Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres / Gainsbourg (Vie héroïque)

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Nota: ★★★☆

Gainsbourg é um filme muito doidão. Seu estilo é bastante difícil de se classificar. É uma cinebiografia que não se parece com nenhum outra – a não ser, talvez, Eu Não Estou Lá, aquela espécie de retrato multifacetado sobre “as várias vidas de Bob Dylan” que Todd Haynes dirigiu em 2007.

É assim uma cinebiografia de um sujeito doidão feita num tom que corresponde à doidice dele.

É como se o diretor, autor e roteirista Joann Sfar tivesse cheirado um monte de carreirinhas, fumado uns baseados de tamanho jamaicano, tomado uns LSD brabos, e então tivesse escrito o roteiro do filme sobre a vida de Serge Gainsbourg.

É fascinante, é belíssimo – mas depois fica um tanto longo, um tanto cansativo.

Para quem conhece bem Serge Gainsbourg, deve ser uma viagem maravilhosa. Para quem não conhece muito, como é o meu caso, e provavelmente também o do eventual leitor desta anotação, o que fica é assim: dá vontade de saber um pouco mais sobre a obra desse sujeito.

Um compositor absolutamente fora dos padrões, um subversivo

O que as pessoas mais ou menos bem informadas, fora da França, sabem hoje de Serge Gainsbourg?

zzgainsbourg2Bem, o que eu mesmo sabia antes de ver o filme era que Gainsbourg foi um compositor absolutamente fora dos padrões, insolente, desafiador, subversivo. Teve um único, gigantesco, sucesso comercial, com a gravação de “Je t’aime, mois non plus”, em que sua então mulher, a inglesa Jane Birkin, fazia ruídos como se estivesse gozando. Um gigantesco escândalo, nos anos 1960 – mas também um gigantesco sucesso.

Sim, Jane Birkin, uma das duas moças que, em Blow-Up, que Michelangelo Antonioni fez na Swinging London em 1966, dançavam quase peladinhas no estúdio do renomado fotógrafo Thomas (David Hemmings).

Na minha memória, era isso: Jane Birkin dançava meio peladinha no estúdio de Thomas; casada com Serge Gainsbourg, gemia como se estivesse gozando em “Je t’aime, mois non plus”.

Da união deles surgiria Charlotte Gainsbourg. A rigor, uma filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin estaria condenada a cinco sessões de análise por semana, durante 20 anos ou mais de vida. Deu-se (a vida é cheia de surpresas mesmo) que Charlotte Gainsbourg virou uma bela mulher, e uma bela atriz. Acha-se também cantora, e grava discos; na minha opinião, deveria se ater à carreira cinematográfica, mas quem sou eu, afinal de contas?

Não era belo, mas seguramente era um amante imbatível

Bem, isso é o que eu sabia sobre Serge Gainsbourg. Com o filme – que, pelo estilo malucão adotado, informa pouco –, sei agora pouco mais que antes.

zzgainsbourg5A sensação que se tem é que o diretor Joann Sfar fez o filme para ser saboreado apenas por quem já sabe absolutamente tudo sobre o cinebiografado.

O filme já abre com este aviso do diretor: “Gosto demais de Gainsbourg para reproduzi-lo na realidade. Não são as verdades de Gainsbourg que me interessam, mas suas mentiras.”

O filme mostra que Gainsbourg era criança na França ocupada pelos nazistas no início dos anos 1940; rebelde desde sempre, fez questão de buscar o mais rapidamente possível aquele “distintivo”, aquele pedaço de pano amarelo que os nazistas exigiam que os judeus usassem pregado na roupa.

Nasceu Lucien Ginsburg, em 1928 (quando garoto, é interpretado por Kacey Mottet Klein), filho de pai músico, pianista da noite parisiense. Ainda bem garoto, frequentou academia de belas artes, e tinha formidável talento para a pintura, o desenho.

Adulto, não era belo, não tinha fina estampa – mas tinha charme, muito charme, à la Jean-Paul Belmondo, Yves Montand, e seguramente era um amante imbatível, porque passaram pela sua cama nada menos que Brigitte Bardot (interpretada por uma Laetitia Casta mais bela do que em qualquer outro filme que já vi com ela) e Juliette Greco, a musa dos existencialistas nos anos 1950 e 1960 (interpretada por Anna Mouglalis). Fora muitas outras – e Jane Birkin, é claro. Jane Birkin é interpretada por Lucy Gordon; falo dessa atriz mais adiante.

zzgainsbourg7Fumava sem parar, um cigarro atrás do outro. E bebia também em quantidades industriais. É o que o filme mostra – se havia alguma droga ainda mais forte na vida de Gainsbourg, o diretor Sfar, discretamente, deixou de fora.

Mas o Gainsbourg feito pelo ator Eric Elmosnino parece ter passado a vida inteira absolutamente chapado, doidaço, maluco belezérrima.

Ao longo de praticamente todo o filme, Gainsbourg anda acompanhado por uma espécie de alter ego, um tipo de Grilo Falante, chamado La Gueule (A Cara), que é interpretado por Doug Jones, com uma máscara de personagem de desenho animado.

Aparecem no filme diversos grandes nomes da música francesa

No meio da narrativa surrealista, onírica, um tanto felliniana, surgem diversas personalidades da música popular francesa. O grande compositor, escritor e poeta Boris Vian (1920-1959) aparece em duas sequências, interpretado por Philippe Katerine. Outro gigante, Georges Brassens (1921-1981), o – mal comparando – Noel Rosa deles, canta uma canção de sua autoria, interpretado pelo próprio diretor Joan Sfarr, embora seu nome não seja mencionado.

Goza-se a cantora France Gall (interpretada por Sara Forestier), mostrada como uma babaquinha. France Gall, uma espécie assim de Wanderléa ou Martinha do pop francês, teve muito sucesso nos anos 60, na época do que eles chamavam de yéyé.

zzgainsbourg6Gainsbourg de fato compôs uma canção que France Gall gravou em 1966, “Les Sucettes”, que fala de uma garotinha que adora chupar pirulitos. Consta que a moçoila não captou o óbvio duplo sentido da coisa e, mais tarde, quando contaram para ela, deixou de cantar a canção, apesar do sucesso que teve no lançamento do disco.

Aparecem Les Frères Jacques, um quarteto irreverente, gozador, que misturava música com mímica, humor, teatro. Les Frères Jacques foram ativos na cena parisiense entre 1946 e 1982, e tiveram no repertório canções assinadas por grandes nomes, como Jacques Prévert e Joseph Kosma. Uma das músicas que marcaram o conjunto era de autoria de Gainsbourg, “Le Poinçonneur des Lilas”.

O estreante diretor Joann Sfar cresceu ouvindo a música de Gainsbourg

Gainsbourg ganhou 6 prêmios e teve outras cinco indicações. Para o César, o principal prêmio do cinema francês, o filme teve oito indicações. Levou os de melhor filme de estréia, melhor ator para Eric Elmosnino e melhor som. Laetitia Casta, indicada ao César de melhor atriz coadjuvante, não levou.

É bastante surpreendente que este tenha sido o primeiro longa-metragem de Joann Sfar. O filme parece ser obra de um calejado veterano. Joann Sfar dirige com todo o domínio do ofício.

Nascido em Nice, em 1971 (estava portanto com 38 anos em 2009, quando o filme foi rodado), descendente de russos e argelinos, Sfar era até então conhecido como autor de livros de quadrinhos – que agora chamam de novelas gráficas. Já assinou, sozinho ou em obras coletivas, mais de 150 livros, num período de dez anos. É autor da famosa série O Gato do Rabino, cujas primeiras aventuras foram publicadas em 2002.

zzgainsbourg3Primeiro ele publicou uma novela gráfica com sua visão personalíssima da vida de Serge Gainsbourg. O roteiro se baseou na novela gráfica. Os créditos iniciais – belíssimos – são uma animação criada sobre desenhos do diretor.

A idéia de Sfar era que Charlotte Gainsbourg fizesse o papel de seu pai. Não haveria problema em uma mulher interpretar Serge Gainsbourg, já que o clima do filme é todo surreal mesmo. Charlotte Gainsbourg chegou a ensaiar durante meses para o papel, mas desistiu, sob a alegação – mais do que justa – de que a experiência estava sendo emocionalmente dolorosa demais.

Aí vão outras informações sobre o filme, retiradas do IMDb e do AlloCine:

* Serge Gainsbourg fazia parte do imaginário de Joann Sfar desde sua infância: “Nos discos e revistas de minha mãe, Gainsbourg estava em todas. Cresci cercado por isso. Adolescente, ouvi tudo de Gainsbourg. Eu o ouvia enquanto desenhava.”

* O filme é dedicado a Lucy Gordon (na foto acima e também na abaixo), a bela atriz que interpreta Jane Birkin. Nascida em Oxford, na Inglaterra, em 1980, Lucy Gordon teve uma carreira curta e um fim trágico. Fez apenas 11 filmes, entre 2001, o ano de Perfume, que mostra uma semana na vida de modelos e fotógrafos de moda em Nova York, e este Gainsbourg. Trabalhou em Bonecas Russas (2005) e em Homem-Aranha 3 (2007). Gainsbourg estava em fase de pós-produção quando, em maio de 2009, aos 28 anos, ela se enforcou no apartamento que dividia com o diretor de fotografia Jérôme Alméras.

* Arranjaram um professor de dança para ensinar Laetitia Casta a cantar a música “Comic Strip”, do repertório de Brigitte Bardot. Consta que ela reclamou que o professor era um tanto chato e disse ao diretor Joann Sfar que ela não precisava de ajuda para fazer a audiência ficar de pau duro. Bem, isso é o que diz o IMDb. Laetitia Casta está de fato belíssima – um tesão.

* O aclamadíssimo Claude Chabrol faz uma participação especial no filme, como o produtor musical de Gainsbourg, sempre segurando um gigantesco charuto. Foi seu último trabalho no cinema: morreu em setembro de 2010.

* A voz do próprio Gainsbourg só é ouvida em duas das músicas apresentadas no filme – a famosérrima “Je t’aime…Moi non plus” e “Valse de Melody”. Todas as demais canções são apresentadas pelo ator Eric Elmosnino.

zzgainsbourg4* O site francês AlloCine diz que Eric Elmosnino, escolhido para interpretar Gainsbourg, não era na época muito conhecido do grande público. Nascido em 1964, firmou-se no teatro e obteve um prêmio Molière como revelação em 2002. Apesar de pouco conhecido antes deste filme, tem uma filmografia grande – 47 títulos. Disse dele o diretor Sfar: “Gostei do fato de que Eric não conhecia Gainsbourg; isso significava que ele não seria esmagado pelo personagem. E, desde os primeiros ensaios, adorei sua descontração e seu humor”.

Um filme doidão e fascinante sobre um artista doidão e fascinante

É isso aí. Gainsbourg é um filme doidão e fascinante sobre um personagem doidão e fascinante.

Dá de fato vontade de conhecer mais a obra dele como compositor. E é interessante notar que a obra de Gainsbourg continua aí, mais de 20 anos após sua morte – ele morreu em 1991, aos 62 anos. Até que viveu bastante, para a quantidade de farra que fez. Em 2006 Madeleine Peyroux gravou “La Javanaise” – que no filme é cantada por Juliette Greco. E a mesma canção foi gravada também pela bela e excelente cabo-verdense cidadã do mundo Mayra Andrade em seu disco de 2010.

E é bom prestar atenção ao nome desse garotão Joann Sfar. Tem talento, muito talento.

Anotação em julho de 2013

Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres/Gainsbourg (Vie héroïque)

De Joann Sfar, França, 2010

Com Eric Elmosnino (Serge Gainsbourg e a voz de La Gueule, A Cara),

e Lucy Gordon (Jane Birkin), Laetitia Casta (Brigitte Bardot), Doug Jones (La Gueule, A Cara), Anna Mouglalis (Juliette Gréco), Mylène Jampanoï (Bambou), Sara Forestier (France Gall), Kacey Mottet Klein (Lucien Ginsburg), Razvan Vasilescu (Joseph Ginsburg, o pai), Dinara Drukarova (Olga Ginsburg, a mãe), Philippe Katerine (Boris Vian), Claude Chabrol (o produtor musical), Joann Sfar (Georges Brassens)

Roteiro Joann Sfar

Fotografia Guillaume Schiffman

Música Olivier Daviaud

Montagem Maryline Monthieux

Produção One World Films, Studio 37, Universal Pictures International, France 2 Cinéma. DVD

Cor, 130 min

***

2 Comentários

  1. Postado em 27 setembro 2013 às 10:41 am | Permalink

    Sérgio, muito boa sua resenha, gostaria de deixar somente alguns pitacos: 1- o diretor não deve ter levado em consideração que fora da França, onde é um ícone, Serge é um completo desconhecido. 2- o filme sacaneia mesmo com a France Gall, que gravou varias canções de Serge, entre elas Poupée de Cire poupée de son ganhadora do festival Eurovison de 1965. 3- Maldade sua também com a France Gall, ela está bem longe de ser uma Martinha/Vanderlea, ela manteve uma carreira solida até o falecimento de seu marido, o compositor Michel Berger em 1992.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 27 setembro 2013 às 1:56 pm | Permalink

    Ary, muito obrigado pelo comentário.
    Fica registrada sua defesa da France Gall – mas não pretendi denegri-la quando fiz a comparação. Só quis relacioná-la com cantoras brasileiras que faziam grande sucesso na mesma época com canções voltadas para o público jovem. Não tenho nada contra a Wanderléa, que depois da Jovem Guarda fez discos respeitáveis, com a participação, por exemplo, de Egberto Gismonti. Até chequei: tenho três canções com a France Gall no meu iTunes, inclusive a bela “Message personnel”.
    Um abraço.
    Sérgio

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