A Condessa Descalça / The Barefoot Contessa


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Um grande, extraordinário filme. É um filme adulto, para adultos, um filme inteligente, para platéias inteligentes. Um dinossauro, um tipo em extinção – como um de seus tristes personagens define sua classe social, os aristocratas europeus.

É um filme sobre o mundo do cinema, e também sobre riqueza, poder, fama, busca da felicidade; sobre a frivolidade, a imbecilidade dos muitos ricos; sobre o ocaso de uma era.

É também um dos exemplos perfeitos daquela minha tese de que o cinema piorou muito, nas últimas décadas – a partir dos anos 70, 80, para ser mais específico. O cinema ficou menos inteligente, mais imbecil, entre outros motivos porque passou a querer agradar às platéias adolescentes, que tinham se tornado a faixa etária que mais bota dinheiro na bilheteria.

Joseph L. Mankiewicz é um dos mais literários, mais palavrosos, mais verbais de todos os grandes cineastas. Talvez o mais de todos. Seus filmes estão muito perto da literatura, ou do teatro – embora ele domine perfeitamente, magistralmente, a linguagem cinematográfica. Ele foi o cara que levou o Júlio César de Shakespeare para o cinema, em 1953, com Marlon Brando recitando os versos que talvez sejam alguns dos maiores escritos pelo bardo, aqueles de Marco Antônio diante do Senado romano: “Friends, Romans, countrymen” – “Amigos, cidadãos de Roma, ouvi-me; venho enterrar César, e não louvá-lo. O mal que o homem faz vive após ele, o bem se enterra às vezes com seus ossos”.

Fez o que talvez seja a melhor de todas as muitíssimas adaptações de Tennessee Williams para o cinema, o espetacular De Repente, no Último Verão/Suddenly, Last Summer, de 1959. Foi o autor de A Malvada/All About Eve, possivelmente o melhor filme que já foi feito a respeito do mundo do teatro e suas vaidades ciclópicas.

A Malvada é de 1950. Este A Condessa Descalça é de 1954. A Malvada foi um sucesso estrondoso, de público e crítica: teve 14 indicações ao Oscar, e levou seis, inclusive os mais importantes, melhor filme e melhor direção. Este aqui não teve tanta glória (teve duas indicações ao Oscar, melhor roteiro original e ator coadjuvante para Edmond O’Brien, que levou o único prêmio da Academia para o filme), mas, não sei, não – acho que é tão bom quanto o outro, ou talvez até melhor.

Fazia muitos, muitos anos que eu não revia A Condessa Descalça. Rever agora, em 2009, 55 anos depois de o filme ter sido feito, uns 45 anos depois de eu ter visto pela primeira vez, me deixou absolutamente chapado, zonzo, sonso, embasbacado. É cinema da mais absoluta qualidade, é arte grande.

Fiquei achando que este aqui é um dos filmes que reúnem as melhores falas da história do cinema. Talvez seja o filme dos melhores textos do cinema.

Há um trecho do longo monólogo inicial do filme que é muito citado – e é extremamente brilhante. Mas o que se cita muito é só um pedacinho do monólogo inicial – que é todo excelente. Procurei na internet a transcrição do monólogo completo, e não achei: há várias citações do pedacinho famoso, mas não há o monólogo inteiro. Tive que tirar à mão, essa coisa trabalhosíssima. Mas vale a pena. É brilho puro.

O filme abre num pequeno cemitério de cidadezinha do interior da Itália. A câmara vai passeando pelo cemitério, pelo pequeno grupo de pessoas que está ali. No meio do grupo vemos Humphrey Bogart, com uma capa de chuva semelhante às que usou em tantos filmes; Bogart está envelhecido – morreria em 1957, três anos depois da estréia do filme. É a voz dele, personalíssima, que diz o texto de Mankiewicz:

“Suponho que, quando você passa a maior parte de sua vida em uma profissão, você desenvolve o que poderia ser chamado de um ponto de vista ocupacional. Então talvez eu possa ser perdoado pelo primeiro pensamento que tive naquela manhã. Porque me peguei pensando que talvez a encenação e o cenário, e até a iluminação do funeral de Maria, seriam exatamente como ela gostaria. Meu nome é Harry Dawes. Sou escritor e diretor de filmes faz mais tempo do que gosto de lembrar. Sou da época em que os filmes tinham duas dimensões, ou uma dimensão, algumas vezes nenhuma dimensão. Escrevi e dirigi todos os três filmes em que Maria D’Amata trabalhou. Sua curta e completa carreira, do começo ao fim, eu escrevi e dirigi. No cinema, quero dizer. O que eu estava fazendo lá? O destino, ou as Fúrias (o nome romano das divindades gregas associadas ao inferno), ou quem quer que tenha escrito e dirigido sua curta e densa vida, eles cuidaram disso. De qualquer forma, fiquei lá, em um pequeno cemitério perto de Rapallo, Itália, vendo eles enterrarem a Condessa Torlato-Fabrini, em um chão do qual seis meses antes ela jamais ouvira falar. Com uma estátua de pedra para marcar o lugar.”

Em seu passeio pelo cemitério, a câmara agora mostra a estátua, em tamanho natural, de Maria D’Amata, Condessa Torlato-Fabrini, corporificada por Ava Gardner. É neste momento que a voz em off de Harry Dawes-Humphrey Bogart fala a frase que dezenas e dezenas de sites reproduzem:

“Life, every now and then, behaves as though it had seen too many bad movies, when everything fits too well – the beginning, the middle, the end – from fade-in to fade-out.”

“A vida volta e meia se comporta como se tivesse visto muitos filmes ruins, em que tudo se ajusta direitinho demais – o começo, o meio, o fim – do fade-in até o fade-out (os recursos usados na montagem do filme, na junção de uma cena ou uma seqüência com a seguinte).”

E ele prossegue: “Quando eu entrei em cena, a condessa não era uma condessa. Ainda não era nem uma estrela de cinema chamada Maria D’Amata. Quando eu entrei em cena, seu nome era Maria Vargas. Dançava num clube noturno em Madri, Espanha.”

E nesse momento Mankiewicz e seu montador fazem uma fusão da última cena da seqüência do cemitério com a primeira cena da segunda seqüência do filme – e se, naquela primeira seqüência, a do cemitério, o que mais importava era o escritor Mankiewicz, agora, nesta segunda seqüência, impera o Manckiewicz diretor. Estamos no night club de Madri; a câmara vai captando os espectadores que vêem Maria Vargas dançar – gente mesmerizada, babando pela mulher; grupos de homens, casais, um rico solitário. Rostos de gente embevecida. Mas o espectador do filme não vê Maria Vargas – vê só as expressões deliciadas das pessoas que a vêem dançar. É um brilho de idéia, um brilho de execução.

Quando a dança termina, e a bailarina que o espectador do filme ainda não viu sai de cena, um grupo de americanos chega ao night club, e a voz em off de Harry Dawes-Humphrey Bogart os apresenta ao espectador. O próprio Harry Dawes está no grupo; faz cinco meses que não bebe uma gota de álcool – e no período anterior, ficamos sabendo rapidamente, ele tinha se afundado no álcool; tinha feito muitos filmes no passado, mas agora está no desvio. Por isso tinha se sujeitado a trabalhar para Kirk Edwards (Warren Stevens), um financista de Wall Street, um dos homens mais ricos do mundo, sujeito despótico, nojento, que tinha resolvido ser produtor de cinema. Junto com Harry Dawes e Kirk Edwards, entram no night club Myrna (Mari Aldon), uma bela mulher que está prestando seus serviços ao milionário, e Oscar Muldoon (Edmond O’Brien), relações públicas-assessor de imprensa-puxa saco-secretário particular-faz tudo do homem.

O grupo está ali para ver Maria Vargas, para fazer um teste com ela e, se ela passar no teste, fazer um filme com ela, lançar um novo rosto, uma nova estrela. Kirk Edwards manda Oscar Muldoon ir buscar Maria no camarim e botá-la para sentar à mesa para receber a oferta que para ele, milionário que desconhece a resposta “não”, é irrecusável. O problema é que faltava, como diria o Garrincha, combinar com os russos, no caso a russa, no caso a espanhola.

Até aqui, ela, Maria Vargas, na pele de Ava Gardner, ainda não tinha aparecido. O que primeiro veremos dela são seus pés descalços, o corpo escondido atrás de uma cortina, enquanto ela se dedica a uma sessão erótica com um primo violonista. Finalmente, aí quando já temos uns dez, 12 minutos de filme, ela aparece – e a tela treme.

Parece que foi Jean Cocteau que inventou para Ava Gardner o apelido de o animal mais belo do mundo. Tinha toda razão.

Dizem que a história que Mankiewicz criou, sobre Maria Vargas sendo transformada em estrela por um bilionário que vinha de outra área, recém-chegado ao mundo do cinema, se inspira na história de Rita Hayworth com outro bilionário também recém-chegado ao show business, o legendário Howard Hughes. E dizem que, de fato, Rita foi convidada para o papel de Maria Vargas. Não sei por que ela recusou, mas ainda bem que não topou, porque Ava Gardner é ainda mais eletrizantemente esplendorosa que a outra. Esse papel tinha mesmo que ser dela, o animal mais belo do mundo.

O espectador – que, assim como o grupo de americanos chefiados por Kirk Edwards, não viu Maria Vargas-Ava Gardner dançar a dança que enfeitiçava os espectadores do night club madrilenho – será recompensado bem mais adiante, já quase no final do filme, em uma seqüência esplêndida em que ela dança num acampamento cigano. É acachapante, assim como diversas outras cenas em que a figura de Ava domina a tela, toma conta dela, faz o resto esmaecer. A seqüência, também já mais para o final, em que ela chega para tomar sol no iate do bilionário latino-americano no Mediterrâneo, é estonteante.

Mankiewicz mostra a história de Maria Vargas segundo os relatos de três pessoas diferentes: o do diretor Harry Dawes, o do relações públicas-faz tudo Oscar Muldoon e o do nobre italiano Vincenzo (Rossano Brazzi, tão canastrão, coitado, que nem Mankiewicz consegue fazer trabalhar à altura dos demais atores, todos soberbos).

O livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer diz que A Condessa Descalça “foi buscar em Cidadão Kane (1941) a sua estrutura em mosaico que oferece vários pontos de vista sobre um personagem – o que revela somente como aquela pessoa era insondável”. Em seguida, o livro dá uma gozeira em Quentin Tarantino, em quem muita gente enxergou um gênio da narrativa por fazer peripécias no roteiro que na verdade já haviam sido feitas pelo próprio Orson Welles, por Stanley Kubrick em O Grande Golpe/The Killing, de 1956, e por Mankiewicz, neste filme aqui. “Muito antes de Pulp Fiction (1994), Mankiewicz realiza uma seqüência que mostra a transição de Maria de Bravano (Marius Goring) para Vincenzo de dois pontos de vista diferentes.”

Essa tal seqüência, que aparece duas vezes no filme, de pontos de vista diferentes – a primeira vez, contada por Oscar Muldoon, a segunda contada pelo nobre Vincenzo -, com a câmara em locais diferentes mostrando exatamente a mesma coisa, é outro brilho neste filme cheio de brilhos.

         ***

Mais uma vez, fiz um texto grande demais. Mas ainda é preciso fazer um registro de uma coisa triste, escandalosa. As legendas do DVD do filme lançado no Brasil são uma vergonha, um acinte, um insulto. E justamente num filme em que as palavras são tão importantes. E não é um lançamento de uma pequena empresa, não. O DVD foi lançado por uma das chamadas majors, a 20th Century Fox, que, não sei por que motivos empresariais, distribui no Brasil este filme originalmente distribuído pela United Artists, mais tarde comprada pela MGM. Coloco no quadrinho abaixo alguns exemplos desse atentado ao pudor e ao Código de Defesa do Consumidor que deveria ser punido com pena dura.

O que se diz: O que diz a legenda do DVD:
Eu aconselho você a não ir a Roma fazer o teste Eu aconselho você a ir a Roma fazer o teste
Apareça hoje à tarde (Drop in this afternoon) Desço esta tarde
Nos Estados Unidos, o filme foi um sucesso de costa a costa (a smash coast to coast) Nos Estados Unidos, o filme foi um desastre de costa a costa
Agora caia fora (Now beat it) Agora bata
Vou levar a noiva até o altar (I’m giving the bride away) Ela deixará de ser a minha noiva

 

A Condessa Descalça/The Barefoot Contessa

De Joseph L. Mankiewicz, EUA-Itália, 1954

Com Humphrey Bogart, Ava Gardner, Edmond O’Brien, Warren Stevens, Marius Goring, Rossano Brazzi, Elizabeth Sellars, Mari Aldon, Valentina Cortese, Franco Interlenghi

Argumento e roteiro Joseph L. Mankiewicz

Fotografia Jack Cardiff

Música Mario Nascimbene

No DVD. Produção Figaro

Cor, 130 min

R, ****

6 Comentários

  1. murilo
    Postado em 10 setembro 2009 às 7:03 pm | Permalink

    é um filme do Mankiewicz que mostra uma
    Ava Gardner deslumbrantemente bela.
    òtimo filme, especialmente pelos seus
    flash backs.Mas não foi devidamente apreciado
    pelos seus contemporâneos.Uma pena.

  2. Postado em 24 novembro 2009 às 7:45 pm | Permalink

    não sei como falar sobre tal filme.

    bogart e gardner…

    excepcionais.

    capricornianos.

    enredo intrigante do início ao fim.

    diálogos perfeitos.

    e, no mais, concordo perfeitamente com a crítica em relação a legenda do filme…sorte de quem, de certa forma, é um bom ouvinte em inglês.(pelo menos não há de perder a beleza completa da cena)

    abraços.

  3. Rupen Adamian
    Postado em 12 fevereiro 2010 às 4:57 pm | Permalink

    Um verdadeiro clássico; um filme maravilhoso, que não envelhece. Até os carrões da é[poca continuam clássicos.
    Tem Ava, a mulher mais bela do cinema de sua época, e dois atores excepcionais; Humphrey Bogart mostrando porque era um grandíssimo ator e um Edmond O’Brien, como o inesquecível puxa-saco.
    Todos os atores “secundários” aproveitam bem seus 15 minutos de fama, mostrando a grande categoria do diretor.

  4. Postado em 6 junho 2010 às 8:26 am | Permalink

    Penso que Mankiewicz é um cineasta mal compreendido, acusado com frequência demasiada de verborragia e teatralidade. E ele se furta mesmo a fazer concessões, como a de exibir Maria dançando logo no início, que qualquer outro diretor teria feito, ainda mais sendo Maria a lindíssima Ava. O filme se beneficia disso – o mistério de Maria é conservado, e o mais que se ouve no filme é os homens de sua vida falando (como se a misoginia crônica, verdadeira doença do cinema americano, fosse o grande tema e a grande denúncia do filme). As legendas estão horríveis, o filme merecia coisa melhor. E como esquecer Ava? Será que já houve uma estrela tão resplandecente?

  5. Rubens
    Postado em 18 março 2011 às 3:41 pm | Permalink

    Apesar das porcarias de traduções que estas empresas fazem em muitos filmes e enfiam goela abaixo da gente, é uma bênção hoje em dia termos DVDs como este para assistirmos os filmes que gostamos quando nos der na telha.
    Lembro que na época que não existia estas modernidades, e quando a “Sessão Corujão” da nave mãe passava o filme, o babaca aqui ficava até de madrugada acordado babando pela estonteante beleza de Ava Gardner e acompanhando toda a trama, mesmo já a conhecendo cena por cena.
    Filmaço!

  6. cristina
    Postado em 22 maio 2011 às 7:16 pm | Permalink

    Filme maravilhoso, empolgante. Prende a atenção do inicio ao fim. Saudades dos filmes deste gênero, o qual nos mostra o mal da sociedade de uma forma prazerosa ao ver a atuação de Ava Gardner, linda!!!!!

6 Trackbacks

  1. [...] de Casablanca. Há um bar que é a perfeita imitação do Ricky’s Cafe Americain do clássico com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, e diversas seqüências que imitam a noite em que Ilsa chega ao bar acompanhada [...]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Laura em 25 outubro 2010 às 11:42 pm

    [...] rever Laura agora, me lembrei bastante de A Malvada/All About Eve, de Joseph L. Mankiewicz, feito seis anos depois, em 1950 – a atmosfera de Laura é exatamente aquela de All About Eve, [...]

  3. [...] Meu Deus do céu e também da terra. Candelabro Italiano. A Princesa e o Plebeu (foto). Ninotchka. A Condessa Descalça. Um Americano em Paris. Um Lobisomem Americano em Londres. Um Lobisomem Americano em Paris. [...]

  4. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 24 maio 2011 às 4:27 am

    [...] A Condessa Descalça/The Barefoot Contessa (1954) [...]

  5. Por 50 Anos de Filmes » A Malvada / All About Eve em 5 outubro 2011 às 11:56 pm

    [...] A Condessa Descalça, que Mankiewicz dirigiu em 1954, um dos melhores filmes sobre os bastidores do cinema que já foram feitos, tem alguns dos diálogos mais extraordinariamente inteligentes, ferinos, amargos da história. Tem poucos rivais nesse quesito. O maior deles é A Malvada, que o mesmo Mankiewicz fez quatro anos antes, em 1950. [...]

  6. [...] em Veneza tem bastante a ver com A Condessa Descalça – um dos melhores filmes sobre o cinema jamais feitos – e também com aquele que seria o canto [...]

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