Julieta

Nota: ★★★★

Podemos perfeitamente achar que conhecemos bem as pessoas mais próximas de nós – e estarmos profundamente enganados. Até mesmo nossos filhos, que achamos que conhecemos desde antes de nascerem. 

Até mesmo nossos filhos podem nos surpreender da maneira mais absoluta, mais absurda: pode chegar um momento em que descobrimos que não sabíamos nada, nada, nada sobre eles.

É disso que fala Julieta, o Almodóvar de 2016, o vigésimo Almodóvar, um estupendo filme, um drama familiar sério, denso, profundo, emocionante.

Disso, e de bem mais.

Podemos perfeitamente traçar planos para o futuro imediato – e sermos surpreendidos por algo imprevisto. Podemos passar bom tempo planejando uma determinada coisa – mas um fato inesperado, um único fato, pode pôr tudo abaixo, pode virar nossa vida de pernas para o ar.

A vida é traiçoeira, surpreendente sempre, imprevisível – e assustadoramente capaz de nos jogar ao chão a qualquer momento.

Não fazemos nosso caminho. Fatos, fatores, acontecimentos, encontros, desencontros, imprevistos, surpresas, ou até mesmo obviedades absolutamente previsíveis acabam determinando o que vamos fazer, o que será da nossa vida.

Julieta mostra isso.

Interessante: alguns anos atrás, Pedro Almodóvar fazia filmes chocantes, provocantes, irritantes. Estupendos, todos, é verdade, mas chocantes, provocantes, irritantes. Filmes para épater les bourgeois.

Que bom ver mais uma vez como é verdadeiro aquele dito de que a juventude é uma doença que o tempo cura: aos 67 anos (ele é de 1949, um ano mais velho que eu), Pedro Almodóvar deixou em segundo, ou terceiro, ou quarto plano sua vontade de épater les bourgeois. Não deixou de lado seu talento brilhante, e então agora faz estupendos filmes adultos para platéias adultas.

Julieta, o Almodóvar de 2016, é um estupendo filme adulto para platéias adultas.

Deo gratias.

É absolutamente incrível o talento do Almodóvar roteirista

O que sempre me impressiona demais, quando vejo um Almodóvar (e confesso, envergonhado, que vejo menos do que deveria), é seu imenso talento como roteirista. Ele cria histórias interessantes, fascinantes, e as conta de uma maneira sempre surpreendente, com faíscas de genialidade. Os cortes no tempo são sempre perfeitos, o uso de flashbacks é magistral. Os personagens são bem elaborados, nítidos, claros. (Na foto, Adriana Ugarte, que faz a Julieta jovem, e Emma Suárez, que interpreta Julieta madura.)

Quase sempre são histórias originais criadas por ele mesmo – e este Julieta é uma exceção. Almodóvar assina o roteiro, como sempre, mas ele se baseou, segundo mostram os créditos finais, em três contos da escritora canadense Alice Munro, “Destino”, “Pronto” e “Silencio”. Não conheço nada da obra de Alice Munro, mas dá para apostar que Almodóvar pôs muito dele mesmo na trama, mesmo tendo ela se baseado em histórias criadas por outra pessoa.

O autor-realizador leva apenas três sequências para definir o tom da história que vai contar – e para fisgar o espectador, para deixá-lo louco de vontade de saber o que virá em seguida.

Com as três primeiras sequências de Julieta, Almodóvar fisga o espectador como se aquilo fosse um thriller de Agatha Christie, de Stieg Larsson, de Scott Turow, de Jo Nesbø, e não um drama familiar em que não há detetive, crime, assassinato, investigação.

Primeira sequência: Julieta se prepara para uma estadia em Portugal

Na primeira sequência, vemos Julieta em seu amplo, confortável apartamento, preparando uma pequena mudança, juntando coisas que vai levar dali. Julieta, interpretada por Emma Suárez, é uma bela mulher madura, aí beirando os 50 anos. Enrola num papel bolha uma pequena escultura, uma peça moderna. Só bem mais tarde o espectador saberá que aquela peça foi criada por uma grande amiga dela, Ava (Inma Cuesta), que teve papel importantíssimo em sua vida.

Algumas coisas ela joga num cesto de lixo. Vemos que entre essas coisas está um envelope azul.

Julieta fica diante de uma estante de livros – e de cara ficamos sabendo que é uma pessoa chegada a livros, uma pessoa que trabalha com algo ligado a produção intelectual.

Toca o interfone, ela atende, abre a porta do prédio, e daí a pouco vemos Lorenzo (interpretado por Darío Grandinetti) entrando no apartamento.

Ele pergunta como ela está, e ela responde que está totalmente perdida: – “Não sei que livros levar”.

Lorenzo diz, com suavidade: – “Os essenciais. Se sentir falta de algum, pode sempre comprar pela internet.”

Julieta responde que não gosta de comprar livros que já tem – isso a faria se sentir velha. Ele pergunta se além dos livros há algum problema, e ela diz que vai fazer umas compras. De novo, Lorenzo diz coisas sensatas com muita suavidade: – “Julieta, nós vamos para Portugal, não para um deserto. E você pode voltar a Madri quando quiser.”

– “Se eu puder, gostaria de não voltar a Madri.”

Os dois fazem declaração de afeto um para o outro, abraçam-se, beijam-se.

Temos ali um casal de espanhóis de meia idade que se dá bem, que está bem, que está indo passar uma temporada em Portugal.

Corta, e Julieta está andando na rua, virando uma esquina.

Virar uma esquina – diz Almodóvar no seu filme – pode mudar sua vida.

Segunda sequência: Julieta reencontra a jovem Beatriz e fica muito abalada

Julieta está vindo da esquerda da tela para a direita. Vindo da direita para a esquerda, bem na esquina, está um grupo de jovens, quatro jovens. Três deles continuam andando, uma moça pára e se volta para Julieta, que também parou e se voltou para a moça.

– “Julieta! Não posso acreditar!”

Dão um abraço afetuoso, duas mulheres que obviamente não se viam fazia muito tempo, mas tiveram ligação forte no passado.

A jovem, veremos, chama-se Beatriz, e é interpretada por Michelle Jenner (na foto abaixo), a bela atriz catalã nascida em 1986 que interpretou a rainha Isabel de Castela na esmeradíssima série da TV espanhola Isabel.

Beatriz, Bea, como Julieta e os íntimos a chamam, se mostra extremamente contente por rever a outra. Depois do primeiro cumprimento, do abraço, vai logo dizendo: – “Encontrei sua filha na semana passada no Lago Como!”

O rosto de Julieta expressa imensa surpresa: – “Você encontrou com Antía?” A surpresa de Julieta é tanta que, se o espectador for atento, perceberá que ela não exprimiu um ponto de interrogação, mas vários: – “Você se encontrou com Antía????”

Beatriz: – “Pois é. Eu tive que abordá-la, ela não me reconheceu. Mas você não mudou nada, Julieta! Acho até que você está melhor!”

Julieta: – “O que ela disse para você?”

Beatriz: – “Que tinha ido lá comprar coisas para seus filhos. Ela tem dois meninos e uma menina.”

Julieta: – “Eu sei. Não sei como ela consegue…”

O espectador, é claro, ainda não sabe, mas Julieta acabou de mentir. Ela não sabia que sua filha tinha três filhos.

Julieta: – “E você, teve filhos?”

Beatriz: – “Não. Nem casada estou. Nossa, fico tão feliz em ver que você está tão bem!”

Se estiver bem atento, o espectador não poderá deixar de notar que, então, houve uma época em que Julieta não esteve bem.

Julieta: – “O que mais Antía te disse?”

Beatriz: – “Pouco. Perguntei por você, ela disse que você ainda morava em Madri.”

Julieta: – “Sim. Sempre. Vou ficar sempre aqui.”

Beatriz explica que está com pressa, está com aqueles amigos, tem um compromisso.

Um close do rosto de Julieta. Emma Suárez é uma bela atriz, Almodóvar é um exímio diretor de atores, e o espectador vê que Julieta está profundamente abalada.

Terceira sequência: Julieta mudou completamente de idéia, não vai mais viajar

Na terceira sequência, ainda antes de o filme chegar a 10 minutos, Julieta está chegando de volta a seu apartamento. Remexe o cesto de lixo, até encontrar aquele envelope azul que já havíamos visto. O telefone toca, é um iPhone, e vemos o nome de Lorenzo – mas Julieta não atende.

Há um corte, estamos no dia seguinte, mas a rigor é ainda a terceira sequência do filme. Julieta está na cozinha, o interfone toca, ela atende, daí a pouco Lorenzo entra na sala, perguntando como estão as coisas, como está a arrumação: – “Terminou de arrumar as coisas?

Julieta responde: – “Eu desfiz tudo. Vou ficar em Madri, Lorenzo.”

Uma das muitas verdades que o filme Julieta mostra para o espectador – e que muitos de nós seguramente já vimos acontecer, talvez mais de uma vez – é que, quando uma pessoa se encaminha para a depressão, não há quem segure.

É sem dúvida coisa de mestre a forma com que Almodóvar envolve o espectador na sua teia, como ele abre esse drama familiar com a força, o impacto de um fantástico thriller. Nesse momento aí, quando o filme está com uns 7, 8 minutos, me peguei pensando isso: como esse filho da mãe consegue laçar o espectador!

Que diabos aconteceu no passado de Julieta para que um encontro casual com uma jovem que ela não via fazia tempos mude inteiramente sua vida? Que raio fez com que aquela mulher bela, cujo maior problema na vida era não saber escolher que livros levar para Portugal, desistisse da viagem com o homem com quem dividia a existência?

É claro, óbvio, evidente que não vou aqui cometer o crime de responder a essas perguntas. Seria de fato um crime contra o eventual leitor que ainda não viu o filme – e se algum eventual leitor chegou até aqui, aí vai o conselho: amigo, veja este belo filme.

Aos 20 e poucos anos, Julieta se apaixonou perdidamente por Xoan

Creio que não chega a ser spoiler dizer que haverá muitos flashbacks, e o espectador verá Julieta jovem, ali pelos 20 e poucos anos, interpretada por Adriana Ugarte, uma ótima atriz e mulher belíssima.

Quando jovem, ali pelos 20 e poucos anos, Julieta dava aulas de Literatura Clássica.

Conheceu então um jovem e belo pescador, Xoan (Daniel Grao). Foi paixão das boas, das grandes, das sérias – daquelas que, se terminam, quando terminam, há que se dizer, como a letra de Nelson Motta, que “dor de amor quando não passa é porque o amor valeu”.

Da paixão entre Julieta e Xoan nasceu Antía (interpretada por Priscilla Delgado aos 12, 13 anos, e por Blanca Parés aos 18).

Foi Antía que Beatriz, já mulher feita, ali pelos 30 e poucos anos, reencontrou no Lago Como, conforme contou para Julieta quando as duas se encontraram por puro acaso numa esquina de Madri, e Julieta mentiu que sabia que sua filha tinha três filhos.

Creio também que não é spoiler se eu revelar aqui que Beatriz adulta, interpretada pela linda Michelle Jenner, voltará a aparecer quando a narrativa já está se aproximando do fim. Creio que não é spoiler – é mais um aperitivo, um gancho para chamar o eventual leitor que ainda não viu o filme para vê-lo.

Beatriz adulta só aparece em duas sequências. Naquela bem no início, que já relatei, e na outra, quando a narrativa se aproxima do fim. Ela tem de novo um encontro casual com Julieta – mas, ao contrário da Julieta muito bem disposta, de aparência saudável, daquele encontro anterior, a Julieta que Beatriz reencontra está um caco, um horror, inteiramente tomada pela depressão.

E aí Beatriz relata para Julieta coisas a respeito do encontro dela com Antía no Lago Como que ela não tinha revelado naquela primeira vez.

E essa coisa de haver dois encontros entre a jovem Beatriz e a Julieta na meia idade, um no início do filme, outro no fim, e no segundo encontro haver revelações que não haviam sido feitas no primeiro – ah, diabo, isso é coisa de escritor brilhante.

Com perdão a Alice Munro, que não conheço, e não sei quanto dela está neste Julieta, mas o fato é que o roteiro que Almodóvar escreveu é um brilho.

De todo o elenco, só conhecia três atores: o cinema espanhol de hoje é amplo

Tenho visto filmes espanhóis com alguma frequência – certamente menos do que deveria, mas tenho visto alguns, e já disse aqui mais de uma vez que uma das melhores cinematografias que há hoje em dia é a espanhola.

Julieta confirma essa minha opinião, de mais de uma forma. Diacho, de todos os atores deste filme, eu só conhecia três. Michelle Jenner (na foto acima), que, como já foi dito, fez o papel principal na bela série Isabel. Dario Grandinetti, que faz Lorenzo, o amor da Julieta madura – Grandinetti é um ator argentino, que trabalhou em dois ótimos filmes que já vi, Inevitável (2013) e Relatos Selvagens (2014). E, claro, Rossy de Palma (na foto abaixo).

Rossy de Palma é Almodóvar puro, na veia. Os primeiros filmes da atriz são todos de Almodóvar: ela esteve em A Lei do Desejo (1987), o filme que deu origem ao nome da produtora dos irmãos Almodóvar, El Deseo, em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), em Ata-me (1989), e por aí vai.

Federico Fellini tinha uma capacidade fantástica de encontrar tipos estranhos, esquisitos, fora do padrão. O adjetivo felliniano é perfeito para definir essa coisa de estranheza, esquisitice.

Almodóvar criou seus tipos almodovarianos. São um tanto parecidos com os tipos fellinianos – estranhos, esquisitos.

Quando mais jovem, Rossy de Palma fascinava por seu nariz descomunal, aquela coisa Cyrano de Bergerac. Em Julieta, Rossy de Palma aparece com os cabelos grisalhos, o naso fenomenal e, esquisitissimamente, uma pálpebra inteiramente diferente da outra. É uma figura imponente, estranha, esquisita, um tanto fantasmagórica, bastante bruxa. Ela faz Marian, que trabalha como empregada na casa de Xoan – e, em boa parte, é responsável por toda a tragédia que se abate sobre a vida de Julieta.

Mas o que eu dizia é que, neste filme com tantos atores, eu só conhecia três. O que, se por um lado demonstra que tenho que ver mais filmes espanhóis, por outro indica que o cinema espanhol é vasto, amplo demais.

São atrizes maravilhosas, essas Emma Suárez e Adriana Ugarte, que interpretam, respectivamente, a Julieta de meia idade e a Julieta jovem. Que absurdo nunca tê-las visto antes.

Emma Suárez levou o prêmio Goya por sua fantástica interpretação de Julieta

Julieta ganhou 10 prêmios, fora outras 53 indicações. Entre as indicações houve uma ao Bafta de melhor filme estrangeiro, e outra à Palma de Ouro de Cannes – Almodóvar é adorado por Cannes, tendo sido escolhido para presidir o júri do festival deste ano de 2017, em que deu declarações contra os filmes que estréiam na Netflix sem passar por salas de cinema.

Nos prêmios Goya, o mais importante do cinema espanhol, o filme teve sete indicações, entre elas as das categorias fundamentais de melhor filme, melhor direção e melhor roteiro. Só ganhou um Goya, o de melhor atriz para Emma Suárez.

A interpretação dessa senhora é realmente memorável. Ela nos transmite toda a emoção de alguém que sofre a pior das perdas que pode haver na vida. (Na foto abaixo, Almodóvar com as duas atrizes que fazem Julieta – Adriana Ugarte e Emma Suárez .)

Ah, sim, para terminar. Não sei se esta frase é de Alice Munro, ou de Pedro Almodóvar – mas sei que ela é uma absoluta maravilha, uma dor imensa:

– “Sua ausência preenche minha vida e a destrói.”

Anotação em junho de 2017

Julieta

De Pedro Almodóvar, Espanha, 2016

Com Emma Suárez (Julieta), Adriana Ugarte (Julieta jovem)

e Daniel Grao (Xoan), Inma Cuesta (Ava), Darío Grandinetti (Lorenzo), Michelle Jenner (Beatriz adulta), Sara Jiménez (Beatriz adolescente), Priscilla Delgado (Antía adolescente), Blanca Parés (Antía aos 18 años), Pilar Castro (Claudia, mãe de Beatriz), Nathalie Poza (Juana), Susi Sánchez (Sara, mãe de Julieta), Joaquín Notario (Samuel, pai de Julieta), Rossy de Palma (Marian, empregada da Xoan), Ramón Aguirre (Inocencio, o porteiro), Tomás del Estal (o homem no trem)

Roteiro Pedro Almodóvar

Baseado nos contos “Destino”, “Pronto” e “Silêncio”, de Alice Munro

Fotografia Jean-Claude Larrieu

Música Alberto Iglesias

Montagem José Salcedo

Casting Eva Leira e Yolanda Serrano

Cor, 99 min (1h39)

Produção El Deseo, Echo Lake Entertainment, Canal+ France, Ciné +, Televisión Española (TVE).

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Um Comentário

  1. Carla
    Postado em 5 novembro 2017 às 4:55 pm | Permalink

    Fui olhar na minha reunião de contos de Alice Munro se tem esses contos; apenas “Silêncio” está presente. Na pilha a ler.

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