Um Corpo Que Cai / Vertigo

Nota: ★★★★

Resenha na coluna O Melhor do DVD, no site estadao.com.br, em 2000: Filmado em 1957 e recebido com críticas negativas e pouco sucesso de público em 1958, Um Corpo que Cai foi adquirindo, com o passar do tempo, uma legião de admiradores fanáticos.

Passou nos cinemas americanos de novo em 1984, e depois disso sumiu de circulação por mais de uma década. Os negativos originais estavam bastante deteriorados em meados dos anos 1990, quando passaram por um cuidadoso processo de restauração, a cargo de Robert A. Harris e James C. Katz, o mesmo time responsável pelo resgate de outras pérolas que estavam igualmente se perdendo – Lawrence da Arábia, de David Lean, Spartacus, o último filme americano de Stanley Kubrick, e My Fair Lady, de George Cukor. A dupla gastou mais de US$ 1 milhão  para restaurar Um Corpo que Cai. O filme reestreou nos cinemas americanos com a cópia restaurada em 1996 (em São Paulo, reestreou no início de 1997).

É essa cópia restaurada que está no DVD lançado agora, com a reconstituição cuidadosa das cores originais escolhidas por Hitchcock e com a esplendorosa música de Bernard Herrmann em Dolby digital e surround. A história das filmagens, e a história da restauração, são contadas, em ação paralela, em um documentário excepcional, “Obsessed with Vertigo”, ou “Obcecados por Um Corpo que Cai”. O documentário, de cerca de 30 minutos, é dividido em capítulos, com a possibilidade de escolha de cenas, como os filmes. E, se não tem ainda legendas em português, ao menos tem legendas em inglês, o que facilita demais as coisas para quem não domina completamente o idioma.

E é um belíssimo documentário, feito com amor e uma quantidade fantástica de informações. Martin Scorsese é um dos entrevistados, abrindo e fechando as considerações sobre o filme. Outro entrevistado, o produtor associado Hebert Coleman, conta que o primeiro roteirista, o dramaturgo Maxwell Anderson, apareceu com um roteiro ininteligível. Alec Coppel fez uma segunda versão do roteiro, e depois Samuel Taylor – o dramaturgo autor de Sabrina Fair, a peça que deu origem aos Sabrina de Billy Wilder (1954) e de Sydney Pollack (1995) – começou tudo de novo, trabalhando durante um ano em colaboração com Hitch.

O documentário conta que a atriz escolhida pelo mitológico diretor para os papéis-chave de Madeleine e depois Judy era Vera Miles (que havia acabado de trabalhar com ele em O Homem Errado, de 1957, e voltaria a trabalhar de novo em Psicose, em 1961). Vera Miles fez os testes com as roupas criadas pela também lendária Edith Head para a personagem de Madeleine, e chegou a ser feito um quadro de Carlotta Valdes com o rosto da atriz – o quadro é mostrado no documentário. O início das filmagens se atrasou, Vera Miles ficou grávida e Kim Novak pegou o lugar.

Nada contra Vera Miles, que é uma atriz muito boa e é uma mulher bonita. Mas que abençoada gravidez, a dela. Porque Kim Novak era muito mais que bonita; tinha uma beleza estonteante, acachapante – e é uma das responsáveis pelo fato de o filme ser uma das maiores obras-primas do cinema.

Kim Novak é de fato duas pessoas inteiramente diferentes, Madeleine e Judy. Madeleine é aquela mulher rica, cosmopolita, de gestos elegantes, de uma sensualidade sempre presente, mas contida. Judy é uma moça humilde do interior do Kansas – “Salinas, Kansas”, ela diz, várias vezes -, com um jeito quase vulgar, ou até escancaradamente vulgar. Kim Novak consegue ter duas vozes diferentes, dois sotaques diferentes, dois andares diferentes, dois olhares diferentes. Um espanto.

“O tempo faz coisas com os filmes, e com a maneira com que nós os vemos”, diz James C. Katz, o produtor da restauração, no início do documentário.

Na época do lançamento do filme, os críticos usaram o adjetivo “perfunctory” para definir o trabalho de Kim Novak – superficial, mecânico, indiferente, descuidado, negligente. Ah, a leviandade dos críticos. Certamente diziam isso porque implicavam com a história da atriz – uma modelo que o chefão da Columbia Harry Cohen queria transformar na nova Rita Hayworth, através de uma gigantesca campanha publicitária para vendê-la como uma nova deusa do sexo.

No final da década de 80, no livro Actors & Actresses, The International Dictionary of Films and Filmmakers, Richard Lippe já dizia que Kim Novak pode ser julgada como a mais mal entendida e mais subestimada das grandes estrelas dos anos 50. E reparava na “notável contribuição” da atriz “ao que é o melhor filme do diretor”: “Sua atuação merece tanta admiração quanto a de Jimmy Stewart”. No mínimo – se não merecer admiração maior.

Anotação em 1997:

A última vez que eu tinha visto foi no dia 1º de janeiro de 1995, portanto há dois anos e três meses. Foi na TV a cabo, com Fêzinha, que ficou absolutamente encantada. Antes dessa vez de 1995, tinha passado anos sem ver. Pelo menos entre 1989 e 1994 eu não vi – acabei de checar em todas as anotações feitas aqui no micro.

Vou depois tentar achar, nos meus cadernos de menino e adolescente, quantas vezes vi o filme.

(Algumas das vezes em que vi o filme:

6/12/64, no Cine Art-Palácio, BH;

14/12/64, no Pathé, BH;

1/1/95, na TV a cabo, com Fernanda;

30/3/97, no Espaço Unibanco, com Mary (versão restaurada em 1996);

30/7/00, no DVD, com Mary.)

A cópia que está sendo exibida no Unibanco é muito boa, e mostra muito bem o fantástico trabalho de restauração. As cores estão absolutamente nítidas; todo o fundo está claro, límpido, absolutamente visível – as fotografias de San Francisco atrás das janelas das casas e apartamentos nas tomadas feitas em estúdio, os filmes das ruas de San Francisco atrás das janelas dos carros nas tomadas de James Stewart dirigindo igualmente em estúdio. Na cena do beijo no hotel, quase no final, em que a câmara vai rodando em torno de James Stewart e Kim Novak, pode-se ver nitidamente a junção genial que o velho Hitch fez: ora o que vemos é o quarto do hotel de Judy, ora o que vemos é a estrebaria da missão religiosa, onde Scottie tinha beijado Madeleine, os dois com as mesmas roupas nas duas ocasiões diferentes.

Como é extraordinária a apresentação do Saul Bass. Como é linda, e brilhante, feita num tempo, como bem lembrou Marynha, muito distante da computação gráfica.

Como o velho Hitch conseguiu dirigir bem a Kim Novak! Ela nunca foi boa atriz, se é que não estou louco. Mas aqui no filme ela está esplêndida, sensacional; ela é duas pessoas diferentes, primeiro Madeleine e depois Judy, Madeleine uma mulher rica, cosmopolita, de gestos elegantes, Judy uma moça humilde do interior do Kansas, com um jeito quase vulgar. Ela consegue ter duas vozes diferentes, dois sotaques diferentes. É absurdamente talentoso o trabalho dela. Isso sem falar, é claro, da beleza estonteante, da sensualidade, da absurda sensualidade do andar, do olhar.

Escrevi o parágrafo acima e fui checar no livro Actors & Actresses, The International Dictionary of Films and Filmmakers. Eu estava em parte certo, em parte errado. O verbete sobre Kim Novak, escrito por um Richard Lippe, diz que ela foi criada pelo chefão da Columbia, Harry Cohen, que promoveu uma gigantesca campanha publicitária para vendê-la como uma nova deusa do sexo. Ela tinha sido modelo, e foi escolhida pelo produtor para substituir Rita Hayworth, que estava ficando muito rebelde. Mas o fato é que, apesar de ter sido um produto de marketing – diz o autor -, ela “may be judged the most misunderstood and undwerrated of the major 1950’s stars”. Destaca como boas suas atenções em Picnic e The Man with the golden arm; diz que em Kiss Me, Stupid ela demonstra mais talento para a comédia do que Marilyn. O texto de cinco parágrafos dedica um inteiro ao seu desempenho em Vertigo. Diz que sua atuação foi considerada “perfunctory” – superficial, mecânico, indiferente, descuidado, negligente. Mas é, na verdade, vendo-se agora, com a perspectiva dada pelo tempo, uma “notável contribuição ao que é o melhor filme do diretor”. “Her performance in Vertigo deserves as much acclaim as Jimmy Stewart’s.” Sem dúvida o cara está certo. Nesta centésima revisão do filme, na verdade, me chamou muito mais atenção o trabalho dela que o dele.

O que deixou Marynha especialmente impressionada foi a profundidade da loucura em que o personagem do Scottie entra, depois da morte de Madeleine. De fato, a longa seqüência em que a personagem de Barbara Bel Geddes (meu Deus do céu e também da terra, que personagem bem construído!) tenta conversar com Scottie e animá-lo, na casa de repouso, James Stewart está ótimo, com uma perfeita expressão de inexpressão, de alheamento, de loucura do nada, da vida que perdeu totalmente o sentido.

Sabendo já o filme de cor e salteado, e vendo-o agora com a perspectiva dos meus 48 anos, achei meio esquisito o personagem de Judy. É estranho que Judy, após participar de um crime, ser cúmplice de um crime, a) não tenha ganhado uma boa grana do assassino (ela diz, no final, que ganhou uma certa quantia; é pouco); b) tenha continuado a trabalhar como balconista (poderia ter estudado um pouco e se apresentado a alguma companhia de teatro; afinal, que atriz brilhante ela foi fazendo o papel de Madeleine); c) tenha permanecido em San Francisco; d) tenha, em tão pouco tempo de convivência, dois ou três dias, se apaixonado tão profundamente por Scottie, a ponto de se sujeitar a que ele a transformasse de novo em Madeleine, com todas as implicações que poderiam vir daí.

Mas isso é bobagem. Que espanto de filme! Que câmara, meu Deus do céu e também da terra. É a melhor câmara da história do cinema, somente comparável à do gigante Lelouch.

Anotação em 30/7/2000:

Revi o filme para fazer a coluna para o site do Estadão, depois de ver o excelente, brilhante documentário sobre a restauração e a produção. Acho que foi a primeira vez que vi desde que vi a versão restaurada no cinema. E, assim como dessa agora penúltima vez, o que me impressionou mais – mais do que tudo – foi como o Hitchcock conseguiu com que Kim Novak fizesse duas personagens tão diferentes, Madeleine e Judy. Os gestos, a voz, o jeito de andar – tudo é diferente. Hitch fez Kim Novak, uma atriz tida como de poucos recursos, criar dois personagens diferentes de uma maneira absolutamente magistral. E me impressiona muito que isso quase nunca seja mencionado, quando se fala do filme.

Na verdade, a última frase revela desconhecimento meu. Parece – leio no texto da capinha do DVD – que o Truffaut, no livro-entrevista com Hitch, elogia a atuação dela, e o roteirista Samuel Taylor também. A capinha diz ainda que “durante a reexibição do filme em 1996 esta característica (a atuação de Kim) foi responsável pelos aplausos e a recepção positiva da crítica que o filme recebeu”. Fora os elogios que achei no livro Actors & Actresses, The International Dictionary of Films and Filmmakers.

Um Corpo Que Cai/Vertigo

De Alfred Hitchcock, EUA, 1958

Com James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes

Roteiro Alec Coppel e Samuel A. Taylor

Baseado na novela D’Entre Les Morts, de Pierre Boileau e Thomas Narcejak

Fotografia Robert Burks

Música Bernard Herrmann

Cor, 128 min.