
(Disponível na GloboPlay em 5/2026.)
É muito bom rever O Quatrilho, aquela belezinha de filme que Fábio Barreto realizou em 1995. Uma produção soberba, classe A, com fotografia, direção de arte, figurinos, reconstituição de época, tudo maravilhoso, perfeito.
Foi a segunda vez, na História, em que uma obra brasileira obteve indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Quando o vimos pela primeira vez, na época do lançamento, outubro de 1995, no Cine Liberty, não escrevi nada sobre ele, apenas a ficha técnica básica, mas fiquei emocionado. Sei disso porque, quando vi Central do Brasil, em 1998, anotei: “Eu tinha me emocionado com essa coisa do renascimento do cinema brasileiro ao sair do Quatrilho”.
Ao reveremos agora, sem que lembrássemos de quase nada da história, fiquei de novo de queixo caído com as qualidades da produção – e impressionado com o fato de que O Quatrilho surgiu, como a fênix, das cinzas em que o desgoverno Collor de Mello havia deixado o cinema brasileiro.
É importante lembrar isso – o cinema brasileiro havia acabado, literalmente. Em 1992, apenas um filme de longa metragem foi lançado. Mas volto a isso mais tarde.
O fato é que em 1995 O Quatrilho emocionava. Agora, passados mais de 30 anos, este velho assistidor de filmes aqui enxergou um ou outro defeitinho – mas a beleza do filme está lá, firme e forte. E hoje com novo tratamento do som para as vozes dos atores, para a bela trilha sonora de Jaquinho Morelenbaum e para as duas canções inesquecíveis de Caetano Veloso. Na cópia disponível na Globoplay, há este aviso antes dos créditos iniciais – aliás caprichados, bonitos, sobre fotos antigas, do início do século XX, em sépia: “Este filme foi carinhosamente remasterizado pelo Canal Brasil para o seu deleite cinematográfico.”
E, San Gennaro, Dio mio, como eram belas, esplendorosamente belas, as jovens Glória Pires e Patrícia Pillar!
Dois jovens casais morando na mesma casa de fazenda
Jovens. Sim, eram jovens. Glória Pires, carioc/a da classe de 1963, estava portanto com 32 aninhos. Patrícia Pillar, brasiliense de 1964, tinha 31. Jovens, mas estrelas absolutas. Patricia havia estreado em 1984 já como a protagonista de filme importante, Para Viver um Grande Amor, de Miguel Faria Jr. e feito diversas novelas da Globo. Glória começara bem cedo, criancinha, em 1968, e já era uma das principais atrizes das novelas globais.
A carioca e a brasiliense interpretam filhas de imigrantes italianos radicados em área rural da Serra Gaúcha, respectivamente Teresa e Pierina, primas um tanto distantes. Os maridos das duas moças são igualmente oriundi, descendentes de italianos, como tantos e tantas jovens oriundi que se instalaram no Brasil, em especial de São Paulo para baixo, a partir da segunda metade do século XIX.
(Cabe o registro: o Brasil recebeu cerca de 1,6 milhão de imigrantes italianos entre 1870 e 1920.)
Um letreiro registra, após os créditos iniciais, o quando e o onde: “Santa Corona, Rio Grande do Sul, 1910”. (Quem não é gaúcho não tem a obrigação de saber, mas Santa Corona, na época área rural, foi engolida pelo crescimento de Caxias do Sul, e hoje em dia é um bairro da cidade mais populosa da Serra Gaúcha.)
Teresa-Patrícia Pillar se casa com Angelo Gardone (o papel de Alexandre Paternost). Pierina-Glória Pires era casada já havia alguns meses com Mássimo (o papel de Bruno Campos), e o casal tinha um filho.
Trabalhador dedicado, um workaholic do campo antes que essa palavra existisse, Angelo propõe a Mássimo que os dois jovens casais se associem e comprem a prazo uma pequena fazenda – que lá na região chamam de colônia.
A proposta é aceita, e os dois casais passam a morar juntos em uma casa de fazenda ampla, mas precisando de uma boa mão de obra.
Em pouco tempo, ali com apenas uns 15, 20 minutos, fica bem claro para o espectador que Angelo trabalha feito um louco, uma máquina, um mouro – mas não deixa Teresa bem satisfeita sexualmente. E que Mássimo, embora casado com a bela Pierina, fica enfeitiçado pela maravilha estrondosa que é a mulher do outro. Que por sua vez parece, desde sempre, interessada no marido da outra.
O desenrolar da trama vai mostrar que Pierina e Angelo, o marido da outra, são, ambos, rudes, pragmáticos, trabalhadores aplicados. Devotados. E que Teresa é romântica, sonhadora, um tanto aventureira – assim como Mássimo, o marido da outra.
O livro em que o filme se baseia conta uma história real!
O Quatrilho é uma produção da família de Luiz Carlos Barreto, esse sujeito que é sinônimo de cinema brasileiro. Depois de trabalhar como repórter primeiro em O Democrata, de Fortaleza, e nas revistas A Cigarra e O Cruzeiro, no Rio de Janeiro, tornou-se fotógrafo, trabalhando com Jean Manzon em reportagens cinematográficas feitas no interiorzão brasileiro até então pouco conhecido nas grandes cidades. E começou a carreira de produtor no auge do cinema novo, em obras marcantes – Assalto ao Trem Pagador (1962), Garrincha – Alegria do Povo (1962), Vidas Secas (1963), A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1963), O Padre e a Moça (1966).
Barretão e sua mulher Lucy assinam a produção do filme, que teve a direção entregue não ao filho mais velho do casal, Bruno, mas ao mais jovem, Fábio.
Fábio não era um iniciante. Havia dirigido seu primeiro curta-metragem, A História de José e Maria, em 1977, aos 20 anos de idade, e o primeiro longa, Índia, a Filha do Sol, em 1982 – estrelado por Glória Pires.
Os Barretos tiveram a sagacidade de entregar a tarefa de escrever o roteiro de O Quatrilho a Leopoldo Serran, um dos mais experientes e respeitados roteiristas do cinema brasileiro, que começou a carreira na mesma época que Barretão – em 1963, assinou, ao lado do também estreante Carlos Diegues, o roteiro de Ganga Zumba, baseado no livro de João Felício dos Santos.
Leopoldo Serran deu a forma final ao roteiro depois que outro grande roteirista, Antônio Calmou, fez uma adaptação do livro O Quatrilho.
O livro havia sido lançado em 1985 pelo escritor gaúcho José Clemente Pozenato (1938-2024). Foi o primeiro volume de uma trilogia sobre a vida de imigrantes italianos radicados na área rural da região de Caxias do Sul, desde as origens agrícolas até a transferência para o comércio. Depois dele vieram A Cocanha (2000) e A Babilônia (2006).
O que é absolutamente fantástico é que o romance de José Clemente Pozenato se baseia em uma história real, de dois casais de amigos que, em 1907, na localidade de Tapera, hoje pertencente ao município de Gramado, se tornaram sócios em uma colônia, isto é, fazenda…
Consta que Pozenato ouviu a história de um dos descendentes daqueles dois casais.
O escritor faz uma participação especialíssima no filme. Ele interpreta o fotógrafo que faz o retrato posado das grandes famílias ao final da narrativa.
O título do livro vem de um jogo de cartas, quatrilho, em que os parceiros são trocados com frequência.
Atualmente, há em Gramado um passeio turístico pelos locais em que viveram os dois casais que inspiraram o livro, que inclui um almoço no campo! Pode?
Claro que pode, tchê!
Não sei se os guias que levam os turistas para conhecer os locais se lembram de botar no som do carro ou da van a canção-tema que Caetano Veloso compôs e gravou para o filme, mas bem que eles deveriam. Que beleza de canção! O eventual leitor deve se lembrar dela.
Da l´Italia noi siamo partiti
Siamo partiti c’o nostro onore
Trentasei giorni di macchina e vapore
E nella Merica noi siamo arrivà
Merica, Merica, Merica
Cosa sarála sta Merica?
Merica, Merica, Merica
L´è un bel mazzolino di fior
Alla Merica noi siamo arrivati
No abbiam trovato n’è pàglia e n’è fieno
Abbiam dormito sul nudo terreno
Come le bestie abbiami riposà
Merica, Merica, Merica
Cosa sarála sta Merica?
Merica, Merica, Merica
L´è un bel mazzolino di fior
La Merica l´è lunga e l´è larga
L´è formata de monti e de piani
E con l’industria dei nostri italiani
Abbiam fondato paesi e città
Merica, Merica, Merica
Cosa sarála sta Merica?
Merica, Merica, Merica
L´è un bel mazzolino di fior
O filme foi um dos marcos da Retomada do cinema brasileiro
O site MemóriasdaDitadura.org.br, um projeto do Instituto Vladimir Herzog, tem um tópico específico com o título de “Cinema da Retomada”. Ele me poupa do trabalho do escrever sobre a situação do cinema brasileiro nos anos 1990, porque sintetiza com precisão os eventos. Eis aqui:
“Com o fim da Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes S.A., empresa de economia mista estatal, criada em 1969, durante a ditadura, portanto, vinculada ao Ministério da Educação e Cultura, como braço do Instituto Nacional do Cinema, INC), fechada pelo governo Fernando Collor em 1990 em nome da austeridade de gastos do Estado e da valorização do livre mercado, o cinema brasileiro virtualmente acabou. Não se trata apenas de força de expressão, e sim de um fato estatístico incontestável: em 1992, apenas um filme brasileiro de longa metragem estreou no mercado.
“Com a queda do governo Collor (em dezembro de 1992), a partir de um grande movimento político e social contra a corrupção, a situação do cinema começou a melhorar. O governo Fernando Henrique Cardoso criou leis de incentivo e captação de recursos para viabilizar o cinema, estimulando o patrocínio privado à base de renúncia fiscal para produzir filmes brasileiros.
“Iniciou-se o chamado ‘cinema da retomada’, depois de anos de crise. O ritmo de produções ficcionais e documentais aumentou, estabelecendo, em muitos casos, parcerias com as grandes emissoras de televisão, sobretudo a Rede Globo. Mesmo sem atingir os níveis de público dos anos 1970, quando esteve no auge da popularidade, o cinema brasileiro renascia das cinzas.”
Por 6 anos, o Brasil não teve filme para submeter à Academia
O Quatrilho foi o primeiro filme após a retomada a ser submetido à Academia de Hollywood para participar da corrida pela indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Nos seis anos anteriores, o Brasil simplesmente não teve produção para submeter à Academia.
E passou na dificílima peneira: ficou entre os cinco indicados ao prêmio, ao lado de Todas as Coisas São Belas, de Bo Widerberg, da Suécia; O Homem das Estrelas, de Giuseppe Tornatore, da Itália; Possières de Vie, de Rachid Bouchareb, da Argélia; A Excêntrica Família de Antônia, de Marleen Gorris, da Holanda. Este último levou o prêmio.
Antes de O Quatrilho, apenas um filme brasileiro havia tido o privilégio, a honra de ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, de 1962, que já havia conquistado a Palma de Ouro em Cannes.
É preciso registrar que Orfeu Negro, de Marcel Camus, vencedor do Oscar em 1960, foi uma co-produção, e concorreu representando a França.
E, já que estou com a mão na massa, registro os filmes brasileiros que vieram após a retomada e tiveram indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro:
* O Que é Isso, Companheiro?, de outro Barreto, o Bruno, de 1997. (O vencedor foi Karakter, de Mike van Diem, dos Países Baixos.)
* Central do Brasil, de Walter Salles, de 1998. (O vencedor foi A Vida é Bela, de Roberto Benigni, da Itália.)
* Ainda Estou Aqui de Walter Salles, de 2024, foi o único, até hoje, a levar o Oscar da categoria.
* O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, de 2025. (O vencedor foi Valor Sentimental, de Joachim Trier, da Noruega.)
Além desses, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, de 2002, foi indicado a quatro Oscars, nas categorias de melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor edição.
Ahnn… A verdade é que essa relação demonstra que o cinema brasileiro está muito bem na fita no que diz respeito à tal estatueta dourada…
Quatro grandes nomes têm participações especiais
Dois registros, um absolutamente necessário, o outro curioso, interessante.
* Quatro grandes nomes do cinema, da televisão e do teatro brasileiros fazem participações especiais em O Quatrilho – nos créditos iniciais, aparecem como “artistas convidados”. A presença deles no elenco é uma demonstração do respeito da classe artística pelo projeto dos Barretos.
Gianfranceso Guarnieri, ele mesmo um Oriundi, faz o padre Giobbe. O filme abre com o padre Giobbe no lombo de um burrinho, a caminho da pequena igreja rural onde iria celebrar o casamento da linda Teresa com o trabalhador incansável Angelo. É um homem simpático, afável, bom coração.
Cecil Thiré faz outro padre, o padre Gentili, o pároco da região em que os dois casais se estabelecem. Diferente daquele interpretado por Guarnieri, o padre Gentili interpretado pelo filho de Tônia Carrero não é lá um sujeito que prima pelo bom caráter. Bajula Angelo quando ele está ficando rico – e o repele quando mais ele precisa de conforto espiritual. Merece de Pierina uma condenação pública, em uma das grandes sequências do filme, uma atuação brilhante de Glória Pires:
– “O inferno também existe para os padres! Não se esqueça disso, Padre Gentili.”
José Lewgoy faz Rocco, um amigo da família de Angelo, que o ajuda logo depois que ele se casa e procura uma forma de ter uma vida melhor. É o velho Rocco que incentiva o rapaz a procurar um rico comerciante de Caxias do Sul, um tal de Battiston, proprietário de uma colônia que Angelo talvez pudesse comprar.
O quarto artista convidado é Claudio Mamberti, que interpreta esse Battiston.
* Agora, o registro interessante, que alguém colocou na página de Trivia do IMDb sobre O Quatrilho:
“Em 1996, um ano após o lançamento de O Quatrilho, Patricia Pillar e Gloria Pires voltariam a estrelar juntas, desta vez na novela O Rei do Gado, um grande sucesso na televisão brasileira. Pillar interpretou Luana, uma mulher sem-terra que descobre que é Marieta, herdeira de um grande proprietário de terras. Pires interpretou Rafaela, uma golpista que tenta se passar por Marieta.”
Duas belas mulheres, duas boas, importantes atrizes.
Bem, acrescento mais um registro, uma curiosidade que eu tive enquanto escrevia esta anotação: como terá chamado em outros países este filme que tem como título o nome brasileiríssimo de um jogo de cartas?
No Reino Unido e nos Estados Unidos, foi, muito apropriadamente, The Quartet. Na Espanha, El Cuarteto. Os exibidores australianos foram criativos: Changing Partners, trocando de parceiros. Os argentinos foram mais criativos ainda: Siempre Queda la Pasión. Poderia ser o título de um tango!
Um filme que “até hoje encanta pelo frescor”
O Guia de Vídeo e DVD 2002 da Abril Cultural deu 3 estrelas em 5 para O Quatrilho e foi, na minha opinião, rigoroso demais na sua avaliação: “Um retrato de três décadas das vidas de dois casais, filhos de imigrantes italianos. Eles se estabelecem na Serra Gaúcha e um deles se torna um rico produtor agrícola e comerciante. Apesar de ter sido o primeiro filme brasileiro a concorrer ao Oscar de filme estrangeiro desde O Pagador de Promessas (1962), este longa tem graves problemas de roteiro, com passagens completamente dispensáveis, deficiência agravada por uma direção frouxa e pelos dois atores protagonistas. O interesse do filme se justifica pelo talento de Pires, Pillar e das paisagens serranas, pela produção correta e pela trilha sonora de Jaques Morelenbaum que contou com a canção-tema de Caetano Veloso.”
No jornal O Estado de S. Paulo, o crítico Luiz Zanin Oricchio escreveu em 2019, quando Fábio Barreto morreu, aos 62 anos, que O Quatrilho é um filme que “até hoje encanta pelo frescor”: “Baseado no romance homônimo de José Clemente Pozenato, ambienta-se na serra gaúcha, entre famílias de imigrantes italianos, com ar bucólico e uma inusitada troca de casais. Soma certa ingenuidade a malícia e expressa um estilo cinematográfico clássico e detalhista, voltado para o grande público. Não levou o Oscar, mas conquistou a maior parte da crítica e levou bom público às salas de cinema. Tornou-se um dos filmes importantes da Retomada, que ressuscitou o cinema brasileiro após o desmanche da era Collor, e vendeu 1.118.000 ingressos, bela cifra para os anos 1990.”
Anotação em maio de 2026
O Quatrilho
De Fábio Barreto, Brasil, 1995
Com Glória Pires (Pierina),
Patrícia Pillar (Teresa),
Alexandre Paternost .(Angelo Gardone),
Bruno Campos (Mássimo)
Pedro Parenti (Iscariot), Arcangelo Zorzi (Sichopa), Elaine Braghirolli (Tia Gema), Nadir Tonus (Cósdimo), José Vitor Castiel (Miro), Renato Filippini (Nane Mondo), Gonçalo Mascia (Agostinho), Fábio Barreto (Gaudério)
e, em participações especiais), Gianfrancesco Guarnieri (padre Giobbe), José Lewgoy (Rocco), Cecil Thiré (padre Gentile), Cláudio Mamberti (Battiston), Antônio Carlos Pires (Aurélio), Jose Clemente Pozenato (o fotógrafo da sequência final)
Roteiro Leopoldo Serran
Baseado no romance homônimo de José Clemente Pozenato
Adaptação Antônio Calmon
Fotografia Félix Monti
Montagem Mair Tavares, Karen Harley
Música Jaques Morelenbaum
Canções Caetano Veloso
Direção de arte Paulo Flaksman
Cenografia Sérgio Silveira
Figurinos Isabel Paranhos
Coreografia Sigrid Nora
Produção Lucy e Luiz Carlos Barreto, Filmes do Equador Ltda, L.C.Barreto Ltda,.Cor, 92 min (1h32)
R, ***
