A Luta dos Sexos / The Battle of the Sexes

3.0 out of 5.0 stars

(Disponível no YouTube em 8/2025.)

Em 1928, 12 anos depois do colossal Intolerância, David Lewelyn Wark Griffith – o sujeito que “criou uma linguagem e uma gramática cinematográfica” e influenciou gênios como o dinamarquês Carl Theodor Dreyer e o russo Sergei Mikhailovich Eisenstein, como resume o estudioso Jean Tulard – lançou The Battle of the Sexes, no Brasil A Luta dos Sexos. Prestes a completar um século, a obra está disponível no YouTube com o título (incorreto) de Guerra dos Sexos.

Não chega a ser assim uma maravilha, não – mas é um bom filme, e é muito interessante, fascinante mesmo, por alguns motivos.

* É ousado, corajoso, avançado, tanto quanto aos temas que aborda quanto à forma um tanto explícita com que eles são tratados. Os temas são, pura e simplesmente, a infidelidade conjugal e o sexo. É a história de uma família feliz, unida, que se ama – pai, mãe, filha e filho já jovens adultos – mas se vê ameaçada e dividida com a chegada no pedaço de uma bela e jovem caçadora de fortuna, que dá em cima do ricaço incansavelmente.

Algumas cenas um tanto explicitas visualmente chegaram a ser cortadas por ordem de censores locais. (Ainda não havia o Código de Produção, o Código Hays.) No Kansas, por exemplo, um comitê de censura mandou eliminar várias cenas com a “gold digger” mostrando as pernas, estendendo-se sobre o sofá. O verbete da Wikipedia que relata isso não detalha, mas seguramente os censores de Kansas mandaram cortar a cena em que a louraça se deita no chão, de bunda para cima, e finge estar nadando, para remexer o corpo diante do olhar do lobo ricaço.

Meu, aquela cena, em 1928, provavelmente era mais escandalosa do que foi o sexo explícito de O Império dos Sentidos de Nagisa Oshima em 1976.

* Feito um ano após os primeiros filmes falados, na transição do cinema mudo para o sonoro, A Luta dos Sexos é ao mesmo tempo as duas coisas. É mudo – a gente não ouve o que os personagens falam, e os principais diálogos são mostrados nas grandes legendas, exatamente como nos filmes pré-1927. No entanto, tinha, já no seu lançamento, som, trilha sonora – uma trilha que acompanha toda a ação, ao longo de todos os 88 minutos de duração.

* De maneira surpreendente, este The Battle of the Sexes de 1928 é a refilmagem de um outro The Battle of the Sexes que Griffith havia lançado em 1914, apenas um ano antes, portanto, do monumental, importantíssimo e vergonhosamente racista O Nascimento de uma Nação (1915). Não encontrei informações sobre o que teria levado o diretor a querer refazer um dos mais de 400 filmes que havia realizado entre 1908 e 1914.

(Sim, mais de 400 filmes – curta-metragens, na sua imensa maioria, como era a praxe naquela época; mas, diacho, 400 filmes. Tudo o que se refere a D.W. Griffith é gigantesco, monumental.)

Com The Battle of Sexes, portanto, o diretor fez o que depois dele fariam Alfred Hitchcock, que filmou duas vezes O Homem Que Sabia Demais, em 1934 no Reino Unido e em 1956 nos Estados Unidos, e Frank Capra, que fez Dama por Dia/Lady for a Day em 1933 e Dama por um Dia/Pocketful of Miracles em 1961.

Uma bela abertura, na forma e no conteúdo

O filme abre – depois dos rapidíssimos créditos iniciais – com uma frase dos realizadores, uma introdução, uma espécie assim mezzo comentário filosófico, mezzo papo de botequim sobre o tema da história que virá a seguir:

“A batalha dos sexos – sempre sendo lutada e nunca sendo vencida.”

A primeira sequência do filme se passa em um salão de beleza unissex, onde homens e mulheres estão cortando seus cabelos, lado a lado. Eu não saberia dizer se houve, nos Estados Unidos, nos anos 1920, cabeleireiros/barbeiros unissex, ou se Griffith inventou algo que não existia para que sua história pudesse começar. A rigor, isso não interessa. Mas, na minha opinião, interessa, e muito, o fato de que a primeira tomada que vemos é um close-up das pernas de uma mulher. Ela está sentada em uma das cadeiras do salão de beleza, usa sapatos de salto alto – não saltos agulha, mas saltos altos. A música é alegrinha, marota – e a câmara, colocada ali na altura do joelho dos clientes, se move suavemente para a esquerda até parar no ponto que mostra as pernas de um homem e, à direita dele, as pernas cruzadas de uma outra mulher, uma funcionária do estabelecimento, uma esteticista. A câmara faz um movimento suave para cima, para vermos o rosto do cliente, que está tendo seu cabelo cortado, e da esteticista, que trabalha em suas unhas.

Ah, meu, é demais da conta! Ao rever agora esta primeiríssima tomada do filme, para descrevê-la, meu coraçãozinho apaixonado por filmes se emocionou.

A primeiríssima tomada de um filme não propriamente especial, um entre os mais de 400 que o sujeito realizou ao longo de 23 anos, entre 1908 e 1931, já surpreende por dois aspectos, um formal, outro de conteúdo.

Dois pares de pernas femininas em uma única tomada. As pernas das mulheres – é possível haver indicação mais óbvia de que veremos uma história sobre sexo?

(Ao longo dos cem anos seguintes, o cinema continuaria demonstrando uma fervorosa paixão pelas pernas das mulheres. Alfred Hitchcock, aquele velhinho safado, adorava filmar pernas de mulheres; François Truffaut, fã incondicional do inglês safado, fez algumas das mais belas sequências do cinema com sua câmara seguindo as pernas das mulheres – basta lembrar da abertura de seu delicioso O Homem Que Amava as Mulheres.)

Agora, a coisa formal da primeira tomada deste The Battle of the Sexes segunda versão, 1928: a câmara se movimenta. Não fica estática, parada. Não, ela se move – e a palavra grega kinema, é sempre bom lembrar, significa movimento. Daí moving images, movies. Quando o cinema nasceu – pouco antes de D.W. Griffith resolver se meter naquele negócio, já que havia fracassado como dramaturgo -, os atores se moviam, mas a câmara, não, a câmara ficava paradona, fixa, em cima de algum tipo de tripé.

Quase 20 anos antes que o cinema aprendesse a falar, D.W. Griffith ensinou a câmara a se movimentar. “Griffith inventou de tudo nos grandes gêneros, do filme policial ao western”, escreveu Jean Tulard.; “Mostrou a importância do primeiro plano e da montagem paralela. Deu fim à imobilidade da câmera e lembrou a necessidade do enquadramento rigoroso. Em suma, criou uma linguagem e uma gramática cinematográficas.”

A caçadora de fortuna se lança nos braços do ricaço

Vixe: ne estendi demais sobre a primeira tomada do filme. Perdão. O fato é que, na primeira sequência, estão próximos, no salão de beleza, dois clientes que não se conhecem – um senhor aí de meia-idade e uma jovenzinha loura. Loira, como dizem, jamais compreendi por que, os paulistas. (Em São Paulo, o título do filme da Marilyn com Jane Russell deveria ser Os Homens Preferem as Loiras…)

Um letreiro explica quem é a moça: “Marie Skinner não era tão dura quanto os garimpeiros de ouro – ela era mais dura”.

Gold digger.

O barbeiro que o atende aquele homem menciona ter lido que ele, o cliente, havia ganho um quarto de milhão de dólares em seu mais recente negócio imobiliário. A loura ouve aquilo e fica doidinha.

O bem-sucedido negociante da área imobiliária, William Judson, é o papel de Jean Hersholt. Marie Skinner, a gold digger, a caçadora de fortuna, de Phyllis Haver.

Logo depois dessa fantástica primeira sequência, ficamos conhecendo a família Judson – e o que vemos é o mais perfeito exemplo de uma família feliz. É o aniversário de Mrs. Judson (Belle Bennett), e todos, o marido, a bela e simpática filha, Ruth (Sally O’Neil) e o filho, um tanto anódino, Billy (William Bakewell), demonstram imenso amor por ela. Enchem a aniversariante de carinhos e de presentes.

Uma família feliz.

Marie, a gold digger, a fortune hunter, muda-se para o mesmo prédio de William Judson. Prepara-se toda para uma cena em que pretende desmaiar diante dele, quando ele passar pela porta do apartamento dela, a caminho do elevador e do trabalho – mas aí, numa bela sacada do roteiro, rola que um ratinho aparece na sala dela, e o desmaio da loura diante do ricaço é real, e assim mais atraente.

A partir daí, a loura literalmente se joga nos braços do cara, quase literalmente abre as pernas para o cara.

Mr. William Judson cai na teia.

Há ainda um personagem importante na história – um tipo galã malandrão, um tal Babe Winsor (o papel de Don Alvarado). Marie, a loura caçadora de grana, é apaixonada por ele, mas ele finge que nem liga para ela. Quando Marie consegue conquistar o ricaço, Babe Winsor convence a moça a vender para ele ações que na verdade são imprestáveis – um golpe financeiro, em suma.

Um perfeito exemplo do que é chamado de filmes pré-Código

Repito o que disse lá em cima: O filme não chega a ser assim uma maravilha, não. Mas, diacho, quanta coisa interessante há nele.

O malandro quer porque quer vender ações de empresa nada confiável para o ricaço. No ano seguinte, 1929, haveria a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, o que mergulharia os Estados Unidos na pior crise econômica de sua história, a Grande Depressão.

Fala-se de infidelidade conjugal, sexo. Mostram-se joelhos das mulheres. Mostram-se coxas das mulheres. Mostra-se até mesmo uma mulher deitada de bunda para cima remexendo-se toda – e ai me vêem os versos do jovem Caetano: !ela tem um remelexo que valha-me Deus, Nossa Senhora”.

Os filmes de Hollywood, naquele final dos anos 1920 e início dos anos 1930, estavam de fato se mostrando ousados no tratamento do sexo. O fenômeno Mae West simboliza perfeitamente essa crescente ousadia: quando ela chegou a Hollywood e assinou contrato com a Paramount, em 1932, já tinha fama nacional como uma desafiadora de limites no teatro em Nova York.

A gritaria das ligas de decência e dos religiosos levaria à criação, em 1930, do Código Hays, oficialmente Motion Picture Production Code, Código de Produção, um conjunto de normas de censura aceito pelos grandes estúdios. A partir de 1934, o código passaria a ser aplicado de maneira muito mais rígida – e apenas no final dos anos 1950 suas proibições começariam a ser contestadas.

Se tivesse sido produzido após 1934, este filme aqui não passaria pelos censores do Codigo Hays.

Griffith precisava desesperadamente de um sucesso

The Battle of the Sexes 1928 – assim como, é claro, The Battle of the Sexes 1914 – baseia-se em história de Daniel Carson Goodman (1881-1957), um sujeito que escreveu os argumentos de cerca de 15 filmes realizados entre 1913 e 1928.

É importante registrar que Griffith trabalhou sempre com o diretor de fotografia Billy Bitzer, G.W. Bitzer (1872-1944). Bitzer foi o diretor de fotografia das duas versões de The Battle of the Sexes, o que a rigor, a rigor, a rigor, poderia não significar nada – mas o cara foi também o diretor de fotografia das duas obras monumentais de Griffith, O Nascimento de uma Nação e Intolerância.

Não conheço nenhum dos atores desta refilmagem. Na primeira versão da história, a de 1914, a filha do casal, que então se chamava Jane, é interpretada por Lillian Gish, uma das duas primeiras gigantescas estrelas de Hollywood, ao lado de Mary Pickford.

Uma das muitas extraordinárias qualidades de Griffith era investir em atrizes. Ele foi fundamental na carreira das duas, Lillian Gish e Mary Pickford.

Em 1919, Griffith, Charles Chaplin, Mary Pickford e o galã/grande ator Douglas Fairbanks se uniram para criar uma empresa distribuidora de filmes, que logo depois se transformaria também em uma produtora, um grande estúdio – a United Artists. Este The Battle of the Sexes aqui foi produzido pela Features Production, e distribuído pela United Artists.

Eis o que o livro The United Artists Story diz sobre The Battle of the Sexes:

“D.W. Griffith, precisando desesperadamente de um sucesso comercial, voltou os olhos para suas glórias antigas e veio com T|he Battle of the Sexes, uma refilmagem de seu sucesso de 1914 que havia sido estrelado por Lillian Gish. Mas Griffith, que então bebia muito, estava fora de sintonia com Hollywood em momento de mudança, e o velho melodrama sobre infidelidade, baseado no romance The Single Standard de Daniel Carson Goodman, (adaptado por Gerrit Lloyd), parecia bem mofado, apesar das tentativas de remendá-lo. Elas incluíam uma trilha sonora sincronizada, com efeitos sonoros e uma canção apresentada pela sua estrela, Phyllis Haver. Ela interpretava uma caçadora de fortuna que consegue fazer com que um homem de meia-idade (Jean Hersholt) abandone sua esposa (Belle Bennett) e filhos (Sally O’Neil e William Bakewell), embora esteja simultaneamente envolvida com um gigolô (Don Alvarado). (…) A produção se movia a passos de cobra, e as tentativas de humor eram brutas. De maneira irônica, Miss Haver, que havia sido uma beldade nos filmes de Mack Sennett, abandonou o cinema um ano depois para se casar com um milionário.”

Hum… Acho que o verbete do livro sobre os filmes da United Artists foi rigoroso e mal-humorado demais com o filme. De qualquer forma, a informação de que a louraça se casaria com um milionário é uma delícia. Mas importante mesmo é a menção ao fato de que Griffith precisava desesperadamente de um sucesso comercial.

A biografia desse gigante do cinema feita pela Baseline mostra que, devido ao altíssimo custo de Intolerância, bancado em sua maior parte por ele mesmo, Griffith passaria os anos seguintes produzindo filmes cuja renda serviria para pagar as dívidas. Intolerância, uma superprodução de 3 horas e meia de duração, teria custado a absoluta fortuna, na época, de cerca de US$ 2,5 milhões – e, ao contrário do seu antecessor, o vergonhosamente racista O Nascimento de uma Nação, foi um fracasso nas bilheterias.

O conteúdo racista de Birth of a Nation – uma epopéia sobre a Guerra Civil Americana (1861-1865), sob a ótica do Sul escravagista – foi uma mancha horrorosa que perseguiria Griffith por toda vida, até sua morte por hemorragia cerebral em 1948, aos 73 anos. Diz o texto das Baseline:

“Ignorado pela indústria em que teve tanta importância como um de seus criadores, Griffith viveu uma década de isolamento no Knickerbocker Hotel de Hollywood, onde morreu em 1948. Durante anos, o conteúdo vil de Birth of a Nation e o ousado sentimentalismo de muitos outros de seus longa-metragens levaram Griffith ao status de irrelevância, mas, a partir de meados dos anos 1960, iniciou-se um reavivamento de sua obra, com a reavaliação de seus trabalhos iniciais e o reconhecimento de suas imensas contribuições.”

Anotação em agosto de 2025

A Luta dos Sexos/The Battle of the Sexes

De D.W. Griffith, EUA, 1928.

Com Jean Hersholt (William Judson, o pai),

Phyllis Haver (Marie Skinner, a caçadora de fortuna),

Belle Bennett (Mrs. Judson, a mãe), Sally O’Neil (Ruth Judson, a filha),

Don Alvarado (Babe Winsor, o malandro), William Bakewell (Billy Judson, o filho), John Batten (o amigo dos Judsons), Rolfe Sedan (o cabeleireiro de Marie), Harry Semels (o barbeiro de Mr. Judson)

Roteiro Gerrit J. Lloyd

Baseado no romance The Single Standard, de Daniel Carson Goodman

Fotografia Billy Bitzer e Karl Struss

Produção D.W. Griffith, Feature Productions.

P&B, 88 min (1h28)

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