Entre Facas e Segredos / Knives Out

Nota: ★★★½

Knives Out, no Brasil Entre Facas e Segredos, produção americana de 2019, ganhou 45 prêmios, fora outras 94 indicações. Entre as indicações estão duas respeitabilíssimas – ao Oscar e ao Bafta de melhor roteiro original. O filme não levou nenhum dos dois prêmios, mas a história, a trama, o roteiro – tudo da autoria de Rian Johnson, também o diretor do filme – é uma absoluta maravilha.

É um thriller, uma história de crime e mistério, um whodunit, quem é que fez? quem é que matou? – embora a Polícia esteja absolutamente convencida desde o início de que não houve crime, e sim um suicídio.

Assim numa segunda leitura, como diriam os críticos de cinema, é um whodunit que é ao mesmo tempo uma homenagem a Agatha Christie e uma brincadeira com o estilo dela, a forma com que ela criava seus romances.

É um thriller, uma história de crime e mistério, que é também uma homenagem a uma escritora – e é uma comédia!

Creio que a segunda melhor qualidade de Knives Out – depois do brilhantismo da trama em si – é o tom com que o criador e diretor Rian Johnson conta sua história.

O tom. O jeito, a maneira, a forma. O clima.

É uma comédia – mas não é uma comédia daquelas de o espectador dar gargalhadas. Não, não, de forma alguma. Há uns dois ou três momentos, espalhados ao longo dos 130 minutos do filme, em que a gente pode até soltar uma gargalhada – mas este não é, de forma alguma, um filme feito para o espectador gargalhar.

O humor é sutil. Suave. Nada escancarado.

Me ocorreu, enquanto via o filme, que era um humor britânico, bem do jeito que é o humor no país de Agatha Christie – embora o filme seja absolutamente americano, de autor e diretor americano.

Verdade que tem em um dos principais papéis um inglês, Daniel Craig. E Daniel Craig está esquisito, falando com uma voz absolutamente empostada e falsa, num raio de sotaque que eu não consegui distinguir.

Um filme americano, americaníssimo, que faz o elogio da escritora inglesa, tem como protagonista um ator inglês falando de um jeito esquisitérrimo, e tem um humor absolutamente britânico.

Um whodunit que não é sério, pesado, denso – mas, ao mesmo tempo, faz uma dura crítica à ganância, à ambição, à avareza. E, do fundo do negror da era Donald Trump, a era do ódio aos imigrantes, a rigor do ódio a tudo o que não é branco, anglo-saxão, protestante, é um filme que faz o elogio à personagem que é imigrante latino-americana.

Knives Out é brincalhão mas fala de coisas sérias.

No centro do grande elenco está Ana de Armas

É uma trama de muitos personagens – e o filme tem um monte de bons atores. Christopher Plummer, Jamie Lee Curtis, Toni Collette, Michael Shannon, Don Johnson, uma participação especial de Frank Oz. (A foto acima, com todo o elenco reunido, não é cena do filme – é posada, para publicidade. Os realizadores fizeram diversas desse tipo.)

Os que mais aparecem na tela são Daniel Craig, esse bom ator que vem sendo um elogiado Bond, James Bond, nos filmes mais recentes da franquia, e Ana de Armas.

Quem mesmo?

Pois é. Ana de Armas (na foto abaixo).

Até outro dia mesmo jamais tinha ouvido falar em Ana de Armas.

Tudo bem: admito que é um problema meu. Não sou um cinéfilo assim propriamente up-to-date; sempre fui, para tudo, filmes, música, muito mais pré-antigo do que up-to-date, e então só vim a ver Ana de Armas pela primeira vez algumas semanas atrás, em Wasp Network: Rede de Espiões/Wasp Network (2019), o filme sobre os espiões cubanos que agiam nos Estados Unidos para impedir atos terroristas contra Cuba.

Ana de Armas, nascida em Cuba em 1988, estudou na Escola Nacional de Teatro de La Habana, entre os 14 e os 18 anos de idade. Mudou-se para a Espanha, e depois para o Império Capitalista Decadente –  e, diabo, com a beleza e o talento que tem, o céu é o limite.

Ela faz o papel de Marta Cabrera, uma jovem enfermeira, filha de imigrante latino-americana ilegal, que cuida do velho milionário escritor de livros de mistérios Harlan Thrombey (o papel do grande Christopher Plummer).

A princípio, todos na família de Harlan gostam muito de Marta. Ela trata bem o velhinho, o velhinho se sente muito bem com ela.

E aqui vem o que para mim é a melhor piada e uma das coisas mais sérias do filme.

Marta-Ana de Armas fala um inglês-americano perfeito. Não tem sotaque carregado de cucaracha. Mas é uma latina, como eles dizem.

Um parente de Harlan diz que que ela equatoriana. Outro diz que ela é do Paraguai. Outro que é do Uruguai. Outro ainda diz que ela é brasileira.

Que absoluta maravilha!

De forma brincalhona, até mesmo engraçada, Knives Out denuncia o horroroso etnocentrismo do americano médio – essa coisa absurda que mistura a sensação de ser o umbigo do mundo com a total ignorância sobre tudo o que acontece fora das fronteiras do Império.

E ao mesmo tempo já desmascara a hipocrisia dos membros da família. Todos dizem gostar muito de Marta, mas a rigor não sabem coisa alguma sobre ela. E vão passar a odiá-la furiosamente, a partir de lá pela metade do filme.

Uma trama de dar inveja a Agatha Christie

Creio que Agatha Christie ficaria com inveja de Rian Johnson. Eu, se fosse escritor de livros de mistério, ficaria.

O filme abre com uma tomada de uma casa gigantesca, sozinha no meio do campo. Os violinos da trilha sonora, logo na primeira tomada, são um tanto brincalhões, e assim já antecipam o tom de ironia, um tanto de farsa.

Não é dito claramente onde se situa a mansão de Harlan Thrombey, mas nos créditos finais há referência a Norfolk, Virginia. A rigor, não importa muito o lugar. O que importa é que é uma mansão isolada, no campo – e parece uma daquelas propriedades do campo inglês em que acontecem crimes nas histórias de Agatha Christie.

Lá pelas tantas, alguém dirá que a mansão de Harlan Thrombey é idêntica ao tabuleiro do jogo… Não peguei o nome em inglês, mas é um jogo como o nosso “Detetive”, em que temos que concluir em que aposento o crime foi cometido, com que tipo de arma.

Agatha Christie pura.

Uma criada sobe as escadas da mansão levando uma bandeja de café da manhã. Ela se chama – veremos depois – Fran (Edi Patterson). No segundo andar, entra no quarto principal, mas a cama está intacta, não mexida. Fran sobe mais um andar, até o escritório de Harlan Thrombey, o autor de todos aqueles livros focalizados pela câmara que seguia os movimentos da criada com a bandeja de café da manhã.

Fran abre a porta do escritório – e dá um berro, e deixa cair o que havia na bandeja do café da manhã. Harlan Thrombey está deitado no sofá bem no fundo do escritório. Há um gigantesco corte em seu pescoço – e muito sangue derramado.

Um bando de parentes ávidos pela herança do patriarca

Surge aí um letreiro. “Uma semana depois do passamento de Harlan Thrombey”.

No que é a segunda sequência do filme, logo após o letreiro, vemos Marta-Ana de Armas acordando de um sono nada tranquilo. A enfermeira está bem mal, sete dias depois da morte brutal do homem de quem cuidava.

Naquela manhã, Marta recebe o telefonema de um dos filhos de Harlan: ela precisa ir até a casa, porque a polícia quer reunir todo mundo e fazer perguntas novamente.

É tudo muito bem feito – bem bolado, bem escrito, bem encenado.

Dois policiais – o tenente Elliott (LaKeith Stanfield) e seu auxiliar Wagner (Noah Segan), vão interrogando, um a um, os membros da família de Harlan Thrombey. Todos eles haviam estado presentes, uma semana atrás, naquela casa, para comemorar o aniversário de 85 anos do patriarca. Na manhã seguinte ao dia da festa foi que a empregada Fran encontrou o corpo dele no escritório, a garganta cortada.

O tenente Elliott vai interrogando os parentes do velho escritor mais ou menos do jeito com que Hercule Poirot interrogava os possíveis suspeitos nos livros de Agatha Christie. Ele fica sentado a uma mesa, com seu bloco de anotações, seu auxiliar atrás dele, na grande sala da mansão em que há uma gigantesca escultura formada por facas, facões, espadas, em torno de uma circunferência. Coisa típica de um escritor de livros de mistério – um dos quais tinha o título de Mil Facas.

A cada vez que um parente da família dá seu depoimento, surge na tela, grandão, o nome dele.

É quase uma coisa didática, um jeito de ajudar o espectador a entender quem é quem.

Quase – porque, rapidamente, vamos percebendo que o depoimento de um parente contradiz o de outro.

Mario Monicelli, o gênio da comédia, fez em 1992 Parenti Serpenti, uma terrível sátira sobre a vida em família. Esse jovem Rian Johnson, nascido em Maryland em 1973, que não tenho idéia se sabe quem foi Mario Monicelli, cria situações que o mestre italiano aplaudiria de pé como na ópera.

Os testemunhos vão mostrando que o que era aparentemente uma bela família feliz na verdade é um ninho de cobras venenosíssimas. Parenti serpenti.

Cada um está interessado em ter a melhor colocação na herança do patriarca, o sujeito que criou uma imensa fortuna ao escrever um grande número de livros que foram traduzidos para 30 línguas e venderam 80 milhões de cópias ao redor do mundo.

Todos os parentes mentem em seus depoimentos

Enquanto o tenente Elliott vai interrogando novamente os diversos membros da família do escritor morto, vamos vendo pouco a pouco que há, ao fundo, bem atrás do policial e de seu assistente Wagner, uma figura sentada. Demora um pouquinho para a câmara o focalizar de perto, para que ele enfim apareça. É o detetive particular Benoit Blanc – o papel de Daniel Craig. Benoit Blanc – um nome francês, assim como o do belga Hercule Poirot.

Benoit Blanc tem coisas de Hercule Poirot, sem dúvida alguma. Como seu colega mais antigo, é um detetive famosíssimo. Alguns parentes que estão ali sendo interrogados o conheciam de nome, tinham lido sobre ele em revistas como a New Yorker. Como seu colega belga, é cheio de tiques, de manias – e se tem na mais alta consideração que é possível um ser humano ter de si mesmo. Um ego do tamanho de um elefante.

Quando o filme está ali com uns 20 dos seus 130 minutos, e os parentes do morto já deram seus depoimentos, várias coisas já ficaram claras para o espectador. Primeiro: foi para que Benoit Blanc pudesse ouvir as versões dos familiares para os eventos da noite do aniversário de 85 anos de Harlan Thrombey que o tenente Elliott pediu aquela reunião, aquele segundo interrogatório.

Segundo ponto: até então, a polícia estava absolutamente certa de que Harlan havia se matado. Mas o tenente Elliott não queria, é claro, se recusar a oferecer ao detetive famosérrimo a oportunidade de fazer a investigação dele.

Terceiro ponto: Benoit Blanc estava investigando a história porque alguém – uma pessoa que não havia se identificado – havia pedido que ele fizesse isso, mediante o pagamento de uma vultosa soma, paga em dinheiro vivo. O próprio detetive havia ficado intrigadíssimo com aquilo. Não tinha a menor idéia de quem havia pago a ele para investigar aquele caso que a polícia considerava resolvido, um caso de suicídio.

Quarto ponto: todos os membros da família mentiam nos seus depoimentos, escondiam fatos.

Quinto ponto: a enfermeira Marta sofria de uma interessante síndrome. Não conseguia mentir. Se tentasse contar uma mentira, não tinha jeito, era inevitável: vomitava na hora.

O velho escritor tivera três filhos

Não há spoiler algum nisso que relatei. Tudo isso é mostrado, repito, nos primeiros 20 dos 130 minutos do filme.

Falta apresentar os parentes de Harlan Thrombley.

O velho escritor era viúvo, e havia tido três filhos: Linda, a mais velha, Neil, o do meio, e Walt, o caçula.

Linda (o papel de Jamie Lee Curtis, na foto abaixo) era casada com Richard (Don Johnson); com o dinheiro do pai, tinha aberto uma empresa do ramo imobiliário, que ela e o marido administravam. O casal tinha um filho, Ranson (Chris Evans), sujeito aí já de uns 30 anos que não fazia coisa alguma na vida. O avô gostava dele e o sustentava.

Neil, o filho do meio, havia morrido uns 15 anos antes; a mulher dele, Joni (o papel de Toni Collette), havia se mantido sempre próxima do resto da família. Mexia com algo parecido com terapias exóticas. A filha dela e de Neil, Meg (Katherine Langford), de uns 19 anos, estava na faculdade, mensalidades pagas pelo avô rico.

Walt (o papel de Michael Shannon) cuidava da editora que publicava os livros de Harlan. Era casado com Donna (Riki Lindhome) e tinha um filho de uns 16 anos, Jacob (Jaeden Martell), que vivia nas redes sociais o tempo todo. Segundo o pai, Jacob era “politicamente muito ativo”. Segundo o tio Richard e a prima Meg, era um fascista, um racista, um idiota.

E havia também Wanetta, a mãe do velho Harlan. Ninguém sabia a idade da mãe do velho de 85 anos. Sabia-se que era um tanto gagá – mas não muito, como se verá no desenrolar da história.

Vários flashbacks vão mostrar para o espectador fatos acontecidos na festa do aniversário de Harlan – até o momento de sua morte.

Um monte de coincidências, citações…

Além de ter ganho 45 prêmios, fora outras 94 indicações, inclusive uma ao Oscar de melhor roteiro original, como já foi dito, Knives Out foi um belo sucesso de público. Custou cerca de US$ 40 milhões – um orçamento não exorbitante, para um filme americano com tantos atores famosos. E rendeu bem: US$ 165 milhões só no mercado doméstico, US$ 309 milhões no total.

Mais ainda do que amealhar prêmios e ter sucesso na bilheteria, o filme, tudo indica, vem se transformando em cult.

Um detalhe que demonstra que o filme tem conquistado adoradores fanáticos é a página dele de Trivia no IMDb. Em agosto de 2020, o mês em que vi o filme e estou fazendo esta anotação, a página tinha mais de 130 itens – curiosidades, fofocas, coincidências.

O filme é todo cheio de detalhinhos que remetem a isso, a aquilo, aquilo outro – essa coisa que faz a cabeça de muitos cinéfilos.

Por exemplo: não é nada gratuito o fato de Harlan estar comemorando 85 anos pouco antes de morrer. Agatha Christie morreu com 85 anos – e o filme, como já foi dito, é uma homenagem à escritora inglesa.

Outro exemplo: por toda a mansão de Harlan há esculturas, imagens, vitrais que mostram cenas da vida cotidiana em que em vez de pessoas há esqueletos. O IMDb fala em “memento mori” – um “motif” que pode ser traduzido como “lembre-se de que você é mortal”, e foi muito popular na Inglaterra vitoriana.

Um dos 133 itens de Trivia do IMDb satisfez minha curiosidade sobre que raio de pronúncia é aquela usada por Daniel Craig. Segundo o site, para criar o jeito de falar de Benoit Blanc, o ator copiou o escritor e historiador sulista Shelby Foote, (1916-2005), que nasceu no interiorzão do Mississipi.

Ajuda muito um filme a virar cult o fato de que haver nele, ou relacionadas a ele, informações que não têm importância alguma – curiosidades, bobagens, inutilidades. Tipo: tanto “Knives Out”, o título original, quanto o título usado inicialmente, ainda na época de pré-produção, “Morning Bell”, são nomes de canções do álbum Amnesiac, da banda de rock inglesa Radiohead, lançado em 2001.

Referências a música pop, ao rock, sempre são bem-vindas. Então temos que o autor e diretor Rian Johnson escolheu para vários dos personagens nomes de músicos. Walt e Dona vieram de integrantes da banda Steely Dan. Joni é por causa de Joni Mitchell, e o marido dela, já morto, Neil, vem de Neil Young. Linda e Richard são por causa de Linda e Richard Thompson, que este fã de pop e rock aqui não tem a menor idéia de quem sejam.

Coincidências, detalhinhos que unem isso àquilo, também são importantes para um filme se transformar em cult. Então temos o seguinte: quem dá voz ao detetive que fala numa série de TV que a irmã de Marta assiste é o ator Joseph Gordon-Levitt. Que, por coincidência, trabalhou em cinco dos filmes dirigidos por Rian Johnson.

Knives Out é uma delícia de filme.

Anotação em agosto de 2020

Entre Facas e Segredos/Knives Out

De Rian Johnson, EUA, 2019

Com Daniel Craig (Benoit Blanc, o detetive),

Ana de Armas (Marta Cabrera, a enfermeira),

Christopher Plummer (Harlan Thrombey, o velho escritor), Jamie Lee Curtis (Linda Drysdale, filha de Harlan), Michael Shannon (Walt Thrombey, filho de Harlan), Toni Collette (Joni Thrombey, nora de Harlan), Don Johnson (Richard Drysdale, o marido de Linda), Chris Evans (Ransom Drysdale, o filho de Linda e Richard), Katherine Langford (Meg Thrombey, filha de Joni), Riki Lindhome (Donna Thrombey, a mulher de Walt), Jaeden Martell (Jacob Thrombey, o filho de Walt e Donna), K Callan (Greatnana Wanetta, a mãe de Harlan), Edi Patterson (Fran, a empregada), LaKeith Stanfield (tenente Elliott), Noah Segan (policial Wagner), Marlene Forte (a mãe de Marta), Shyrley Rodriguez (Alicia)

e, em participações especiais, Frank Oz (Alan Stevens, o advogado com o testamento), M. Emmet Walsh (Mr. Proofroc, o velho segurança)

Argumento e roteiro Rian Johnson

Fotografia Steve Yedlin

Música Nathan Johnson

Montagem Bob Ducsay

Casting Mary Vernieu

Produção Lionsgate, Media Rights Capital (MRC), T-Street.

Cor, 130 min (2h10)

Disponível no Now em agosto de 2020

***1/2

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