Star 80


Nota: ★★★☆

Anotação em 2003, com complemento em 2008: Cruel, duro, pesado, sombrio – apesar da beleza solar da Mariel Hemingway. É perfeitamente claro o motivo pelo qual a história real da coelhinha da Playboy que teria um caso com um diretor de cinema  (Peter Bogdanovich) interessou Bob Fosse, esse diretor extraordinário que era encantado com os personagens do showbiz e o seu lado negro. 

E que lado negro. Tudo, nesta história da garota inocente cuja beleza o marido usa para obter sua parte do sonho americano, é ruim, doente, escabroso, nojento, fedorento. É como se a vida real se inspirasse na Tragédia Americana de Theodore Dreiser.

A jornalista Teresa Carpenter venceu o Pulitzer de 1981 pelo artigo que escreveu no semanário Village Voice sobre a morte da coelhinha Dorothy Stratten, The Death of a Playmate, no qual o filme se baseia. A música é de Ralph Burns, colaborador de sempre de Fosse, que também fez a trilha de Cabaret e All That Jazz, e a fotografia é do sueco bergmaniano Sven Nykvist, que também trabalhou em filmes de Woody Allen.

Cliff Robertson, coadjuvante em dezenas e dezenas de filmes dos anos 50 e 60, Oscar de melhor ator pelo belo Os Dois Mundos de Charly, de 1968, e que, velhinho, fez o tio do Homem Aranha 1, 2 e 3,  interpreta Hugh Heffner, o criador do império Playboy; e Carroll Baker, símbolo sexual nos anos 50 e começo de 60 em filmes como Baby Doll, de Elia Kazan, de 1956, e Harlow, de 1965, em que interpreta o sex symbol dos anos 30, aqui faz o papel da mãe da coelhinha da Playboy

Foi o último dos excelentes e pouquíssimos filmes que Bob Fosse dirigiu – apenas cinco, ao longo de 15 anos mais dedicados à Broadway que a Hollywood. E é, sem dúvida, o mais amargo e pessimista deles – mais ainda do que Lenny, outra biografia que o diretor-coreógrafo filmou, a de Lenny Bruce, o trágico comediante de grande sucesso que resolveu enfrentar o sistema e saiu derrotado, drogado, doido, solitário e sem um tostão.

Star 80

De Bob Fosse, EUA, 1983.

Com Mariel Hemingway, Eric Roberts, Cliff Robertson, Caroll Baker

Roteiro Bob Fosse

Baseado em artigo de Teresa Carpenter

Música Ralph Burns

Fotografia Sven Nykvist

Produção The Ladd Company, distribuição Warner

Cor, 103 min.

12 Comentários para “Star 80”

  1. Poxa, consegui baixar o filme com muita qualidade, mas não acho a legenda em lugar nenhum. Me ajudem por favor.

    Obrigado.

  2. Definitivamente, STAR 80 ( EUA/ 1983 ), dirigido por Bob Fosse, não apresenta Dorothy Stratten como ela realmente foi. Baseado no artigo de Teresa Carpenter, ” Death of a Playmate ” -publicado em 1981 e ganhador do Prêmio Pulitzer – o filme não contempla a luminosidade, o talento e a maravilhosa fotogenia de Dorothy, a única legítima herdeira de Marilyn Monroe ( com a qual foi muitas vezes comparada e a quem representou num ensaio sobre as divas louras de Hollywood, fotografado por Mario Casili e só publicado 20 anos após sua morte, na edição de Agosto de 2000, da Playboy americana ). Mariel Hemingway interpretou, a pedido de Fosse, uma Dorothy Stratten totalmente submissa ao namorado e, posteriormente marido, Paul Snider ( vivido por Eric Roberts ), sem nenhuma personalidade, num constante estado de depressão e amargura, como que esperando fatalmente pelo próprio fim : na cena da morte, ela praticamente aceita o ” sacrifício “, sendo que na vida real, Dorothy lutou com Snider e teve a ponta de seu dedo indicador esquerdo arrancado, assim como o lado esquerdo de seu rosto, com um disparo de espingarda! Esse detalhe nos permite perceber que o seu último ato foi tentar se defender!
    Onde está, em STAR 80, a deslumbrante Dorothy Stratten do especial de TV ” Playboy Roller Disco & Pajama Party ” , quando roubou o coração de Peter Bogdanovitch, ( presente nas gravações na Mansão Playboy ) e todas as cenas em que apareceu ( seja com James Caan, Richard Dawson ou com o Village People ) ? Onde está a jovem atriz que derrotou mais de 300 candidatas para conseguir o papel principal de ” Galaxina “, ficção-científica B que hoje só vale pela sua presença? A Dorothy sonhadora, vivendo um conto de fadas nos bastidores das sessões fotográficas com Mario Casili, registradas em vídeo? A atriz que a cada participação, na TV e no Cinema, estava cada vez melhor, culminando com a sua inefável presença em ” They All Laughed ” ( Muito Riso e Muita Alegria ), de Bogdanovitch, filme considerado por Quentin Tarantino como um dos 10 maiores de todos os tempos? A Playmate do Ano que roubou a cena e deixou o público apaixonado com a sua naturalidade e simplicidade, no “ Tonight Show ” de Johnny Carson? A mesma playmate que não ia embora até que autografasse a última revista do último fã da fila, durante suas apresentações públicas? A irmã carinhosa, a filha amorosa, a funcionária exemplar , a estudante dedicada, a leitora de Hemingway ( o avô de Mariel ) , William Golding e Thornton Wilder ?
    Nada disso se vê em ” STAR 80 ” ! Mariel Hemingway conseguiu mostrar apenas um lado de Stratten: seu sofrimento no relacionamento com um homem mentalmente desequilibrado e misógino pelo fato de se sentir em dívida com ele, por tê-la ” descoberto ” no Dairy Queen de Vancouver. Bob Fosse fez o que Hugh Hefner sempre se recusou: explorar a morte de Dorothy. Como explicar de outra forma o fato do diretor ter filmado a cena da morte no próprio quarto da própria casa onde tudo verdadeiramente aconteceu ? O único mérito de Bob Fosse foi reconhecer que, para Dorothy Stratten, seu corpo era parte de sua arte ( o que ela descobriu com a Playboy ). Bailarino e dançarino, Fosse não olvidou isso. Mariel Hemingway merece destaque pela sua presença. Se não mostrou a real personalidade da verdadeira Star 80, foi por causa do roteiro e da direção, que preferiu um filme exploitation a uma cinebiografia. Em alguns momentos, Fosse apela até para uma alusão indireta ao assassinato do presidente Kennedy: o momento da explosão da face de Dorothy paira em toda a trama!
    O Cinema e a TV está devendo uma cinebiografia honesta de Dorothy Stratten. Por enquanto, o documentário ” Dorothy Stratten : The Untold History ” ( 1985 ), dirigido e produzido por Marshall Flaum, continua sendo o melhor retrato dessa mulher maravilhosa, grande ser humano e atriz de verdadeiro talento, que tinha tudo para se tornar a maior estrela do Cinema na década de 1980 e uma das maiores de toda a História da Sétima Arte!

    ( Adriano Miranda-Franca-SP- Historiador de Cinema )

  3. Prezado Adriano,
    É uma honra para mim, e para meu humilde site, receber esta sua mensagem, tão absolutamente plena de informações, de dados, de luzes.
    Confesso, sem pejo, que conheço pouquíssimo sobre Dorothy Stratten. A anotação que fiz, logo após ver o filme de Bob Fosse, em 2003, foi absolutamente despretensiosa. Fiz a anotação só para mim mesmo, como costumava fazer logo após ver alguns filmes. Foi muito antes de decidir criar o site 50 Anos de Filmes. Não procurei pesquisar sobre a história de Dorothy Stratten. Anotei minhas impressões, minhas sensações sobre o filme. E vi o filme com paixão – sou absolutamente apaixonado pelos cinco filmes feitos por Bob Fosse.
    Seu texto esclarece o que deve ser esclarecido, e que o meu texto não esclareceu.
    Só posso agradecer a você por ter me enviado sua mensagem.
    Um abraço.
    Sérgio

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