À Borda da Morte / The Proud Ones

[rating;3]

The Proud Ones, no Brasil À Borda da Morte, de 1956, é um western que tem elementos que fazem lembrar Matar ou Morrer/High Noon (1952), de Fred Zinnemann, e outros que remetem a Onde Começa o Inferno/Rio Bravo (1959) e El Dorado (1966), de Howard Hawks.

Não tem a grandeza desses aí, que são grandes westerns, em especial High Noon, que é um dos maiores de todos. Mas é um bom filme, uma produção bem cuidada da 20th Century Fox, com fotografia e trilha sonora de profissionais do primeiro time – Lucien Ballard e Lionel Newman, respectivamente –, e um sólido elenco, com Robert Ryan como o protagonista da trama, o xerife Cass Silver, um sujeito seriamente dedicado a lutar pela lei e a ordem num lugar e num tempo em que não havia muito espaço para lei e ordem.

Nunca tinha ouvido falar no diretor, Robert D. Webb. Pelo que demonstra aqui, é um realizador correto; nada excepcional, mas correto.

Há dois pontos bem interessantes na trama – o roteiro é de Edmund North e Joseph Petracca, com base em romance de Verne Athanas. Um deles: exatamente quando mais precisa estar firme, forte, para enfrentar o velho inimigo que veio se instalar justamente na sua cidade, o herói, o xerife Cass Silver, percebe que está com um grave problema de saúde. Nos momentos de tensão, sente tontura, dificuldade de se movimentar e – pior ainda – uma grande incapacidade de enxergar direito.

O xerife Cass Silver vai consultar o médico da cidade, o dr. Barlow (Edward Platt) – e é duramente aconselhado a descansar, evitar todo tipo de preocupação, e procurar o melhor hospital da cidade importante mais próxima, Kansas City.

Não é uma situação comum nos westerns mais tradicionais que o herói esteja enfrentando problema sério de saúde.

O outro ponto bastante interessante na trama: a inflação.

Gosto de westerns, sempre gostei. Não sou propriamente um especialista, mas conheço alguma coisa. Não me lembro de outro western em que a inflação seja um elemento importante.

Um empresário desonesto monta um saloon

A cidade em que a ação se passa é Flat Rock, no Kansas. Não há referência alguma à época, mas é seguramente alguns anos depois do final da Guerra Civil (1861-1865). É bem provável que seja mais para o fim do século XIX, ali por 1880 ou um pouco mais.

Antes uma cidade um tanto pacata, Flat Rock está, quando a narrativa começa, num momento de grande crescimento. Gado do Texas começa a chegar à região, muitos forasteiros vêm junto. Entre eles está John Barrett (Robert Middleton), um rico empresário que chega para montar um grande saloon na cidade, com jogadores e crupiês desonestos, trapaceiros.

O Oeste é gigantesco, é um território que não acaba nunca – mas, nos westerns, o Oeste é como uma cidadezinha do interior: todo mundo se conhece, todo mundo sabe de tudo sobre os outros, as notícias se espalham com a rapidez de um raio. Tanto Cass Silver quanto John Barrett quanto também Sally, o female interest da história (o papel de Virginia Mayo) eram velhos conhecidos. Haviam vivido durante algum tempo em uma outra cidade, Keystone. Alguns anos antes, Cass Silver e Sally haviam saído de Keystone e se radicado em Flat Rock. Tinham se dado bem na cidade, eram benquistos por todos – Cass era respeitado como um bom xerife, Sally tinha um restaurante-pensão.

Desentendimento, problema, rixa com John Barrett havia sido o motivo para os dois deixarem Keystone para procurar novo lugar para se instalarem.

E eis que agora, bem no começo da narrativa, John Barrett chega a Flat Rock, junto com tantos outros forasteiros, vindos com o gado, com o crescimento econômico da região.

Entre os forasteiros que chegam com o gado está um rapaz chamado Thad – o papel de Jeffrey Hunter, o rapagão de belos olhos claros que, naquele mesmo ano de 1956, fez um dos personagens principais de um dos maiores westerns da História, Rastros de Ódio/The Searchers, do mestre dos mestres John Ford.

Thad vem com o gado do Texas – e resolve ficar em Flat Rock.

Como o Oeste, apesar de gigantesco, imenso, é como uma cidadezinha provinciana em que todos se conhecem, veremos que o pai de Thad havia sido morto por Cass Silver. Cass explica para ele que o pai era um pistoleiro que trabalhava para John Barrett, e os dois se enfrentaram num duelo – ou seja, não foi um crime, não foi um assassinato pelas costas.

A princípio, Thad vai enfrentar o xerife – mas, como o tempo, acaba acreditando no que ele diz, e vai até mesmo aceitar a oferta de Cass e trabalhar como assistente dele.

Cass tinha já dois assistentes, Jake e Jim. Os dois são interpretados por atores bastante conhecidos, Walter Brennan e Arthur O’Connell. A coincidência fantástica é que Walter Brennan interpretaria, três anos depois deste filme aqui, um outro assistente de xerife que enfrenta uma perigosa quadrilha, em Onde Começa o Inferno/Rio Bravo, o clássico de Howard Hawks.

Aproveito então para explicitar o ponto em que este À Borda da Morte/The Proud Ones se aproxima de Onde Começa o Inferno e de seu primo-irmão El Dorado. Nos três filmes, um xerife correto, digno, prende na sua delegacia comparsas de um chefe de quadrilha poderoso – e enfrenta a perigo de um bando armado aparecer para soltar os prisioneiros.

Os poderosos da cidade ficam contra o xerife

A chegada de vaqueiros trazendo rebanhos do Texas, mais a vinda desse desonesto John Barrett, que monta ali um centro de jogatina que atrairá mais e mais gente, tudo isso vai provocando rápidas mudanças em Flat Rock. Todo o comércio, todo o setor de serviços passa a ter mais fregueses, mais procura. O restaurante-pensão de Sally começa a ficar cheio. Sally é uma pessoa íntegra, correta – afinal, é a mocinha, a noiva do mocinho. Mas os demais comerciantes, o dono do armazém, o barbeiro da cidade, todos começam a aumentar seus preços. O filme nos mostra os caras mudando os preços dos bens e dos serviços – em geral para o dobro do preço anterior.

Um bangue-bangue que mostra um momento de explosão inflacionária!

Colocados diante de uma rixa dura, uma guerra entre o xerife honesto e o dono do saloon-cassino, os comerciantes da pequena cidade não têm muita dúvida: ficam do lado do sujeito que é mais próximo deles, o empresário.

E é aí que este À Borda da Morte se aproxima de Matar ou Morrer/High Noon, aquela obra-prima: como o xerife Will Kane interpretado por Gary Cooper, este Cass Silver feito por Robert Ryan de repente se vê sozinho na luta contra um bandido poderoso. Sem o apoio da comunidade para a qual trabalhou por anos.

As frases que os roteiristas Edmund North e Joseph Petracca escreveram para Cass Silver-Robert Ryan jogar na cara daqueles sujeitos da elite econômica da cidadezinha são uma maravilha.

Depois que o Conselho de empresários pede a Cass que deixe o cargo de xerife, Sam Bolton, o dono do armazém da cidade, diz: – “Espero que você não entenda isso como algo pessoal contra você, Cass”.

A resposta:

– Não, Sam, não entendo. Entendo como algo pessoal contra vocês – todos vocês! No momento em que vocês sentiram o cheiro de dinheiro, essa cidade teve um ataque de imoralidade. Não é culpa do Barrett; é culpa de vocês. Vocês deveriam ser respeitáveis. Vocês falam de lei e ordem, mas vocês se venderiam por uma moeda de cobre – qualquer um de vocês. Vocês estão roubando da mesma maneira que ele, com suas botas de 50 dólares e seus quartos de hotel de 12 dólares. Se eu estivesse nesse Conselho, não poderia me olhar no espelho sem vomitar.”

       “Um elenco brilhante para um western sólido”

O guia de Steven H. Scheur dá 3 estrelas em 4 para o filme: “Bom western sobre xerife de arma em punho e os homens que tentam ir contra a lei”.

O Guide des Films de Jean Tulard diz o seguinte sobre Le Shérif, como os distribuidores franceses chamaram The Proud Ones: “O xerife é Robert Ryan, excelente, e seu jovem adversário, Jeffrey Hunter. Um elenco brilhante para um western sólido.”

De fato, esse é o adjetivo perfeito para The Proud Ones: sólido. É exatamente como o define o livro The Films of 20th Century Fox: “Um sólido western, com uma boa atuação de Ryan como o xerife intransigente.”

Anotação em novembro de 2020

À Borda da Morte/The Proud Ones

De Robert D. Webb, EUA, 1956

Com Robert Ryan (xerife Cass Silver)

e Jeffrey Hunter (Thad), Virginia Mayo (Sally), Robert Middleton (John Barrett), Walter Brennan (Jake, assistente do xerife), Arthur O’Connell (Jim Dexter, assistente do xerife), Ken Clark (Pike, pistoleiro de Barrett), Rodolfo Acosta (Chico, pistoleiro de Barrett), George Mathews (Dillon, gerente do saloon de Barrett), Fay Roope (Markham), Edward Platt (Dr. Barlow), Whit Bissell (Mr. Bolton), Paul E. Burns (Billy Smith, o bêbado da cidade), Richard Deacon (o barbeiro), Frank Gerstle (Tim, o homem do bar), Lois Ray (Belle), Jack Low (guarda), Harrison Lewis (o editor do jornal)

Roteiro Edmund North, Joseph Petracca

Baseado em romance de Verne Athanas

Música Lionel Newman

Fotografia Lucien Ballard

Montagem Hugh S. Fowler

Direção de arte Lyle Wheeler, Leland Fuller

Figurinos Travilla

Produção Robert L. Jacks, 20th Century Fox. DVD

Cor, 94 min (1h34)

Disponível em DVD.

***

Título na França: Le Shérif. Em Portugal: Homens Sem Medo.

 

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *