Sempre ao Seu Lado / Hachiko: A Dog’s Story

Nota: ★½☆☆

Anotação em 2010: Quase um quarto de século depois do filme que o revelou para o mundo, Minha Vida de Cachorro, de 1985, o diretor sueco radicado desde o início dos anos 90 nos Estados Lasse Hallström volta ao tema cachorro. Na minha opinião, deu com os burros n’água.

Assim como em A Grande Testemunha/Au Hasard Balthazar, o cultuadíssimo filme de Robert Bresson de 1966, neste Sempre ao Seu Lado, de 2009, os seres humanos são coadjuvantes. Como indica o título original, Hachiko: A Dog’s Story conta a história de um animal.

Não poderia haver dois filmes mais distantes um do outro, em quase absolutamente tudo – no tom, no clima, no tipo de estética, no tipo de público a que se dirige. No entanto, tanto o de Bresson quanto o de Hallström têm algumas características que os unem: são filmes para adultos, em que o personagem central é um animal, e cada um pretende, a seu modo, usar a história como uma parábola. A de Bresson, um representante do cinema mais autoral que possa existir, é complexa, filosófica, teosófica; a intenção do diretor é discutir conceitos, intelectualmente.  A de Hallström, há duas décadas trabalhando no cinemão de Hollywood, é um elogio à lealdade; a intenção do diretor é envolver emocionalmente o espectador, comovê-lo, fazê-lo chorar.

         Um cachorrinho que vem do outro lado do mundo

O filme abre numa sala de aula, de garotos de uns dez anos de idade. Cada um tem que contar a história de seu herói. Uma garotinha escolheu Cristóvão Colombo, e fala sobre ele – na primeira seqüência do filme, ela está terminando sua exposição. É a vez de um garoto; o herói que ele escolheu é Hachiko, o cachorro de seu avô – e aí vem o inevitável flashback, que vai ocupar toda a narrativa, quase até o finalzinho.

Vemos então o avô do garoto, um professor de música, Parker (o papel de Richard Gere), na estação de trem de sua pequena cidade suburbana, encontrando um cachorrinho bem jovem, que está ali perdido – é um filhote que havia sido enviado até os Estados Unidos do Japão; na última parte de sua longa viagem, o adesivo com o nome e o endereço do destinatário se descolou da caixinha em que viajava o cachorrinho, e ele está perdido no mundo.

Parker tenta deixar o filhote com o encarregado da estação, depois com o responsável pelo canil da cidade, mas acaba – embora contra a vontade da sua mulher (o papel de Joan Allen) – ficando com ele. De forma bem sutil, é mostrado ao espectador que Parker já havia perdido um ente querido. Fala-se pouquíssimo disso, e não se explicita como foi a morte. Para mim, tratava-se de um filho; um leitor mais atento que eu enviou mensagem, publicada abaixo, esclarecendo que era um outro cachorro.

O fato é que, de forma inesperada, não planejada, contra suas expectativas, aquele professor já passando um pouco da meia-idade, boa gente, boa pessoa, mas amargando a tristeza de uma grande perda, vai se afeiçoar ao bichinho, e reencontrar com ele a alegria.

Isso é mostrado aí nos 20 primeiros minutos de filme.

Ah, sim. Também nesse início, ficamos sabendo que o cachorrinho é da raça akita. Eu nunca tinha ouvido falar em akita na vida, mas trata-se de uma raça de cães japoneses que tem características muito específicas. Ao contrário do comum entre os diferentes tipos de cachorros, os akitas não podem ser adestrados; têm um comportamento independente, um tanto como os gatos; usam os humanos, em vez de se deixarem usar por eles. Em compensação, têm uma lealdade absoluta – canina, ou mais que canina, akitita, única – ao ser humano que conseguir conquistar suas graças. O akita em questão, que acaba ganhando o nome de Hachi, ou Hachiko, no diminutivo, afeiçoa-se para todo o sempre por Parker.

         Um filme no fio da navalha entre uma boa história e a pieguice

O tema, a história, tudo no filme caminha sobre o fio da navalha, a fronteira fina e tênue entre uma pequena história sobre pessoas, relações familiares, relações homem-bicho, e a absoluta e total pieguice – para não dizer babaquice.

Os críticos costumam arrasar os filmes americanos de Hallström, definidos como sentimentais, melosos. Gosto de vários dos filmes dele. Gosto de seu estilo suave, emocional, e de sua fidelidade ao tema que mais importa, as relações familiares, relações pessoais, relações afetivas. Acho Chocolate, de 2000, uma gostosa fábula em homenagem à liberdade, com Juliette Binoche no auge da beleza; Chegadas e Partidas/The Shipping News, de 2001, é um drama poderoso com Kevin Spacey em grande forma; Um Lugar para Recomeçar/An Unfinished Life, de 2005, fala de violência de marido contra mulher e, de novo, relações familiares, perdas de entes queridos, com um elenco de primeiríssima, Robert Redford, Morgan Freeman, Jennifer Lopez.

Meu preferido, entre todos, é Regras da Vida/The Cider House Rules, de 1999, um filme sobre crianças sem pais e uma vibrante, forte, corajosa defesa do aborto, outro filme com elenco extraordinário, reunindo Tobey Maguire, Charlize Theron, Delroy Lindo, Paul Rudd e Michael Caine, em um dos melhores papéis de sua longa e veneranda carreira (ele levou o Oscar de coadjuvante).

Mas neste Sempre ao Seu Lado achei que Hallström realmente se deixou cair na pieguice.

O filme – de resto feito com toda a competência artesanal possível, com desempenhos sinceros dos principais atores – tem uma trilha sonora belíssima de Jan A.P.Kaczmarek, com maravilhosos solos de piano.

Os créditos finais indicam o que na verdade já dava para prever: esta é a refilmagem de uma obra japonesa, Hachiko Monogatari, que teve roteiro do prestigiado Kaneto Shindo e foi dirigida por Seijiro Koyama. O filme japonês, por sua vez, se baseia na história real de um cachorro akita que virou notícia por sua fidelidade absoluta ao dono, nos anos 1920.

Quem gostar de cachorro pode ser que se emocione com a versão hollywoodiana da história. A mim, apesar de todo o meu respeito por Lasse Hallström, pareceu uma bobagem.

Sempre ao Seu Lado/Hachiko: A Dog’s Story

De Lasse Hallström, EUA, 2009

Com Richard Gere (Parker Wilson), Joan Allen (Cate Wilson), Sarah Roemer (Andy Wilson), Cary-Hiroyuki Tagawa (Ken), Erick Avari (Jasjeet), Jason Alexander (Carl)

Roteiro Stephen P. Lindsay

Fotografia Ron Fortunato

Música Jan A.P. Kaczmarek

Produção Inferno, Grand Army Entertainment

Cor, 93 min

*1/2

Título alternativo em inglês: Hachiko: A Dog’s Tale

18 Comentários para “Sempre ao Seu Lado / Hachiko: A Dog’s Story”

  1. Eu evitei ver esse filme pq pelo que li sei que vou chorar, não posso com filmes que têm finais tristes com animais. Até hoje não vi “Marley & Eu” justamente por isso (e tb pq não gosto da Jennifer Aniston), apesar de já ter lido o livro. Sobre o diretor, eu adoro “Regras da Vida”, mas os outros, dos que vi, achei mais ou menos.
    Uma prima da minha mãe tinha uma cachorra akita, mas eu morria de dó pq aqui é muito quente e eles são muito, muito peludos. Mas são lindos e adoráveis – como todos os cachorros ;D.

  2. Ih, Jussara, eu não sabia que você gosta de cachorro. Olha, se você gosta, e até conhece um akita, então veja o filme. Você vai gostar. Vai chorar, claro, mas e daí? Veja, sim.
    Abração.

  3. Mas que puxa! Eu não só gosto de cachorros, eu adoro, e é desde sempre. Aliás, amo todos os animais, mas com gatos e cachorros eu convivo mais. E claro que essa paixão passou tb para o cinema. Lembro de quando era criança e ficava sozinha vendo os filmes da Lassie, na TV, depois vieram os do Benji e por aí foi. Tb adorava ver os desenhos A Dama e o Vagabundo e Aristogatas, da Disney. Depois desses e já “um pouco mais velha” ainda parei pra assistir a O Rei Leão e Procurando Nemo. Hoje não tenho mais paciência, talvez quando (e se) tiver filhos eu volte a ver desenhos.
    Vou ver o filme então ;D.

  4. Não percam tempo com esta versão holliwoodiana.
    Assistam ao original japonês, muito mais tocante e verossímil.

  5. A propósito, aqui “http://pt.wikipedia.org/wiki/Hachiko” ou “http://www.clubedoakita.com.br/historias-de-akitas/historia-de-hachiko” temos a história completa deste cão maravilhoso, que até virou estátua no Japão. E aqui “http://asianspace.blogspot.com/2009/11/hachiko-monogatari-1987.html” o original japonês.

    Parabéns pelo site. O mais completo que já vi até hoje.

  6. Na minha opinião o filme é ótimo…emocionante…justamente por se tratar de uma história real…onde os seres humanos são coadjuvantes sim…na verdade nós sempre deveriamos ser coadjuvantes e aprender muito com os esses animaizinhos que são pura emoção e lealdade…parabéns ao diretor…HACHIKO que com certeza deve estar no céu …por ter sido um anjo aqui na terra e por ter deixado esse exemplo de fidelidade…amizade…amor e lealdade…chorei nas 3 vezes que assisti e ainda encho de lágrimas até quando digito sobre o tema…HACHI sempre ao seu lado!

  7. Oi, Sérgio,
    Resolvi te desobedecer desta vez e não ver o filme. Uma amiga falou que é muito triste, que o cachorro passa a metade do filme sofrendo, que ela chorou muito, e o irmão dela tb. Que é o pior filme do mundo. Como meu coração é fraco eu prefiro não ver.rs

    Reli seu texto antes de comentar, e desde quando Jennifer Lopez faz parte de “um elenco de primeiríssima”? Me mata de rir.
    E eu tb adoro “Regras da Vida”, não pelos mesmos motivos que vc, mas adoro.

  8. Desculpe aí o autor do texto acima, mas eu acho que você deveria assistir o filme de novo, pois deixa bem claro que o prof. perdeu um cachorro, o qual criava, e não um filho como você cita.

  9. Caro Carlos, agradeço por sua mensagem, esclarecendo que o personagem de Richard Gere havia perdido um cachorro, e não um filho, como eu erradamente escrevi.
    Graças ao seu gentil esclarecimento, fiz a devida correção.
    Muito obrigado.
    Sérgio

  10. aaah esse filme é muito lindo! {chorei da primeira vez que vi} muito bom o seu post *-* parabéns ;D

  11. Um bom filme.Comparando a cara do Gere com o do cachorro,combina bastante 😉 O sofrimento do cachorro é algo bem humano.Mas o que vale realmente é a visão do cachorro.O filme é totalmente sobre ele e sua lealdade;imagino até que houve cortes quanto a visão do cachorro (em preto e branco) na edição final para não “pesar” na totalidade…

  12. Este filme com certeza é para pessoas de coraçoes duros que não tem sentimentos,pq assim essas pessoas não iriam chorar,eu adorei este filme ele é muito bom,uma história de lealdade,uma historia linda,de um cachorro que passou 9 anos esperando pelo seu dono que infelizmente tinha morrido,mas o hachiko não entendia,por isso ele tava sempre todos os dias no mesmo lugar e na mesmo hora,não importava se tava chovendo ou qualquer outra coisa ele tava sempre lá esperando por ele,por favor acreditem esse filme não é triste é lindo,aconteceu de verdade,é uma história real,um dia irei conhecer a estatua de hachiko,que esta lá na parada do trem aonde ele sempre ficava esperando o seu dono.Quem quiser fala comigo este é meu email:julia_rodrigues31@hotmail.com.este email é do facebook.

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