Os Piratas do Rock / The Boat that Rocked

Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Uma total, absoluta delícia. Um daqueles filmes que deixam a gente mais leve, mais alegre, melhor, flutuando alguns centímetros acima do solo. Richard Curtis faz mais uma obra-prima, mais um elegia à vida, à graça, ao bom humor, ao amor – e à música.

Os Piratas do Rock é daquele tipo de filme que prova que a lei da relatividade da piada sobre o Einstein é certíssima. Bem, então, para quem não sabe, lá vai a piada, bem rapidamente. Numa festa, uma socialite pede para que Einstein explique para ela a lei da relatividade, e ele diz: “É simples, madame. A senhora experimente sentar durante um minuto num sofá especialmente confortável, e depois sente-se também durante um minuto exato sobre uma chapa em brasa, e depois me diga qual minuto durou mais. É isso: o tempo é relativo.”

Ou, como diz o Dylan: “o tempo é como um avião a jato, se move depressa demais”; e, em outra canção: “o tempo passa devagar”.

boat3O filme tem 135 minutos que passam voando. Mary comentou, lá pelas tantas, que já estava chateada porque o filme uma hora iria acabar. Tem muito filme de 90 minutos que dura uma eternidade, como se a gente estivesse sentado numa chapa em brasa.

Nos especiais do DVD, Richard Curtis conta que o filme ficou maior do que eles pretendiam. E que na edição final foi necessário cortar fora um total de 45 minutos – todos eles, felizmente, presentes no DVD.

Curtis, nascido na Nova Zelândia em 1956, foi criado em seu país Natal, nas Filipinas e na Suécia, até se estabelecer, na juventude, na Inglaterra. Seu currículo é invejável. A qualidade dos filmes que têm seu nome nos créditos é acachapante. É o autor dos roteiros de Quatro Casamentos e um Funeral, de 1994, e de Um Lugar Chamado Notting Hill, de 1999; colaborou nos roteiros dos dois filmes com o personagem Bridget Jones. Escreveu e dirigiu Simplesmente Amor, na minha opinião a melhor comédia romântica e um dos melhores filmes jamais feitos.

Neste Os Piratas do Rock Curtis foi o autor do argumento, roteirista, produtor e diretor. Na minha opínião, é um dos melhores filmes sobre música popular da história. É da mesma estatura (uma estatura gigantesca) de The Commitments, a maravilha que Alan Parker – de novo o cinema feito nas Ilhas Britânicas, este que eu acho hoje o melhor do mundo – criou em 1991. Lembrei do Commitments enquanto via o filme; aliás, nos dois toca-se “A Whiter Shade of Pale”, de Procol Harum. Os dois têm a mesma paixão imensa, desenfreada, por música pop, a mesma imensa alegria.

(No Comittments, os personagens comentam que a letra de “A Whiter Shade of Pale” é total e absolutamente incompreensível – o que é a mais exata verdade dos fatos –, mas, putz, que melodia! Neste filme aqui, um personagem escolhe colocar o disco quando precisa de uma música especialmente longa. Que maravilha, a incompreensível e majestosa, bachiana “A Whiter Shade of Pale”.)

Um mergulho – inspirado em fatos reais – nos deliciosos anos 60

boat4O filme se inspira em fatos reais. Em meados dos anos 60, no auge do rock e do pop britânico, a única emissora oficial de rádio, a BBC, dedicava apenas 4 horas por dia a esse tipo de música. Cacilda, era a época dos Beatles, Stones, Pink Floyd, Marianne Faithfull, Dusty Springfield, Hollies, Donovan, The Who, The Kinks, para mencionar só alguns! Diversas rádios piratas passaram então a operar em navios que ficavam no Mar do Norte, no limite das águas territoriais britânicas. Transmitiam durante 24 horas por dia, e atingiam um universo estimado em 25 milhões de ouvintes.

Alguns desses fatos são lembrados em letreiros bem no início do filme – e o filme começa já num ritmo alucinante, desde os créditos iniciais. Curtis reproduz o que já havia feito – maravilhosamente – em Simplesmente Amor, e usa muito split-screen, a divisão da tela em duas, quatro, 20 imagens diferentes. É o tipo de filme gostoso de se ver no DVD, porque dá vontade de voltar para ver de novo, e de novo, e de novo.

Curtis não pretendeu fazer uma reconstituição histórica acurada de uma das rádios piratas. Ele inventou uma rádio – a Rock Radio – e uma série de personagens: são oito disk-jockeys, mais o dono da rádio, mais um monte de outras figuras. Aparentemente, muitos desses personagens têm características de alguns DJs que existiram de verdade, nas rádios piratas da época. Não é uma reconstituição do que houve na verdade; é uma ficção inspirada em fatos e personagens históricos.

Nos créditos finais, há a dedicatória: “Este filme é dedicado a todos os que trabalharam e transmitiram nas estações piratas – todos aqueles maravilhosos anos, o dia inteiro e a noite inteira”.

É um delicioso mergulho no clima dos anos 60 da Swinging London: um tempo de irreverência, de iconoclastia, de cabelo comprido e saia curta, de muitas cores, muita bebida, muita droga – aquela zoeira danada que estremeceu os alicerces do Império do chapéu coco.

Tempos irreverentes, safados, que mudaram o mundo

Os DJs da Rock Radio são figuras engraçadíssimas, todos eles; cada um tem suas características próprias, é claro, mas têm várias coisas em comum: são apaixonados por música pop, são safados, gostam de falar palavrão, gostam de sexo (e a mulherada os adorava, e fazia fila para visitá-los no seu navio, também chamado, é claro, de Rock Radio), são irreverentes, gozadores.

Para fazer o contraponto, para mostrar a sisuda Inglaterra que estava virando passado, Curtis criou um ministro sinistro, interpretado pelo excelente Kenneth Branagh: um sujeito absoluta, absurdamente careta, que propõe, numa reunião do Ministério no número 10 da Downing Street, o endereço oficial dos premiês britânicos, a extinção das rádios piratas.

boatcountBem no início do filme, um dos DJs, O Conde (interpretado pelo ótimo Philip Seymour Hoffman) se prepara para entrar para a história como sendo a primeira pessoa, na história do rádio britânico, a dizer a palavra f… Aí entra no estúdio o dono do navio e da rádio, Quentin (o também ótimo Bill Nighy, propositadamente careteiro; em Simplesmente Amor, ele interpretou o velho cantor de rock que tenta dar a volta por cima), e pede que O Conde não faça isso. Explica que o governo já está fazendo todo o possível para f… a rádio; não é preciso dar a ele mais esse argumento. E diz uma frase maravilhosa:

– “Governos odeiam que as pessoas sejam livres”.

Que maravilha. Estamos com uns 15, 20 minutos de filme, e se ele parasse ali já seria uma obra-prima. Mas vai ter mais, muito mais.

Humor e criatividade soltam faíscam

Há uma piada atrás da outra, uma música boa atrás da outra, uma interpretação brilhante contracenando com outra intepretação brilhante, com situações hilárias, sensacionais, boas piadas, diálogos ferinos, inteligentes, safados. Faíscam o bom humor e a criatividade. Há brincadeira com tudo. Quando Carl (Tom Sturridge), o afilhado de Quentin, é abandonado pela mocinha que ele achava que iria comer, e que se chama Marianne (Talulah Riley), ouvimos Leonard Cohen cantar “So Long, Marianne”, de seu primeiro disco. A sensação que se tem é de o diretor Curtis simplesmente não conseguiu cortar a cena enquanto Leonard Cohen não terminasse sua canção esplêndida, doída, gloriosa.

Lá pelas tantas, há um embate entre O Conde, que é americano, e Gavin (Rhys Ifans), tido como o DJ mais amado da Inglaterra, que tinha ido trabalhar nos Estados Unidos durante um tempo e acaba voltando para a Rock Radio. Os dois se acusam de bunda-mole; para ver quem tem razão, quem é bunda-mole e quem é corajoso, encenam uma espécie de duelo – e aí a trilha sonora é uma das canções de Ennio Morricone para um dos western-spaghettis de Sergio Leone. Acho que é o tema de Por uns Dólares a Mais, mas não tenho certeza; precisaria ver o filme de novo. (E vou ver; vou comprar o DVD pra ver o filme, ou pedaços dele, de vez em quando).

Lá para perto do final, quando o filme brinca com o maior fenômeno da bilheteria de todos os tempos, Titanic, de James Cameron, e Carl vai atrás de seu pai recém-descoberto, ouvimos “Father and Son”, a canção histórica de Cat Stevens sobre o diálogo de surdos entre pai e filho.

boat2Há uma lei no Rock Radio determinando que não são permitidas mulheres a bordo permanentemente, mas a cozinheira do navio é uma mulher, Felicity (Katherine Parkinson). Quando alguém questiona se a lei não estaria sendo infringida, a própria Felicity se apressa a explicar que é lésbica. Felicity é, como seu nome indica, uma pessoa feliz. Ficará mais ainda ao conhecer Margaret (Olivia Llewellyn), uma amiga de Marianne, que volta ao navio para fazer feliz o jovem Carl.

Ao longo de todo o filme, alternam-se séries de seqüências a bordo do navio com outras, bem menores, das tentativas do ministro sinistro careta de conseguir meios legais para acabar com as rádios piratas. Kenneth Branagh está hilariante no papel. Segundo o iMDB, o personagem foi calcado numa figura real, um tal Tony Benn, que ocupou, em meados dos anos 60, o cargo de Postmaster General. Não conhecia essa expressão; é pouco mais do que literalmente o chefe geral dos Correios, com status de ministro – algo próximo do que no Brasil é o ministro das Comunicações.

Gente como a gente, que quer ser feliz – coisa de que os governos não gostam

Brannagh não contracena hora alguma com Emma Thompson, neste quinto filme em que os dois trabalham juntos. Foram casados na vida real, e fizeram juntos Henrique V, de 1989, Voltar a Morrer/Dead Again, de 1991, Para o Resto de Nossas Vidas/Peter’s Friends, de 1992, e Muito Barulho por Nada, de 1993. A sempre ótima Emma esteve extraordinária no filme anterior do diretor Richard Curtis, Simplesmente Amor – ela faz a mulher do editor infiel interpretado por Alan Rickman, irmã do primeiro-ministro britânico feito por Hugh Grant. Aqui, ela tem uma participação especial, em umas poucas seqüências passadas no Natal, como Charlotte, a mãe do jovem Carl, que, alguns anos antes, partiu muitos corações – e, ao que tudo indica, trepou adoidado com um monte de gente.

Entremeando o filme inteiro, há seqüências bem rápidas, e brilhantes, estupidamente bem feitas, de gente ouvindo a Rock Radio, gente comum, gente normal, de todos os tipos, idades – grupos de garotinhas estudantes, garotos solitários, secretárias, cabeleireiras, casais, trabalhadores das mais variadas profissões. É um encanto. Pessoas que querem ser livres e felizes – essa coisa de que os governos não gostam, segundo nos dizem o filme e a realidade.

E, no finzinho, nos créditos finais, ainda temos um desfile de capas de discos antológicos, alguns dos melhores que já foram feitos.

Este filme é como o samba, na definição de São Dorival Caymmi: quem não gostar dele é ruim da cabeça ou doente do pé.

Os Piratas do Rock/The Boat that Rocked

De Richard Curtis, Inglaterra-Alemanha-EUA-França, 2009.

Com Philip Seymour Hoffman (The Count), Bill Nighy (Quentin),

Rhys Ifans (Gavin), Nick Frost (Dave), Kenneth Branagh (ministro Dormandy), January Jones (Elenore), Tom Sturridge (Carl), Jack Davenport (Twatt), Ralph Brown (Bob), Chris O’Dowd (Simon), Tom Brooke (Thick Kevin), Rhys Darby (Angus), Will Adamsdale (John), Katherine Parkinson (Felicity), Emma Thompson (Charlotte), Tom Wisdom (Mark), Talulah Riley (Marianne), Olivia Llewellyn (Margaret)

Argumento e roteiro Richard Curtis

Fotografia Danny Cohen

Música Hans Zimmer

Produção Universal, Working Title, Studio Canal

Cor, 135 min.

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Título em Portugal: O Barco do Rock. Nos EUA: Pirate Radio. Na França: Good Morning England

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