Cléo das 5 às 7 / Cléo de 5 à 7

Nota: ★★★★

Cléo das 5 às 7, que Agnès Varda lançou em 1962, é um dos filmes mais amados de várias gerações de gente apaixonada pelo cinema. É um encanto, uma maravilha que nos marcou, que está entre as nossas melhores lembranças da juventude.

Escrevo isso e fico quase em pânico: não estaria fazendo uma afirmação ousada, sem sólidas justificativas? O que falei tem lastro? É forçoso que eu tento comprovar a afirmação. Vamos ver.

O crítico e historiador Georges Sadoul, autor do célebre História do Cinema Mundial, nascido em 1904, chamou o filme de “um comovente poema de amor e morte”.

Pauline Kael, a prima donna da crítica americana, a crítica mais chata da História, da turma de 1919, elogiou Cleo from 5 to 7 (sem o acento, à l’Anglaise) e disse que nele Agnès Varda mantém um tom “que é quase único na História dos filmes”.

Em seu livro As Obras-Primas do Cinema, o crítico e historiador Claude Beylie, nascido em 1932, diz que Agnès Varda, com este filme, “se afirma como uma das autoras mais pessoais de sua geração”.

Jean Tulard dá em seu guia a cotação máxima de 4 estrelas, algo raríssimo. Tulard é da classe de 1933.

Roger Ebert, o crítico que amava os filmes e amava ver filmes, da classe de 1942, colocou Cléo na sua lista dos “grandes filmes”.

Leonard Maltin, o autor do guia de filmes mais vendido do mundo, no tempo em que se vendiam guias de filmes, da classe de 1950 – exatamente a minha – tem o maior respeito pelo filme.

Cléo está no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, editado por Steven Jay Schneider, um jovem da classe de 1974.

Sete exemplos. É, acho que minha afirmação lá na abertura do texto tem suporte.

Os 90 minutos antes de saber o que mostram os exames

A característica que mais me impressionou agora, ao rever o filme 52 anos depois da primeira vez, no Cine Plaza, em Curitiba, em 1967, foi como Varda conseguiu dar a mesma importância a conteúdo e forma. Tão importante quanto a história que está sendo contada é a forma pela qual ela está sendo contada.

Não é uma coisa formalista, em que a forma é mais importante, predominante. Não, não é isso. Há ali um perfeito equilíbrio entre os dois lados.

A história, a trama, o enredo, o entrecho – isso é ao mesmo tempo simples e difícil, duro, doloroso. O filme acompanha, em tempo real, cada minuto de história correspondendo a um minuto de filme, exatos 90 minutos da vida de Cléo, a partir das 5 horas da tarde de uma terça-feira em que ela, às 7 da noite, vai ligar para seu médico para saber o resultado de seus exames.

Teme que os exames mostrem que ela tem câncer. Às vezes mais que teme: tem certeza.

Uma trama simples – mas ao mesmo tempo difícil, dura, dolorosa: uma mulher jovem e bela aguarda o momento em que vai saber com certeza se ela está, de fato, condenada à morte.

Cléo – o papel mais importante da vida da linda Corinne Marchand, que naquele ano de 1962 estava com 25 aninhos – na certidão de nascimento é Florence, mas na prática, na vida, na verdade é Cléo, de Cleópatra. É assim que todas as pessoas que a conhecem a chamam. Cléo, que em francês, é óbvio, se pronuncia Cleô, como oxítona.

Cléo – vamos ficar sabendo rapidamente – é cantora de algum sucesso, tem discos gravados. É também – e isso vamos vendo ao longo dos 90 minutos de filme – uma jovem mimada, dondoca, bobinha, um tanto fútil, um tanto irresponsável, um tanto infantil. E de humor absolutamente instável. Num momento está alegre – apesar da tensão toda com o resultado dos exames. No momento seguinte está afundada na tristeza. Cléo quase parece o que na época se chamava de PMD, psicótica maníaca-depressiva, hoje suavizado para portadora de distúrbio bipolar.

– “A rainha do drama! Ela poderia ser feliz, mas necessita de cuidados. Ela é uma criança.”

É o que pensa Angèle, a bonne de Cléo, a empregada dela, acompanhante, cuidadora (o papel de Dominique Davray). O filme mostra para nós o que Angèle pensa, no momento em que a patroa volta da consulta a uma cartomante, e diz que as cartas mostraram que ela está doente.

– “Se for assim, vou me matar. Bem que eu poderia já estar morta”, Cléo diz, chorando e olhando-se no espelho do café onde Angèle ficou esperando por ela durante a consulta à cartomante. E então a câmara de Agnès Varda e seus diretores de fotografia mostra o rosto de Angèle em close-up, e ouvimos a voz dela dizendo o que ela está pensando. Que a patroa é a rainha do drama – uma criança!

E então Angèle – uma senhora criada no interior, boa pessoa, mas cheia de pequenas superstições – se levanta para consolar a patroa: – “Vamos, madame Cléo! Acalme-se…”

Uma obra de mulher, com toda a visão feminina

O filme começa na sessão de Cléo com a cartomante (interpretada por Loye Payen, uma atriz com um rosto bastante assustador). A cartomante está dispondo na mesa as cartas de tarô.

E o que ela vê não é bom. Cléo percebe isso no rosto da mulher. Pede para ela ler sua mão, e a cartomante pega a mão da bela jovem – mas diz a ela que não sabe ler mãos.

Assim que a cliente sai da sala dela, a cartomante abre uma porta que dá para o quarto em que está um homem, certamente o marido, e sentencia: – “Eu vi câncer. Ela está condenada”.

Cléo passa por uma sala de espera em que há várias pessoas, desce as escadas do prédio velho, decrépito, expressão de tristeza, angústia no belo rosto. Diante de um espelho no térreo, pára, se olha, se acha bonita – e sorri, feliz!

A americana Pauline Kael abriria seu texto sobre Cleo from 5 to 7 assim: “Um dos poucos filmes dirigidos por uma mulher em que o espectador pode notar a diferença.”

Nesta tomada em que Cléo, que saía angustiada da consulta com a cartomante, se vê no espelho e sorri para si mesma vai aí o que diz Pauline Kael. Cléo se vê no espelho e sorri. Sim, estamos começando a ver um filme que claramente, evidentemente, é uma obra feminina.

Num pequeno papel, o compositor Michel Legrand

Das 5 às 7, Cléo vai à cartomante, anda até o café em que está sua empregada Angèle. No caminho de casa, entra numa loja e compra um chapéu. Em casa, troca de roupa, recebe a visita de seu amante, um homem evidentemente rico, bem mais velho que ela (o papel de José Luis de Vilallonga, o ator espanhol que, um ano antes, em 1961, interpretou o brasileiro milionário em Bonequinha de Luxo).

É uma visita estranhamente rápida essa do amante mais velho.

Pouco depois, chegam os músicos, os compositores que trabalham criando canções para Cléo – Bill, o pianista e compositor, e Plumiff, o letrista. Os dois são alegres, brincalhões, e a sequência em que eles ficam na casa de Cléo é divertida, alegre. Mas, balançado sempre como um pêndulo, como uma criança em um balanço – e, aliás, há um balanço na casa dela, um ambiente muito amplo, que reúne as funções de sala e quarto, como num daqueles lofts nova-iorquinos –, após alguns minutos com os dois, Cléo fecha a cara e diz que quer sair, caminhar, passear.

O letrista Plumitif é interpretado por Serge Korber; Bob, o pianista, pelo pianista, compositor, regente Michel Legrand (na foto acima), também autor da trilha sonora do filme. O músico, que, pouco depois, comporia as trilhas para os dois musicais de Jacques Demy, o marido de Agnès Varda, Os Guarda-Chuvas do Amor/Les Parapluies de Cherbourg (1964) e Duas Garotas Românticas/Les Demoiselles de Rochefort (1967). Por uma dessas coincidências, revi Cléo poucos dias após a morte de Michel Legrand, aos 86 anos. É fantástico vê-lo tão jovem, tão jovial, tão belo, aos 30 anos de idade…

Um momento mágico: um filmete dentro do filme

Uma consulta com a cartomante, a compra de um chapéu, a visita do amante,a visita dos compositores – e Cléo volta à rua. Vai a um estúdio de artistas plásticos se encontrar com a amiga Dorothé (o papel de Dorothée Blanck), que posava nua ali. Saem as duas passeando no carro do namorado de Dorothé, Raoul (Raymond Cauchetier), e vão parar no cinema em que Raoul trabalha como projecionista.

Raoul está naquele momento começando a projetar um pequeno filmete mudo, bem no estilo do cinema mudo, com aqueles grandes letreiros reproduzindo as frases dos personagens.

É um momento mágico de Cléo este filme dentro do filme. Não é apenas um caco, uma coisa que não tem nada a ver e é enxertada na obra. Bem, em parte é um caco, um delicioso caco, mas tem tudo a ver com o drama que Cléo está atravessando naquelas duas horas entre as 5 e as 7 do dia em que ela ficará sabendo os resultados dos exames médicos.

No filmetinho que Agnès Varda criou e enxertou no meio de Cléo das 5 às 7, um homem passeia pelas margens do Sena. Ele coloca óculos escuros e a partir daí começa a ver tudo negro, tudo pessimista, negativo: sua namorada, que estava toda de branco, passa a se vestir toda de negro – e morre, no passeio ao lado das águas do Sena. Chega o camburão para recolher o corpo – mas aí o homem tira os óculos escuros e sua namorada está vivinha da silva, no seu vestido branco. E lemos a frase que ele exclama: – “Eu via tudo negro por causa dos meus óculos”.

O filmetinho imitando o cinema mudo já seria fascinante de qualquer forma, mesmo que aqueles papéis fossem interpretados por atores absolutamente desconhecidos. Mas é mais fascinante ainda, porque o homem que põe os óculos escuros é interpretado por Jean-Luc Godard; a namorada dela, pela namorada do cineasta na vida real, sua musa e atriz de vários de seus primeiros filmes, Anna Karina (os dois na foto abaixo); um enfermeiro é Jean-Claude Brialy, um dos maiores astros do cinema francês da época; o homem do rabecão é feito por outro grande ator, Sami Frey, e o motorista da ambulância, por Georges de Beauregard, que vem a ser o produtor de Cléo das 5 às 7. Como um vendedor de flores, aparece Yves Robert, o grande diretor de A Guerra dos Botões (1962) e Alexandre, o Felizardo (1968).

Especial cuidado com os detalhes e estilo documental

Depois desse filmetinho mudo, Cléo dá carona a Dorothée até perto da casa dela, num táxi dirigido por uma mulher (interpretada por Lucienne Marchand – não sei se há algum parentesco com Corinne Marchand).

E vai para um parque, onde, por mero acaso, encontra Antoine (o papel de Antoine Bourseiller), um militar que se prepara para embarcar para a Argélia então em guerra com a França – exatamente como Guy, o protagonista de Os Guarda-Chuvas do Amor, embarcaria para a Argélia, deixando inconsolável a jovem Geneviève.

Antoine convencerá Cléo a ir pessoalmente ao hospital para ouvir do seu médico, o doutor Valineau (Robert Postec), qual é, afinal, o resultado dos seus exames. E se dispõe a acompanhá-la.

É isso – essa é a história de Cléo das 5 às 7. Toda a história. Só deixei de fora os últimos minutos, em que ela afinal se encontra com o seu médico. Não teria sentido algum revelar aqui o final do filme – mas creio que não atrapalha nada ter relatado o que acontece na vida de Cléo entre as 5 e as 7. Não é spoiler; não atrapalha nada para quem ainda não viu o filme e vai querer ver.

É, como disse acima, uma história ao mesmo tempo simples e difícil, dura, dolorosa. Mas, repito de novo, o que importa não é apenas a história, mas a história e a maneira com que ela é contada.

Agnès Varda acompanha Cléo em 90 minutos importantes da vida dela com especial cuidado aos pequenos detalhes – o sorriso diante de um espelho, o choro diante de outro espelho, o momento de tirar a peruca e jogá-la fora, as mudanças de comportamento e de humor, a decisão de entrar numa loja para comprar um chapéu que não fazia falta alguma na sua vida que pode estar acabando…

Especial cuidado aos pequenos detalhes – e, ao mesmo tempo, um tom quase documental.

A maior parte dos 90 minutos do filme se passa ao ar livre, nas ruas. Por exemplo: quando Cléo sai da cartomante e caminha até o bar onde ficou Angèle, a empregada, a câmara a segue em tomadas longas, bem longas. Varda alterna tomadas mais fechadas, mais próximas de Corinne Marchand, com tomadas gerais, bem abertas, em que vemos Cléo como uma pedestre entre dezenas, centenas de pedestres.

Esse tipo de situação se repete ao longo de todo o filme.

E, nisso, nessa imensa quantidade de sequências na rua, ao ar livre, no meio das pessoas, do povão, Agnès Varda está sendo fiel ao estilo documentário, que ela cultivou ao longo de toda a carreira, e ao estilo da nouvelle vague, se é que se pode dizer que a nouvelle tem um estilo.

Filmagens nas ruas, longe dos estúdios

“A Nova Vaga nunca foi mais do que uma livre associação de realizadores que por acaso se reuniram numa época crítica”, afirmam Robert Ingran e Paul Duncan, na tradução para o português de Portugal de François Truffaut – A Filmografia Completa. “Nunca chegaram a constituir formalmente um movimento e nunca subscreveram abertamente nenhuma teoria organizada e coerente. No entanto, partilhavam vários valores e, pelo menos durante algum tempo, uma abordagem de realização cinematográfica. Influenciado pelos neo-realistas italianos, cujos filmes viram nos clubes de cinema, optaram por um novo estilo de realismo. Viraram a costas aos estúdios e foram filmar para as ruas, com luz natural, e quando se tornou possível, com som directo.”

Dois dos marcos iniciais da nouvelle vague foram Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups (1959), o primeiro longa-metragem de François Truffaut, e Acossado/À Bout de Souffle (1960), o primeiro longa-metragem de Jean-Luc Godard, sobre roteiro de Truffaut. Todos os dois filmes têm longas sequências longe dos estúdios, filmadas diretamente nas ruas – exatamente como preconizava o neo-realismo italiano, no qual os jovens franceses se inspiraram.

Há uma coincidência a mais aí: em Les Quatre-Cents Coups, exatamente como Varda faria em Cléo, há uma seqüência brincalhona, uma espécie de caco, uma historinha dentro da história: um homem de terno aparece numa noite em que o protagonista da história está andando nas ruas de Paris à noite, e tenta afastar o garoto para poder se aproximar de uma bela mulher que procura o seu cachorro sumido. A mulher é Jeanne Moreau, e o homem de terno, Jean-Claude Brialy, dois grandes atores que trabalhariam nos filmes de todos os diretores da nouvelle vague.

Fotografia em preto-e-branco, distância dos estúdios, filmagens diretamente nas ruas – essas são algumas das características que unem todos os autores da nouvelle vague, e que estão presentes em boa parte das sequências tanto no filme de estréia de Truffaut quanto no de Godard quanto neste aqui.

Cléo das 5 às 7 é praticamente o filme de estréia de Agnès Varda, porque o seu primeiro longa, La Pointe Courte, feito ainda em 1955, passou bastante despercebido. Não chegou a ser lançado comercialmente no Brasil, por exemplo. Depois dele, a realizadora fez um curta de ficção e três pequenos documentários. Foi com Cléo que ela passou a chamar e a merecer todas as atenções.

Agnès Varda jamais abandonaria seu gosto pelo documentário. Faria diversos documentários – vários deles sobre cinema, sobre filmes dela mesma e de seu marido Jacques Demy. Em 1993, por exemplo, lançou Les demoiselles ont eu 25 ans, as garotas fizeram 25 anos, sobre as filmagens de Les Demoiselles de Rochefort. Em 1995, fez L’Univers de Jacques Demy, sobre o marido que havia morrido em 1990. Em 2005, fez Cléo de 5 à 7: souvenirs et anecdotes, um curta-metragem de 36 minutos em que ela entrevista as atrizes Corinne Marchand e Dorothée Blanck, o ator Antoine Bourseiller e membros da equipe do filme feito mais de 40 anos antes.

“Segundos que se medem sem fantasia”

Na época do lançamento, 1962, Agnès Varda distribuiu este texto para a imprensa:

“Este filme se passa no presente. A câmara não larga Cléo das cinco horas às seis e meia. Se o tempo e a duração são reais, os trajetos e as distâncias também o são. No interior desse tempo mecânico, Cléo experimenta uma duração subjetiva: ‘o tempo a faz durar’ ou ‘o tempo pára’. Ela mesma diz: ‘nos resta tão pouco tempo’, e um minuto depois: ‘temos todo o tempo do mundo’. Me pareceu interessante deixar transparecer esses movimentos vivos e desiguais, como uma respiração alterada no interior de um tempo real, cujos segundos se medem sem fantasia.”

Acho que é necessário o registro: não são muitos os filmes que retratam histórias em tempo real, cada minuto de ação correspondendo a cada minuto cronológico. Antes deste Cléo das 5 às 7, Alfred Hitchcock havia feito Festim Diabólico/Rope (1948), de 80 minutos de duração, que se passa em 80 minutos, num apartamento em que dois estudantes servem a um professor um jantar em que sob a mesa está o corpo de um colega que eles haviam assassinado. O mestre Hitchcock filmou de tal forma que o espectador tem a sensação de que todos os 80 minutos são um único plano-sequência, sem corte algum.

E, em 1952, Fred Zinnemann fez o western Matar ou Morrer/High Noon, de 85 minutos de duração, cuja ação se passa entre cerca de 10h40 da manhã e pouco após o meio-dia, horário em que desce do trem um pistoleiro que quer matar o xerife da cidade.

Não me lembro de outros exemplares dessa coisa rara que é filme em tempo real. Há outros, é claro, uns outros poucos, mas não me lembro.

“Do obscurantismo a uma tomada de consciência lúcida”

Leonard Maltin deu ao filme 3 estrelas em 4: “Inteligente, fluído relato sobre uma cantora parisiense forçada a reavaliar sua vida enquanto aguarda um relatório fundamental sobre suas condições físicas.”

A definição do filme dada por Claude Beylie no seu livro As Obras-Primas do Cinema é assim: “Com Cléo das 5 às 7, ela (Varda, claro) se afirma como uma das autoras mais pessoais da sua geração, apimentando com discreta reivindicação feminista uma narrativa sensível, um estilo vivo e cintilante, uma escrita ao mesmo tempo leve e comedida. O desafio que consiste em fazer coincidir a duração da narrativa com o tempo real já fora tentado no passado, mas Agnès Varda acrescenta uma segmentação temporal minuciosa (o trajeto do táxi, por exemplo, vai das 17h58 às 18h04), apartes visuais, o recurso ao comentário interior, uma apreensão direta do mais íntimo ‘sinal’ ambiente, que conferem à obra o aspecto de um diário íntimo, de um caderno de anotações esboçado  ‘ao fio da câmara’, e, no fim das contas, de uma busca espiritual.”

Diz o livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer:

“A casualidade da narrativa permite que a ficção se funda ao documentário enquanto a jovem vaga pela Rive Gauche de Paris, principalmente pelos arredores da estação de trem de Montparnasse, acompanhada por atordoantes travellings. Mas o realismo de Varda também é capaz de gerar emoções poderosas ao mostrar em um crescendo os sinais da lenta agonia gravada no rosto de sua protagonista.”

E, finalmente, a avaliação do Guide des Films de Jean Tulard:

“A chave do filme é dada por um esquete burlesco a que Cléo assiste (interpretado por Jean-Luc Godard, Anna Karina, Sami Frey, Jean-Claude Brialy, Eddie Constantine, Danieèle Delorme, Yves Robert e Alan Scott): para ver as coisas como elas são, basta tirar seus óculos negros! De fato, para encarar a realidade é necessário remover os óculos do egoísmo, da negligência, da frivolidade. É necessário se interessar pelos outros para se abrir à vida. Este é o itinerário que Cléo percorre, um tempo real (das 17h à 18h30), que a vai levar do obscurantismo (a cartomante do início) a uma tomada de consciência lúcida de sua própria identidade. Para muito além da proeza técnica, é de fato a inteligência da narrativa e a sensibilidade do olhar que fazem deste filme um completo êxito.”

Anotação em fevereiro de 2019

Cléo das 5 às 7/Cléo de 5 à 7

De Agnès Varda, França-Itália, 1962

Com Corinne Marchand (Florence Victoire, conhecida como Cléo)

e Antoine Bourseiller (Antoine, o militar no parque), Dominique Davray (Angèle, a empregada), Dorothée Blanck (Dorothée, a amiga modelo), Michel Legrand (Bob, o pianista), Serge Korber (Plumitif, o letrista), José Luis de Vilallonga (o amante), Loye Payen  (Irma, a cartomante), Lucienne Marchand (a motorista do táxi), Raymond Cauchetier (Raoul, o projecionista), Robert Postec (o doutor Valineau)

e, em participações especiais, no filme mudo, Jean-Luc Godard (o homem dos óculos negros), Anna Karina (Anna, a moça de branco), Emilienne Caille (a moça de negro), Jean-Claude Brialy (o enfermeiro), Georges de Beauregard (o motorista da ambulância), Sami Frey (o homem do rabecão)

e também Eddie Constantine (o pulverizador), Danièle Delorme (a vendedora de flores), Fernande Engler (a moça no café), Yves Robert    (o vendedor de lenços)

Argumento e roteiro Agnès Varda

Fotografia Paul Bonis, Alain Levant, Jean Rabier

Música Michel Legrand

Montagem Pascale Laverrière e Janine Verneau

Produção Georges de Beauregard, Carlo Ponti, Ciné Tamaris, Rome Paris Films. DVD Continental.

P&B, 90 min

R, ****

 

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