
(Disponível no Grandpa’s Old Movies Chest do YouTube em 10/2025.)
Na abertura, logo após os créditos iniciais cheios de nomes importantes, um texto assinado pelo autor da peça teatral e do roteiro do filme, o grande George Bernard Shaw, define Major Barbara como “uma parábola”.
Tá, uma parábola. Acho que Major Barbara, maravilhosa produção britânica de 1941, adaptação da peça de Bernard Shaw que estreou em 1905, poderia perfeitamente ser classificada como uma sátira. Uma grande, escancarada sátira social.
Ah, os rótulos, as classificações. Segundo os guias todos, segundo o IMDb, o Rotten Tomatoes, é uma comédia – e, sem dúvida, há piadas sensacionais, hilariantes ao longo de filme. No entanto, ele trata de vários dos temas mais sérios, densos, pesados que pode haver. Injustiça social, riqueza e abundância de alguns e miséria de muitos. Religião, a fé em Deus. Os princípios morais, a coragem de enfrentar todos os perigos e manter a integridade. A indústria bélica, a mortandade nas guerras.
Parábola, sátira, comédia que fala de coisas seriíssimas. Major Barbara é uma beleza de filme – mas não é fácil, não.
A mesma atriz e o mesmo produtor de Pigmalião
Um monte de nomes importantes – a começar, é claro, pelo autor, George Bernard Shaw (1856-1950), Prêmio Nobel de Literatura em 1925, que, segundo a douta Encyclopaedia Britannica, “foi o mais significativo dramaturgo britânico desde o século 17”, cujas peças “são permeadas por sua paixão pela reforma social”. Desde o século 17… Ou seja, desde William Shakespeare.
Major Barbara está, ainda segundo a Britannica, entre suas principais obras, ao lado de Caesar and Cleopatra (1901), Man and Superman (1905) e Saint Joan (1923). Interessante: no verbete-resumo sobre Shaw, a grande enciclopédia não cita Pigmalião (1913), uma de suas peças mais conhecidas – a história de uma jovem mendiga londrina, vendedora de flores, que é escolhida por um rico professor de fonética para aprender a falar o Inglês castiço das pessoas educadas da classe alta.

Muito antes de ser transformado em musical da Broadway e em seguida no fantástico, esplêndido My Fair Lady (1964) de George Cukor, com Audrey Hepburn como Eliza Doolittle e Rex Harrison como o professor Higgins, Pigmalião havia sido filmado em 1938 com direção de Anthony Asquith e Leslie Howard. A produção era de Gabriel Pascal, e a florista Eliza Doolittle foi interpretada por Wendy Hiller.
Major Barbara tem nos créditos iniciais três nomes que estão no filme lançado apenas três anos antes: o de George Bernard Shaw, é claro, que adaptou para o cinema a sua própria peça teatral, o de Gabriel Pascal, que produziu e dirigiu, e o de Wendy Hiller, que interpreta o papel título, a jovem Barbara que é uma dedicadíssima major do Exército da Salvação na Londres da primeira metade do século 20.
E é deliciosa a coincidência de que o principal papel masculino, o do homem que se apaixona pela Major Barbara só de bater os olhos nela e ouvir um de seus discursos-homilias, seja do mesmo Rex Harrison de My Fair Lady. Rex Harrison estava, em 1941, com 33 anos – mas, meu Deus, como me pareceu jovem! Quase um garoto!
Deborah Kerr, Cecil Beaton, Ronald Neame, David Lean…
Um monte de nomes importantes – mesmo entre os que apareciam em letras pequenas nos créditos iniciais. O diretor de fotografia, que aparece nos créditos como cameraman, é Ronald Neame (1911-2010), que depois viria a ser produtor e diretor. Dirigiu filmes bons, interessantes – Como Possuir Lissu (1966), A Primavera de uma Solteirona (1969), O Dossiê Odessa (1974) e o grande sucesso do cinema catástrofe O Destino de Poseidon (1972).
Os figurinos são de Cecil Beaton (1904-1980), fotógrafo de moda, de retratos e de guerra, pintor, designer de interiores e designer de cenários para o cinema e o teatro, três Oscars e quatro Tonys.
Entre os nomes de atores que fazem papéis menores – como Emlyn Williams, Robert Newton, Sybil Thorndike – está lá… Deborah Kerr!
Estava com apenas 20 aninhos a moça que viria a ser uma das mais respeitadas estrelas do cinema mundial a partir dali, em filmes como, só para dar uns pouquíssimos exemplos, O Mercador de Ilusões (1947), A Um Passo da Eternidade (1953), O Rei e Eu (1956), Tarde Demais Para Esquecer (1957), O Céu é Testemunha (1957), A Noite do Iguana (1964).
Aqui, ela interpreta Jenny Hill, uma das jovens voluntárias do Exército da Salvação que ajudam os pobres sob o comando da Major Bárbara. Não há um único close-up do rosto lindo de Deborah Kerr nesta sua estréia no cinema.

E ainda tem mais um nome.
At last but not at least, David Lean, Sir David Lean, um dos melhores realizadores destes 130 primeiros anos de cinema. Seu nome aparece duas vezes nos rápidos créditos iniciais de Major Barbara: como o responsável pela “montage” – assim mesmo, com a palavra francesa – e logo depois como assistente de direção.
De 1908 como Rex Harrison, David Lean estava então com 33 anos. Havia começado a carreira como montador ainda em 1933, e tinha feito a montagem, entre outros, de Pigmalião. Estrearia na direção no ano seguinte, assinando, ao lado do homem de todas as artes Noël Coward, um dos mais perfeitos filmes de esforço de guerra já feitos, Nosso Barco, Nossa Alma/In Which We Serve.

Uma carta de Berbard Shaw para o espectador
Logo após os créditos iniciais em que aparecem todos esses nomes importantes, respeitabilíssimos, surge na tela este prólogo, esta carta em letra cursiva:
“Amigo, o que você vai ver não é uma história gratuita sobre pessoas que nunca existiram e coisas que não poderiam acontecer jamais. É uma PARÁBOLA. Não fique alarmado: você não vai se aborrecer com ela. Ela é, espero, verdadeira e inspirada. Algumas das pessoas nela são pessoas reais que eu conheci, com quem falei. Um dos outros pode ser VOCÊ. Haverá um pouco de você em todos eles. Nós todos somos membros um do outro. Se você não gostar de todas as palavras, nós dois vamos ficar igualmente desapontados. Bem, amigo: eu alguma vez já desapontei você? Não fui
Sempre seu fiel servo?
Bernard Shaw”

Com 10 minutos de fllme, uma informação surpreendente
Não me parece fácil fazer uma sinopse de Major Barbara que seja ao mesmo tempo atraente, fiel e não antecipe informações que a rigor, a rigor são spoilers. O que acontece quando o filme está com apenas 10 minutos é bastante surpreendente. Diversas sinopses que vi revelam a informação – mas, diacho, acho que saber disso antes de ver o filme tira a surpresa do espectador.
O ideal seria o espectador não saber daquela informação. Ser surpreendido por ela, exatamente como o personagem de Rex Harrison, o professor de grego, bastante educado e culto, mas também muito pobre Adolphus Cusins.
Assim, não vou relatar mais do que o básico do básico da história, que a rigor já foi dito. Major Barbara conta a história do encontro, na Londres do início do século XX, entre um homem erudito e pobre, interpretado por Rex Harrison, com uma jovem idealista, batalhadora, do Exército da Salvação, o papel de Wendy Hiller. É paixão à primeira vista, coup de foudre – mas o destino pregará peças com o casal.
É isso. E transcrevo alguns diálogos, porque entre as muitas qualidades do filme estão as frases brilhantes cunhadas pelo talento de George Bernard Shaw.
Eis um diálogo entre a Major Barbara e seu pai, Andrew Underschaft (interpretado pelo sempre ótimo Robert Morley):
O pai: – “Minha cara Barbara, o álcool é um artigo muito necessário, ele cura os doentes…”
Major Barbara: – “Nada disso. Absolutamente!”
O pai: – “Bem, ele torna a vida suportável para milhões de pessoas que não poderiam desfrutar de sua existência se estivessem bastante sóbrias. Ele permite ao Parlamento fazer às 11 horas da noite coisas que nenhuma pessoa sã faria às 11 da manhã.”
Definitivamente, Bernard Shaw não tinha admiração pela classe política. Eis um diálogo entre Andrew Undershaft e seu filho Stephen, irmão da Major Barbara:
O pai: – “Há alguma coisa que você conheça, com a qual você se importe?”
O filho: – “Eu sei a diferença entre o certo e o errado.”
O pai: – “Não diga! O quê? Nenhuma capacidade para os negócios? Nenhum conhecimento sobre as leis? Nenhuma simpatia pelas artes? Nenhuma pretensão sobre a filosofia? Apenas a simples o simples conhecimento do segredo que tem desconcertado tofdos os advogados, com fundido todos os homens de negócios, e arruinado a maioria dos artistas, o segredo do certo e do errado. (…) Você não sabe nada e acredita saber tudo. Isso aponta claramente para uma carreira política.

Maltin e o CInebooks’ dão nota máxima. Pauline Kael mete o pau
Leonard Maltin deu ao filme a cotação máxima de 4 estrelas: “Adaptação de primeira linha da peça de Shaw sobre jovem (…) que entra para o Exército da Salvação/ Harrison é um rico professor que a corteja. Ótimo elenco em comedia inteligente. Estréia de (Deborah) Kerr.” (Ela está à esquerda na foto acima.)
Aquele (…) está no lugar de um adjetivo que eu cortei, por achar que revela aquela tal surpresa que aparece quando o filme está com 10 minutos. E o adjetivo “rico” para definir o professor de grego interpretado por Rex Harrison é um grande equívoco do Maltin…
Eis o que diz a prima donna da critica norte-anericana, Pauline Kael, na tradução de Marco Santarrita e Alda Porto para a edição brasileiro do livro 1001 Noites no Cinema:
“Horrível, mas suportável; tem um certo fascínio em sua tolice. Shaw permitira que sua peça Pigmalião fosse cortada e adaptada para a tela, e foi um grande sucesso, mas resistiu nesta e aferrou-se ao diálogo; Gabriel Pascal, que produzira Pigmalião, embriagado pelo sucesso, decidiu dirigir desta vez. O fracasso dos dois teve um agravante: os atores tomam posição e falam, e o filme se arrasta infinitamente até que o que se pretendia parece não importar mais. Mas é muito divertido para ser realmente chato. O elenco inclui Rex Harrison (num papel baseado em Gilbert Murray), Wendy Hiller, Robert Morley, Sybil Thorndike, Robert Newton, Emlyn Wil- liams, Deborah Kerr e Stanley Holloway. William Walton fez a música, Cecil Beaton os figurinos. p & b”
Ai, ai, dona Pauline…
O CineBooks’ Motion Picture Guide deu a cotação máxima ao filme, 5 estrelas, e começa assim seu longo verbete:
“Major Barbara é uma das comédias mais divertidas e alegres de George Bernard Shaw, interpretada de forma emocionante por Wendy Hiller e Rex Harrison, embora os monólogos de Shaw às vezes fiquem pantanosos com verborragia.”
Depois de relatar detalhadamente a trama, o CineBooks’ diz:
“O East End de Londres é bem fotografado por Ronald Neame. Wendy Hiller e Rex Harrison também estão brilhantes e vibrantes, e Robert Morley está ótimo como o pai tolerante, embora estivesse com apenas 32 asnos (fazendo o papel do pai de Hiller, que estava com 28). Robert Newton, que faz um homem pobre incorrigível e ganancioso, está deliciosamente perverso.”
É por aí. Adorei ver pela primeira vez este delicioso filme feito 85 anos atrás.
Anotação em 10/2025
Major Barbara
De Gabriel Pascal, Reino Unido, 1941.
Com Wendy Hiller (Major Barbara Undershaft)
Rex Harrison (Adolphus Cusins),
Robert Morley (Andrew Undershaft, o pai de Barbara), Marie Lohr (Lady Brittomarm a mãe de Barbara), Walter Hudd (Stephen Undershaft, o irmão de Barbara), Penelope Dudley Ward (Sarah Undershaft, a irmã de Barbara), David Tree (Charles Lomax, o namorado de Sarah), Deborah Kerr (Jenny Hill, a moça do Exército da Salvação), Emlyn Williams (Snobby Price), Robert Newton (Bill Walker, o pobre que bate em Jenny), Sybil Thorndike (a General), Marie Ault (Rummy Mitchens), Donald Calthrop (Peter Shirley), Cathleen Cordell (Mog Habbijam), Torin Thatcher (Todger Fairmile, o campeão de boxe), Miles Malleson (Morrison, o mordomo da mãe), Felix Aylmer (James, o mordomo do pai), Stanley Holloway (policial), S.I. Hsiung (Ling), Kathleen Harrison (Mrs. Price)
Roteiro e diálogos George Bernard Shaw
Baseado na peça de George Bernard Shaw
Fotografia Ronald Neame
Música William Walton
Montagem Charles Frend (“film editor”), David Lean (“montage”)
Direção de arte Vincent Korda, John Bryan
Figurinos Cecil Beaton
Assistentes de direção Harold French, David Lean
Produção Gabriel Pascal Productions.
P&B, 135 min (2h15)
***1/2
