, de origem mais humilde; somando indícios que aparecem aqui e ali, o espectador fica sabendo que nem Isabelle nem Paul tiveram muita educação formal, não chegaram nem a fazer o bac, o bacharelat de conclusão do curso médio que Lili já tem; subiram um pouco na escala social às custas do trabalho duro de Paul (não se explicita hora alguma que tipo de trabalho é), ao qual ele dedicou toda a sua vida, motivo pelo qual nunca foi um pai muito presente na vida dos dois filhos gêmeos.

Lili e Loïc sempre foram muito apegados um ao outro, e Lili não compreende como é possível que Loïc não responda aos insistentes telefonemas que ela dá para o celular dele. A ausência do irmão, a falta de notícias, e mais a aparente falta de disposição do pai de tomar alguma decisão no sentido de procurar saber onde está Loïc, tudo isso vai ficando insuportável para Lili. Ela pára de se alimentar, vai ficando alheia a tudo o mais que ocorre em volta dela. De volta à escola, não consegue se concentrar – tem um desmaio no meio da aula, e acaba sendo internada num hospital, onde vai parar na ala psiquiátrica.

Estamos, então, com no máximo uns 20 minutos de filme, e não teria sentido contar mais nada da história trágica que se seguirá.

Uma chocante – e no entanto tão comum – distância entre pais e filhos

É muito chocante ver o abismo existente entre pais e filhos, numa família de classe média, com bastante conforto material, que não passa por nenhuma necessidade básica. É chocante – embora, insisto, o diretor Phillipe Lioret não faça escândalo algum, e conte sua história da maneira mais simples, mais low profile possível, quase como se fosse um documentário. É chocante – mas é tão absolutamente real, e tão comum, tragicamente comum.

Alguns jovens que porventura virem este filme poderão tê-lo como um bom exemplo de como os pais são caretas, imbecis, distantes da realidade dos filhos. Os pais que o virem deveriam tomá-lo como um alerta: é preciso lutar sempre, e muito, fortemente, de todas as maneiras possíveis, para impedir que os filhos fiquem distantes; é preciso procurar sempre estar perto deles, conversar com eles, dialogar com eles, ouvi-los. A distância entre pais e filhos é um veneno poderoso.

Na verdade, pais – todos os pais – deveriam ver este filme. Ele tem muita, muita coisa a ensinar.

Mélanie Laurent, uma atriz que promete

jevaisbien1Lioret, um parisiense nascido em 1955, tem uns dez filmes no currículo; não vi nenhum deles, nem me lembro de ter ouvido falar neles. Ignorância minha, porque parece ser um realizador respeitado. Este filme teve cinco indicações ao César, o principal prêmio do cinema francês, e ganhou os prêmios de ator coadjuvante para Kad Merad, que faz o pai de Lili, de mais promissora atriz para Mélanie Laurent, a atriz que interpreta a personagem central. (O momento em que ela recebe o prêmio está no youtube; na verdade, há diversos clips com ela lá.)

Essa garota Mélanie Laurent de fato promete. É bonita, bastante bonita, e está muito bem no papel de Lili, essa menina comum, sem nenhum brilho especial, que vê sua vida se desestruturar por causa da ausência do irmão gêmeo. Apesar de tão jovem (nasceu em 1983), já tem mais de 20 filmes no currículo, inclusive um papel menor no bem falado De Tanto Bater Meu Coração Parou.

Ah, sim: só agora, quando já havia feito esta anotação toda, foi que vi que Mélanie Laurent está no Inglorious Basterds, do sempre admirado, cultuado, incensado Tarantino. Então a carreira da moça está feita.

Belas canções – e uma preguiça danada dos funcionários públicos

Um detalhe interessante: três canções que aparecem no filme, inclusive U Turn, a que é apresentada como tendo sido composta por Loïc para a irmã Lili, são assinadas por Simon Buret e Oliver Coursier; esse compositor Simon Buret faz uma ponta no filme, como o amigo de Loïc que apresenta para Lili a canção em homenagem a ela. São belas canções.

E uma curiosidade: o site Cinefrance.com.br, dedicado a divulgar o cinema francês no Brasil – muito provavelmente coisa do Ministério da Cultura francês –, colocou uma sinopse de outro filme, na página em que deveria falar deste Não se Preocupe, Estou Bem: “Alex Fayard é um bem-sucedido autor de romances policiais. Para o lançamento do seu novo livro, ele vai ao Japão, onde conhece Tamao, uma gueixa que esta sendo seguida por seu ex-amante que a ameaça de morte. Ao concordar em ajudar a gueixa, Alex confrontará um homem sedento por vingança e sua viagem vai se tornar em uma alucinada mistura de realidade e ficção…”

Alô, povo do Cinefrance, tá maus o trem aí, hein? São funcionários públicos, vocês? Estão com a vida ganha? Não tem ninguém para cobrar qualidade do trabalho que vocês fazem?

Não se Preocupe, Estou Bem! / Je Vais Bien, Ne t’en Fais Pas

De Phillippe Lioret, França, 2006

Com Mélanie Laurent, Kad Merad, Isabelle Renauld, Julien Boisselier, Aïssa Maïga

Roteiro, adaptação e diálogos Phillippe Lioret e Olivier Adam

Baseado no romance de Olivier Adam

Fotografia Sascha Wernik

Música Nicola Piovani

Com canções de Simon Buret e Oliver Coursier

Produção Nord-Ouest Productions, Studio Canal, Canal+

Cor, 100 min

***

4 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 12 janeiro 2010 às 6:39 pm | Permalink

    Muito louco o desfecho desse filme, é como vc falou: cortante como peixeira de baiano. E muito louca tb a forma como a menina rapidamente fez um quadro de anorexia.
    É estranho que os pais queiram tanto proteger seus filhos a ponto de prejudicá-los e enganá-los (aconteceu coisa parecida no filme “Querido Frankie”, incluindo o episódio das cartas).

    Sobre a distância entre pais e filhos, acho a adolescência uma fase bastante complicada; geralmente a gente se volta para fora, descobre o mundo e os amigos, e começa a confrontar os pais e a se achar dono da razão. É uma fase difícil de atravessar e deve ser difícil tb para os pais saber lidar com isso; claro que eles não devem se afastar nem deixar os filhos navegar sem direção, mas tb não saberia dizer a melhor maneira de se portar. É a fase do choque mesmo das gerações (isso sem falar naqueles pais e mães que retrocedem , disputam a etapa com os filhos e começam a se comportar como eles — as mães começam a pagar de gatinhas e os pais de garotões). Concordo com o que vc falou nos dois parágrafos sobre isso.

    Linda mesmo a moça que faz a Léa, arrisco dizer que é até mais bonita que a atriz principal. Pena que a participação dela foi curta. Já do tal Thomas eu não gostei nadinha.

  2. Jussara
    Postado em 12 janeiro 2010 às 7:18 pm | Permalink

    Só achei estranho o fato d’a moça não ter amigos na cidade e ter virado amiga de infância (ou BFF, como se costuma dizer hoje) de uma pessoa que ela conheceu nas férias e do namorado esquisito dela. Coisa de filme.

  3. Postado em 20 agosto 2010 às 11:00 pm | Permalink

    Parabéns pela resenha! Excelente! Achei esse filme fantástico e dou 5 estrelas. É fascinante ver como ele explora a angústia, este tema existencial tão intrigante e melancólico.

    Outro ponto fundamental no filme é a neurose obsessiva que se instala na protagonista, advinda da necessidade de significação que a mesma precisa satisfazer para retomar a sua vida.

    Em três palavras: angustiante, melancólico, depressivo. Em uma: brilhante!

  4. Marcelo
    Postado em 31 outubro 2012 às 2:07 am | Permalink

    Achei um filme muito, mas muito inverossimil, e na parte em que a filha diz pra mãe que é o pai, quem escreve as cartas, e nota-se a expressão da mãe de surpresa, como se ela pensasse que fosse o proprio filho ,é de lascar com qualquer pretensão de filme sério.
    Fora os pais, deixar com que a filha sinta uma revolta contra o irmão por nunca ter lhe telefonado, o que ela já estava demonstrando, parece passar muito longe do amor, mas bem aí diriam que faz parte da loucura dos personagens, tudo bem, essa eu posso até aceitar. rsrsrsrs

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  5. […] boa bilheteria na França, para os principais papéis dos adultos: Valérie Lemercier como a mãe, Kad Merad como o pai e Sandrine Kiberlain como a professora. Para os papéis dos meninos, foram testadas mais […]

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