Filhos da Esperança / Children of Men


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: Três coisas básicas sobre este filme: 1) é estupendamente bem feito; 2) não é para todas as platéias: para vê-lo, é preciso ter estômago forte; e 3) não tenho o mínima idéia do que a história maluca quer dizer.

É uma ficção, num futuro que está logo ali à nossa frente – 2027. É uma anti-utopia, ou distopia, um futuro negro, horroroso, apavorante, pior ainda, se é que isso é possível, que anti-utopias hoje clássicas, como 1984 e Fazenda Animal, de George Orwell, e Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.

Na história, em 2006 – exatamemente o ano em que o filme foi feito –, houve uma pandemia de uma gripe; a partir daí, caiu vertiginosamente a taxa de natalidade. A infertilidade espalhou-se como praga por todos os continentes, e a última criança a nascer veio ao mundo em 2009. Ficamos sabendo disso por informações que vão sendo passadas pelos personagens; a ação começa em 2027, justamente no dia em que morreu o último ser humano a nascer, Baby Diego, um argentino de 18 anos. Estamos em um bar em Londres, onde dezenas de pessoas acompanham o noticiário sobre a morte de Baby Diego num gigantesco aparelho de TV; um homem (sabemos que ele será o protagonista da história, porque é interpretado por Clive Owen) entra no meio daquela gente toda, pede um café, pega o café num copo de plástico e sai do bar, com a câmara atrás. A câmara o acompanha pela rua, sem corte algum na tomada longa; o homem põe o copo com o café num murinho junto à calçada, a uns 50 metros do bar de onde saiu, e então há uma grande explosão no bar; a câmara mostra a movimentação na rua logo após a explosão, ainda sem cortes.

Fiquei entusiasmado, voltei o DVD para acompanhar de novo o plano-seqüência. Sou apaixonado por planos-seqüências, e aquele ali, que começa no bar, os diversos rostos voltados para cima, acompanhando a notícia da morte do mais jovem ser humano, e continua até depois da explosão de uma bomba dentro do bar, é brilhante, bem feitíssimo.

Ao longo de todo o filme, haverá novos, brilhantes, bem realizadíssimos planos-seqüência. O mexicano Alfonso Cuarón, tão jovem e já cineasta do mundo, esbanja competência técnica, artesanal.

         Dez mãos para escrever o roteiro

achildrenMas a história…

Em 2027, a Inglaterra vive sob um regime totalitário de direita; a xenofobia impera; o Eurotúnel havia sido fechado anos atrás; todos os estrangeiros são declarados ilegais, caçados, presos em campos de concentração e depois expulsos do país. Um grupo terrorista chamado Peixes luta contra o governo; teoricamente, defendem os estrangeiros; mas há também grupos para-militares racistas, xenófobos. Há também um tal Projeto Humano, que faz pesquisas científicas para combater a infertilidade.

O personagem central da história, o interpretado por Clive Owen, Theo Faron (não há qualquer sutileza no nome – Theo, Téo, teo, Deus), trabalha num Ministério; no passado, foi um militante político liberal, progressista, mas abandonou faz tempo a militância. Tem um grande amigo, que foi um importante cartunista e hoje é um velho hippie, Jasper (interpretado por um quase irreconhecível Michael Caine, com longos cabelos e barba), que vive com a mulher doente num lugar isolado e escondido no interior, plantando maconha que vende para policiais. (O iMDB diz que Michael Caine baseou seu personagem em John Lennon.)

Com uns dez minutos de filme, Theo Faron é seqüestrado por um grupo dos terroristas Peixes e levado ao seu líder supremo, que vem a ser Julian (Julianne Moore), justamente a ex-mulher de Theo. Julian quer que Theo consiga, através de um primo dele, figura muito importante no governo, documentos para uma estrangeira ilegal, uma jovem negra, Kee (Clare-Hope Ashitey), para que ela seja conduzida sã e salva para fora do país.

A partir daí vem um emaranhado de situações que não desemaranha nunca mais, só vai se enredando mais e mais numa narrativa confusa.

Me peguei pensando, por exemplo, por que raios há tanta superpopulação na Inglaterra de 2027 se desde 2009 não nasce um único novo ser humano. Ou por que raios, naquele futuro em que o governo sabe de tudo, rastreia tudo, o velho hippie Jasper consegue se manter escondido no interior daquela ilha que não é maior que um Espírito Santo, ou o Estado do Rio.

O roteiro se baseia no livro Children of Men, de P. D. James, publicado em 1992. P. D. James é famosa por suas novelas policiais, várias delas com o policial e poeta Adam Dalgliesh. Não li o livro, não tenho idéia de como ele seja, mas não deve ter sido fácil adaptá-lo para o cinema – tanto que o roteiro é assinado por cinco pessoas. O diretor Alfonso Cuarón é uma delas. Mesmo tendo sido feito a dez mãos, não ficou – na minha opinião – um roteiro convincente, ou lógico; muito ao contrário, ficou um troço danado de confuso e carente de sentido.

E qual é, afinal, o destino de Kee? O que há, o que pode haver do outro lado do muro que construíram em volta da ilha? O renascimento, uma nova civilização? Mas a partir de quê?

Há no filme muita violência, forte e explícita. O caos que reina naquele futuro negro é assustador, e há cenas extremamente chocantes, sempre muito bem realizadas. Mas é bastante assustador, motivo pelo qual disse, lá no início, que não é para todas as platéias.

Tudo é, repito, tecnicamente muito bem realizado. O visual todo do filme é impressionante, de babar. O longo, imenso plano-seqüência de mais de 6 minutos bem no final do filme, em meio a uma guerra entre a polícia e os terroristas, e Theo e Kee no meio, é absolutamente sensacional, antológico.

         Um cineasta de trajetória singular

Alfonso Cuarón de fato tem uma trajetória singular e admirável. Como anotei depois de ver E Sua Mãe Também, de 2001, o diretor tem a característica de alternar estilos completamente diferentes. Fora do México, faz filmes de grande apelo comercial, alguns voltados também para o público adolescente, o que mais vai ao cinema e deixa grana na bilheteria. No seu país, faz filmes bem mais pessoais, sérios, pesados. Nascido na Cidade do México em 1961, começou a trabalhar na TV mexicana quando ainda era estudante de cinema e de filosofia. Seu primeiro longa-metragem, Sólo con Tu Pareja, de 1991, foi uma comédia amarga que tratava de aids. O filme seguinte, em 1995, foi A Princesinha/A Little Princess, adaptação de um livro infantil de grande sucesso; depois, em 1998, fez uma adaptação (absolutamente desnecessária, na minha opinião) de Grandes Esperanças, de Dickens, com os monstros Robert De Niro e Anne Bancroft em pequenos papéis.  Em seguida voltou ao México para fazer E Sua Mãe Também, em 2001 – para, em 2004, dirigir Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Em 2006, fez este filme aqui. De fato, isso é que é ser versátil.

É, sem dúvida, respeitadíssimo, esse Cuarón. Só um cineasta que inspira muito respeito teria dinheiro americano, inglês e japonês para produzir esse filme, e seria capaz de usar gente do porte de Michael Caine, Julianne Moore e o ator, diretor, roteirista e produtor Peter Mullan em papéis pequenos – importantes, fundamentais, mas pequenos. O filme foi indicado para três Oscars – fotografia (deslumbrante, de Emmanuel Lubezki), montagem (excelente, do próprio Cuarón e Alex Rodríguez) e roteiro adaptado. Ganhou 20 prêmios, inclusive o Bafta para fotografia e direção de arte, e teve outras 24 indicações.

Quem tiver estômago forte deveria ver este filme. Mesmo com a lógica confusa, a história doida, é, literalmente, um espetáculo.

Para encerrar: a palavra distopia, que usei lá em cima, estranhamente não está no Aurélio (pelo menos na edição que tenho), nem no bom Dicionário Unesp de Português Contemporâneo. Mas está no Dicionário de Termos Literários do professor Massaud Moisés, com a explicação de que já se fazia utopia de sentido negativo em 1600 – um autor chamado Joseph Hall – e que a palavra teria sido cunhada em 1952. Sempre aquela velha coisa: vivendo, aprendendo e depois esquecendo.

Filhos da Esperança/Children of Men

De Alfonso Cuarón, Inglaterra-EUA-Japão, 2006

Com Clive Owen, Clare-Hope Ashitey, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Julianne Moore, Danny Huston, Peter Mullan

Roteiro Alfonso Cuarón, Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus e Hawk Ostby

Baseado no livro Children of Men, de P.D.James

Fotografia Emmanuel Lubezki

Produção Universal, Strike, Ingenious Film, Toho-Towa. Estreou no Brasil em 8/12/2006

Cor, 109 min

**1/2

Título em Portugal: Os Filhos do Homem

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