Desonrada / Dishonored

Nota: ★☆☆☆

Na primeira sequência de Desonrada, de 1931, Marlene Dietrich levanta a saia até um pouquinho acima do joelho direito, e dá uma acertadinha na liga que segura a meia de nylon em sua coxa – uma das duas coxas que ela havia mostrado amplamente um ano antes em várias, várias sequências de O Anjo Azul, o filme que a havia transformado em grande estrela e fez com que Hollywood a importasse.

Ao longo dos 91 minutos de Desonrada, Marlene exibe as pernas e o iniciozinho das coxas por diversas, diversas, diversas vezes. Senta-se em cima de lugares altos, como braços de poltronas, mesas, e cruza as pernas. Tretou, relou, ela cruza as pernas, exibe por dois milésimos de segundo o iniciozinho das coxas.

Nada contra as coxas de Marlene Dietrich, pelamordeDeus! Muito antes ao contrário: as coxas de Marlene Dietrich, as pernas de Marlene Dietrich são das coisas mais belas que o cinema já mostrou, nestes 120 e tantos anos de sua história.

Só acho que Marlene tem outros atributos além das pernas, das coxas maravilhosas. E a verdade é que, ao ver agora Desonrada, fiquei um tanto chocado com a insistência com que o incensadíssimo Josef von Sternberg fez Marlene mostrar ou fingir que mostrava suas coxas.

Nada a ver com moralismo, não, tá? De forma alguma.

Mas me pareceu uma coisa um tanto chegada numa baixaria.

Não me pareceu uma coisa elegante.

E, Deus meu, como Marlene é elegante! E linda, e maravilhosa, esplendorosa.

Marlene é um daqueles seres que souberam fascinar as câmaras de filmar – aqueles por quem as câmaras se derretiam, se desfaziam, se jogavam no chão, aos pés.

E, sim, há em Desonrada muitas, várias, diversas belas tomadas do corpo inteiro de Marlene, do rosto de Marlene, que são lindas, maravilhosas, esplendorosas.

Sem dúvida alguma: Josef von Sternberg sabia – como ninguém mais – a melhor forma de iluminar o rosto de Marlene.

A luz, a iluminação, a forma com que von Sternberg sabia fotografar seu rosto é um tema central da saborosa, bem escrita, cheia de graça, inteligência, ironia autobiografia da estrela. Ela fala longamente sobre isso.

Mas é preciso dizer: Marlene, o rosto de Marlene iluminado por von Sternberg, o corpo inteiro de Marlene, as pernas de Marlene – isso não é apenas o melhor de Desonrada. É a única qualidade do filme.

Eta filmezinho ruim, siô!

E já vou logo transcrevendo o início do texto de Pauline Kael sobre o filme. Pauline Kael é uma chata de galocha, fala mal de tudo, mas escreve bem demais, e, muitas vezes, acerta no alvo.

“O mais chato dos filmes de Marlene Dietrich dirigidos por Josef von Sternberg. Ele escreveu a história (o que foi um erro), e então o roteiro foi preparado por Daniel Rubin (outro erro).”

Num átimo, a prostituta vira espiã

O adjetivo que Dame Kael usa é dull: “The dullest of the Marlene Dietrich films directed by Josef von Sternberg”. Usei “chato”, mas dull é também entediante, enjoativo, nojento.

O cara sabia fotografar – mas criar história parece que de fato não era com ele.

É mais ou menos assim:

Em Viena, em 1915, o chefe do serviço secreto do Império Austríaco (o papel de Gustav von Seyffertitz) presencia a retirada por equipe de socorro do corpo de uma prostituta que havia se suicidado. Uma outra “mulher da rua”, como ela seria depois definida, fala, diante da cena, algumas frases que impressionam o militar. Ele se aproxima dela sem se identificar, e, em questão de segundos, percebe que é uma patriota das melhores, que o inimigo não conseguiria jamais comprar – e logo a contrata como espiã, com o nome de X-27.

A primeira missão de X-27 é ficar de olho no general Von Hindau (Warner Oland), um militar de altíssima patente no Exército da Áustria, mas que o chefe do serviço secreto crê que trabalha para o inimigo, os russos.

X-27 em dois palitos descobre o que o serviço secreto não havia conseguido ao longo de muito tempo: sim, o general Von Hindau é mesmo um traidor, vendidão aos russos.

O russo para quem o traidor passava os segredos da Áustria vai se revelar como o coronel Kranau – o papel de Victor McLaglen, 21 anos de interpretar o gigantesco Will Danaher, o sujeito que luta durante um tempão com Sean Thornton-John Wayne no maravilhoso Depois do Vendaval/The Quiet Man (1952), de John Ford.

Grandalhão, o coronel Kranau-Victor McLaglen vai carregar X-27-Marlene Dietrich no colo umas três vezes, ao longo do filme.

E aí então…

Vem aí um spoiler.

         Atenção: spoiler. Quem quiser ver o filme, pare por aqui!  

Detesto dar spoiler. O eventual leitor que eventualmente quiser ver Desonrada não deveria ler o que vem a seguir. Mas dou o spoiler porque a verdade é que eu aconselharia o eventual leitor a não perder tempo com este filme ruim…

A X-27 vai se desonrar – como já avisa o título.

Não por dinheiro. Não, não, nada disso. Por amor.

Confesso que fiquei um tanto atordoado com o fato de Josef von Sternberg ter escolhido focalizar sua história na Áustria de 1915.

O então Império Áustro-Húngaro era aliado da Alemanha e do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Era, sem dúvida alguma, mas de fato sem dúvida possível alguma, o lado errado da guerra. Do outro lado estava a civilização – Inglaterra, França, Rússia, e depois também Canadá, Estados Unidos.

Por que raios fazer um filme nos Estados Unidos em que o país da protagonista é um dos que lutaram contra o resto do mundo, contra a civilização, na Primeira Guerra?

Fiz para mim mesmo essas perguntas, mas isso não tem importância, é coisa pessoal

O importante é que o filme é uma porcaria. A história é fraca, ruim, horrorosa. Os personagens não são nada, nada bem construídos – muito ao contrário.

Há momentos que ultrapassam, e muito, mas muito demais da conta, os limites do absurdo, do grotesco. Toda a sequência em que X-27-Marlene Dietrich finge que é uma camponesa russa e faz caretas horrorosas enquanto brinca com um militar para conseguir segredos dele é de fazer o coitado do espectador ficar morrendo de vergonha.

Ultrapassa a faixa do grotesco, igualmente, o fato de que, mesmo com o passar do tempo, e a guerra ir se aproximando mais do fim, a riqueza, a elegância, a tranquilidade dos altos comandos de Viena continue intacta.

A guerra vai sendo vencida pelos Aliados, os Impérios Centrais vão sendo derrotados – mas, na fantasia de Josef von Sternberg, nada, absolutamente nada, mudava no fausto austríaco.

O segundo dos sete filmes de von Sternberg com Marlene

Esta porcaria foi o segundo filme americano de Marlene Dietrich. O terceiro em que ela foi dirigida por von Sternberg.

O Anjo Azul, o primeiro dos sete que fizeram juntos, é de 1930. Naquele mesmo ano, Marlene e von Sternberg radicaram-se em Los Angeles, e lançaram o primeiro filme americano da dupla, Marrocos. Um abacaxi azedo, na minha humilde opinião, mas tudo bem.

Consta que o principal papel masculino do filme, o do coronel russo Kranau, foi oferecido ao jovem e belo Gary Cooper, que havia trabalhado com o austríaco e a alemã em Marrocos. Jovem e belo, porém não bobo, Gary Cooper se recusou a trabalhar de novo sob a direção de von Sternberg.

Leonard Maltin deu 2.5 estrelas em 4 ao filme: “A sedutora Dietrich faz todo o possível em um roteiro ruim em que ela é a agente secreta X-27 durante a Primeira Guerra Mundial. Vale a pena ver para a sequência em que ela finge ser uma camponesa.”

Muito doidão o Maltin. Essa é a tal sequência que citei como muito abaixo da linha do grotesco.

Para a edição brasileira do livro de Pauline Kael 5001 Nights at the Movies, reduzido a 1001 Noites no Cinema, Sérgio Augusto deixou de fora Desonrada. O que me obriga a traduzir eu mesmo o texto da prima donna da cricrítica americana:

“O mais chato dos filmes de Marlene Dietrich dirigidos por Josef von Sternberg. Ele escreveu a história (o que foi um erro), e então o roteiro foi preparado por Daniel Rubin (outro erro). Dietrich interpreta uma ‘mulher das ruas’ a quem é dada a chance da redenção espiritual de servir a seu país; ela se transforma na glamourosa espião X-27, mas se apaixona por um agente inimigo (Victor McLaglen). McLaglen é de fato o erro imperdoável. Era para ele ser impetuoso, fogoso, mas falta a ele estilo e graça – é um bufão sorridente, com apelo sensual zero. Dietrich vai pelo seu repertório de provocações, abaixando suas pálpebras recatadamente e levantando-as divertidamente; ela é charmosa, mas está atuando o tempo todo. (Às vezes parece estar fazendo exercícios com os olhos.) Em algumas poucas sequências (especialmente aquelas em que faz o papel de uma camponesa trabalhando num hotel), parece que ela está realmente se divertindo, e, quando ela faz pose com um gato, ela está lustrosa, ainda muito jovem, bela (ela nasceu em 27 de dezembro de 1901); a máscara de distância e ausência de idade está começando a se formar. Sua galanteria irônica e especial – o jeito com que ela deixa o pelotão de fuzilamento esperando enquanto cuida de seu batom e retoca sua boca – é de fato a única diversão neste filme horrivelmente dirigido; as falas são tão rigidamente colocadas que parecem epigramas errados. Com Lew Cody, Gustav von Seyffertitz, Warner Oland, Barry Norton e, num papel menor, Bill Powell. (Cada um deles parece mais desejável que McLaglen.)”

Uau!

Pauline Kael, tenho dito e repetido muitas vezes, é uma chata de galocha. Mas é sem dúvida alguma o texto mais ferino do Oeste – e também do Leste.

Adoro falar mal de filme ruim. Mary volta e meia diz que minha maior diversão é essa, falar mal de filme ruim – e é por isso, diz ela, que vejo tanto filme ruim.

De fato gosto muito desse exercício, e me divirto muito.

Mas nem que eu vivesse 300 anos conseguiria falar mal de filme ruim tão bem quanto Pauline Kael…

Anotação em agosto de 2020

Desonrada/Dishonored

De Josef von Sternberg, EUA, 1931

Com Marlene Dietrich (Marie Kolverer, X-27)

e Victor McLaglen (coronel Kranau, o espião H-14 da Rússia), Lew Cody (coronel Kovrin), Gustav von Seyffertitz (o chefe do Serviço Secreto da Áustria), Warner Oland (general Von Hindau), Barry Norton (jovem tenente), Davison Clark (oficial), Wilfred Lucas (general Dymov), Bill Powell (gerente), George Irving (contato no café), Joseph Girard (oficial russo), Ethan Laidlaw (cabo russo), William B. Davidson (oficial do pelotão de fuzilamento), Buddy Roosevelt (oficial russo), Ruth Mayhew (vítima de acidente), Alexis Davidoff (oficial)

Roteiro Daniel N. Rubin

Baseado em história de Josef von Sternberg

Fotografia Lee Garmes

Música Karl Hajos e Josef von Sternberg

Direção de arte Hans Dreier

Figurinos Travis Banton

Produção Paramount Pictures. DVD Obras Primas, M.D.V.R.

P&B, 91 min

Disponível em DVD.

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Título na França: Agent X27. Em Portugal: Desonrada.

Um comentário para “Desonrada / Dishonored”

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