Paula / Framed

1.0 out of 5.0 stars

(Disponível no YouTube em 12/2025.)

O clima é todo noir – mas, estranhamente, a loura não é má. Ao contrário de todas as louras dos filmes noir, a loura – bela, atraente, elegante – de Framed, no Brasil Paula, produção americana de 1947, exatamente a grande década do gênero – parece uma mulher de bom coração. Bom até demais.

Paula (o papel de Janis Carter) tinha acabado de conhecer o protagonista da história, Mike Lambert (o papel de Glenn Ford, apenas um ano depois do extraordinário sucesso de Gilda), no bar em que trabalhava como garçonete, quando apareceram policiais para prender o novo freguês. Logo ao chegar àquela cidade– na a primeira sequência do filme –, Mike havia se desentendido com o dono, gerente ou seja lá o que for de uma empresa de transporte de carga. E o sujeito, respeitado ali na pequena cidade, tinha acusado Mike de algum crime que ele não cometera.

Sob as vistas da bela Paula e dos demais fregueses do lugar, os policiais levaram o forasteiro para o juiz. Que era um daqueles juízes mal-encarados e com jeito de donos do mundo, mais comuns em westerns que em filmes noir. Com uma rapidez absurda, ele havia dado o veredito: fiança de US$ 10,00 no ato, ou 10 dias no xilindró.

Mike Lambert era um sujeito que estava – como se dizia aqui no Brasil na época em que o filme foi lançado – em maus lençóis. Em apuros. No desvio. Tinha formação, era engenheiro de minas, experiente – mas, por algum motivo qualquer que o roteirista Ben Maddow e o diretor Richard Wallace não se preocuparam em contar para os espectadores, estava desempregado, duro, durango kid. Para ganhar míseros US$ 15,00, havia aceitado dirigir um caminhão desde não se conta onde até aquela cidadezinha ali – cujo nome, verdadeiro ou fictício, jamais é mencionado. Na chegada, bem na chegada, havia tido a discussão com o sujeito da transportadora. E logo em seguida caminhara pela cidade até o primeiro bar que viu, justamente o bar da bela loura Paula.

Em suma, ele não tinha os US$ 10,00 que o juiz exigia como pagamento da fiança.

Pois não é que a loura Paula havia abandonado os fregueses do bar e tido até o lugar onde o juiz exercia suas doutas funções?

E não é que ela se oferece para pagar os US 10,00 para evitar que o forasteiro passasse suas primeiras noites na aprazível cidade dentro do xilindró?

A loura é boazinha demais para ser verdade

Mas a bondade da loura deste noir não pára por aí.

Solto após o pagamento da fiança, Mike Lambert foi, com aquela cara de Glenn Ford dele, tomar umas no bar da loura de bom coração.

E acontece que, bem diferentemente de muitos protagonistas de filmes noir, que enchem a cara e ficam no máximo bebinhos leves, suaves, esse Mike Lambert é um radical. Não bebe sempre – mas quando bebe, bebe muito, e aí escorna, desaba.

Escornou, desabou no bar da loura. E a loura conseguiu levá-lo até um hotel da cidade, e depositá-lo na cama – deixando na carteira dele, bem visível, uma nota graúda, antes de sair e caminhar até a sua casa, uma casa bastante agradável, confortável.

Epa, mas aí há um certo excesso de bondade da loura, né não? Diacho: loura em filme noir é a femme fatale, a que pega um trouxa, um pato, um sucker, como eles dizem lá no país que inventou o filme noir, e faz dele gato e sapato.

O que há com essa loura Paula? Qual é a dela? Apaixonou-se perdidamente quando bateu o olho no forasteiro que entrou em seu bar? Ou tem alguma coisa escondida aí, um esquema, um plano, uma grande cilada?

É claro, é lógico, é óbvio que tem uma grande treta aí. O título original já indica – framed.

Uma das várias acepções do verbo frame é forjar, tramar uma acusação falsa: incriminar alguém. Aquele delicioso filme de Robert Zemeckis de 1988 que mistura atores com desenho animado teve no Brasil o título – bem apropriado, diga-se – de Uma Cilada para Roger Rabbit . No original, o filme em que a curvilínea, luxuriante coelhinha Jessica Rabbitt fala com a voz rouca, sensual, de Kathleen Turner, é Who Framed Roger Rabbit – quem aprontou uma cilada, quem tramou contra, quem incriminou Roger Rabbit.

Não poderia haver dúvida alguma: a loura não é uma mulher de bom coração, uma altruísta, uma pessoa que se dedica a ajudar os homens fracos, oprimidos, duros, desempregados, perdidaços. É claro, é óbvio: é uma femme fatale, diacho!

Exatamente qual é o golpe que ela planeja, no qual vai incriminar o pato, o bobo, o sucker Mike Lambert, o filme só nos revela quando está ali pela metade de seus curtos 82 minutos.

(Como bem disse a Mary, o fato de ser bem curto é a única qualidade do filme…)

Como a revelação sobre o plano da loura só vem na metade da narrativa, não é o caso, creio, de avançar na narrativa da trama. Mas creio que não chega a ser spoiler mencionar que há, na história, um relacionamento de Paula com o vice-presidente do banco daquela cidade, Steve Price (o papel de Barry Sullivan). E que Paula escolheu Mike Lambert e investiu nele porque sua altura e compleição física eram muito parecidas com a de Steve Price.

“Um superior filme noir de baixo orçamento”

“O filme foi em geral elogiado pelos críticos como um thriller de crime efetivo, apesar do seu baixo orçamento”, diz a Wikipedia. Transcrevo aqui trechos das críticas citados pela grande enciclopédia.

“Um superior filme noir de baixo orçamento.” (Mark Deming.)

“Janis Carter tem uma interpretação muito sensual e perigosa, que fica bem contra a atuação muito honesta de Glenn Ford como o bom sujeito que não tem sorte. Mesmo quando ele acha alguém que poderia amar, ela se revela venenosa. Um filme B que é um bom entretenimento e habilmente mostra como um homem honesto mas desesperado reage depois de ser fisgado por uma mulher falsa. As boas atuações se sobrepõem à produção barata e à história frágil.” (Dennis Schwartz.)

Framed se mantém como um excitante exemplo de filme dos anos 1940 em seu auge: apresentado economicamente, fotografado com muita atmosfera (…), e com atuações mais que competentes. (Janis) Carter, especialmente, é uma revelação; uma grande pena que a Columbia Pictures a usasse apenas como peça decorativa, uma espécie de Rita Hayworth de segundo escalão”. (Hans J. Wollstein.)

Os guias mais recentes de Leonard Maltin não falam do filme. O bom guia Steven H. Scheur dá 3 estrelas em 4 e diz que Framed é um “melodrama cheio de suspense com um bom elenco”.

Janis Carter fez uns 30 filmes, para vários estúdios

Não conhecia a atriz Janis Carter, nem o diretor Richard Wallace – e vale um registro ainda que rápido sobre eles.

De Richard Wallace (1894-1951), o Dicionário de Cinema – Os Diretores, de Jean Tullard, diz o seguinte: “Restringiu-se a comédias com Corine Griffith, Maurice Chevalier (Innocents of Paris) e Shirley Temple (Kiss and Tell). Beneficiado por orçamentos mais significativos, assinou alguns sucessos como o estrondoso Sinbad, o Marujo, um bom filme de aventuras marinhas, e Tycoon/Inferno nos Trópicos, impressionante retrato de um construtor de estradas de ferro, com John Wayne.”

Janis Carter é de Cleveland, Ohio, da classe de 1913 – quando este Framed foi lançado, em 1947, ela estava portanto no esplendor dos 34 anos. Ainda na infância, estudou piano e canto; na faculdade – formou-se em artes e música –, participou de grupos de teatro. Em Nova York, começou a carreira como atriz de teatro, e foi vista pelo produtor Daryl F. Zanuck, que assinou um contrato com ela. Entre 1941 e 1954, trabalhou em cerca de 30 filmes, para vários estúdios – 20th Century Fox, MGM, Columbia e RKO. Em meados dos anos 50, deixou Los Angeles e o cinema, e, de novo em Nova York, começou o que seria uma sólida carreira na televisão. Morreria aos 80 anos, em 1994.

Pois bem. Euzinho aqui achei o filme fraquinho, fraquinho. A história não convence, os personagens idem. Tudo nos pareceu, a mim e à Mary, falso que nem nota de 3 guaranis paraguaios. O roteiro é fraco, a direção me pareceu péssima, inexistente, e as atuações, terríveis, horrorosas. Nem Glenn Ford se salva.

Em suma: não houve possibilidade de sintonia com o filme.

Quem sabe eu estava – nós estávamos – em um mau dia… Pode ser. Isso acontece, uai.

Anotação em dezembro de 2025

Paula/Framed

De Richard Wallace, EUA, 1947

Com Glenn Ford (Mike Lambert),

Janis Carter (Paula Craig),

Barry Sullivan (Steve Price), Edgar Buchanan (Jeff Cunningham), Karen Morley (Beth Price), Jim Bannon (Jack Woodworth), Barbara Woodell (Jane Woodworth)

Roteiro Ben Maddow

Baseado em história de John Patrick

Fotografia Burnett Guffey

Música Marlin Skiles

Montagem Richard Fanti

Direção de arte Carl Anderson, Stephen Goosson

Figurinos Jean Louis

Produção Jules Schermer, Columbia Pictures.

P&B, 82 min (1h22)

*

 

Um comentário para “Paula / Framed”

  1. Eu não desgostei do filme. Não o vi com muitas expectativas e ele surpreendeu-me pela positiva. É um filme razoável com bastante tensão. Apenas minha opinião. Tb não conhecia a atriz.

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