Loucuras de Verão / American Graffiti

4.0 out of 5.0 stars

(Disponível na Apple TV em 11/2025.)

No início dos anos 1970, quando éramos todos jovens demais, um bando de rapazes nascidos durante a Segunda Guerra Mundial ou logo depois dela derrubou o sistema que vigorava em Hollywood desde bem antes do início da Primeira Guerra, desde praticamente sempre, o star system. American Graffiti, de 1973, dirigido por George Lucas e produzido por Francis Ford Coppola, é um dos mais cultuados e icônicos filmes que marcaram essa revolução.

É um filme sobre juventude, sobre o que em inglês se diz “coming of age”, a passagem da adolescência para o início da maturidade, a hora de começar a decidir o que se quer fazer na vida. Mais especificamente, é o relato de uma única e longa noite na vida de quatro garotos de uma cidade pequena, interiorana, provinciana – a véspera do dia em que dois deles, ensino médio concluído, deveriam embarcar para bem longe, para fazer faculdade.

Como são jovens, são atraídos por garotas – e ouvem música. A trilha sonora do filme inclui umas duas dúzias de canções que haviam feito imenso sucesso na época em que se passa a história, e continuavam fazendo quando o filme foi lançado.

Como são jovens dos Estados Unidos, têm ligação forte com carros. Os personagens andam de carro daqui pra lá, de lá pra cá. Conversam com as pessoas que estão no carro ao lado na avenida. Descem dos carros só para daí a pouco voltar para os carros. Estão em seus carros até para comer hambúrguer e tomar Coca-Cola, no Mel’s Drive In, uma lanchonete linda de morrer, em que as garçonetes, lindas de morrer, atendem aos fregueses correndo sobre patins com a maior elegância.

Foi o primeiro longa-metragem dirigido por George Lucas, que, apenas quatro anos depois, em 1977, lançaria Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, o primeiro filme da saga que viria a ser um dos maiores campeões de bilheteria da História, um fenômeno cultural de dimensão planetária, quase galática. Em 1973, ele tinha apenas e tão somente 29 aninhos de idade, mas, diacho, como se diz por aqui, saudade não tem idade, e então American Graffiti espalhou uma onda de nostalgia pelo mundo afora.

Há um ponto fascinante aí; George Lucas, Francis Ford Coppola, e também Steven Spielberg, outro do grupo que derrubou o star system naqueles anos 1970, todos eles fizeram filmes sobre jovens, juventude, em que a ação se passava na época em que eles jovens – e esses filmes todos só intensificaram aquela onda de nostalgia que, afinal, é terrivelmente contagiosa. Quem é, por exemplo, que foi jovem no Brasil nos anos 60 e consegue resistir ao encanto de uma música da Jovem Guarda?

Falo dessa turma dos jovens cineastas dos 1970 – e de seus filmes nostálgicos – mais adiante. Antes, gostaria de registrar um pouco sobre os personagens centrais da história criada diretamente para o filme pelos roteiristas George Lucas e Gloria Katz & Willard Huyck – e os atores que os interpretam, todos quase tão garotos como os personagens que interpretam.

A última noite antes de ir para a faculdade longe de casa

Os dois garotos que estão para deixar para trás a cidade, a família, os amigos são Curt e Steve. Curt havia passado as semanas, os meses que antecederam a hora de ir embora dizendo que aquilo era a melhor coisa que poderia acontecer – sair daquela cidade pequena, sem horizontes, conhecer o mundo.

Curt não tem namorada. Ao longo da noite em que se passa toda a ação do filme, vai ver uma loura deslumbrante em um Thunderbird branco, e ficar obcecado por encontrá-la.

Steve, bem ao contrário, não era tão entusiasta assim de deixar a cidade para trás – até porque gostava da namorada, Laurie, uma garota bonita, tranquila, boa gente, por coincidência irmã de Curt.

E, no entanto… Quando se encontram no início da última noite antes da viagem, no Mel’s Drive In, Curt, para total surpresa do amigo, diz que agora já não sabe se quer mesmo embarcar lá para longe, para o Leste. E Steve, naquele momento, estava achando boa a perspectiva de viajar, de passar um tempo longe da cidade.

Steve iria mesmo dizer para Laurie que eles poderiam, durante o tempo em que ele estivesse fora, ficar abertos à possibilidade de algum outro relacionamento. Só enquanto ele estivesse fora, é claro, porque ele queria voltar, sim, e ficar com ela.

Laurie não vai receber bem essa sugestão do que, alguns anos mais tarde, aqui neste paisão periférico, chamaríamos de relacionamento aberto, amizade colorida…

Laurie é o papel de Cindy Williams, uma californiana que estava em 1973 com 26 anos, mas, diacho, podia passar perfeitamente pelos 18 de sua personagem. No ano seguinte, 1974, teria um papel importante em A Conversação, o sério, denso, excelente drama político de Francis Ford Coppola que refletia os Estados Unidos pós-Watergate. Morreria em 2023, aos 75 anos.

Curt é o papel de Richard Dreyfuss – e, diabo, como Richard Dreyfuss parece jovenzinho no filme! Como Cindy Williams, estava com 26 anos no lançamento do filme – mas, diacho, parece no mínimo dez anos mais novo do que no papel do biólogo Hooper em Tubarão/Jaws, o estrondoso sucesso de Steven Spielberg lançado apenas dois anos depois, em 1975.

Quem faz o papel de Steve tinha apenas 19 anos – mas já era um veterano. Ron Howard (na foto abaixo), que aparece nos letreiros como Ronnie Howard, já trabalhava continuamente como ator desde os cinco anos de idade. Ali em 1973 tinha mais de 45 títulos como ator em sua filmografia, de séries de TV e filmes.

Apenas quatro após American Graffiti, em 1977, com apenas 22 anos de idade, Ron Howard iniciaria sua carreira como diretor – que se provaria sólida, e com filmes gostosos, bons e/ou importantes, como, para citar só alguns, Cocoon (1985), Um Sonho Distante/Far and Away (1992), O Jornal/The Paper (1994), Apollo 13: Do Desastre ao Triunfo (1995), Ed TV (1999), Uma Mente Brilhante/A Beautiful Mind (2001), Frost/Nixon (2008).

Também estrelando, em papel menor, o jovem Harrison Ford

Os dois outros garotos entre os principais personagens são John e Terry – os papéis, respectivamente, de Paul Le Mat e Charles Martin Smith. John é um pouco mais velho do que Curt e Steve, enquanto Terry é um pouco mais jovem, e os dois têm em comum uma ligação especialmente forte com carros e o fato de que, naquela noite de loucuras de verão, cada um deles levará em seu carro uma garota que tinha acabado de conhecer.

Terry é surpreendido, no começo da narrativa, pela extraordinária notícia de que o carrão maravilhoso de Steve, um antigo modelo daquilo que aqui a gente chamava de rabo-de-peixe, ficará sob a sua guarda, durante o tempo em que o amigo estiver fora, fazendo faculdade. E Steve já entrega as chaves do carrão para ele, para que tome posse imediatamente.

Muito provavelmente é por causa do bólido, mais que por causa daquele garotinho bem jovem, de óculos, com um jeitão um tanto desastrado, que se aproxima de Terry uma garota loura, atraente, com toda pinta de ousada, prá-frente, como se dizia aqui, chamada Debbie (Candy Clark, na foto acima). Lá pelas tantas, Debbie pedirá a Terry que ele providencie uma bebida – “liquor”, como eles dizem. Dirigir carro todo garoto acima de 16 anos pode, tudo bem, barra limpa – mas conseguir comprar uma garrafa de “liquor” é praticamente impossível. Mas Terry dará um jeito, e logo Debbie demonstra que de fato está bem aberta a uma esfregação, algo com que o garoto jamais havia sonhado.

John parece ser o único daqueles garotos todos que já trabalha – é mecânico, e parece ser dos bons. Montou uma caranga esquisita, mas com um motor danado de bom, e é tido como um dos motoristas mais rápidos da cidade. No passeio pelas ruas centrais daquela noite, acaba recebendo a companhia de uma garotinha que parece nem ter 16 anos, e que tem tanto juízo quanto anos de vida. Chama-se Carol (Mackenzie Phillips), quer aventura, quer fazer qualquer coisa menos voltar para a casa dos pais que parecem não gostar dela.

E logo surge a possibilidade de uma aventura: John é procurado por um sujeito de fora da cidade, um tal Bob Falfa, que se tem como o maior corredor daquele pedaço de mundo. Ouviu falar da fama de John, e quer porque quer enfrentá-lo em um racha.

Esse Bob Falfa é um personagem menos importante na trama – sem dúvida alguma menos importante do que Curt, Steve, John, Terry, Laurie, Debbie, Carol. Assim, o nome do ator que o interpreta aparece depois desses oito, sob o letreiro “also starring”, também estrelando.

Não que aquele rapaz fosse propriamente um estreante. Já havia 15 títulos em sua filmografia quando foi escolhido para fazer Bob Falfa. George Lucas o botaria em um dos principais papéis da saga Star Wars, o de Han Solo. Em 1981, Steven Spielberg apresentaria ao mundo o dublê de professor de arqueologia e aventureiro que se transformou em um dos personagens mais amados do cinema americano. Não há muitos atores, em toda a História do Cinema, que tenham estrelado tantos espetaculares sucessos de público quanto Harrison Ford (na foto acima).

Não resisti à tentação de fazer uma tabela sobre os atores de American Graffiti.

 

Ator Papel Nascimento Idade em 1973
Richard Dreyfuss Curt 1947 26
 

Ron Howard

Steve 1954 19
 

Paul Le Mat

John 1945 27
Charles Martin Smith Terry 1953 20
Cindy Williams Laurie, a namorada de Steve 1947 26
Candy Clark Debbie, a loura ousada 1947 26
Mackenzie Phillips

 

Carol, a garotinha mais jovem 1959 14
E ainda…
Harrison Ford Bob Falfa, o cara do racha 1942 31

(Na foto abaixo, RIchard Dreyffus como Curt.)

A ação se passa em Modesto, a cidade natal de George Lucas

Ao longo dos 110 minutos de American Graffiti, em que ouvimos umas 20 canções, algumas delas absolutos clássicos, não se diz, em momento algum, em que ano estamos – nem em que cidade.

Há referências ao quando e ao onde, claro. Uma hora lá, John diz que a música piorou muito depois que Buddy Holly morreu. Buddy Holly morreu, naquele acidente aéreo que levou também os músicos Richie Valens e J. P. Richardson, na madrugada de 3 de fevereiro de 1959. Estávamos, portanto, depois disso.

Lá pelas tantas, cita-se Kennedy, dando a entender que ele era o presidente. Aquela longa noite de loucuras (pequenas loucuras, vá… pequenas) ocorreu, portanto, entre 20 de janeiro de 1961 e a tragédia de 22 de novembro de 1963.

É engraçada essa opção de George Lucas: no filme, não se fala o ano em que se passa a ação. Mas nos cartazes do lançamento do filme está lá, claríssimo, preto no branco: “Where were you in ‘62?” Onde você estava em 62?

Muito bem: então o quando é 1962. E sobre o onde há uma deliciosa indicação ao término da narrativa, antes dos créditos finais. Lucas e seus co-roteiristas fazem uma deliciosa brincadeira: apresentam em letreiros – como é comum nos filmes que retratam histórias reais – o que aconteceu com cada um dos quatro personagens principais. E indica que um deles se tornou agente de seguros em Modesto.

Sim: a ação de American Graffiti se passa em Modesto.

Ao longo do filme, há referências ao “vale”. O motorista mais rápido do vale. Fiquei achando que se tratava do St. Fernando Valley, bem próximo da Grande Los Angeles. Nada a ver. Modesto fica bem mais ao norte que Los Angeles, no San Joaquin Valley, a Oeste de Sacramento e a Leste de San Francisco. Em 1960, tinha 36 mil habitantes, uma merrequinha, muitíssimo menos que têm as oito quadras que separam meu apartamento do apartamento da minha filha, em Perdizes, Zona Oeste de São Paulo – mas é uma cidade que cresce loucamente. Em 2010 tinha 201 mil, e já era a 19º mais populosa da Califórnia.

Modestamente, Modesto é a cidade natal de duas personalidades especialmente importantes em suas áreas de atuação: Mark Spitz, um dos maiores atletas da História da natação, e esse moço George Lucas.

Pois que então este filme que é um marco, um cult, um tremendo de um sucesso de público e crítica é também um filme pessoal, personalíssimo! O cara conta a história de uns garotos que podem ter sido seus amigos de escola – e um deles pode ser ele mesmo!]

Fiquei com isso rolando na cabeça depois que vi agora American Graffiti: o filme é assim uma espécie de irmão de Os Boas Vidas/I Vitelloni (1953) de Federico Fellini!

Fellini não quis usar o nome de sua cidade, Rimini, em seu maravilhoso filme sobre um grupo de rapazes já chegados à idade adulta, mas não à maturidade – mas fica muito evidente que ele está descrevendo o seu próprio mundo. Deu o nome falso de Sirena à cidade onde aqueles jovem vivem e fazem algumas bobagens. I Vitelloni termina exatamente como termina este American Graffiti: um jovem finalmente saindo daquela cidadezinha pequena, interiorana, provinciana, rumo ao mundo.

Hum… Daria para lembrar também que, nisso de a ação se passar ao longo de uma única noite, até o alvorecer, a manhã seguinte, American Graffiti se aproxima de outro clássico da época em que o cinema italiano era o melhor do mundo, La Notte (1961), de Michelangelo Antonioni. Mas aí… Bem, a ação de diversos bons filmes se passa em apenas algumas horas de um dia ou de uma noite. Basta lembrar de Matar ou Morrer/High Noon (1952).

Criador de blockbusters – e ao mesmo tempo independente

George Lucas.

Gosto dos primeiros parágrafos dos verbetes da Wikipedia sobre grandes personalidades. Reúnem, resumem o que há de mais importante sobre a pessoa. Lá vai:

“George Walton Lucas Jr. (nascido a 14 de maio de 1944) é um cineasta e filantropo americano. Criou as franquias Star Wars e Indiana Jones e fundou as empresas Lucasfilm, LucasArts, Industrial Light & Magic e THX. Foi o presidente da Lucasfilm antes de vende-la para a Walt Disney Company em 2012. Indicado a quatro Prêmios da Academia, é considerado uma das figuras mais importantes do movimento Nova Hollywood e um pioneiro dos modernos blockbusters. Apesar disso, tem permanecido um cineasta independente na maior parte de sua carreira.”

Talvez eu tenha sido pretensioso demais na abertura deste texto, ao afirmar que, no início dos anos 1970, um bando de rapazes derrubou o star system que vigorava em Hollywood desde praticamente sempre.

Mas que aqueles jovens – Francis Ford Coppola, George Lucas, Steven Spielberg, Martin Scorsese, entre muitos outros – mudaram a cara de Hollywood, ah, lá isso mudaram. Diz a Wikipedia: “A Nova Hollywood, O Renascimento de Hollywood, ou a Nova Onda Americana foi um movimento na história do cinema americano entre as décadas de 1960 e 1980, quando uma nova geração de realizadores emergiu. Eles influenciaram os tipos de filmes produzidos, sua produção e seu marketing e a maneira com que os maiores estúdios abordavam a produção cinematográfica. Nos filmes da Nova Hollywood, o diretor, em vez do estúdio, assumiu um papel autoral chave.”

Perfeito! Eu só gostaria de lembrar, de destacar, que essa Nova Hollywood substituiu o star system, que se baseava principalmente nos astros e estrelas, por sua vez empregados dos estúdios, com contratos assinados, estipulando o que podiam e deviam fazer – e o que não podiam e não deviam. O mando era exclusivo dos estúdios e seus executivos e produtores; assim como os atores, os diretores eram contratados pelos estúdios.

A Nova Hollywood alterou profundamente essa relação: “o diretor, em vez do estúdio, assumiu um papel autoral chave”. Até porque o diretor muitas vezes – como nos exemplos citados, de Coppola, Lucas, Spielberg, Scorsese – era também o próprio produtor.

E os atores passaram a ter muito mais liberdade de escolha e de ação, trabalhando ora para um estúdio, ora para outro.

É isso aí. Antes de apresentar algumas informações básicas sobre o filme e transcrever opiniões de críticos, gostaria de registrar mais uma tabelinha…

Nascimento Idade em 1973 Primeiro longa como diretor Status
Francis Ford Coppola 1939 34 Agora Você é um Homem / You’re a Big Boy Now (1966) Diretor, roteirista, produtor
Martin Scorsese 1942 31 Quem Bate à Minha Porta? / Who’s That Knocking at My Door? (1967) Diretor, roteirista, produtor, ator
George Lucas 1944 29 Loucuras de Verão/ American Graffiti (1973) Diretor, roteirista, produtor, criador da Industrial Light & Magic, produtora de efeitos especiais
Steven Spielberg 1946 27 Encurralado/ Duel (1971) Diretor, roteirista, produtor, fundador da Amblin Entertainment e DreamWorks Pictures

 

e, correndo por fora…
Woody Allen 1935 38 Um Assaltante Bem Trapalhão / Take the Money and Run 1969) Diretor, roteirista, ator

Um dos filmes mais lucrativos que já foram feitos

O orçamento de American Graffiti foi de cerca de US$ 750 mil – uma merrequinha para uma produção hollywoodiana. (É bom lembrar que dez anos antes, em 1963, Elizabeth Taylor ganhou US$ 1 milhão para fazer Cleópatra.)

Foi um tremendo sucesso – rendeu mais de US$ 115 milhões, o que o coloca entre os filmes mais lucrativos que já foram feitos.

George Lucas insistiu em ter o disk-jockey Wolfman Jack (na foto abaixo) como ele próprio: ele dizia que, quando adolescente em Modesto, ouvia muito o programa do DJ.

O filme teve cinco indicações ao Oscar, nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original, melhor montagem para Verna Fields e Marcia Lucas e melhor atriz coadjuvante para Candy Clark, que faz Debbie, a loura saidinha. Não levou nenhum dos prêmios.

Cindy Williams, que faz Laurie, a namorada de Steve, foi indicada ao Bafta de melhor atriz coadjuvante. Foi a única indicação do filme ao prêmio da Academia Britânica – mas ela não levou.

Ao Globo de Ouro, foram quatro indicações – e o filme levou os prêmios de melhor filme comédia ou musical e de iniciante mais promissor para Paul Le Mat, que faz John. Perdeu nas categorias de melhor diretor e melhor ator em comédia ou musical para Richard Dreyfuss.

Leonard Maltin deu ao filme 3.5 estrelas em 4: “Mosaico altamente divertido e perspicaz sobre adolescentes ‘coming of age’ depois de se formarem no secundário em 1962. Muitas vezes hilariante, sempre no alvo, este filme fez de Dreyfuss uma estrela e impulsionou muitas outras carreiras.”

Vale como um tratado sociológico, diz Ebert

Roger Ebert deu a cotação máxima de 4 estrelas e, como sempre, fez um texto pessoal, delicioso. Alguns trechos:

“Meu primeiro carro foi um Ford 1954 e eu o comprei por $435. (Ebert é de 1942, apenas dois anos mais novo que George Lucas, e mais ou menos da mesma geração dos personagens do filme.) Não tinha faróis escavados, rebaixados, raspados, com listras finas ou cortados, e não tinha rodas duplas, mas suas calotas eram uma maravilha de se ver. Nos fins de semana, meus amigos e eu dirigíamos pelo centro de Urbana (a cidade do Estado de Illionois em que Ebert nasceu) – pelo Princess Theater, pelo tribunal –, às vezes parando para uma dança no centro da juventude ou um hambúrguer na Steak’n’Shake. E sempre ouvíamos DIck Biondi na WLSA. (…)

“Quando fui ver American Graffiti de George Lucas, todo aquele mundo – um mundo que hoje parece incomparavelmente distante e inocente – foi trazido de volta à tona com uma onda de sentimentos que não era tanto nostalgia, mas sim choque cultural. Lembrando da minha geração da escola secundária, só consigo imaginar como nós não estávamos preparados para a perda da inocência que aconteceu na América com as séries de marteladas começando com o assassinato do presidente Kennedy.

“O grande divisor de águas foi 22 de novembro de 1963, e nada mais foi o mesmo. Os adolescentes de American Graffiti são, de certa forma, como aquele personagem de quadrinhos nos anúncios de revistas: o que dá o nome de sua companhia de seguros, sem saber que uma avalanche está para cair sobre ele. As opções pareciam tão simples naquela época: ir para a faculdade, ou ficar em casa e procurar um emprego, crescer e aparecer.

“As opções eram simples, assim como a música que formava tanto da maneira com que nós nos víamos. A trilha sonora de American Graffiti está coberta de uma ponta à outra do show do disc jockey Wolfman Jack – o que é crucial e absolutamente correto. O rádio estava ligado a cada momento. (…)

“A música era inocente como a época. Canções como ‘Sixteen Candles’ e ‘Gonna Find Her’ e ‘The Book of Love’ soam tocantemente inocentes hoje; nada nos preparava para a decadência e a agressão do rock de alguns anos mais tarde. (…)

“Não é a idade dos personagens que importa; é a época em que eles viviam. Culturas e sociedades inteiras passaram-se desde 1962.

American Graffiti é não é apenas um grande filme, mas também um brilhante trabalho de ficção histórica; nenhum tratado sociológico poderia ter o mesmo sucesso do filme em lembrar exatamente como era estar vivo naquele instante cultural.”

Uau!

Depois de Roger Ebert, não há o que dizer.

Anotação em novembro de 2025

Loucuras de Verão/American Graffiti

De George Lucas, EUA, 1973

Com Richard Dreyfuss (Curt),

Ron Howard (Steve),

Paul Le Mat (John),

Charles Martin Smith (Terry),

Cindy Williams (Laurie, irmã de Curt e namorada de Steve), Candy Clark (Debbie, a loura ousada), Mackenzie Phillips (Carol, a garotinha mais jovem), Wolfman Jack (ele mesmo), Harrison Ford (Bob Falfa, o cara do racha), Bo Hopkins (Joe), Manuel Padilla Jr. (Carlos), Beau Gentry (Ants), Kathleen Quinlan (Peg), Tim Crowley (Eddie), Terence McGovern (Mr. Wolfe), Suzanne Somers (a loura no T-Bird), Debralee Scott (a garota com Falfa), Herby and the Heartbeats, Flash Cadillac and the Continental Kids

Roteiro George Lucas e Gloria Katz & Willard Huyck

Fotografia Ron Everslage, Jan D’Alquen

Montagem Verna Fields, Marcia Lucas

Direção de arte Dennis Clark

Figurinos Aggie Guerard Rodgers

Produção Francis Ford Coppola, Gary Kurtz, LucasFilm Ltd/Coppola Co.

Cor, 110 min (1h50)

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