Ao Entardecer / Evening


Nota: ★★½☆

Anotação em 2008: Um monte de boas atrizes de várias partes do mundo e de diversas gerações – cacilda, não é todo dia que se reúnem Vanessa Redgrave, Glenn Close, Meryl Streep, Toni Collette, Natasha Richardson, mais a jovem Claire Danes. E, no entanto, o filme é um certo desapontamento.

A narrativa segue aquele lugar comum cada vez mais comum que é mostrar, simultaneamente, fatos do presente e do passado muito distante de alguns personagens. E o roteiro cai na armadilha de ir e vir demais do presente para o passado, toda hora, a todo momento. Cansa, perde a graça, fica previsível demais da conta.

E a narrativa se arrasta – tanto a do passado, nos anos 50 e muitos ou 60 e poucos (não se precisa exatamente), quanto a do presente, dos dias de hoje (e o filme é de 2007). Dá a sensação de que o diretor Lajos Koltai, um húngaro nascido em 1946 e radicado nos Estados Unidos, onde fez longa carreira como diretor de fotografia, não teve coragem de editar, enxugar, cortar algumas cenas do seu copião final.

Pior ainda: dá a sensação de que ele – em seu segundo longa-metragem como diretor – não domina ainda muito bem a direção de atores. Temos esse monte de boas atrizes no auge de sua forma, de suas possibilidades – e elas não estão bem como seria de se esperar.

E pior ainda: como diziam os críticos de música ingleses a respeito de Paul McCartney nos anos 70, tem sacarina demais. Sempre detestei essa expressão; eu pessoalmente sou até bem chegado a um açucarzinho, mas este filme aqui exagera no sentimentalismo, não se envergonha da pieguice.

Bem. Dito isso, é preciso reconhecer que a fotografia é muito caprichada – afinal, é o metiê original do diretor -, o visual é bonito, e ver essas atrizes todas, ainda que não na sua melhor forma, é sempre um prazer.

Ann (Vanessa Redgrave) está à morte, deitada em sua casa confortável, sob os cuidados de uma enfermeira e a angústia das duas filhas, Connie (Natasha Richardson, filha de Vanessa e do diretor Tony Richardson) e Nina (Toni Collette). Cada uma delas tem seus problemas – Connie virou apenas uma dona de casa e mãe de família, sem uma vida pessoal enriquecedora, e Nina é instável, não encontrou uma profissão nem uma relação afetiva estável e satisfatória; o atual marido quer ter filhos, ela tem dúvidas se quer ser mãe de um filho dele. Mas as questões das duas filhas são secundárias. O foco da história é Ann. Ann passa seus últimos dias entre suaves delírios e doçamargas lembranças da juventude – especificamente, de um episódio de sua juventude, os dias em torno do casamento de sua milionária amiga Lila.

A jovem Ann (interpretada por Claire Danes, essa moça que tem tido papéis importantes em diversas grandes produções, como, para dar só um exemplo, Stardust – O Mistério da Estrela/Stardust, também de 2007) queria ser cantora, uma grande cantora; canta em boates do Village, em Nova York. Vai a Newport – refúgio dos muito ricos à beira-mar – para o casamento da grande amiga Lila (Mamie Gummer); tinham sido colegas de faculdade, as duas e mais Buddy (Hugh Dancy), o irmão um tanto problemático de Lila. Os irmãos são podres de ricos, e o casamento de Lila com um outro ricaço da Nova Inglaterra será na propriedade cinematográfica de seus pais, debruçada sobre o mar. Glenn Close faz a mãe dos dois irmãos.

As muitas idas e vindas no tempo vão entregando a conta-gotas a história que se desenrolou nos dias que antecederam o casamento de Lila – como se houvesse lá acontecimentos de grande impacto ou mistério. E não há nada disso. O que há é a figura sobre quem Ann bem velha, no leito de morte, fala sempre, para surpresa das filhas, que jamais tinham ouvido o nome: Harris, o jovem médico filho da antiga governanta da família ricaça. Harris, o personagem chave da trama, é interpretado por Patrick Wilson, outro sujeito que vem tendo sorte nos papéis: fez o principal papel masculino em Pecados Íntimos/Little Children, de 2006, belo filme, ao lado de Kate Winslet e Jennifer Connelly.

A melhor coisa do filme virá quase no final. É quando Vanessa Redgrave e Meryl Streep, essas duas figuras monstruosas, contracenam durante alguns minutos. O diretor Lajos Koltai, experiente em enquadramento, acha uma solução inusitada, um tanto estranha, para se aproveitar do fato de que tem diante de sua câmara Vanessa e Meryl; ele põe seus rostos em posição horizontal, e faz close-ups – todo o espaço da tela widescreen é ocupado pelos rostos de cada uma das duas grandes damas.

Ao Entardecer/Evening

De Lajos Koltai, EUA-Alemanha, 2007

Com Claire Danes, Vanessa Redgrave, Toni Collette, Natasha Richardson, Patrick Wilson, Glenn Close, Meryl Streep, Mamie Gummer, Hugh Dancy

Roteiro Susan Minot e Michael Cunningham

Baseado em novela de Susan Minot

Música Jan A.P. Kaczmarek

Produção Hart-Sharp. Estreou em São Paulo 25/7/2008

Cor, 117 min.

**1/2

Título em Portugal: Ao Anoitecer

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