Valor Sentimental / Affeksjonsverdi

4.0 out of 5.0 stars

(Disponível no Mubi em 3/2026.)

Valor Sentimental, o maravilhoso e premiadíssimo filme de 2025 do norueguês-dinamarquês Joachim Trier, é uma linda demonstração de que não é obrigatoriamente necessária uma história complexa, cheia de eventos memoráveis, surpreendentes, fantásticos para se fazer uma grande obra de cinema.

O filme que venceu a Palma de Ouro de Cannes, o Oscar e o Bafta de melhor filme internacional ou em língua não inglesa, entre 70 outros prêmios e 302 indicações, é um drama familiar. A história de um pai de duas filhas já adultas que foi ausente em suas vidas – essa coisa que infelizmente é usual em tantas e tantas e tantas famílias de pessoas comuns, gente como a gente.

Um drama familiar, Um melodrama, como foi definido por críticos.

Uma história sem imensas surpresas ou reviravoltas incríveis – contada com absoluto talento, profunda sensibilidade, com diálogos fascinantes e personagens extremamente bem construídos e interpretados de maneira magistral por quatro atores no auge de sua arte.

Valor Sentimental é cinema da mais alta qualidade. Um filmaço, uma obra-prima.

O pai é um cineasta respeitado. A filha, uma atriz de sucesso

Pai ausente, e os traumas que essa ausência provoca nos filhos. Isso sem dúvida é comum demais. Mas a verdade é Gustav Borg e suas filhas Nora e Agnes não são exatamente assim gente como a gente. Gustav (o papel de Stellan Skarsgård, muito provavelmente no mais denso e importante papel dos mais de 150 títulos de sua carreira internacional) é um homem famoso, um cineasta que no passado fez filmes marcantes, respeitados.

Sua primogênita, Nora (o papel de Renate Reinsve, uma atriz tão estrondosamente bela quanto talentosa, na foto abaixo) é uma respeitadíssima atriz de teatro, que está também em uma série de TV de grande audiência na Noruega.

A mais nova, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas, belíssima, excelente), quando criança havia interpretado um dos principais papéis em um dos grandes filmes do pai – mas, ao contrário da irmã mais velha, não se dedicou à carreira de atriz. Agora, na faixa ali dos 35 anos, é uma dona de casa, bem casada, mãe de um filho aí de uns 10 anos, e também uma historiadora, uma acadêmica.

Na época em que se passa a maior parte da ação – “os dias de hoje”, podemos chamar assim –, a mãe das duas mulheres, Sissel Borg (o papel de Ida Marianne Vassbotn Klasson), uma psicóloga, uma daquelas mulheres fortes, admiráveis, havia morrido após um período de doença.

Há um outro elemento que distancia aquela família das pessoas comuns, gente como a gente, além da fama do pai como diretor de cinema e da filha mais velha como atriz: a casa em que moram, em um bom bairro residencial de Oslo. Muito ampla, bela, confortável, a casa pertencia à família de Gustav Borg havia gerações e gerações.

A casa é uma personagem importantte da história. Quase tanto quanto Gustav, suas duas filhas e ainda Rachel Kemp, uma famosa estrela de Hollywood, (Rachel é interpretada por Elle Fanning, essa garota lindíssima que soube tão bem passar da condição de atriz mirim para a de atriz – algo que muitos, muitos de seus colegas não conseguiram direito.

Adolescente, Nora escreveu sobre a casa como um ser vivo

Joachin Trier abre seu filme com tomadas gerais de Oslo, uma área com muito, muito verde, enquanto vão aparecendo os nomes dos quatro atores principais – Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning, nessa ordem. Uma tomada em suave zoom para mais perto de uma bela, sólida edificação – e a partir daí vemos várias tomadas de pedaços do exterior da casa, close-ups de detalhes das janelas, paredes.

Uma voz em off conta para o espectador: – “Na sexta série, Nora precisou escrever uma redação como se fosse um objeto. Ela soube imediatamente que seria a casa da família. Descreveu como sua barriga sacudia quando ela e a irmã corriam pelas escadas e saíam pelos fundos. (Vemos duas garotas descendo as escadas correndo e saindo pelos fundos.) Que a casa as via pegar o atalho pela cerca e ir para a estrada, onde não podia mais enxergá-las. Ela se perguntou se a casa preferia estar vazia e leve ou cheia e pesada. (Vemos alguns aposentos da casa, com amplas janelas dando para as folhas das árvores.) Se o chão gostava de ser pisado. Se as paredes sentiam cócegas. Se a casa já tinha sentido dor. (Um pote de vidro cai no assoalho encerado e se estilhaça.) E concluiu que sim, que provavelmente ela gostava de estar cheia.”

A voz da narradora é de uma mulher já idosa, suave, calma, bonita. (É de Bente Børsum, veterana atriz da classe de 1934, quase 70 títulos na filmografia.) Ela prossegue:

– “Antes deles, outras pessoas e animais de estimação haviam vivido seus momentos ali. Seu tataravô morreu no quarto em que sua avó nasceu, e que agora era o quarto de seus pais.”

Neste momento vemos uma tomada rapidíssima – a voz da mãe é alta, nervosa, em uma briga com o marido. No quarto ao lado, deitada em sua cama, a garota Nora tapa os ouvidos com o travesseiro. Fica claro, na sequência rapidíssima, que eram comuns as discussões em voz alta entre pai e mãe.

Quatro garotinhas foram usadas para representar Nora criança, nas rápidas tomadas em que ela aparece em cenas do passado: Ibi Trier (Nora  bebê), Irma Trier e Iben Policer Havnevik (Nora criança) e Olivia Thompson (Nora pré-adolescente). Seguramente é esta última que vemos tentando tapar os ouvidos para não ouvir mais uma briga do pai e da mãe.

A voz suave da narradora prossegue:

– “Quando ela releu mais tarde (a redação da sexta série), notou que não tinha usado a palavra ‘briga’. Mas escreveu sobre o barulho que seus pais faziam. (Vemos um close-up da página do caderno da Nora da sexta série, e logo em seguida uma tomada feita de dentro de casa de uma das janelas; lá fora, o pai está entrando em seu carro.) Mas o que a casa achava ainda pior que o barulho era o silêncio. Quando o pai partiu de vez, a casa ficou mais leve. O barulho que seus pais faziam desapareceu. Mas a casa sentia falta dos outros sons que ele fazia.”

Uma breve pausa, e a narradora continua:

– “A professora deu a nota máxima e o pai adorou. Nora releu a redação ao procurar um monólogo para a audição na faculdade, mas achou decepcionante e distante. (Vemos Nora já na pele dessa fantástica Renate Reinsve de pé, lendo.) Acabou escolhendo o monólogo da Nina, A Gaivota.”

Surge na tela o título do filme, enquanto Nora já jovem adulta lê alto o monólogo de Nina em A Gaivota, de Anton Tchékhov.

Uma pequena homenagem a um dos mais clássicos dramaturgos que há. Aliás, a escolha do nome Nora para a principal protagonista deste Valor Sentimental me parece uma óbvia homenagem a Henrik Ibsen, o mais célebre autor norueguês – este é o nome da protagonista de Uma Casa de Bonecas, pela escrita em 1879 e que já foi filmada diversas, diversas vezes.

Bela, talentosa, bem sucedida – mas infeliz

A Nora de Henrik Ibsen, na Noruega da segunda metade do século XIX, vai percebendo que havia sido criada pelo pai e depois foi sendo tratada pelo marido como uma boneca – e passa a querer ter vida própria, a vida de um ser emancipado.

A Nora de Joachim Tiers e seu costumeiro colaborador Eskil Vogt, na Noruega desta terceira década do século XXI, depois de tantas vitórias das mulheres em sua luta pela emancipação, é um ser absolutamente independente, de incrível sucesso na vida profissional – e, no entanto, de uma fragilidade imensa. E se sente frustrada por não ter conseguido construir um lar.

(Na foto abaixo, Renate Reinsve, que faz Nora.)

É extremamente solitária: pelo que dá para perceber, nunca teve no passado um amor, uma relação estável. E vai se revelar frustrante a experiência afetiva que ela tenta ter com um colega de profissão com quem atua em uma peça num belíssimo teatro – o Teatro Nacional de Oslo –, Jakob (Anders Danielsen Lie). Apesar de estar se separando da mulher, Jakob vai demonstrar que não pretende continuar a relação recém-iniciada com Nora.

Bela, sim, talentosa, bem sucedida – mas um poço sem fim de solidão, de tristeza, de desesperança.

Bem no início da narrativa, logo após aqueles primeiros minutos que relatei detalhadissimamente, há uma longa sequência em que vemos Nora momentos antes de entrar no palco do Teatro Nacional. A sequência é apavorante, aterrorizante: já experiente, calejada, a atriz simplesmente tem ataque de pânico antes de pisar no palco. O inglês tem a expressão perfeita para isso, stage fright, literalmente medo do palco. (Stage Fright é o título original do filme de Alfred Hitchcock de 1950, no Brasil Pavor nos Bastidores, o único filme do mestre com a diva Marlene Dietrich.)

Mas o stage fright, o pavor nos bastidores de Nora Borg é uma coisa que vai além de tudo o que a gente possa imaginar. Ela tem de fato um ataque de pânico, uma coisa dolorosa, horrorosa, chocante.

Sei lá como se diz em norueguês, mas ela se define com a expressão em inglês: fucked up. Ferrada. Ou, mais cruamente, fodida.

Já bem na segunda metade da narrativa, Nora pergunta para Agnes,  a irmã caçula: – “Como isso aconteceu? Você se saiu bem e eu fiquei ferrada.”

É um filme de diálogos belíssimos, repito – e não há como não reproduzir um pedaço desse diálogo entre as duas irmãs.

Agnes responde que aquilo não é verdade.

Nora insiste: – “Por que a nossa infância não te deixou arruinada?”

Agnes: – “Nem sempre foi fácil par mim.”

Nora: – “Mas você conseguiu fazer uma família. Um lar.”

Agnes: – “É. Há uma grande diferença no jeito que eu cresci: eu tinha você. Eu sei que você acha que é incapaz de tomar conta, mas você estava lá para mim. Quando mamãe estava na pior, você lavava meu cabelo, penteava, me levava à escola. Eu me sentia salva.”

(Na foto abaixo, Inga Ibsdotter Lilleaas, que faz Agnes.)

Pai ausente, um dos piores crimes que pode haver

Gustav Borg é o tipo perfeito, acabado, do homem que não deveria ter o direito de ser pai.

Faz muitos anos que volta e meia escrevo que ser pai ausente é um dos crimes mais hediondos que pode haver. Pior que pai ausente, só pai molestador sexual. Tenho certeza de que Deus – ou a evolução das espécies, a biologia, para quem não acredita em Deus – cometeu um grande erro ao permitir que todos os homens, independentemente do caráter, da maneira de enxergar a vida, as coisas, o mundo, possam ser pais.

Para ter o direito de ser pai ou mãe, cada pessoa deveria ter que ser aprovada em concurso daqueles difíceis, com provas teóricas e orais, perante banca especialmente exigente.

Se submetido a um concurso assim, Gustav Borg seria sumariamente eliminado, com uma das notas mais baixas já registradas.

Me ocorreu aqui, enquanto escrevo, que diversos cineastas já fizeram filmes sobre cineastas. Federico Fellini, por exemplo, criou em 8 ½ um diretor muito mais belo e charmoso do que ele próprio, e tão genial quanto ele mesmo se achava. Bob Fosse, um apaixonado pela obra de Fellini, criou um cineasta exatamente à sua imagem e semelhança, na obra-prima All That Jazz: inquieto, perfeccionista, mulherengo, cardíaco. François Truffaut também inventou um diretor parecidíssimo consigo próprio, em A Noite Americana: terno, cuidadoso, absolutamente encantado, apaixonado pelo cinema e pelas mulheres, ele mesmo não saberia dizer em que ordem.

Esse jovem Joachim Trier criou um cineasta que se julga um gênio, que de fato fez obras memoráveis – a ponto de ter um festival com seus filmes, de ser tietado por uma estrela hollywoodiana de passagem pela Noruega, a bela Rachel Kemp-Elle Fanning. Mas que é um absoluto ególatra, que se julga o umbigo do mundo. Um mau marido, um pai ausente, um sujeito absolutamente desprovido de sensibilidade para enxergar as pessoas mais próximas a ele, de ter carinho por elas.

Quando a narrativa já passou bastante da metade, Gustav Borg conversa com Agnes, sua caçula, sobre colocar Erik (Øyvind Hesjedal Loven, ótimo), o filho dela, para trabalhar no filme que ele planeja rodar, seu grande retorno, talvez seu canto do cisne. Diz que o garoto vai adorar – como ela mesma tinha gostado muito de ter um papel importante em um filme dele quando era criança.

– “Quando você atuou no meu filme… É uma memória linda que eu tenho.”

O gênio do cinema mundial condescende até mesmo em tocar o braço da filha, numa canhestra tentativa de mostrar carinho.

Depois de aguentar durante algum tempo, Agnes reage: – “Pare de falar. Pare. Não quero o Erik no filme.”

– “Mas, Agnes… Ahhh…”

– “Sim, foi ótimo, papai. Foi fantástico. O melhor momento. Passei um tempo com você. Eu era o centro do universo. Aí você foi embora. Fiquei anos sem te ver.”

Gustav escreve o roteiro de um filme sobre a filha

Falei que este é um drama familiar, uma história sobre problemas absolutamente comuns nas relações, como nas famílias mais comuns, de gente como a gente. Que não é uma história que precise de eventos memoráveis, surpreendentes, fantásticos.

E isso é verdade, sim.

Mas os personagens não são exatamente gente como a gente – são pessoas famosas, importantes.

Valor Sentimental é um melodrama sobre relações familiares – mas, ao mesmo tempo, o filme tem eventos um tanto memoráveis, sim.

A chave, o centro, the heart of the matter, o fulcro da trama, é que Gustav Borg escreveu o roteiro de um novo filme. Tem certeza de que será uma obra-prima. É baseado – ele anuncia – na história de sua mãe, e será filmado exatamente na sua casa, a casa que pertence à família há décadas e décadas. Na verdade, no entanto, a personagem é inspirada na filha primogênita dele, com quem ele pouquíssimo conviveu.

Gustav procura Nora e pede que ela interprete a protagonista de seu novo filme, seu retorno triunfal, sua obra-prima.

Nora diz um sonoro não.

E é aí que surge na história da família a jovem estrela hollywoodiana Rachel Kemp, o papel de Ellen Fanning (na foto abaixo) . Em visita à Noruega, revela-se admiradora dos filmes do veterano cineasta Gustav Borg; dá entrevistas falando dos filmes dele. Os dois ficam se conhecendo. Como a filha havia rejeitado o papel principal, ele convida a bela atriz hollywoodiana. E ela aceita.

Um drama familiar. Um melodrama. Mas, diabo, na verdade, na verdade, a história criada e roteirizada por Eskil Vogt e Joachim Trier é extremamente rica.

Rica, sem dúvida alguma – e fascinante. Pai ausente, ególatra, incapaz de ver que o mundo não gira em torno de seu próprio umbigo, Gustav, no entanto, cria um roteiro que demonstra que – surpreendentemente – ele conhece muito bem a personalidade de sua filha mais velha.

Conhece – mas, na verdade, não se importa com ela. Não consegue ter amor por ela, não consegue fazer um gesto de autêntico carinho nela.

Valor Sentimental é um filmaço, uma obra-prima, repito.

Nordicamente, ingmar-bergmanmente, no entanto, é triste a não mais poder. Desesperançado, melancólico, down. O mais down que pode haver.

Um autor de filmes pessoais, com a mesma equipe

A idéia inicial para criar a história – diz o IMDb, seguramente com base em entrevistas de Joachin Trier – surgiu na época em que a casa da família do cineasta foi posta à venda. Ele ficou imaginando como foi a vida de seus pais e seus avós naquela casa ao longo dos anos, e depois pensou sobre como era o lugar na perspectiva das crianças.

Joachin Trier nasceu um ano antes da minha filha, em 1974, em Copenhagen, filho de pai dinamarquês e mãe norueguesa, e foi criado em Oslo. O pai, Jacob Trier, foi técnico de som de mais de 30 filmes, e o avô, Erik Løchen, foi diretor e roteirista, e também diretor artístico da Norsk Film, uma grande produtora da Noruega. Trier estudou cinema em escolas da Dinamarca e do Reino Unido.

Valor Sentimental é seu sétimo longa-metragem como diretor. E seus filmes, pelo que se vê, têm sempre toques pessoais, O IMDb lista temas e fatos que são recorrentes em suas obras. Tentativas de suicídio, por exemplo, aparecem em quatro deles. Em três, um dos protagonistas volta à casa em que passou a infância – e o ambiente o deixa triste, deprimido. Em três deles, um personagem sai de uma festa se sentindo rejeitado, isolado.

E, como seu personagem Gustav Borg, costuma usar sempre os mesmos colaboradores: o roteirista Eskil Vogt, que assina com ele o argumento e o roteiro de Valor Sentimental, o diretor de fotografia

Jakob Ihre e o compositor Ola Fløttum.

Este foi o terceiro filme de Trier estrelado por Renate Reinsve, depois de Oslo, 31 de Agosto (2011) e A Pior Pessoa do Mundo (2021). Consta que ele criou o personagem de Nora já tendo em vista que Renate Reinsve iria interpretá-lo.

Um fascinante ponto de contado com o Brasil

Essa fantástica Renate Reinsve norueguesa de Oslo, da classe de 1987 – a geração de Lindsay Lohan, Ellen Page, hoje Elliot Page, Lily James, Mia Wasikowska. Sua filmografia tinha 28 títulos em março de 2026. Em 2025, participou da série norte-americana Acima de Qualquer Suspeita/Presumed Innocent, no papel da auxiliar da promotoria Carolyn Polhemus, que no filme extraordinário de Alan J. Pakula de 1990 foi feita por Greta Scacchi, aquela outra maravilha.

Renate Reinsve coleciona 11 prêmios e 72 indicações – inclusive ao Oscar de melhor atriz por sua interpretação de Nora Borg.

A igualmente bela e talentosa Inga Ibsdotter Lilleaas é dois anos mais nova que sua colega Renate Reinsve – nasceu em uma cidade do interior da Noruerga em 1989. Tem 17 títulos em sua carreira, iniciada em 2014. Já recebeu 5 prêmios e 53 indicações, inclusive ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por este Valor Sentimental.

Há um dado interessantíssimo sobre essa atriz que eu gostaria muito de rever em vários outros filmes: quando estava no ensino médio, aos 17 anos, entrou em um desses programas de intercâmbio cultural, e viveu por um ano em… G|oiás! Goiás, meu! Na casa de uma família em Rio Verde, cidade de uns 240 mil habitantes, no Sul do Estado. Em uma entrevista, a atriz contou:

““Minha ‘host mãe’ brasileira não falava inglês muito bem, então precisávamos encontrar um jeito de nos comunicar. Viver em um país diferente e ouvir outra língua é uma ótima forma de aprender algo novo. Quando aprendi português, eu assistia muita televisão. Ia para a escola, voltava para casa e ficava sozinha a tarde inteira, então acompanhava uma novela. Não lembro o nome, mas era estrelada por um ator maravilhoso chamado Wagner Moura.”

Ah, meu… Como diz o Karnak, “O mundo é pequeno pra caramba /

Tem alemão, italiano e italiana / O mundo filé milanesa / Tem coreano, japonês, japonesa”.

“É preciso grande arte para viver.”

É obrigatório fazer o registro: Valor Sentimental é um filme norueguês, feito por noruegueses, falado em norueguês, escolhido pela Noruega para representar o país nos festivais, nas premiações internacionais. Mas é uma co-produção Noruega-Alemanha-Dinamarca-França-Suécia-Reino Unido-Turquia. Impressionante; companhias produtoras de nada menos de seis países se juntaram aos noruegueses – entre elas duas que são o crème de la crème do cinema europeu, a BBC Films e a MK2. A lista de produtores, co-produtores e produtores executivos do filme tem nada menos de 34 nomes!

O site RogerEbert.com deu, naturalmente, a nota máxima, 4 estrelas, para Sentimental Value. Eis trechos do longo texto assinado por Brian Tallerico:

“História, memória, expressão, arte, trauma – tudo está entrelaçado no drama de Trier de tirar o fôlego, um filme que faz lembrar Ingmar Bergman mais do que qualquer um dos que ele já fez, mas também um que verdadeiramente cimenta seu status de um dos mestres em atuação. É um filme que envolve o espectador aos poucos, como uma grande obra de ficção, misturando tema e personagem de uma forma que permite que ele viva na sua mente depois que você o vê, refletindo sobre o que isso significa tanto para as pessoas envolvidas quanto para a sua própria vida.”

E mais adiante:

“O filme de Gustav não é sobre apenas uma coisa. Nem o de Joachin. O texto de Gustav parece ser sobre sua mãe, mas é também muito claramente sobre sua filha. E seu neto. E ele mesmo. É importante que as duas mulheres no centro do filme sejam uma atriz e uma historiadora. Elas representam a expressão artística e a curiosidade histórica, como as duas coisas se entrelaçam, e como artistas levam suas vidas para dentro de seu trabalho. (Elle) Fanning está excelente interpretando a atriz bem-intencionada que não consegue chegar exatamente onde Gustav precisa que ela chegue porque ela não viveu aquilo. Ela faz o melhor que consegue com um monólogo comovente em inglês durante um ensaio, mas que é ainda mais poderoso, mais tarde, quando falado em sua língua original. É de uma maneira mais verdadeira, que Rachel não consegue reproduzir. (…) É preciso viver para fazer grande arte. E é preciso grande arte para viver.”

No IMDb, o filme está com 7,8, média das notas dadas por 64 mil leitores. No Rotten Tomatoes, tem números fantásticos:   95% de aprovação entre os críticos, considerando 242 avaliações. E 94% de aprovação no Popcornmeter, as avaliações dos espectadores.

Fiquei pensando aqui, depois de ler a referência a Ingmar Bergman feita pelo crítico do RogerEbert.com, que, lá da nuvem onde o genial sueco vive eternamente angustiado, cheio de dúvidas metafísicas, ele deve ter aplaudido de pé o filme de Joachin Trier.

Anotação em março de 2026

Valor Sentimental/Affeksjonsverdi

De Joachim Trier, Noruega-Alemanha-Dinamarca-França-Suécia-Reino Unido-Turquia, 2025.

Com Renate Reinsve (Nora Borg),

Stellan Skarsgård (Gustav Borg, pai de Nora e Agnes),

Inga Ibsdotter Lilleaas (Agnes Borg Pettersen, a irmã mais jovem de Nora),

Elle Fanning (Rachel Kemp, famosa atriz norte-americana),

Anders Danielsen Lie (Jakob, colega de Nora no teatro), Jesper Christensen (Michael, o produtor de Gustav), Lena Endre (Ingrid Berger), Cory Michael Smith (Sam, amigo de Rachel), Catherine Cohen (Nicky, amigo de Rachel), Andreas Stoltenberg Granerud (Even Pettersen, o marido de Agnes), Øyvind Hesjedal Loven (Erik, o filho de Agnes e Even), Lars Väringer (Peter, o diretor de fotografia de Gustav), Ida Marianne Vassbotn Klasson (Sissel Borg, a ex-mulher de Gustav e mãe de Nora e Agnes), Bente Børsum (a voz da narradora), Olivia Thompson (Nora Borg pré-adolescente). Iben Policer Havnevik (Nora Borg criança), Irma Trier (Nora Borg criança), Ibi Trier (Nora Borg bebê)

Roteiro Eskil Vogt e Joachim Trier

Fotografia Kasper Tuxen Andersen

Música Hania Rani

Montagem Olivier Bugge Coutté

Desenho de produção Josefin Åsberg. Jørgen Stangebye Larsen

Casting Yngvill Kolset Haga, Avy Kaufman

Figurinos Ellen Dæhli Ystehede

Produção Mer Film, Eye Eye Pictures, MK2 Productions, Lumen Production, Komplizen Film, BBC Film, Film i Väst, Oslo Filmfond, Arte France Cinéma, Mediefondet Zefy e outras.

No Mubi. Produção

Cor, 133 min (2h13)

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