
(Disponível no Mubi em 3/2026.)
Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón, o primeiro longa-metragem de Pedro Almodóvar a chegar aos cinemas, em 1980, tinha já, como não poderia deixar de ser, muitas das características dos filmes que viriam a seguir e o estabeleceriam como um dos mais importantes cineastas do mundo. A transgressão, os tapas nas caras dos caretas, o exagero, a quase onipresença da homossexualidade, por exemplo.
Claro que, como obra inicial, ainda tinha muita coisa que parecia um rascunho, um ensaio geral. Todos os filmes que viriam pelos 15, 20 anos seguintes manteriam essa coisa exagerada, provocativa, furiosamente anticonvencional, de querer chocar, épater les bourgeois, como se dizia – mas Pepi, Luci, Bom exagera no exagero.
O gênio da “movida madrileña” estava com 31 anos quando o filme foi lançado – mas muitas, muitas, muitas das piadas parecem coisa de garoto de 13, 14. Um exagero do exagero de escatologia, essa coisa típica de ginasiano. Dá-lhe referência a excrementos. (E aqui faço uma observação extremamente pessoal: não sou careta, de forma alguma. Palavrões não me incomodam em nada, por exemplo – mas detesto a palavra “peido”. Acho que ela cheira mal. A palavra está lá na filme em diversas, diversas, diversas ocasiões.)
E não são apenas referências. Lá pelo meio do filme, Almodóvar nos brinda com uma cena explícita daquela coisa de nome bonitinho, golden shower, lluvia dorada na língua dele – mijo em cima de gente, em claro português.
Por sugestão de Pepi, a garota Bom sobe numa cadeira, abre as pernas e mija na cara e no peito de Luci. Que adora aquilo, quase goza na hora – e gama perdidamente por Bom.
Haverá também o que Chico Buarque chamou, em “Doze Anos”, uma das canções da Ópera do Malandro, cantada pelo grande gozador Moreira da Silva, de “concurso de piroca”. No meio de uma grande festa, a homorada bota a piroca pra fora – e Pepi, escolhida como juíza, mede e julga os troços, para escolher o melhor pau de toda turma.
O filme ainda não conta com o talento de criador de belas tramas
Entre as muitas qualidades das obras posteriores de Pedro Almodóvar estão as tramas. Ele é um dos melhores criadores de histórias entre todos os cineastas destes 130 primeiros anos de cinema. Dos melhores e dos mais prolíficos. Creio que apenas Ingmar Bergman e Woody Allen criaram tantas histórias para seus filmes quanto Almodóvar.
E são tramas inteligentes, interessantes, consistentes, instigantes, muitas vezes surpreendentes.

Pepi, Luci, Bom ainda não apresenta esse fantástico talento de Almodóvar. O filme não tem uma trama com essas qualidades citadas na frase anterior.
Bem, essa foi minha impressão, ao ver o filme agora, pela primeira vez, 46 anos depois de seu lançamento, tantos belos filmes de Almodóvar depois. Me pareceu que ele criou um monte de personagens e os uniu em uma série de esquetes, de quadros, de situações.
É mais ou menos assim:
* Pepi (o papel de uma bela Carmen Maura, na foto acima, na flor dos 35 anos, já com 15 de carreira) recebe a visita de um policial seu vizinho (o papel de Felix Rotaeta). O cara havia percebido que ela cultivava maconha em vários vasos na varanda de seu apartamento. Para evitar um período na cadeia, Pepi se oferece para o tipinho escroto – só pede que seja “por trás”, porque não pretende vender a virgindade. O policía, como eles dizem, com acento no segundo i, não quer saber: estupra a moça. Detalhe: não ficamos sabendo o nome do policía. Ele é tratado o tempo todo como el policía.
* Terminado esse quadro, começa outro: Pepi prepara a vingança. Pede a ajuda de um grupo de amigos, que cercam o policía na rua e o enchem de porrada.
* Foi engano. A vítima das porradas era o irmão gêmeo do policial (interpretado, claro, pelo mesmo Felix Rotaeta), que morava com o outro e a mulher dele, Luci. Depois da surra, o irmão decide ir embora – e desaparece da história.
* Pepi fica conhecendo Luci (o papel de Eva Siva, no meio na foto abaixo), a mulher do policía que é sua vizinha. E pede a ela que a ensine a tricotar. Vão ficando próximas. Luci logo revela para Pepi e para o espectador que se casou com o policía porque achava que, exatamente por ser policial, ele iria bater nela. Para sua decepção, no entanto, o marido a tratava com o maior respeito, como se ela fosse a mãe dele.
Durante uma das aulas de tricô na casa de Pepi, aparece Bom, uma grande amiga dela, jovem cantora de uma banda de punk rock. Rola a cena do golden shower – e a masoquista esposa do policía se apaixona no ato.
Vão passar a viver juntas a senhora masoquista e a jovem punk – e estabelecem uma triste relação em que a garota manda na outra, machistamente, uma coisa apavorante.
Bom, a terceira das personagens principais do filme, é interpretada por Alaska (a primeira à esquerda na foto).

* De repente, do nada, Pepi – que não tinha profissão, vivia de mesada dos pais – vira publicitária. Bola uma campanha para vender bregas Ponte. Bregas é a palavra espanhola para calcinhas. As calcinhas Ponte, mostram os anúncios bolados por Pepi, são feitas de um material que transforma o cheiro de pum em um doce perfume – e a gente vê o comercial de TV, em que uma atriz (o papel da bela argentina Cecília Roth) está com o namorado, solta um pum e o namorado elogia seu perfume!!! E tem mais: as calcinhas Ponte são capazes de reter o xixi que a mulher não conseguiu conter.
Piadinhas ginasianas, credo em cruz!
* E há o concurso de piroca, que tem o nome trocadilhesco de “Ereciones generales”. Como será lembrado extensamente mais adiante, a Espanha passava então por uma feliz época de elecciones generales, após 35 nos da brutal ditadura franquista.
Carmen Maura dá um show como a juíza do concurso de piroca.
Carmen Maura incentivou o jovem Almodóvar a fazer o filme
Bem, Carmen Maura dá um show em cada tomada em que aparece.
Assim como outros grandes cineastas – os já citados Ingmar Bergman e Woody Allen, por exemplo –, Pedro Almodóvar costuma trabalhar sempre com o mesmo grupo de atores. Carmen Maura é uma desse grupo seleto – depois deste Pepi, Luci, Bom, fariam juntos mais seis filmes.
Na verdade, a parceria entre a atriz e o diretor começou antes mesmo deste Pepi, Luci, Bom aqui. Carmen Maura já havia estado em Folle… folle… fólleme Tim!, de 1978. Este filme foi rodado em Super 8, não teve lançamento nos cinemas nem, mais tarde, versões em VHS, DVD ou Blu-Ray, porque o realizador o considera experimental e amado demais. Por isso é que este Pepi, Luci, Bom é considerado o primeiro longa-metragem de Almodóvar, embora, a rigor, a rigor, a rigor, seja o segundo.
(Antes desse Folle… folle… fólleme Tim! que praticamente ninguém viu, Almodóvar havia feito, entre 1974 e 1978, 12 curta-metragens.)

Almodóvar não voltou a convidar Alaska, que fazem a cantora Bom, para seus filmes seguintes. Mas Cecília Roth (na foto acima), que tem praticamente uma participação especial como a garota propaganda dos comerciais criados por Pepi, voltaria a trabalhar com o diretor em cinco outros filmes. E Eva Siva, que faz Luci, trabalharia em mais quatro: Labirinto de Paixões (1982), Maus Hábitos (1983), Matador (1986) e De Salto Alto (1991).
Um breve registro sobre Alaska. Nascida da Cidade do México em 1963 como María del Olvido Gara Jova, ela estava portanto com 17 aninhos no início de 1980, o ano em que o filme foi lançado. A Wikipedia diz que ela é “una cantante, actriz, compositora, presentadora de televisión, empresaria, escritora, productora y DJ mexicoespañola”. “Ha sido elogiada por ser una figura emblemática de la música y la cultura pop hispana, pionera de la movida madrileña, con una trayectoria transgresora y una estética vanguardista, por lo que recibió el título de la ‘Reina de la Movida’”.
Será obrigatório um registro sobre la Movida Madrileña, mas antes quero voltar a Carmen Maura para falar da origem desde Pepi, Luci, Bom e de como ele feito.
Consta que Carmen Maura – um pouco mais velha e muito mais experiente do que Almodóvar em 1979, 1980 – foi uma das pessoas que o encorajaram a adaptar seu trabalho Erectiones Generales para um longa-metragem. E mais: foi ela uma das pessoas que levantaram o orçamento inicial de 500 mil pesetas – uma mixaria, uma bobagem – para dar início às filmagens.
Quando o filme começou a ser rodado, em meados de 1979, Almodóvar ainda tinha um emprego fixo, na administração da Telefónica, a grande empresa espanhola que comprou a Telesp e outras companhias brasileiras. Assim, as filmagens só podiam ser feitas durante os fins de semana. O IMDb registra um detalhe quase tão surpreendente quanto a cena em que Bom-Alaska abre as pernas e mija em cima de Luci-Eva Siva: na sequência de abertura, as tomadas em que Pepi vai abrir a porta foi filmada em junho de 1979; as tomadas em que ela abre a porta para o policía, em dezembro de 1979; e aquelas em os dois estão juntos, e ele a estupra, em junho de 1980.
Um detalhinho que o IMDb registra: a tal sequência do golden shower foi a primeira feita com Carmen Maura e Alaska juntas. E foi rodada no dia em que as duas – a madrilenha então com 35 anos e a mexicana de 17 – se conheceram.

Depois da ditadura, uma explosão cultural
Assim como os primeiros filmes de Pedro Almodóvar, toda a Movida Madrilenha é um resultado dos 35 anos da ditadura fascista do generalíssimo Francisco Franco. Não é possível haver dúvida disso.
O ditador morreu em novembro de 1975, e iniciou-se ali uma transição para a democracia. Em junho de 1977 houve as primeiras eleições democráticas desde a guerra civil de 1936 a 1939 – las elecciones generales.
Depois de 35 anos de ditadura, censura, repressão, perseguição, mortes, muitas mortes, a cena cultural na capital da Espanha explodiu como explode uma panela de pressão que fica tempo demais em fogo alto. “La movida madrileña”, ensina a Wikipedia, “fue un movimiento contracultural surgido en Madrid durante los primeros años de la Transición de la España posfranquista, que se extendió a otras provincias con el nombre genérico de la movida, hasta su finalización a mediados de la década de 1980.”
Contra a censura, a caretice, o falso moralismo da Igreja Católica espanhola, que (ao contrário da brasileira, por exemplo), em vez de contestar a ditadura, compactuou com ela, era natural que viesse um movimento em sentido exatamente oposto, e virulento – anticlerical, anti-religião, anti-autoridade policial, anti-conservadorismo, anti-convenções.
Quis o destino que Pedro Almodóvar montasse no cavalo encilhado da revolução de costumes que passava.
Nos anos finais da ditadura franquista, o cinema espanhol tinha um único grande nome, que conseguia fazer belos filmes enfrentando a censura – Carlos Saura. (Luís Buñuel não conta porque não pertencia ao cinema espanhol – fez a imensa maioria de seus filmes na França e no México.) É absolutamente fantástico constatar que, depois deste filme de estréia de Almodóvar, tenham surgidos tantos, tantos talentos. Aí vão, em ordem alfabética, diretores de obras que já foram comentadas neste + de 50 Anos de Filmes:
Agustí Villaronga, Alberto Rodríguez, Alejandro Amenábar, Carlos Sedes, Cesc Gay, Dani de la Orden, Daniela Féjerman, David Trueba, Eduard Cortés, Fernando León de Aranoa, Icíar Bollaín, Inês Paris, Isabel Coixet, Jaume Collet-Serra, Juan Antonio Bayona, Jordi Frades, José Luis Martín, Kike Maíllo, Laura Alvea, Leticia Dolera, Maria Ripoll, Oskar Santo, Patricia Ferreira, Pau Freixas, Ventura Pons.

É obrigatório registrar: com a maturidade, Pedro Almodóvar não deixou de lado as características que marcaram seus primeiros filmes – a ousadia, a transgressão, os tapas nas caras dos caretas, a quase onipresença da homossexualidade. Mas seus filmes foram se tornando mais suaves, mais doces, mais profundos.
Os filmes do Pedro Almodóvar maduro são de um maravilhoso humanismo. São simplesmente alguns dos melhores que já foram feitos.
Maltin e Tulard concordam: é um filme pobre, desleixado
Leonard Maltin deu ao filme 1,5 estrelas em 4: “O filme inicial de Almodóvar é a histórias de Pepi (Maura), uma herdeira/vítima de estupro que vira uma executiva da publicidade; enquanto isso, a dona de casa Luci (Siva), cujo marido estuprou Pepi, o abandona e começa uma relação lésbica com Bom (Alaska), uma cantora de rock. Típico de Almodóvar naquele estilo obsceno e escandaloso; é também realizado de maneira pobre e desprovida de risos. Tem interesse somente como uma prévia do que viria a ser seu criador.”
O Guide de Films do mestre francês Jean Tulard faz uma avaliação bem semelhante à do crítico norte-americano autor dos guias de filmes mais vendidos do mundo naquele tempo em que se vendiam guias de filmes. Eis o que o Guide diz sobre Pepi, Luci, Bom et Autres Filles du Quartier:
“Primeiro filme de Pedro Almodóvar, rodado em 16 mm. A imagem é suja, a realização é desleixada, no limite do amadorismo. Um filme de provocação que, hoje, não apresenta o menor interesse – à exceção de seus intérpretes.”
Então tá.
Pois eu gostei bem de ver, tantos anos depois de seu lançamento, este primeiro longa de Almodóvar a chegar aos cinemas. Me diverti muito. E é claro que é absolutamente interessante ver como o autor de tantas pérolas começou, uai!
Anotação em março de 2026
Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão/Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón
De Pedro Almodóvar, Espanha, 1980.
Com Carmen Maura (Pepi),
Olvido Gara, Alaska (Bom, a cantora),
Eva Siva (Luci, a mulher do policial),
Felix Rotaeta (o policial/o irmão gêmeo), Concha Gregori (Charito, a vizinha de Luci), Kiti Manver (a moça que é cantora e modelo e não uma puta), Cecilia Roth (a moça dos anúncios “Bragas Ponte”), Julieta Serrano (a mulher vestida como Scarlett O’Hara), Diego Alvarez (o garoto filho da mulher vestida como Scarlett O’Hara), Christina S. Pascual (a mulher barbada), Carlos Tristancho (Toni, o cantor do conjunto com Bom), Fabio DeMiguel (Roxy Burton), Assumpta Serna (Nuria)
Argumento e roteiro Pedro Almodóvar
Fotografia Paco Fermenia
Montagem Pepe Salcedo
Figurinos Manuela Camacho
Cor, 80 min
Produção Pepón Coromina, Pastora Delgado, Ester Rambal, Figaro Filmes.
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