
(Disponível na Netflix em 6/2025.)
3.0 out of 5.0 starsIl Treno dei Bambini, no Brasil O Trem Italiano da Felicidade – um belo, sensível drama familiar-social inspirado em eventos reais do imediato pós-guerra, lançado em 2024 pela escritora e diretora Cristina Comencini – começa deixando o espectador com uma sensação de estranhamento, de perplexidade.
Evidentemente, é intencional, proposital. Boa contadora de histórias, Cristina Comencini, com seus três companheiros que escreveram o roteiro, queriam que o espectador achasse estranhas as informações que o filme dá em seus primeiros cinco minutos.
Como assim? Como é que é isso?, eu perguntei para Mary e para mim mesmo – e voltei atrás para rever aquela primeira sequência.
O estranhamento fisga o espectador, prende sua atenção – e não é uma coisa gratuita. É a base da história rica, triste, emocionante, que nos será apresentada.

O maestro fala com a mãe ao telefone. E ouve que sua mãe morreu
Na primeira tomada, vemos um homem aí de uns 50 e tantos anos entrando em um teatro diante do qual um cartaz anuncia “Violino Solista Amerigo Benvenuti”, com a data, 18 de março de 1994. O homem caminha através de corredores, cruza com uma mulher que o cumprimenta com um “Boa noite, maestro”.
Quando o maestro Amerigo Benvenuti (o papel de Stefano Accorsi, na foto acima) entra em seu belo, espaçoso camarim, o telefone já estava tocando. Ele atende, ouve a voz que nós não ouvimos e diz “Olá, mamãe”. “Mamma” é a palavra que ele diz. “Sim. Acabei de chegar. Ainda preciso me preparar. O que foi?”
A câmara mostra o músico de perfil, em close-up.
Depois de ouvir por um breve momento, ele pergunta: – “Quando?”
E, após ouvir o que a mamma conta, responde: – “Entendi”. Mais adiante: – “Sim, claro”. E depois: “Tenho que ir agora. Te ligo depois do concerto, Mamma. Tchau”.
Amerigo se senta diante da mesa de seu camarim, o olhar sombrio, perdido, obviamente imerso em pensamentos. Uma assistente bate à porta, ele manda entrar. Ela o cumprimenta com um “Boa noite, maestro”, e começa a se preparar para dar a ele a roupa que usará no concerto. Pergunta se ele já escolheu os sapatos – e não leva dois segundos para perceber que o homem está abalado.
– “O que houve?”, pergunta a assistente.
– “Minha mãe morreu.”
As palavras que ele usa são: “È morta mia madre”.
A assistente de cara pergunta se o concerto deve ser cancelado. E ele responde um “não” com um ar de tristeza, mas com a voz firme.
Em seguida vemos o maestro entrar no palco, toda a orquestra e o teatro lotado já prontos para recebê-lo. Amerigo começa a tocar o violino – e começamos a ver na tela as imagens que certamente estão passando na cabeça dele naquele momento.
Um letreiro avisa que estamos agora em Nápoles, 1944. Amerigo tem seis anos de idade – interpretado por um fantástico garoto chamado Christian Cervone (na foto abaixo). Há um bombardeio no bairro pobre de Nápoles em que ele mora com a mãe, Antonietta Speranza (o papel de Serena Rossi, na foto abaixo). Dezenas de moradores estão naquele momento fugindo dali, das bombas que estão chegando cada vez mais perto. Antonietta, desesperada, berra o nome do filho – que, sem perceber o perigo, literalmente brincando com fogo, está escondido ali pertinho, olhando a mãe que berra por ele, parecendo se divertir com aquilo.
Uma bomba explode perto dali, tudo fica encoberto por poeira. Amerigo finalmente grita pela mãe, ela o alcança, o bota no colo e sai correndo para longe do bombardeio, na mesma direção em que dezenas de pessoas já havian ido.
Elaborado com grande talento, o roteiro vai rapidamente apresentar para o espectador alguns fatos básicos. O marido de Antonietta havia emigrado para os Estados Unidos – ou pelo menos dito que era para lá que iria. O casal tinha tido dois filhos; um deles, o que visivelmente era o preferido da mãe, havia morrido. Antonietta volta e meia diz para Amerigo que ele é o castigo de Deus para ela.
Há um novo corte no tempo, para 1946, o primeiro ano após o final da Segunda Guerra, a Itália – assim como a Alemanha, assim como até países que haviam vencido o conflito – começando a se reconstruir. Antonietta, como centenas de outras mães napolitanas e de outras cidades do Sul, pensa em pôr Amerigo em um dos trens para o Norte, para que, por um ano, ele escape da miséria, da comida pouca, da falta de sapatos, da falta de quase tudo.

Dois termos diferentes para designar “mãe”
“Mamma”, “mia madre”.
Ao telefone, o maestro Amerigo Benvenutti diz “mamma”. Para a assistente, diz que morreu sua “madre”. Sua mamma telefona para ele para informá-lo de que sua mãe morreu.
Como assim? Como é que é isso?
O detalhe da diferença entre as duas palavras é fundamental. Em português, fico aqui pensando, a diferença não é tão grande. Existe, claro, mas não é tão grande. Mãe e mamãe. Madre e mamma me parecem coisas mais distantes, assim como, por exemplo, mother e mummy. Mère e maman. Bem, sei lá em que língua há maior distância entre os dois termos, mas o fato é que um é objetivo, neutro, e o outro carrega carinho, afeto, mel, melosidade, grude.
A ida das crianças para o Norte era organizada pelo PCI
O filme vai mostrando que mandar ou não os filhos para o Norte por um ano era uma dúvida para muitos pais. Antonietta hesita um tanto. Tem vontade de mandar Amerigo, em parte pelo bem dele, já que dizem que lá as crianças são bem tratadas, bem alimentadas, em parte para se livrar dele por alguns bons meses. Ao mesmo tempo fica com medo – muita gente dizia que aquilo era uma coisa dos comunistas, dos russos, que anunciavam que desejavam ajudar as crianças no Norte, mas na verdade queriam mesmo é roubá-las e mandá-las para a Sibéria. Não faltavam senhoras religiosas que dissessem que os russos comiam criancinhas…
Era o Partido Comunista – o filme vai nos contando – que organizava todo esse esquema de levar crianças do Sul mais agrário, mais pobre, tornado ainda mais miserável pela guerra, para o Norte industrializado, rico. Esse, é claro, era o motivo pelo qual tanta gente, ali no bairro, falava de perigos de entregar os filhos aos organizadores das viagens para o Norte.
É sempre bom lembrar que o PCI foi o mais forte, mais poderoso, mais organizado dos Partidos Comunistas do Ocidente. (E, adicionalmente, já que se está falando nisso, é sempre bom lembrar que 9 entre cada 10 diretores do cinema italiano entre 1945 e os anos 70, exatamente a época em que o cinema italiano era o melhor do mundo, eram ou comunistas de carteirinha ou simpatizantes do comunismo, ou, no mínimo, do socialismo.)
As próprias crianças tinham medo de que os pais os mandassem para os trens rumo ao Norte – o filme dá diversas, diversas mostras disso. Temiam que, depois que fossem entregues àquelas pessoas, tivessem suas mãos cortadas, ou que fossem lançadas dentro de fornos…

Bem. Depois de algum tempo em grande dúvida, Antonietta entrega Amerigo aos organizadores do esquema – e ele embarca no mesmo trem em que vão dois amiguinhos do bairro, Tommasino e Maria, Mariuicca (os papéis de Domenico Rea e Sophia Cecere). Pelo menos não faz absolutamente sozinho a viagem rumo ao total desconhecido.
O destino daquele trem, especificamente, é Modena, e, lá, as dezenas e dezenas de garotos do Sul são recebidos com muita festa – e muita organização. Uma família de membros ou simpatizantes do Partido receberia cada um deles – e todos teriam vaga em escolas da cidade e seu entorno.
Só no caso de Amerigo acontece um problema: a mãe escalada para recebê-lo estava, no dia exato em que chegou o trem vindo do Sul, em trabalho de parto do seu terceiro filho.
Na absoluta falta de alguma outra família para receber Amerigo, sobra para Derna (o papel de Barbara Ronchi, na foto abaixo), a irmã de Alcide (Ivan Zerbinati), o pai de família que havia sido escalado para ficar com o protagonista da história.

Uma líder sindical ativíssima e uma dona de casa
O encontro do garoto Amerigo com a mulher na casa de quem ele vai passar um ano naquele Norte desconhecido e gelado acontece quando o filme já está com 38 de seus 106 minutos. Quase chegando à metade.
Não teria sentido ir mais adiante no relato da trama – até avancei demais, porque normalmente só apresento os fatos dos primeiros 15, 20 minutos de filme.
Mas gostaria de fazer alguns registros, considerações.
Derna é uma personagem muitíssimo bem construída. O espectador fica sabendo bastante sobre ela, através de palavras e imagens. É uma mulher extremamente ativa, uma líder sindical, uma pessoa devotada à causa do Partido e que, de tão absolutamente dedicada à causa, parece não ter vida própria, vida privada, sentimentos, sensações. Teve uma paixão na vida – um companheiro, conhecido como Lobo, que combateu com brilho os fascistas, mas acabou sendo morto por eles. É fechada, trancada, a qualquer demonstração de afeto. É a solidão em pessoa.
É em tudo por tudo diferente de Antonietta. Antonietta, como Mary bem notou, não tem uma profissão, não tem vida própria – com o marido ausente, tornou-se amante eventual de Capa E’ Fierro (Francesco Di Leva), uma figura que parece o líder inconteste daquele bairro pobre de Nápoles. Provavelmente um chefe mafioso.
Do Sul, pobre, quase miserável, analfabeta, Antonietta-Serena Rossi é mulher de grande beleza. Do Norte, trabalhadora, classe média, letrada, Derna-Barbara Ronchi é bonita, mas não é uma mulher belíssima. E a expressão séria, sisuda, de quem nunca sorri, ajuda a tornar seu rosto muito duro.
Como em tantas histórias – da vida real e da ficção –, aquela casca dura, aquela couraça que envolve essa mulher fascinante, ativista política em tempo integral, vai ser abalada pela convivência com o garoto travesso, levado, cabeçudo, que era o castigo de Deus na vida de sua mãe biológica…

Cerca de 70 mil crianças foram de fato enviadas para o Norte
Achei fascinante essa coisa de as duas mulheres – as personagens femininas mais importantes da história – serem tão absolutamente diferentes.
Uma outra consideração: não dá para garantir, é claro, mas creio que Cristina Comencini e seus companheiros na criação do roteiro pretenderam realçar, enfatizar, o fato de que as fake news não são propriamente um fenômeno recente.
Todas as várias cenas de mães histericamente dizendo que as crianças que fossem entregues aos trens rumo ao Norte seriam enviadas para a Sibéria, teriam seus dedos devorados pelos comunistas, seriam lançadas ao forno são uma referência clara, direta, ao discurso fake news usado pela extrema direita no mundo todo nestes nossos tempos.
O roteiro assinado a oito mãos por Furio Andreotti, Giulia Calenda, Camille Duguay e Cristina Comencini se baseia no romance homônimo, Il Treno dei Bambini, publicado em 2019, o terceiro de autoria de Viola Ardone, uma napolitana nascida em 1974. O romance teve grande sucesso na Itália, e já foi traduzido em 25 línguas, inclusive o português; no Brasil, saiu pela Faro Editorial em 2021, com o título de Crianças da Guerra – A História Sobre o Trem Italiano da Felicidade.
A escritora Viola Ardone seguramente fez pesquisas sobre o esquema organizado pelo PCI no pós-guerra para levar crianças do Sul para o Norte da Itália.
Estima-se que nada menos de 70 mil crianças participaram dessa experiência de passar um ano longe dos pais, recebidas por famílias bem intencionadas do Norte da Itália.

Uma diretora que impressiona, entusiasma
Quando vi La Bestia nel Cuore, que Cristina Comencini dirigiu em 2005, baseado no romance de sua própria autoria, escrevi, extasiado: “Cristina Comencini, nascida em Roma, em 1956, filha do veteraníssimo Luigi (1916-2007), é uma das grandes revelações de jovens cineastas nesta primeira década de século e milênio.” La Bestia nel Cuore foi exibido aqui na TV paga com o título que era a tradução literal do original, A Fera no Coração, mas lançado em vídeo como Segredos do Coração.
Só depois de ter assistido ao belíssimo filme de 2005 foi que vi o filme anterior dela, de 2002, O Mais Belo Dia de Nossas Vidas / Il Più Bel Giorno della Mia Vita, que também trata de relações familiares. O mesmo tema deste Il Treno dei Bambini.
Este filme, o 18º título de Cristina Comencini como diretora, o 23º como roteirista e/ou autora da história, tem tido uma recepção muito boa. Tem nota 7,4 no IMDb, média da avaliação de mais de 7 mil leitores. No Rotten Tomatoes, The Children’s Train está com incríveis – e merecidos – 94% de aprovação dos leitores.
Gostaria muito de ter a oportunidade de ver mais filmes dessa bela realizadora.
Anotação em junho de 2025
O Trem Italiano da Felicidade/Il Treno dei Bambini
De Cristina Comencini, Itália, 2024.
Com Christian Cervone (Amerigo Speranza garoto),
Barbara Ronchi (Derna, a mãe do Norte),
Serena Rossi (Antonietta Speranza, a mãe do Sul),
Stefano Accorsi (Amerigo adulto),
Domenico Rea (Tommasino, o amiguinho de Amerigo), Sophia Cecere (Mariucca, a amiguinha de Amerigo), Ivan Zerbinati (Alcide, o irmão de Derna), Giorgia Arena (Rosa Benvenuti), Francesco Di Leva (Capa ‘E Fierro), Antonia Truppo (Maddalena Criscuolo), Monica Nappo (Zandragliona), Dora Romano (Pachiochia), Beatrice Schiros (professora Ferrari), Ivan Zerbinati (Alcide Benvenuti, o irmão de Derna)
Roteiro Furio Andreotti, Giulia Calenda, Camille Duguay e Cristina Comencini
Baseado no livro homônimo de Viola Ardone
Fotografia Italo Petriccione
Música Nicola Piovani
Montagem Esmeralda Calabria
Casting Sara Casani, Laura Muccino
Desenho de produção Maurizio Leonardi
Direção de arte Alberto Duelli
Figurinos Chiara Ferrantini
Produção Carlo Degli Esposti, Nicola Serra, Palomar, com apoio do Ministero della Cultura, Regione Emilia-Romagna,
Regione Piemonte, Emilia-Romagna Film Commission,
Film Commission Torino-Piemonte.
Cor, 106 min (1h46)
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Título nos EUA e Reino Unido: “The Children’s Train”. Na França: “Le Train des Enfants”.
