Família Moderna / Modern Family – A Primeira Temporada

Nota: ★★★☆

A piada é bem boba, mas não resisto: quando Mary e eu descobrimos Modern Family, a família já não era mais tão moderna. Era até meio antiquada, já…

Nunca tinha ouvido falar da série Modern Family. Chegamos a ela um tanto por acaso, e vimos a primeira temporada, que foi apresentada originalmente em 2009 – 11 anos atrás! No segundo semestre de 2019 foi lançada a temporada de número 11. O que a torna uma série bastante longeva, um fenômeno tipo Friends, que teve 10 temporadas.

É muito divertida, com um humor bem gostoso, agradável, esperto. Não há nenhum grande astro no elenco numeroso, mas os atores, de idades variáveis entre aí uns 12 e uns 65 anos, são ótimos, afiados, engraçados.

É daquele tipo de série de episódios curtos – são cerca de 22 minutos cada episódio. A primeira temporada tem 24 episódios, e uma vez visto o primeiro, o espectador já tendo conhecido as famílias, não há sequer obrigatoriedade de ver os demais em sequência. Cada episódio é independente do anterior: as situações criadas nele são resolvidas nele mesmo. Bem ao contrário das séries mais recentes, como as do padrão Netflix, em que o final de um episódio deixa o espectador morrendo de curiosidade de saber o que vai acontecer no seguinte.

Esse esquema tem suas boas vantagens. Não é necessário maratonar, ver tudo sofregamente, sem parar, vários episódios longos por dia, até chegar ao fim, como tantas boas séries, em geral que tratam de algum mistério, com algum suspense, como, por exemplo, a americana Inacreditável/Unbelievable (2019), as australianas Wanted e Secret City (ambas de 2016), a islandesa Trapped / Ófærð (2015), a belga La Trêve ou a croata O Jornal / Novine (2016). Ou mesmo as grandes séries que, sem tratar de mistérios, tramas policiais, deixam o espectador ansioso para ver o capítulo seguinte, como The Crown (2016 a 2019, por enquanto) ou Downton Abbey (2010 a 2015).

Claro que quem gosta de maratonar pode atacar cada temporada em apenas dois ou três dias – afinal, a primeira temporada, por exemplo, tem, como já foi dito, 24 episódios de uns 22 minutos cada, 8h48 no total… Mas, se o espectador quiser, pode ver os episódios espaçadamente, folgadamente, até com um filme ou outro no meio, já que não é um novelão, e sim episódios de fato independentes.

O cotidiano de três famílias que a rigor são uma só

É uma produção Levitan / Lloyd e 20th Century Fox Television; foi feita para ser apresentada numa rede de TV, a Fox, e, portanto, é algo para ser consumido por famílias inteiras. Ou seja: receberia no máximo uma censura etária de uns 12 anos. Não há cenas de sexo, violência: é família.

E mostra o cotidiano de três famílias. Famílias de classe média para alta, que vivem em bairros bons de uma grande cidade americana; na primeira temporada, pelo menos, a série faz questão de não especificar exatamente de que cidade se trata – o que é a melhor maneira de dizer que aquilo poderia estar acontecendo em qualquer cidade média para grande do país imenso. Dá para deduzir que é Los Angeles, ou região metropolitana de Los Angeles, ou alguma outra cidade californiana – mas de fato na primeira temporada os realizadores fazem questão de não identificar claramente a cidade.

Há uma sacada gostosa de cara, no primeiro episódio da primeira temporada. Vamos sendo apresentados a cada uma das três famílias – todas elas moram em casas, não em apartamentos. Só depois que ficamos conhecendo cada uma delas, cada núcleo, é que somos informados de que as três famílias na verdade são ligadas, são a rigor uma só. Pai e dois filhos adultos, cada um dos filhos com sua casa, sua família.

Não são famílias assim propriamente desajustadas, disfuncionais. Não, de forma alguma. São gente como a gente, pessoas comuns, “normais” – se é que se pode a rigor dizer que alguém é normal.

E os problemas são os problemas comuns, do dia-a-dia de gente como a gente, pessoas comuns, “normais”. Tipo ciúme, insegurança, alguma disputa, alguma inveja, um ou outro ressentimento. Um pouco de enfrentamento com os preconceitos que sempre existem – diante de questões de etnia, da opção sexual. Muito, mas muito questionamento sobre a criação de filhos. O que é absolutamente normal, porque existe coisa mais complicada que a criação de filhos? Essa máquina doida que além de tudo vem sem manual de instrução?

Ao longo de cada um dos episódios, os criadores – Steven Levitan e Christopher Lloyd – usam e abusam de um recurso gostoso, interessante, inteligente, que é o de volta e meia vermos um personagem, ou dois, sentado/sentados em uma poltrona de sua sala falando diretamente para a câmara, e portanto para o espectador. Como se estivesse dando um depoimento, ou, melhor ainda, conversando com o espectador, expondo para ele sua visão das coisas.

É uma das grandes sacadas da série – e ela realmente usa e abusa do recurso. Em cada episódio de 22 minutos, há pelo menos uns três momentos em que alguns dos personagens conversa com a gente.

Não é, naturalmente, um recurso original. Não é, de forma alguma, nem pretende ser. Harry e Sally: Feitos um Para o Outro/When Harry Met Sally…, aquela pérola que Rob Reiner fez em 1989, já usava essa sacada, de forma brilhante: ao longo do filme, diversos casais sentados diante da câmara davam depoimentos de como se conheceram, como sua história começou.

E When Harry Met Sally… fez isso, creio, como uma homenagem brincalhona ao que Warren Beatty havia feito em Reds, de 1981, em que personalidades importantes, intelectuais, escritores (Henry Miller e Will Durant entre eles), sentados diante da câmara, davam depoimentos sobre fatos relacionados à Revolução Comunista de 1917.

O texto é bom, as falas, os diálogos são muito bem escritos. São ao mesmo tempo absolutamente cotidianos, corriqueiros, naturais – e também espertos, inteligentes.

Já passa da hora de falar dos personagens.

Um homem de meia idade casado com uma jovem linda

Jay Pritchett (o papel de Ed O’Neill) é o patriarca e o traço de união entre as três famílias. Nesta primeira temporada, tem uns 65 anos e está casado com uma mulher que além de ser mais jovem que seus filhos é um avião, um Boeing 747: Gloria Delgado-Pritchett é uma colombiana, exatamente como a atriz que dá vida a ela, Sofía Margarita Vergara – talvez a atriz mais conhecida internacionalmente do elenco.

Gloria-Sofia Vergara tem um filho do primeiro casamento, Manny (Rico Rodriguez), um garoto aí de uns 10, talvez 12 anos, muito grande, muito gordo – mas danado de inteligente.

Jay é um homem muito bem de vida, e então não seria totalmente improvável que alguém achasse que Gloria tinha dado o golpe do baú. Na verdade, veremos que Dee Dee (Shelley Long), a primeira mulher de Jay e mãe dos dois filhos dele, não só achava isso como deu um vexame danado no casamento do ex com Gloria ao xingar a bela jovem. Até mesmo Claire, a filha de Jay, desconfiou disso.

Mas esta primeira temporada deixa claro que a jovem, bela, gostosa, exuberante colombiana Gloria ama o gringo coroa um tanto barrigudo, que tem um jeitão de meio bravo mas é muito boa gente.

Ela, no entanto, tem um probleminha que não consegue perceber: insiste em fazer todo tipo de elogio ao ex-marido, o pai de Manny, um tal de Javier Delgado (Benjamin Bratt), que aparece em um episódio. É um tipo bem malandrão – e a série permite que o espectador infira que ele tem algo a ver com tráfico de drogas.

Gloria, aliás, volta e meia se refere à Colômbia como aquele país que era tomado pelos grandes traficantes – é bom lembrar que esse primeiro episódio é de 2009, época em que a Colômbia era de fato sinônimo de cartéis do tráfico.

“Somos uma família muito tradicional”, diz o gay

Mitchell Pritchett (Jesse Tyler Ferguson), o filho de Jay, vive há vários anos com o namorado, Cameron Tucker (Eric Stonestreet). Quando a série começa, Mitchell e Cam estão voltando de uma viagem ao Vietnã, onde adotaram uma menininha ainda bebê, Lilly.

Mitchell é advogado; metódico, organizado, é um sujeito que leva tudo muito a sério. Cam, um cara que, como Manny, o filho de Gloria, é bem grande, bem gordo, em muitas coisas parece o oposto de Mitchell. É alegre, brincalhão, bem humorado – mas também um tanto atrapalhado, desajeitado. Meteu-se numa confusão boba uma vez, por exemplo, com Gloria, por se referir aos latinos como “o seu povo” e outras bobagens.

Não que seja um racista, um careta, contrário aos imigrantes ou coisa parecida. Nada disso – é só, repito, um tanto atrapalhado, desajeitado. Faz besteiras – e depois fica morrendo de vergonha e querendo consertar. Num momento em que Mitchell está conversando com um empresário rico, bem sucedido, que poderá lhe oferecer um bom emprego, Cam comete seguidas gafes – é uma sequência que até deixa de ser engraçada porque a gente fica com pena dos dois.

Amam-se profundamente os dois gays, e se dão muito bem.

Claro que têm cuidados exagerados com a criação da filhinha, o que rende ótimas sequências cômicas.

Lá pelas tantas, Cam afirma, com a maior seriedade: – “Somos uma família muito tradicional”. Ao que Mitchell responde: – “Foi o que a xamã lésbica deficiente disse ao abençoar o quarto de Lilly”.

Delícia!

Com três filhos, o casal sofre – e faz besteiras

Um gay bastante gordo, um garoto latino bastante gordo. Acho esperto, bacana, os criadores terem feito personagens assim, fora do padrão de beleza de Hollywood, fora da maioria dos padrões de beleza. É bastante positivo isso.

Na verdade, de todos os dez personagens centrais (não estou incluindo na relação Lilly, que é bebê, e então não conta), só Gloria, o papel de Sofia Vergara, é belíssima, fora de série. Jesse Tyler Ferguson, que faz Mitchell, e Julie Bowen, que faz a irmã dela, Claire, são pessoas bonitas – mas nada assim absolutamente extraordinário.

É uma das boas qualidades da série, me parece.

Falta falar da família de Claire.

Claire, a filha de Jay e irmã de Mitchell, é casada com Phil Dunphy (Ty Burrell), um corretor de imóveis. Conheceram-se bem jovens, casaram-se bem jovens – e tiveram três filhos.

Phil se julga muito esperto, muito safo. Tem-se em ótima conta, tem uma grande auto-estima – mas muitas vezes é apenas meio bobão. E a gente ri das bobagens dele. Claire é uma perfeccionista – e, claro, sofre muito, porque não dá para ter uma casa perfeita, uma família perfeita, neste mundo doido, ainda mais com três filhos.

Duas meninas e um menino. Haley está com 15 anos nesta primeira temporada, Alex, com 13 e Luke, com 9. Eles são interpretados, respectivamente, por Sarah Hyland, Ariel Winter e Nolan Gould, e esses três atores mirins estão impressionantemente bem.

Haley, claro, está no auge da aborrescência, e não se bica com Alex. As duas garotas, na verdade, estão sempre se provocando, sempre jogando dardos uma na outra. Haley mexe com Alex dizendo que ela não é atraente e nunca vai arranjar um namorado. Alex, a única dos três a usar óculos, super estudiosa, CDF, não perde oportunidade de demonstrar que é mais inteligente e sabida que Haley – e esta é uma verdade dos fatos.

As duas, por sua vez, implicam com o caçula Luke, que é um garoto legal, só não muito focado em nada, não muito dedicado a nada, o que deixa os pais extremamente preocupados.

Criar filhos – acho que já disse isso – é uma das coisas mais difíceis do mundo; sânscrito, grego ou física quântica são bico, moleza, perto de criar filhos. E então Claire e Phil sofrem. E volta e meia fazem besteiras – dos mais variados tipos possíveis e imagináveis.

Uma coisa que Modern Family mostra à exaustão é isto: as pessoas fazem besteiras.

Não por maldade, não por sacanagem. Fazem besteiras quando estão tentando fazer o melhor que podem. É assim mesmo, não tem jeito, é da vida, é que nem dor de dente ou resfriado.

E depois tentam consertar, pedir desculpas, demonstrar arrependimento.

Como é ficção, é série de TV, sempre dá tudo certo. É a vantagem que a ficção, a série de TV tem sobre a vida real.

A série ganhou 117 prêmios, fora outras 377 indicações

Escrevi, lá em cima, que os atores são ótimos, afiados, engraçados.

É necessário registrar que Sofia Vergara não é uma ótima atriz. Bem, no mínimo, que na minha opinião ela não é uma ótima atriz. Na verdade, como atriz é uma mulher bonita pra cacete. Este é o talento dela.

Como Gloria é uma colombiana belíssima, jovem, expansiva, solta, exuberante, Sofia Vergara se encaixa bem no papel. Faz todo tipo de careta – mas seria de esperar isso mesmo de Gloria, e então tudo bem.

Os demais atores todos, sim, são ótimos, afiados, engraçados.

Outro registro: nesta primeira temporada, pelo menos, Modern Family é uma série que não se envergonha de fazer merchandising.

Há toda uma série de sequências, ao longo de um episódio inteiro, em que Phil quer comprar (ou ganhar de presente de aniversário) um iPad, que estava sendo lançado naquela época. E, num outro episódio, há um merchandising explícito do hotel Four Seasons da ilha de Maui, no Havaí.

Um detalhinho que aproxima Modern Family de Friends: da mesma forma que na série sobre o grupo de amigos de Nova York, aqui também os títulos de cada episódio são engraçadinhos – muitas vezes remetendo a nomes de filmes, livros ou canções.

Alguns exemplos de títulos da primeira temporada: “The Bicycle Thief”, O Ladrão de Bicicleta, Vittorio De Sica. “Come Fly with Me”, no Brasil Vem Voar Comigo, o filme de 1963 com a linda Dolores Hart, que virou freira. “Run for Your Wife”, jogo de palavras com “Run for Your Life”, de Lennon-McCartney, do álbum Rubber Soul. “Great Expectations”, o título do romance de Charles Dickens filmado várias vezes. “My Funky Valentine”, jogo de palavras com a canção “My Funny Valentine” e com pelo menos cinco filmes do mesmo nome. “Starry Night”, título de um episódio em que Luke tem que fazer um dever de casa sobre Vincent Van Gogh, primeiro verso da canção “Vincent”, que Don McLean fez em homenagem ao pintor genial.

Ao longo de suas 11 temporadas, Modern Family teve 12 indicações aos Globos de Ouro. Levou o troféu de melhor série de televisão – comédia ou musical – em 2012.

Para calar minha boca grande, Sofia Vergara teve quatro indicações ao prêmio de melhor atriz coadjuvante.

Para o Primetime Emmy, o mais importante prêmio para programas de TV dos Estados Unidos, foram tantas indicações que tive preguiça de contar. No total, ao longo destes anos todos, a série ganhou 117 prêmios, fora outras 377 indicações.

A página de Trivia sobre a série no IMDb tem 221 itens. Prova de que a série tem um número imenso de adoradores.

Deve ser bem interessante acompanhar essas famílias ao longo de 11 anos, ver aqueles meninos crescerem… Seguramente deve ser gostoso. O problema é que a vida é curta, e há filme demais pra gente ver.

Anotação em setembro de 2020

Família Moderna/Modern Family – A Primeira Temporada

De Steven Levitan e Christopher Lloyd, criadores, EUA, 2009

Direção Jason Winer, Reginald Hudlin, Randall Einhorn

Com Ed O’Neill (Jay Pritchett, o patriarca), Sofía Vergara (Gloria Delgado-Pritchett, a jovem segunda mulher de Jay),Rico Rodriguez (Manny Delgado, o filho de Gloria do primeiro casamento),

Julie Bowen (Claire Dunphy, filha de Jay), Ty Burrell (Phil Dunphy, o marido de Claire), Sarah Hyland (Haley Dunphy, a filha mais velha de Claire e Phil), Ariel Winter (Alex Dunphy, a filha do meio de Claire e Phil), Nolan Gould (Luke Dunphy, o filho caçula de Claire e Phil),

Jesse Tyler Ferguson (Mitchell Pritchett, filho de Jay), Eric Stonestreet (Cameron Tucker, o marido de Mitchell),

Reid Ewing (Dylan Marshall, o namorado de Haley), Benjamin Bratt (Javier, o primeiro marido de Gloria), Shelley Long (Dee Dee Pritchet, a primeira mulher de Jay)

Roteiro Steven Levitan, Christopher Lloyd, criadores, e Paul Corrigan, Brad Walsh, Danny Zuker, Bill Wrubel, Dan O’Shannon, Sameer Gardezi, Joe Lawson

Fotografia James R. Bagdonas, David Hennings

Música Gabriel Mann

Montagem Ryan Case, Jonathan Schwartz

Casting Jeff Greenberg

Produção Levitan / Lloyd, 20th Century Fox Television.

Cor, cerca de 528 min (8h48)

Disponível na Prime Video/Amazon.

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Um comentário para “Família Moderna / Modern Family – A Primeira Temporada”

  1. Que delícia relembrar o auge da série. As 4 ou 5 primeiras temporadas são excelentes(e estabeleceu um recorde de vitórias seguidas no emmy). Depois diminui um pouco a qualidade. Vi até a temporada 9, senão me engano, pq achei que estava ficando meio repetitiva, mas especialmente as primeiras, vale demais a pena e cada um dos prêmios que ganhou.

    Detalhe bobo: o ator que faz o Luke, parece que ele tem QI de um gênio, tipo aqueles que vai pra faculdade quando deveria estar indo para o ensino médio. E justo ele fazer este menino bobão faz ficar ainda mais divertido..

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