O Homem que Sussurra / The Whisper Man

2.5 out of 5.0 stars

(Disponível na Netflix em 9/2026.)

É uma história sobre serial killer – mas o grande tema de The Whisper Man, no Brasil O Homem Que Sussurra, é a paternidade, a relação entre pai e filho. Tudo gira em torno disso. Segundo o filme mostra, os pais são responsáveis pelos traumas que acompanham seus filhos ao longo da vida.

O autor do best-seller em que o filme se baseia, o inglês Alex North, recebeu um pedido de compra dos direitos de filmagem um ano antes de seu livro ser lançado. Ao que parece, os irmãos Anthony J. Russo e Joseph Vincent Russo, donos da produtora AGBO, tinham absoluta certeza de que a obra seguinte do autor seria um grande sucesso, e se candidataram a obter os direitos de filmagem em 2018 – The Whisper Man só chegou às livrarias a partir de junho de 2019.

Segundo texto de Jean Carlos Foss publicado no Estado de S. Paulo, o escritor afirma que The Whisper Man “sempre teve um caráter pessoal”. “Embora os detalhes da trama não sejam autobiográficos, as idéias centrais nasceram de sua vivência como pai. Enquanto escrevia a história, seu filho tinha uma idade parecida com a do personagem Jake” – um garoto de 10 anos.

Diz a reportagem do Estadão que o escritor Alex North ficou muito satisfeito com a adaptação que os americanos fizeram de seu livro. O filme superou suas expectativas.

Mas não agradou muito à crítica, nem ao público, segundo mostra o site agregador de opiniões Rotten Tomatoes. Entre 70 críticas pesquisadas pelo site, um mês após seu lançamento o filme tinha a aprovação de apenas 46%. E, entre cerca de 500 leitores, a aprovação era de 40%.

Na minha opinião, e também na da Mary, não chega mesmo a ser um filme muito bom – apesar de ter qualidades, como as presenças de Robert De Niro e da bela Michelle Monaghan.

Uns 25 anos depois, um serial killer ataca de novo na região

O garoto Jake (o papel de Acston Luca Porto, na foto acima) perdeu a mãe, morta depois de lutar contra uma doença. Seu pai, Tom Kennedy (interpretado por Adam Scott), um escritor de romances policiais, resolve se mudar com Jake para a cidade do interior de Nova Jersey onde sua mulher nascera. A intenção era a melhor possível: tentar consolar um pouco o garoto, no lugar em que ele poderia sentir alguma proximidade com a mãe que já não estava mais presente.

A ausência da mãe pesava duramente sobre Jake. O garoto havia adquirido pavor de subir escadas; não se dava bem com outras crianças. Sua única companhia era uma amiga imaginária, com quem conversava sempre.

Acontece que, na mesma época em que pai e filho se instalam em uma ampla, confortável casa na cidade de Garretton, a polícia local procurava um garoto desaparecido, Neil Spencer.

A policial que chefiava as buscas, detetive Amanda Beck (o papel de Michelle Monaghan), encontra, num matagal, o corpo de um outro garoto com uma camiseta enrolada na cabeça. Esse detalhe, a camiseta enrolada na cabeça, remete ao caso de outros cinco meninos daquela região que, uns 25 anos antes, haviam desaparecido e depois haviam sido encontrados mortos.

Aqueles casos haviam sido investigados por um policial agora aposentado, Peter Willis (o papel de Robert de Niro). Peter conseguira identificar o serial killer, um tal Frank Carter, que ficarA conhecido como “the whisper man”, o homem que sussurra, e agora, na época em que se passa a ação, permanecia preso.

Amanda procura então o velho policial, em busca de ajuda.

Talvez o criminoso de agora fosse um imitador, um copycat. Ou tivesse conhecido Frank Carter, por algum motivo.

A princípio, Peter diz que não tem como ajudar Amanda. Mas acaba concordando em ir com ela até o presídio em que está Frank Carter – sabia-se que o assassino só admitia falar com o homem que conseguira identificá-lo, caçá-lo e prendê-lo.

O serial killer é interpretado por Michael Keaton (na foto abaixo), esse ator marcante que eu não via fazia um bom tempo.

Os diálogos entre o assassino de crianças e o policial aposentado são muito impressionantes. Apavorantes.

Em um deles o espectador fica sabendo que Frank Carter havia sido, quando criança, abusado sexualmente pelo próprio pai.

A abordagem das relações pai e filho é o melhor do filme

O filme demora um tanto para revelar que o escritor Tom Kennedy, o pai do garoto Jake, é filho do ex-policial Peter Willis.

Tom e Peter não se falavam havia anos. O policial não havia sequer conhecido o neto. Quem se afastara havia sido o filho, magoadíssimo com o pai que, ocupado demais com o trabalho na polícia, havia sido ausente quando Tom era garoto, e depois abandonara a família.

Ao longo da narrativa, ficamos sabendo que, além de ter saído de casa, Peter bebia muito. Estava sóbrio havia vários, vários anos, mas a lembrança do pai bêbado ainda perturba Tom.

Não é nada, nada fácil o reencontro dos dois ali, naquele momento em que Tom se muda de volta para a cidade natal, com o filho mergulhado na dor da perda da mãe, e um serial killer está agindo como o de décadas antes.

Há um ponto muito interessante na história criada por Alex North e que está bastante presente no roteiro escrito por Ben Jacoby e Chase Palmer. Assim como o garoto Jake, Tom havia tido na infância – ou se lembrava disso – um amigo imaginário. O amigo imaginário contava histórias para ele dormir…

Lá pelas tantas, numa conversa com o pai, quando a relação entre os dois começava já a perder o gelo, cai a ficha na cabeça do escritor de novelas policiais: o amigo imaginário que lia histórias para ele à noite existiu de fato – era seu pai, que, após a separação com a mulher, ia ver o garoto à noite, com a aquiescência dela, e o ajudava a dormir.

A atenção do filme para as relações pai e filho – a do policial e o escritor e a do escritor e o garoto Jake – é a melhor das características deste The Whisper Man, na minha opinião.

A pior característica é, sem dúvida, a insistência nas sequências de violência física que rolam quando a narrativa vai se aproximando do fim.

É uma marca de muitos, muitos, muitos filmes policiais/de mistério de Hollywood esse exagero de cenas de violência. Seguramente os produtores têm pesquisas que mostram que é grande o número de espectadores que gosta desse tipo de coisa. Uma tristeza.

O filme ficou entre os dez mais vistos na Netflix

Alguns registros:

* Alex North é um pseudônimo. O autor do livro em que o filme se baseia se chama Steve Mosby. Mosby é de Leeds, da classe de 1976, a mesma de Audrey Tautou, Reese Witherspoon, Sally Hawkins, Wagner Moura, e publicou seu primeiro romance, The Third Person, em 2003. Depois de sete livros publicados com seu próprio nome, resolveu adotar o pseudônimo – não sei se em homenagem ao grande compositor de trilhas sonoras Alex North (1910-1991) ou não. O primeiro livro com o pseudônimo foi exatamente The Whisper Man.

No livro, a ação se passa numa cidade no interior da Inglaterra. Os roteiristas transportaram a ação para uma cidade pequena de Nova Jersey – o nome da cidade, Garretton, é uma invenção do roteiro. Mas as filmagens foram de fato em cidades pequenas do estado de Nova Jersey.

* O diretor James Ashcroft – de quem eu nunca tinha ouvido falar – nasceu na Nova Zelândia, em 1978. É ator, roteirista, produtor; antes de passar à direção de filmes, fez carreira no teatro e na televisão da Nova Zelândia. Este The Whisper Man foi seu terceiro longa-metragem como diretor.

* O filme foi lançado pela Netflix em 28 de o de 2026. Uns dez dias depois do lançamento, quando fiz esta anotação, estava em primeiro lugar no “Brasil: top 10 em filmes hoje”. Tinha nota 6,2 no IMDb, média das notas de 0 a 10 dadas por 41 mil leitores do site enciclopédico mundo afora.

Anotação em setembro de 2026

O Homem que Sussurra/The Whisper Man

De James Ashcroft, EUA, 2026.

Com Robert De Niro (Peter Willis, detetive aposentado da polícia de Garretton),

Michelle Monaghan (detetive Amanda Beck, da polícia de Garretton)

Adam Scott (Tom Kennedy, o filho de Peter Willis),

Hamish Linklater (Norman Collins), Owen Teague (Francis Carter Jr.),

Acston Luca Porto (Jake Kennedy, o garotinho filho de Tom), Will Brill (sargento John Dyson), Exavier Montanez (Neil Spencer), Robert Clohessy (Victor Tyler)

e, em participação especial,

Michael Keaton (Frank Carter, o serial killer preso)

Roteiro Ben Jacoby, Chase Palmer

Baseado no romance de Alex North

Fotografia Peter Deming

Música Colin Stetson

Montagem Christopher Tellefsen

Desenho de produção Anastasia White

Direção de arte Eric Bryant, Doug Huszti

Casting Susanne Scheel

Figurinos Kasia Walicka Maimone

Produção Michael Disco, Angela Russo-Otstot, Kassee Whiting, Anthony Russo, Joe Russo, AGBO, British Film Commission.

Cor, 111 min (1h51)

**1/2

 

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