
(Disponível na Prime Video em janeiro de 2026.)
“Isto é mais verdade do que você pensaria.”
O aviso vem de cara, assim que termina a apresentação dos nomes das companhias que produziram Wicked Little Letters, no Brasil, acertadissimamente, Pequenas Cartas Obscenas – e ele é também corretíssimo. A história que o filme da diretora inglesa Thea Sharrock conta é daquele tipo que parece ter saído da imaginação prodigiosa de um escritor especialmente criativo, e com a ajuda de um bom coquetel de alucinógenos – mas aconteceu de fato.
Bem. Não exatatissimamente como o roteiro do comediante Jonny Sweet mostra – o IMDb elenca alguns pontos em que o filme foge da verdade dos fatos, mas a rigor são diferenças bem pequenas, de pouca monta.
A história absolutamente inacreditável aconteceu de fato, por volta de 1920, na cidade de Littlehampton, no West Sussex, bem ao Sul daquela ilha que, naquela época, era o centro do maior império do planeta.
E é mesmo necessário que os realizadores nos avisem de cara que o que vem por aí aconteceu de fato, é história real – porque todo o estilo de narrativa, todo o jeito de apresentar a trama, todas as interpretações dos grandes atores, tudo, em Wicked Litte Letters foge do realismo feito o diabo da cruz, os vampiros do cheio de alho, os fanáticos extremistas de direita e esquerda dos fatos e da lógica.
Tudo, tudo, em Pequenas Cartas Obscenas, é em tom de farsa, de gozação escrachada.
E, no entanto, “This is more true than you’d think”. É mais verdade do que você pensaria.
É comédia, é gozação escrachada – mas é um sério, forte, virulento ataque às hipocrisias da sociedade, ao moralismo rastaquera dos carolas, beatos, dos que se acham “puros”, “santos”.
Duas vizinhas que são opostas, antípodas
O filme mostra já nas primeiras tomadas as duas protagonistas da história – duas mulheres absolutamente diferentes uma da outra, opostas, antípodas, que, por uma dessas armadilhas do destino, moram lado a lado, em casinhas daquelas geminadas dos bairros mais pobres tão comuns nos filmes britânicos.

No sobradinho da porta amarela, mora uma moça bonita, aí de uns 30 anos, que usa, na primeira sequência em que aparece, um vestidinho claro, leve, sem mangas. Veremos que se chama Rose Gooding (o papel de Jessie Buckley, excelente, maravilhosa), está em geral com um jeito alegre, sorridente; é irlandesa, tem uma filha aí de uns 12, 13 anos, Nancy (Alisha Weir), cujo pai morreu, segundo ela conta, na Guerra – a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918. Rose não tem papas na língua, fala palavrões, frequenta o pub do bairro – e mora com um homem com quem não se casou, Bill (Malachi Kirby).
No sobradinho grudado ao de Rose, de porta vermelha, mora uma mulher de uns 50 anos, não propriamente bela, que, na primeira sequência em que a vemos, e nas outras todas ao longo do filme, usa recatado vestido preto de mangas compridas. Veremos que se chama Edith Swan, é solteirona, seguramente virgem; orgulha-se de dizer que lê a Bíblia várias vezes por dia. Mora com os pais, Edward (o grande Timothy Spall, na foto abaixo), sujeito rígido, todo empertigado, sempre de terno, e Victoria (Gemma Jones), uma senhorinha simpática, agradável, que demonstra ter medo de desagradar o marido.
Edith Swan vem na pele de Olivia Colman, essa atriz absolutamente extraordinária – e ela está brilhante no papel dessa beata de jeito tão beato que é capaz de deixar bem pra trás a beatice das Irmãs Cajazeiras de O Bem Amado, de Dona Pombinha de Roque Santeiro ou de Perpétua de Tieta do Agreste.
Logo depois de rápidas tomadas da ousadinha Rose e da beata Edith, vem uma sequência em que esta última, seu pai e sua mãe estão sentados à mesa da sala diante de uma carta que acabava de chegar. A 19ª carta obscena enviada para Edith Swan.

Desconfiam que a bela e jovem Rose escreva as cartas
Eis alguns trechos das cartas enviadas a Edith, que são lidos ao longo do filme:
“Senhorita Swan, sua velha maldita, saco de mijo de galinha! Você quer ser fodida no nariz, sua velha besouro!”
“Querida Edith, sua velha puta safada.”
“Você é mesmo uma velha safada e trepadora. Seu lugar é no inferno. E você é uma puta triste e fedorenta também.”
“Sua velha de merda fumegante e molhada! Sua bunda é maior que a lua e seu gato também merece ser queimado! Sua fedorenta estúpida! Você tem um rabo velho e sarnento, sua fedorenta sem peitos.”
E por aí vai…
A boa senhora Victoria chora ao ler a carta. Murmura que as cartas estão acabando com a vida dela, que eles devem ir à Polícia – e é o que o empertigado Edward faz em seguida.
Edward tem absoluta certeza de que a autora das cartas obscenas é a vizinha, aquela mulher que tem todo jeito de ser uma danada de uma pecadora.
Edith, com uma carinha de santa, a princípio defende Rose; diz que as duas são amigas, que ela não seria capaz de fazer aquilo. Na verdade, pelo que vemos em seguida, as duas tinham sido amigas, de fato – mas Rose acabou rompendo com ela, quando um funcionário da assistência social do governo apareceu em sua casa dizendo que tinha havido acusação de maus tratos a uma menor de idade. Rose suspeitou que a falsa denúncia tivesse sido feita por Edith, e parou de falar com ela.
Mas o pai insiste na acusação contra Rose – e, diante do policial Papperwick (Hugh Skinner), depõe contra a moça.

O caso das cartas obscenas vira notícia nacional
Há no destacamento de polícia da pequena cidade de Littlehampton uma policial mulher, uma WPC, “Woman Police Constable”, como ela costuma se identificar. Chama-se Gladys Moss (ela é interpretada por Anjana Vasan, na foto abaixo, uma indiana radicada no Reino Unido, onde se formou no Royal Welsh College of Music & Drama).
A WPC – o espectador logo percebe – é inteligente, esperta, safa. Muito mais que seu colega Papperwick e do que o chefe do destacamento policial, Spedding (Paul Chahidi). Ela acha que não há provas concretas, irrefutáveis, de que Rose Gooding seja a autora das cartas.
Mas – com todo jeito de quem acha que lugar de mulher é na cozinha – o chefe de polícia Spedding não dá a menor bola para o que diz Gladys.
Rose é presa.
Alguns dias depois, alguém paga a fiança – de 3 libras esterlinas, uma grande fortuna à época –, e Rose passa a aguardar o julgamento em liberdade.
A partir daí, diversas pessoas da cidade, além de Edith, passam a receber cartas obscenas.

As cartas obscenas de Littlehampton viram notícia nacional. Repórteres dos grandes jornais de Londres vão à pequenina cidade entrevistar asa pessoas.
(Há um detalhinho saboroso aí: quem interpreta o repórter do Daily Mail, que aparece numa sequência, é Jonny Sweet, o autor do roteiro de Wicked Little Letters. Jonny Sweet, na certidão de nascimento Jonathan Huw Sweet, é um comediante famoso no Reino Unido; em 2009, recebeu o Edinburgh Comedy Award na categoria de melhor iniciante.)
A Rose Gooding da vida real era inglesa, e não irlandesa
Eis aqui alguns pontos em que o filme se afasta –bem pouquinho, a rigor – dos fatos reais, segundo mostra o IMDb:
* A Rose Gooding da vida real era inglesa de Lewes, Sussex. No filme, ela é uma imigrante irlandesa. O IMDb não diz isso com todas as letras, mas dá perfeitamente para concluir que o roteiro fez essa mudança já que Jessie Buckley é irlandesa, da cidade de Killarney (da classe de 1989, acrescento). A jovem atriz que faz Nancy, a filha de Rose Gooding, Alisha Weir, também é irlandesa. A gente mal nota, mas, para os ingleses e irlandeses, o sotaque é evidente…
* No filme, as cartas são anônimas. Na vida real, as cartas eram assinadas às vezes por “Rose”, às vezes por “R.”, às vezes por “R.G.”
* Na vida real, Rose e Bill viviam com uma irmã dela, Ruth, que tinha dois filhos, e depois um terceiro, todos filhos fora de casamento formal, “ilegítimos”, como se dizia na época, “um verdadeiro escândalo na sociedade conservadora da época”, como diz o IMDb. Ruth e seus filhos não aparecem no filme.

Outras informações sobre o filme, tiradas da página de Trivia do IMDb, com pitacos meus, é claro:
* Olivia Colman e Jessie Buckley são boas amigas. Conheceram-se durante as filmagens de A Filha Perdida (2021), de Maggie Gyllenhaal, baseado no romance da italiana Elena Ferrante. As duas interpretaram a protagonista – Jessie como a Leda jovem, Olivia como a Leda mais velha.
* Olivia Colman tem fama, entre os colegas e o pessoal de cinema, de falar muito palavrão – inclusive em entrevistas.
* O elenco deste Pequenas Cartas Obscenas reúne diversos atores que trabalharam na maravilhosa série The Crown: Olivia Colman, Gemma Jones, Eileen Atkins, Tim McMullan, Richard Goulding, Jason Watkins, Jamie Chapman, David Evestaff, Paul A. Munday. Olivia Colman interpretou a Rainha Elizabeth II na meia-idade. Jason Watkins fez o primeiro-ministro Harold Wilson, e Eileen Atkins fez a Rainha Mãe, Mary. (No filme, Eileen Atkins faz uma das mulheres da cidade, conhecidas de Edith Swan; Jason Watkins faz Mr. Treading, o promotor no julgamento de Rose Gooding.)
* O filme não foi rodado em Littlehampton, a cidade onde ocorreram os fatos, e sim nas vizinhas Arundel e Worthing.
* Espectadores dos Estados Unidos podem achar estranho o fato de, no filme, Rose viver com um homem negro. Mas o fato é que, ao contrário dos EUA, onde as uniões interraciais eram proibidas em diversos Estados por leis que só foram derrubadas em 1965, no Reino Unido nunca houve essas leis segregacionistas. “Os casais podem ter enfrentado discriminação e preconceito, mas tais relações não eram proibidas ou ilegais”, diz, literalmente, o IMDb.
Rose cometeu o pecado de curtir sua vida
Recentemente Mary e eu vimos uma boa série sueca sobre as primeiras mulheres aceitas para trabalhar como policiais, com direitos e deveres como os homens. A Suécia, aquele país adiantadíssimo, rico, desenvolvido, de altíssimo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), só em 1958 passou a ter mulheres patrulhando as ruas – conforme mostra a série A Nova Força/Skiftet, de 2025.

Pois a Grã-Bretanha antecipou-se bastante: as primeiras mulheres foram aceitas nas forças policiais a partir de 1915, informa o IMDb.
Mas há neste Pequenas Cartas Obscenas um pequenino erro histórico, na escolha de Anjana Vassan como a WPC Gladys Moss. A primeira indiana a trabalhar como policial na Grã-Bretanha, Karpal Kaur Sandhu, foi admitida em 1971.
Mas isso é um danado de um detalhinho.
No site agregador de opiniões Rotten Tomatoes, Wicked Little Letters tem 80% de aprovação entre os críticos – o site examinou 177 textos de críticos. Entre os seres humanos, perdão, entre os espectadores, a aprovação foi de 92%.
No IMDb, o filme tem 7.0, média das notas dadas por 42 mil leitores.
O site RogerEbert.com deu 3 estrelas em 4 0 ao filme. O texto de Sheila O’Malley faz uma boa síntese da história, lembra que Olivia Colman e Jessie Buckley trabalharam juntas em The Lost Daughter – e que as duas foram indicadas ao Oscar –, e elogia bastante suas interpretações. Eis como ela conclui sua crítica:
“O que é realmente interessante é a atenção do filme aos impulsos sórdidos que há por trás de muitas campanhas de bullying, a mesquinhez, a pura tolice e o ‘qual é o sentido de tudo isso?’ É impossível evitar a sensação de que apontaram os dedos para Rose Gooding porque ela cometeu o imperdoável pecado de curtir sua vida. Como ela pôde ousar isso?”
Uma boa sacada sobre um ótimo filme.
Anotação em janeiro de 2026
Pequenas Cartas Obscenas/Wicked Little Letters
De Thea Sharrock, Reino Unido-EUA-França, 2023
Com Olivia Colman (Edith Swan),
Jessie Buckley (Rose Gooding),
Anjana Vasan (policial Gladys Moss), Timothy Spall (Edward Swan, o pai de Edith), Gemma Jones (Victoria Swan, a mãe de Edith), Malachi Kirby (Bill, o amante de Rose), Joanna Scanlan (Ann), Lolly Adefope (Kate), Eileen Atkins (Mabel), Hugh Skinner (policial Papperwick), Paul Chahidi (chefe de polícia Spedding), Jason Watkins (Mr. Treading), Alisha Weir (Nancy Gooding, a filha de Rose), Jonny Sweet (o repórter do Daily Mail), Tim Key (padre Ambrose). Krishni Patel (Winnie Moss, a sobrinha de Gladys), Richard Goulding (Mr. Scales), Cyril Nri (juiz Maccleston)
Argumento e roteiro Jonny Sweet
Fotografia Ben Davis
Música Isobel Waller-Bridge
Montagem Melanie Oliver
Desenho de produção Cristina Casali
Casting Jina Jay
Figurinos Charlotte Walter
Produção Graham Broadbent, Olivia Colman, ter Czernin, Ed Sinclair, Jo Wallett, StudioCanal, Film4, Blueprint Pictures, South of the River Pictures, People Person Picture.
Cor, 100 min (1h40)
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