The Butterfly’s Dream / Kelebegin Rüyasi

Nota: ★★★☆

(Disponível na Netflix em 5/2021.)

Como é possível não gostar de um filme que é dedicado a todos os poetas esquecidos?

Kelebegin Rüyasi, ou sonho da borboleta, produção turca de 2013 exibida na Netflix com o título em inglês, The Butterfly’s Dream, se baseia na vida real de dois poetas que passaram por este planeta como cometas.

Muzaffer Tayyip Uslu nasceu em 1922 e morreu em 1946, com apenas 26 anos, portanto. Seu grande amigo Rüştü Onur – seu frère camarade complice, como diria Georges Moustaki – nasceu em 1920 e morreu em 1942; viveu míseros, ínfimos, ridículos 22 anos de idade.

Mas não é apenas porque conta a história de dois jovens poetas e é dedicado a todos os poetas esquecidos que eu, Mary e tanta gente mundo afora gostou deste filme escrito e dirigido por Yilmaz Erdogan.

(Dá para afirmar que muita gente mundo afora gostou do filme com base nos muitos comentários elogiosos, embevecidos dos leitores do IMDb e na aprovação de 87% do público do Rotten Tomatoes.)

É um filme feito com carinho, amor, dedicação a seu tema, a seus personagens. E com muito talento.

É um filme belo para os olhos. O cenário, as paisagens são absolutamente deslumbrantes: a maior parte da ação se passa em Zonguldak e em seus arredores, a cidade em que os dois rapazes passaram a maior parte de suas vidas. As filmagens foram em parte lá mesmo, e o lugar é de uma beleza incrível – a cidade fica debruçada sobre as águas de um azul brilhante do Mar Negro, há belas falésias e também matas exuberantes – algo que a gente não imagina muito quando pensa em Turquia. Erdogan e seu diretor de fotografia Gökhan Tiryaki usaram e abusaram dessas paisagens, em belas tomadas aéreas.

Usam-se muito (ou usavam-se, na época retratada no filme, 1940, 1941, em plena Segunda Guerra Mundial) os navios como meio de transporte entre Zonguldak e Istambul, e então há tomadas aéreas de gigantescos navios de fazer inveja a James Cameron e seu Titanic.

Na abertura, um plano-sequência majestoso

É um filme feito com muito talento, repito. O diretor Yilmaz Erdogan parece ter resolvido demonstrar isso já bem no iniciozinho da narrativa. Depois de uma primeira sequência em que vemos um homem, o narrador da história, em um belo trem, deixando a sua cidade, Erdogan nos brinda com um plano-sequência primoroso, espetacular, majestoso, enquanto vão rolando os créditos iniciais.

Um letreiro informa: “Todos os homens entre 15 e 65 anos dos vilarejos de Zonguldak deverão trabalhar nas minas.’ Lei de Trabalho Compulsório. (Turquia, 1940)”

E começa o plano-sequência. Mostra-se trabalho de centenas de trabalhadores no amplo terreno em torno das bocas de uma mina de carvão. Para realçar a dureza do trabalho daqueles homens, a sujeira, a fuligem do carvão que enegrece os rostos (e penetra nos pulmões), o longo plano-sequência é em preto-e-branco. Colocada numa grua, um pequeno guindaste, a câmara vai se movendo pelo vasto terreno, mostrando as filas de conscritos que deverão entrar nos elevadores e descer para os patamares inferiores da mina, focalizando as esteiras que carregam o carvão que veio de lá de baixo para os locais de armazenamento.

A grua faz um movimento para cima, a câmara vai mostrando cada vez mais do alto a movimentação dos operários – e é só quando finalmente há o corte interrompendo o plano-sequência que voltam as cores.

É um daqueles planos-sequência que dá vontade de o cinéfilo aplaudir de pé como na ópera. Ao final dele, já não há mais dúvida: estamos diante de um filme feito com talento.

E é um filme que faz bem ao coração. Com uns dez minutos de projeção, ele já nos mostrou os quatro personagens centrais e definiu a que veio. Ficamos conhecendo dois rapazes bem jovens, bonitos, simpáticos. O mais alto, de cabelos castanhos um pouco claros, é Muzaffer (o papel de Kivanç Tatlitug). O mais baixo, cabelos bem negros, é Rüştü (Mert Firat). São poetas, falam sobre poesia o tempo todo. Rüştü também tem pretensões a escrever peças de teatro.

Os dois se relacionam muito bem com o professor de Literatura que tiveram no colégio, Behcet Necatigil – o homem que havíamos visto na primeira sequência, no trem, escrevendo uma carta a alguém, contando que estava finalmente deixando a cidade em que vivia. O professor, homem simpático, bom caráter, ele também um poeta, que gosta daqueles dois rapazes e tenta ajudá-los no que pode, é interpretado pelo próprio Yilmaz Erdogan, diretor e autor do roteiro do filme.

Erdogan, pelo jeito, gosta de atuar nos filmes que dirige. Em Sour Apples / Ekşi Elmalar, de 2016, outro belo filme dele, também de visual caprichado, extasiante, ele tem um papel importante, o prefeito da cidadezinha em que se passa a ação.

Dois amigos apaixonados pela mesma mulher

A quarta personagem principal da história surge nos primeiros dez minutos do filme: Suzan Özsoy (Belçim Bilgin), moça bonita, atraente, chega de barco ao porto da cidade de Zonguldak. É a filha de um rico empresário, que estava em Istambul, e veio passar uma temporada na cidade em que estão os pais.

Rüştü e Muzaffer estavam no porto no momento exato em que a moça chega. Batem o olho nela e o espectador percebe que é paixão à primeiríssima vista.

Estão dadas as bases da trama. O que vem aí é a história de dois jovens poetas, dois grandes amigos, que acontece de se apaixonarem pela mesma bela mulher.

Quando o filme está aí com uns 20 minutos, os três jovens estão passeando de bicicleta, felizes como deveriam ser todos os jovens do mundo.

Passeando de bicicleta, uma mulher e dois homens, uma mulher para dois. Exatamente como passeavam de bicicleta Jules, Jim e Catherine (Oskar Werner, Henri Serre e Jeanne Moreau), no filme de François Truffaut.

Lá pelas tantas, Rüştü e Muzaffer fazem uma combinação, um trato, uma aposta. Cada um escreveria um poema – e entregariam os dois poemas, não assinados, a Suzan. O autor do poema que ela achasse mais belo seria o amor da vida dela.

Mas as coisas acabam não sendo exatamente como os dois planejavam… E a coisa de os dois terem se apaixonado por Suzan acabará não sendo tão fundamental assim na trama.

Um tom nada realista – um tom de poesia

À parte a beleza das imagens, à parte o gostoso tema de dois amigos que se apaixonam pela mesma mulher (mesmo que isso acabe se resolvendo na boa), à parte a maravilha que é um filme dedicado a todos os poetas esquecidos, este Kelebegin Rüyasi tem uma interessante, fascinante característica: ele não tem uma narrativa assim realista, muitíssimo mesmo naturalista.

A rigor, a rigor, este é um filme que foge do realismo quase como o diabo e o vampiro da cruz, os políticos populistas da verdade dos fatos, os terraplanistas da lógica.

O filme tem um tom de suavidade, de doçura que é diferente de uma narrativa realista. O tom, a atmosfera, o jeito.

Não que seja um tom róseo, um jeito de narrar história como se ela acontecesse em um mundo em que tudo está certo, perfeito. De forma alguma.

Há muita barra pesada. Até demais. Há uma guerra mundial acontecendo – e volta e meia se fala dela, ouvem-se notícias dela no rádio. A cidade em que a ação se passa tem minas de carvão, e uma lei obriga que todos os homens trabalhem nelas. O pai da moça, o rico empresário Zikri Ozsoy (Ahmet Mümtaz Taylan), não quer saber daqueles “marginais” – é o termo que ele usa – perto de sua filha.

Pois é. Mas a verdade é que a guerra está longe. Ali, em Zonguldak, cidade debruçada sobre o Mar Negro, não se vê a guerra – é como se estivéssemos à beira de um daqueles plácidos lagos suíços, o país da neutralidade, onde não caiu uma bomba sequer, seja nazista, seja aliada.

A mina de carvão está ali – mas ao mesmo tempo está longe. Nem Muzaffer nem Rüştü descem diariamente às profundezas da mina, não enchem seus rostos e seus pulmões da poeira negra. Até haverá uma descida à mina – mas será uma aventura proposta por Suzan. A aventura tem final infeliz, é verdade – mas é verdade também que poderia terminar tudo muito pior.

Há um Grand Canyon, um Amazonas de distância entre a classe social de Suzan e a dos dois amigos – mas, como se isso acontecesse sempre, como se fosse a coisa mais comum do mundo, aqueles três jovem ignoram essa coisa de gigantesca distância, e se aproximam, ficam juntos, passeiam de bicicleta como Jules et Jim et Catherine.

Há uma barra especialmente pesada, pesadíssima: os dois jovens e belos poetas têm tuberculose.

Pois é. Mas até mesmo da doença terrível o filme trata com um tom… um tom… Um tom de licença poética.

É uma coisa sutil. Não é algo exagerado, escrachado, de forma alguma. Não, não, de forma algum. É uma coisa sutil – mas existe, está lá.

Não é uma narrativa realista – e isso não é uma crítica, uma queixa, uma condenação. É apenas uma constatação.

O filme que chegou ao Brasil com o título de The Butterfly’s Dream tem uma narrativa com um tom de licença poética. Às vezes ele trata a vida como se ela fosse um sonho bom. Como se a vida tivesse a beleza da poesia.

Ah, sim, o sonho da borboleta.

Há quem acorde como uma barata, como o Joseph K. de Franz Kafka. Há quem sonhe que é uma borboleta.

Muzzafer conta para Suzan, quando o filme está ali pela metade:

– “Um dia um místico sonhou que ele era uma borboleta. Acordou confuso: teria sonhado que era uma borboleta, ou era uma borboleta sonhando que era ele?”

Filmes para os seres humanos sem narizinho empinado

Vejamos o que diz de Kelebegin Rüyasi um site dedicado aos filmes que agradam às distintas platéias das mostras de cinema mais descoladas do mundo, aquele pessoal de narizinho arrebitado que diz que só gosta de “filme de arte” e detesta “cinema americano”. O site se chama Always Good Movies, eu o descobri procurando informações e outras opiniões sobre o filme de Yilmaz Erdogan, e é especializado, como eu brinquei no Facebook, em todos aqueles filmes da Tunísia, do Cazaquistão, do Chade que jamais foram exibidos comercialmente em São Paulo – e nem mesmo em Paris.

“Boas intenções à parte – o filme faz um tributo a poetas esquecidos do passado e tem um bom olhar para uma bela amizade –, The Butterfly’s Dream não foi tão inspirado em sua concepção, apesar da fantástica fotografia de Gökhan Tiryaki (conhecido por seu trabalho com o aclamado diretor Nuri Bilge Ceylan) e sólidas atuações de maneira geral. O diretor ator e também poeta Yilmaz Erdogan escreveu, estrelou e dirigiu este drama choraminguento com os estereótipos dos filmes de Hollywood na cabeça, e essa é a questão principal, asfixiando as aspirações de uma trama decente, que apresentava argumentos suficientes para ser um triunfo – poetas pobres mas cheios de espírito.”

Uma preguiça infinda me faz pular para a última frase:

“ Dá para ver The Butterfly’s Dream enquanto história, mas ele poderia ter sido um filme muito melhor se Erdogan tivesse juntado os elementos corretos para compor a atmosfera ideal.”

Ah, os críticos de cinema…

Ler essa bobagem me fez gostar ainda mais do filme.

Euzinho, que felizmente não sou crítico de cinema, sou apenas uma pessoa que gosta de ver filmes, noto que, no outro filme que vi de Erdogan, Sour Apples, também há um tom de narrativa que se distancia da realidade, do realismo.

Minha conclusão sobre Sour Apples foi assim: “É um filme que tem qualidades, e merece ser visto. Não nos explica muito sobre os costumes das pessoas do interiorzão na Turquia, mas nos mostra um pouco deles – e em belas imagens. Não chega a ser um filme tão maravilhoso quanto Cinco Graças (2015), de Deniz Gamze Ergüven – mas é muitíssimo melhor do que Climas (2008) e Três Macacos (2008), aquelas chatices de Nuri Bilge Ceylan.”

É isso: Nuri Bilge Ceylan, que o site Always Good Movies adora, faz filmes para as platéias das mostras de cinema, os jurados de festivais, os críticos de narizinho empinado. Na minha opinião, é um chato de galocha.

Esse senhor Yilmaz Erdogan faz filmes que fogem do realismo, cheios de belíssimas imagens. Seus filmes agradam aos seres humanos – que se danem os críticos de cinema e os narizinhos arrebitados que dizem que só gostam de “filmes de arte”.

Os trabalhos dos dois poetas foram publicados, sim

Muzaffer Tayyip Uslu, o que viveu mais tempo dos dois amigos – 26 anos! – reuniu seus poemas num livro publicado em 1945, um ano antes de sua morte, Şimdilik, Just for Now em inglês, apenas para agora, literalmente.

Desmentindo o que o filme afirma nos letreiros após o final da narrativa – “e foram esquecidos… até agora” –, em 1956, dez anos após sua morte, foi publicado um livro que reuniu todos seus poemas e também artigos publicados sobre ele, de autoria de Necati Cumalı, cujo título é apenas seu nome, Muzaffer Tayyip Uslu.

O mesmo aconteceu com Rüştü Onur. Seus poemas e artigos sobre ele e sua obra foram reunidos em um livro que teve seu nome, e foi lançado nos anos 50.

Mas tudo bem. Dá para admitir que livros publicados nos anos 50 não sejam propriamente uma garantia de que Rüştü Onur e Muzaffer Tayyip Uslu são bem lembrados hoje.

Que maravilha que haja um filme dedicado a todos os poetas esquecidos.

Anotação em maio de 2021

The Butterfly’s Dream/Kelebegin Rüyasi

De Yilmaz Erdogan, Turquia, 2013

Com Kivanç Tatlitug (Muzaffer Tayyip Uslu), Mert Firat (Rüştü Onur), Belçim Bilgin (Suzan Özsoy), Yilmaz Erdogan (professor Behcet Necatigil)

e Farah Zeynep Abdullah (Mediha Sessiz), Ahmet Mümtaz Taylan (Zikri Ozsoy, o pai de Suzan), Taner Birsel (Ismail Uslu), Selman Ünlüsoy (Hasta), Ipek Bilgin (a mãe de Muzaffer), Aksel Bonfil (Kürsat, o namorado de Suzan), Devrim Yakut (Fikriye Onur), Salih Kalyon (Battal), Celalettin Demirel (o pai de Rüstü), Oguzhan Kocakli (Soför), Ilkyaz Kocatepe (enfermeira Mujgan), Servet Pandur (a mãe de Suzan), Emin Gürsoy (o pai de Mediha), Ayten Soykök (a mãe de Mediha)

Roteiro Yilmaz Erdogan

Fotografia Gökhan Tiryaki

Música Rahman Altin   

Montagem Bora Göksingöl

Casting Rezzan Çankir

Produção Necati Akpinar, Can Yilmaz, BKM Film. Bocek Yapim.

Cor, 138 min (segundo o IMDb); ou 118 min (na Netflix).

***

Um comentário para “The Butterfly’s Dream / Kelebegin Rüyasi”

  1. Que beleza de texto, que beleza de filme!
    Que bom que não és um crítico, mas apenas um apreciador do cinema… do bom cinema!
    O filme é tocante, fotografia primorosa e a trilha sonora, perfeita. Sinto não ter visto antes esta beleza!

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