
(Disponível no YouTube em 11/2025.)
Em 1962, resplandescentemente bela aos 47 anos bem vividos, Ingrid Bergman interpretou, em uma co-produção da BBC e da americana CBS, uma das personagens mais pérfidas, mais abjetas, mais desprezíveis do teatro clássico, a Hedda Gabler do título, criada na peça de 1891 do norueguês Henrik Ibsen, um dos maiores dramaturgos da História.
É um tanto estranho, para quem é fã da sueca lindérrima, vê-la como aquela mulher peçonhenta – mas Ingrid, grande atriz, está ótima como a vilã que despreza o marido, com quem se casou por pura conveniência, que ainda ama o homem que conheceu muitos, muitos anos antes, e vai fazer de tudo para infernizar a vida da jovem que o conquistou.
A jovem que vai sofrer nas garras de Hedda Glaber, Thea Elvsted, é interpretada por uma atriz que não teve grande fama, Dilys Hamlett. Já o pobre marido de Hedda, George Tesman, é o papel de Michael Redgrave, e o homem amado pelas duas mulheres, Ejlert Lovborg, é o de Trevor Howard. E Ralph Richardson faz o juiz Brack, grande amigo tanto do marido quanto do antigo amante de Hedda – um sujeito tão mau caráter quanto a própria protagonista da história.
Ingrid Bergman contracenando com três gigantes do teatro e do cinema britânicos, em um clássico da dramaturgia mundial. É muito talento numa tela só.

O marido é uma boa pessoa – mas pouco perspicaz
Não é uma sociedade feliz essa em que vivem os personagens que Henrik Ibsen criou e são retratados no filme dirigido por Alex Segal.
E as pessoas … Meu Deus, que tristeza.
George Tesman-Michael Redgrave, um acadêmico, um estudioso de História antiga, é um bom homem, uma pessoa amável, que tem carinho pelas pessoas a seu redor. Trata muitíssimo bem sua querida tia Julia (Ursula Jeans), e, absolutamente apaixonado pela bela mulher com quem se casou pouco tempo antes da época focalizada na narrativa, faz – ou tenta fazer – todas as vontades dela.
Bom caráter, bom coração, mas um tanto – ou bastante – ingênuo, pouco perspicaz. Não consegue perceber que Hedda – a filha de um general, apaixonada pelas pistolas que herdou do pai – não gosta dele, não sente nenhuma atração por ele, nenhum prazer com a companhia dele. Não tem a mínima noção sobre a personalidade egocêntrica, fútil, frívola, manipuladora da mulher – nem consegue ver que ela só se casou com ele porque precisava de alguém para sustentá-la, e não encontrou outro otário mais rico.
Uma figura importante, influente na sociedade, o juiz Brack-Ralph Richardson tem toda a percepção que falta ao pobre George Tesman a respeito de Hedda. Fica bem evidente para o espectador que o velho magistrado olha para aquela mulher má mas belíssima com desejo – e as circunstâncias vão dar a ele a chance de encurralar Hedda e chantageá-la.
Ejlert Lovborg-Trevor Howard (na foto abaixo) padecia da atração por dois perigos: os serviços das profissionais do sexo e o álcool. Nos últimos tempos, segundo conta para Hedda a jovem Thea Elvsted, ele estava bem – veremos que vinha em um período de sobriedade. Empregara-se como tutor dos filhos do primeiro casamento do senhor Elvsted, uma autoridade na região em que morava. Com o marido ausente, em constantes viagens a trabalho, Thea havia se aproximado de Lovborg – e se apaixonado por ele. Sóbrio, em um momento positivo, Lovborg havia se dedicado à escrita. Contando sempre com a ajuda de Thea, tinha acabado de lançar um livro e estava com o manuscrito de outro já pronto para a publicação.
Ao ouvir o relato de Thea sobre o ex-amante, Hedda ferve de raiva, despeito, ciúme – e começa a preparar a vingança. =
Ufa. Acho que consegui fazer um resumo aceitável da trama criada pelo dramaturgo norueguês.

A peça de 1891 já foi filmada 23 vezes
Hedda Gabler. O mais usual seria chamá-la de Hedda Tesman, seu nome de casada. O próprio Ibsen explicou por que escolheu tratar a protagonista por seu nome de solteira: “Minha intenção ao dar este nome foi indicar que Hedda é uma personalidade que deve ser vista mais como filha de seu pai do que como esposa de seu marido.”
Na sala principal da casa em que o pobre George Tesman (na peça, Jørgen Tesman) vive com a mulher que o despreza, há um grande retrato do general Gabler – e, perto dele, em uma bela caixa, as duas pistolas que Hedda adorava exibir. Pistolas, aliás, que têm importância fundamental na trama.
A peça Hedda Gabler estreou em Hamburgo, em 31 de janeiro de 1891, e, ao longo destes mais de 130 anos tem sido encenada nas principais capitais do Ocidente. Em 1902, por exemplo, foi um gigantesco sucesso na Broadway.
E foi levada às telas – tanto do cinema quanto da TV – nada menos que 23 vezes, se minha conta, feita a partir da Wikipedia, estiver correta.
A primeira das 23 versões foi produzida em Hollywood em 1917, apenas 26 anos depois da primeira encenação da peça em Hamburgo. A primeira atriz a interpretar a personagem foi Nance O’Neil (1874-1965).
Ainda na era do cinema mudo, houve uma versão italiana em 1920 e uma alemã, em 1925.
Entre 1954 e esta versão aqui de 1962, foram produzidos cinco filmes Hedda Gabler, nos EUA, Reino Unido, Iugoslávia (!) e Austrália. Este filme aqui, com Ingrid Bergman e os três grandes atores britânicos, foi, portanto (de novo se minha conta não estiver errada), o nono Hedda Gabler.
Nos anos seguintes, vieram versões produzidas na Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, na própria Noruega do dramaturgo Ibsen, na Bélgica, Itália e Suécia.
Bem recentemente, neste ano de 2025 em que escrevo, foi lançado o 23º, com o título de Hedda, apenas, sem o sobrenome. Foi dirigido pela jovem Nia DaCosta, nova-iorquina do Brooklyn, classe de 1989, também autora do roteiro – uma adaptação que moderniza, atualiza a história, tornando o casal Hedda-George Tesman milionário, morador de uma gigantesca mansão no campo. Hedda é interpretada por Tessa Thompson, e nos primeiros minutos do filme há uma menção ao fato de que ela tem a pele escura – pelo critério americano, a atriz é negra, embora seja filha de um afro-panamenho e uma mexicana branca. O juiz Brack é interpretado por Nicholas Pinnock, que é negro.
Mary e eu começamos a ver esse Hedda de 2025, mas logo desistimos, diante da evidente distância entre o roteiro do filme e a peça de Henrik Ibsen. Foi então que quis ir atrás de uma filmagem mais fiel ao original, e achamos no YouTube essa co-produção das duas potências da televisão, BBC e CBS.
Ingrid já havia se separado de Rossellini e morava na França
Co-produção EUA-Reino Unido, o filme tem todo o jeito de ser muito mais britânico que americano. Não se explicita em momento algum onde e quando se passa a ação, mas as indicações todas são de que estamos em Londres, provavelmente no início do século XX. E, com exceção de Ingrid Bergman, sueca que havia se radicado nos Estados Unidos até sair de lá no final dos anos 1940 para a Itália, onde se casaria com o diretor Roberto Rossellini, os atores são todos britânicos.
Vejo, no entanto, que o diretor Alex Segal (1915-1977) é americano de Nova York. Dirigiu 36 títulos – filmes e séries – entre 1949 e 1976, inclusive uma versão de Morte do Caixeiro Viajante de Arthur Miller com Lee J. Cobb (1966). Foi diretor de teatro e professor de arte dramática. Neste filme aqui, demonstra a competência que tem para dirigir atores.
Bem, mas atores como Ingrid Bergman, Michael Redgrave, Ralph Richardson, Trevor Howard…

Hedda Gabler foi produzido pelo sueco Lars Schmidtd (1917-2009), o terceiro e último marido de Ingrid Bergman, com quem ela se casou em dezembro de 1958, um ano após sair o divórcio dela com Rossellini.
O casal morava na França, nessa época. Ingrid já havia voltado a trabalhar em filmes americanos, depois de anos em que a imprensa e até políticos dos Estados Unidos fizeram campanha contra ela por ter abandonado o país e o primeiro marido, Petter Lindström, para viver na Itália com Rossellini. Havia voltado a trabalhar em filmes americanos – mas rodados na Europa.
O primeiro filme americano após o período Rossellini havia sido Anastácia, a Princesa Esquecida (1956), pelo qual ela ganhou seu terceiro Oscar – o que marcou o início da reconciliação de Hollywood com a atriz. Em seguida tinham vindo Indiscreta (1958), A Morada da Sexta Felicidade (1958), Twenty-four Hours in a Woman’s Life (1961) e Mais Uma Vez, Adeus/Goodbye Again (1961).
Depois de Hedda Gabler, ela faria A Visita (1964), baseado na peça do suíço Friedrich Dürrenmatt – e é interessante lembrar que sua personagem, Karla Zachanassian – uma velha senhora que volta, agora milionária, à pequena cidade onde havia sido maltratada quando jovem – é uma mulher em tudo por tudo detestável, como Hedda.
“Maestria técnica, penetrante conhecimento psicológico”
“Dramaturgo e poeta norueguês, Henrik Ibsen (1828-1906) é amplamente reconhecido como um dos pioneiros do drama europeu moderno. Embora honrado (e em alguns momentos difamado) durante sua vida como a fonte do que G. B. Shaw chamava de ‘Ibsenismo’ (isto é, a crítica em forma dramática da moralidade contemporânea), ele inicialmente ganhou reconhecimento como o criador da prosa dramática moderna, realista.”
Esse é o início do imenso verbete da gloriosa Encyclopaedia Britannica sobre o autor. O texto prossegue (e é bom registrar que minha Britannica de meados dos anos 1970): “A crítica mais recente estima outras qualidades no seu trabalho: sua suprema maestria técnica, seu penetrante conhecimento psicológico, seu simbolismo, e a sombria poesia de sua prosa dramática.”
Henrik Ibsen. Uma das muitíssimas lacunas da minha diminuta cultura. Diacho. Eu precisaria ler uma de suas peças, ou, no mínimo, no mínimo, ver uma das versões de A Casa das Bonecas, seja a Patrick Garland com Claire Bloom, Anthony Hopkins e Ralph Richardson (olha ele aí de novo!), seja a de Joseph Losey com Jane Fonda, Edward Fox e Trevor Howard (idem, ibidem), ambas de 1973.
Anotação em novembro de 2025
Hedda Gabler
De Alex Segal, Reino Unido-EUA, 1962
Com Ingrid Bergman (Hedda Gabler),
Michael Redgrave (George Tesman, o marido de Hedda),
Ralph Richardson (juiz Brack),
Trevor Howard (Ejlert Lovborg),
Dilys Hamlett (Thea Elvsted), Ursula Jeans (Miss Julia Tesman, a tia de George), Beatrice Varley (Berte, a empregada de George e Hedda)
Roteiro Philip H. Reisman Jr., Eva Le Gallienne
Baseado na peça “Hedda Gabler”, de Henrik Ibsen
Música Bob Cobert
Figurinos Sophie Devine, com o pseudônimo de Motley
Produção Lars Schmidt, Norman Rutherford, David Susskind, BBC, CBS.
P&B, 75 min (1h15)
***
