Boêmio Encantador / Holiday


Nota: ★★★☆

Anotação em 2007, com complemento em 2008: Outro clássico que eu jamais tinha visto. Em Indiscreta, que vi pouco antes de ver este aqui, Cary Grant e Ingrid Bergman mostram sua beleza madura; aqui, Grant e Katharine Hepburn mostram sua beleza jovem. Os dois filmes são provas da tese de que ah, como era melhor o cinema nos anos 30 a 60. Os dois estão muito à frente de seu tempo e do comportamento médio, mediano, aceito como correto pela sociedade.

Este aqui tem a coragem, a ousadia de ser contra o princípio básico da sociedade capitalista de uma maneira geral, e da americana em particular, de que há poucas coisas mais sagradas na vida do que trabalhar duro para acumular quanto mais dinheiro for possível.

Ele é parente do conto de Somerset Maughan The Fall of Edward Barnard nas Histórias dos Mares do Sul (na tradução brasileira, o conto se chamou O Degenerado), que contrapõe a escravidão ao trabalho ao prazer de viver a vida intensamente. Antecipou em décadas a sede da contracultura pela liberdade e pelo gozar a vida, e é frankcapriano até a medula.

Cary Grant faz o papel de Johnny, um sujeito que fica noivo de Julia (Doris Nolan), a filha de um milionário. A família da noiva – com a honrosa exceção de Linda, a irmã ovelha negra (Katharine Hepburn) o pressiona para entrar nos negócios do milionário – tudo que ele não quer fazer na vida. Johnny, é claro, vai perceber que escolheu a irmã errada.

Uma maravilha – o único senão é o título brasileiro, que não tem nada a ver com nada.

Encontro no iMDB uma curiosidade interessante. Quase todo mundo se lembra da última frase de Rhett Buttler, o personagem de Clark Gable, em … E o Vento Levou, lançado em 1939. Ele está indo embora, finalmente; a pentelha da Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) faz uma pergunta do tipo “Mas o que será de mim?”, e ele responde a frase, uma das mais famosas da história do cinema:

– Frankly, my dear, I don’t give a damn.

Algo como “francamente, minha cara, não tô nem aí”. A questão toda é que damn – danado, danação, maldito, maldição – era um palavrão, e palavrão não podia de jeito nenhum, era uma coisa absolutamente proibida pelo Código Hays. Mas os produtores insistiram em mantê-la no filme, e conseguiram abrir essa brecha no código de autocensura de Hollywood.

Pois bem: o iMDB lembra que, neste filme aqui, de 1938, 18 meses antes de Clark Gable dizer a frase, Katherine Hepburn pronuncia a palavra damned – ao imitar Lady Macbeth numa fala da peça de Shakespeare. E o Código deixou passar.

O livro The Columbia Story conta que o chefão do estúdio, Harry Cohn, queria Irene Dunne no papel de Linda. O diretor George Cukor insistiu em Katharine Hepburn. O filme não foi um sucesso de bilheteria, e Cohn deu ordem para que a Columbia nunca voltasse a filmar com Katharine. Sorte dos outros estúdios.

Boêmio Encantador/Holiday

De George Cukor, EUA, 1938.

Com Cary Grant, Katharine Hepburn, Doris Nolan, Lew Ayres, Edward Everett Horton

Roteiro Donald Ogden Stewart e Sydney Buchmann

Baseado no livro de Philip Barry

Produção Columbia.

P&B, 95 min.

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 1 junho 2011 às 12:04 am

    […] Hepburn: Vivendo em Dúvida/Sylvia Scarlett (1935); Boêmio Encantador/Holiday (1938); A Estirpe do Dragão/Dragon Seed (1944); O Milho Está Verde/The Corn is Green […]

  2. Por 50 Anos de Textos » Outra ou a mesma meia-noite em 21 Janeiro 2012 às 10:01 pm

    […] Apartment, no Brasil Se Meu Apartamento Falasse; Holiday, no Brasil Boêmio Encantador. Artigo postado em Manuel S. Fonseca e rotulada Cinema. Acompanhe todos os comentários pelo […]

  3. […] Scarlett, de George Cukor (1935), Levada da Breca/Bringing up Baby, de Howard Hawks, e Boêmio Encantador/Holiday, também de George Cukor, os dois lançados no mesmo ano, […]

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