Collateral

Nota: ★★★★

Collateral, impecável minissérie inglesa de 2018, começa com um assassinato: um motoboy entrega uma pizza num apartamento no Sul de Londres e, quando chega de volta à calçada do prédio, é atingido por uma bala certeira, precisa, disparada – o espectador logo terá certeza disso – por profissional experiente.

São apenas quatro episódios, cada um com cerca de 55 minutos. Em pouco menos de quatro horas de cinema da melhor qualidade que pode haver, Collateral entrega ao espectador uma extraordinário trama de thriller-policial-mistério, um belo estudo de personagens das mais diferentes classes sociais da Grã-Bretanha de hoje, e um olhar arguto, inteligente, sensível e avançado sobre temas como Igreja & homossexualidade, política partidária, saúde pública, a luta contra o terrorismo, as disputas entre os órgãos de Estado para a segurança pública, o drama dos refugiados que deixam os países pobres e/ou em guerra ou profunda instabilidade em busca de vida melhor nos mais desenvolvidos.

Para não ficar parecendo que aqui só se trata de grandes temas, aqueles que dizem respeito a toda a sociedade, Collateral também fala das relações afetivas – inclusive a dificuldade de conviver eternamente com os problemas trazidos pelas escolhas erradas que a gente faz na vida.

É uma obra admirável, extraordinária.

Quando começamos a assistir à minissérie, a única informação que tínhamos era que Carey Mulligan (na foto abaixo) é a protagonista. Quis ver por causa dessa atriz que admiro demais desde que a vi em Educação/An Education, de 2009.

Carey Mulligan – que faz a policial encarregada de investigar o assassinato do motoboy que abre a narrativa – é a única pessoa do elenco que eu conhecia. Não há, além dela, nenhum outro grande astro ou estrela de fama internacional em Collateral.

E é um elenco vasto. Há bem mais de uma dúzia de personagens importantes na história. É uma das grandes qualidades da série, exatamente essa coisa de ser um amplo quadro, um painel da sociedade britânica.

Um roteirista veterano, uma diretora jovem demais

Só depois de ter visto os dois primeiros episódios chequei quem eram diretor e roteirista, S.J. Clarkson e David Hare. Não sabia nada sobre eles, mas dá para perceber que formaram uma dupla absolutamente fascinante.

David Hare, o autor da história e do roteiro, é um veterano experientíssimo. Nascido em Sussex, em 1947, tem 33 títulos em sua filmografia como escritor, inclusive de filmes prestigiados, premiados, como Perdas e Danos (1992), As Horas (2002), O Leitor (2008), Minha Cama de Zinco (2008). Teve duas indicações ao Oscar, fora 22 outras, e recebeu 10 prêmios.

Um veterano autor inglês da geração que veio logo após o fim da Segunda Guerra. Posso apostar que o grande John Le Carré, algumas  gerações mais velho – 1931-2020 –, aplaudiria a trama e o roteiro que David Hare criou aqui.

Já a diretora S.J. Clarkson é jovem, absolutamente jovem – só não dá para dizer a idade porque parece ser do tipo que não a revela – essa frescura boba, que não dá para entender. Pelas fotos disponíveis na internet, não devia ter feito sequer 40 anos quando dirigiu os quatro episódios de Collateral.

Não há filmes para o cinema em sua filmografia de 33 títulos, iniciada em 2001 – apenas séries de TV.

Os críticos de música gostam de falar das várias gerações do punk inglês. Fiquei imaginando, depois de ler o pouco que há sobre S.J. Clarkson no IMDb e na Wikipedia em inglês, que a moça começou a entender o mundo bem depois que The Clash tinha se dissolvido, em 1986.

Dá para notar isso claramente com a montagem rapidíssima, aceleradíssima, que parece feita para deixar a velocidade da montagem dos clips da MTV do início dos anos 90 parecendo passo de tartaruga.

Uma trama densa, rica, complexa, abrangendo diversos temas e um roteiro sólido, elaborados por um veterano, um sujeito da minha geração, só um pouquinho mais velho que eu. A direção muitas vezes frenética de uma diretora provavelmente mais jovem que minha filha.

Uma dupla improvável, fascinante.

Funcionou com perfeição. Like clockwork.

Dar aula era violento demais, e então Kip virou policial

Começa assim:

Uma jovem mulher vai recebendo pedidos e mais pedidos de pizza, encaminhando os pedidos para a cozinha atrás dela, pegando as pizzas prontas e passando cada uma a um motoboy para fazer a entrega.

Vamos ver depois que a mulher que está ali no meio daquela maluca roda-viva na pizzaria se chama Laurie Stone (Hayley Squires).

Diante de uma pizza específica, Laurie chama o motoboy Abdullah (Sam Otto). Outro motoboy, Mikey Gowans (Brian Vernel), protesta: pelo rodízio normal, era a vez dele, e não a de Abdullah. Laurie, no entanto, é a gerente, é a pessoa que decide, que manda, e insiste: quem vai levar aquela pizza é Abdullah.

Abdullah entrega a pizza para uma mulher aí de uns 40 anos – veremos logo depois que se chama Karen Mars (Billie Piper), e foi casada, durante pouquíssimo tempo, com um deputado do Partido Trabalhista, David Mars (John Simms); teve uma filhinha dele e por causa disso vive às custas do ex.

Karen recebe a pizza, pergunta por que não tem a cobertura extra. Abdullah não sabe explicar. Karen, cara feia, diz que já pagou antecipadamente, dá para Abdullah umas moedinhas, fecha a porta, joga a pizza no chão num canto do seu apartamento.

Abdullah desce as escadas, sai para a calçada para subir em sua moto – e cai morto no chão. As moedinhas que havia recebido de gorjeta de Karen rolam pelo cimento da calçada.

É madrugada.

Toca o telefone na casa da DI Kip Glaspie, da polícia metropolitana de Londres. Ela atende, diz que já vai, e mal se despede do marido deitado ao lado dela.

Kip Glaspie, que vai chefiar a investigação sobre a morte do motoboy, é o papel de Carey Mulligan. E DI é detective investigator.

Veremos que ela havia sido, no passado, uma atleta famosa, campeã do salto de vara; em uma competição, havia tido um tombo feio, muito feio. Depois de abandonar o esporte, havia sido professora – e sobre isso Dsvid Hare criou um diálogo impressionante. Nathan (Nathaniel Martello-White), o policial que é parceiro de Kip, pergunta por que ela deixou de ser professora e optou por trabalhar na polícia.

Kip Glapie responde:

– “Muita violência.”

Dar aula, na Londres dos dias de hoje, é uma experiência tão violenta que a personagem principal da história preferiu ir trabalhar na polícia, investigar crimes.

Uau!

Por que raios contratar um profissional para aquilo?

Os técnicos, os legistas vão indicar que o assassinato do motoboy foi um trabalho de profissional, de gente muito experiente.

O espectador vê com toda a obviedade possível que é isso mesmo: depois de lançar a arma no Rio Tâmisa, o assassino entra num banheiro público, livra-se de todas as roupas que estava usando, limpa-se cuidadosamente, veste outras roupas. Só não vemos o rosto da pessoa – ainda.

É sem dúvida alguma um profissional.

Mas, diacho – eu me perguntei, a essa altura do primeiro episódio da minissérie, como todos os espectadores devem provavelmente se perguntar –. por que raios alguém contrataria um assassino profissional para executar um motoboy?

Essa é uma das grandes sacadas de David Hare nesta fantástica minissérie. Incrustrar no espectador, já na primeira metade do primeiro dos quatro episódios, essa grande questão.

Por que raios alguém contrataria um assassino profissional para executar um motoboy?

No final do primeiro episódio, a câmara mostra para o espectador quem é o assassino profissional.

Na metade do segundo dos quatro episódios, a série mostra quem é o mandante.

Alfred Hitchcock, que gostava demais dessa coisa de mostrar muitas informações para o espectador, e assim aumentar o suspense, creio que admiraria o roteiro de David Hare. Não falaria bem dele, não, porque só sabia falar bem de si mesmo, aquele velhote inglês de ego mais inchado do que a barriga.

Mas é um roteiro brilhante, esse de David Hare.

Pessoas de diversas origens enroladas no mesmo novelo

A trama criada por David Hare mistura maravilhosamente os elementos de uma história policial – que já é em si muito interessante – com um exame da sociedade, do estado das coisas na Grã-Bretanha de hoje.

No exato momento em que o tiro atinge o motoboy Abdullah, só há naquela rua do Sul de Londres uma única alma – uma jovem que estava absolutamente drogada, e havia sentado na calçada daquela rua específica porque estava incapaz de andar, de fazer qualquer coisa.

Crime acontecido, reportado, chega a polícia – e a jovem é interrogada. Dá nome e endereço falsos. Chama-se – vamos ficar sabendo – Linh Xuan Huy (o papel de Kae Alexander, na foto acima). É uma vietnamita que pediu asilo na Grã-Bretanha, estuda em universidade – e é a amante de Jane Oliver, uma reverenda da Igreja Anglicana (o papel de Nicola Walker, nas duas fotos acima).

A reverenda Jane havia sido amicíssima do deputado David Mars, que havia feito a besteira de se casar com Karen, a mulher que recebeu a pizza do motoboy Abdullah, reclamou que não havia cobertura especial e a jogou fora, no chão do apartamento. A mulher que toda segunda-feira, naquele horário, recebia uma pizza = com cobertura especial – entregue por Mikey Gowans.

Naquele dia específico, a gerente Laurie havia mexido na escala, e enviado no lugar de Mikey o seu colega Abdullah – que então foi assassinado por um tiro perfeito dado por profissional competente, experiente, que o espectador fica conhecendo no final do primeiro dos quatro episódios.

Uma trama brilhante.

E tem muito mais, muitos outros elementos.

A detetive Kip Glaspie e sua equipe vão rapidamente localizar duas irmãs de Abdullah, a vítima – Fatima e Mona Asif (os papéis de Ahd Ahd e July Namir). A princípio, elas dão a entender que não falam nada de inglês; a uma tradutora providenciada por Kip, também não dão qualquer informação importante. Um repórter de jornal importante, creio que Robert Walsh (Mark Umbers), vai publicar que Abdullah e as irmãs eram refugiados sírios. Mais tarde vai se revelar que na verdade os três sabiam inglês, sim – eram iraquianos, e haviam pago caro para uma quadrilha de traficantes de pessoas pela viagem do Oriente Médio à Inglaterra.

Está aí a ponta do novelo que levará a essa quadrilha de tráfico de gente.

Surgirá na história um tal Sam Spence (John Heffernan), um emproadíssimo oficial graduado do M15, o serviço britânico de informações de segurança interna, que demonstra imenso desprezo pela polícia – exatamente como vemos nos filmes americanos os agentes do FBI menosprezarem os policiais locais.

Em muitos filmes ingleses, quando se fala do MI5 e do MI6 (o serviço secreto para segurança que trata de assuntos externos ao país, como a CIA americana), fala-se de segredos de Estado, serviços sujos, crimes em nome da lei e da ordem. Collateral é mais um deles.

Ficaremos conhecendo uma capitã do Exército, Sandrine Shaw (Jeany Spark, na foto abaixo), veterana de missões no Iraque e no Afeganistão. Sandrine é assediada no quartel por seu oficial superior, o major Tim Dyson (Robert Portal), um tipo asqueroso, nojento. A capitã vai se revelar uma patriota feroz, com um medo paranóico de terroristas, possíveis candidatos a terrorista.

E, bem no início do terceiro episódio, o espectador conhecerá uma personagem nova mas que terá grande importância na trama, Berna Yalaz (Maya Sansa), mulher bonita, toda a aparência de poderosa.

Todas essas pessoas estão enroladas no mesmo grande novelo.

As pessoas boas levam bronca de seus superiores

De que adianta a Grã-Bretanha ser a mais longeva e perfeita democracia do mundo, se não consegue receber migrantes, e tratá-los bem?

A questão é colocada pelo deputado David Mars, em uma entrevista que terá imensa repercussão dentro de seu partido, o Trabalhista, que naquele momento está na oposição, e de resto em todo o reino.

Uma repórter de TV – que, aliás, é descendente de asiáticos – pergunta o que o deputado achou do fato de que Abdullah Asif não era, afinal, um refugiado sírio.

Enquanto David Mars vai respondendo, a câmara mostra, além dele e da repórter, a secretária do deputado, Monique (Jacqueline Boatswain), uma bela moça negra – e vemos que Monique vai se assustando com as afirmações corretas, sensatas, mas fortes demais. Ela visivelmente aprova o que ele diz – mas está surpresa com a veemência inesperada:

– “Não se pode dizer que um ser humano foi baleado e morto numa rua daqui? Não importa de onde ele era. Estamos mesmo virando um pequeno país mesquinho.”

A nasty little country. Um membro da Câmara dos Comuns chamar na TV a Grã-Bretanha de a nasty little country é meio demais da conta, meio radical demais.

– “Não é hora de termos uma política de imigração que não seja xenófoba e desumana? Venho dizendo há tempos que precisamos cumprir nosso dever. Não falo só do dever moral, mas também do dever legal. Promessas que fizemos e, convenientemente, esquecemos. Acredito que, quando for escrita a História desta época, sentiremos vergonha de quão poucos refugiados nós acolhemos, e de como os maltratamos, enquanto estiveram aqui.”

Por ter falado essas verdades – duras, mas verdades –, David Mars será severamente advertido pela líder de seu partido.

Outra pessoa – tão boa, tão correta quanto David Mars – também será advertida por seu superior. Em mais um dos belos diálogos criados por David Hare, a reverenda Jane Oliver terá que ouvir de seu bispo (o papel de Jonathan Coy) que ela pode até dividir a cama com outra mulher – mas tem que ser em silêncio, em segredo, sem que ninguém saiba disso. E não com uma mulher como Lihn Xuan Huy, que aparece nos noticiários policiais como testemunha de um crime e estava completamente chapada na hora.

Na minissérie Collateral, as pessoas boas, de bom caráter, levam bronca de seus superiores.

Outra personagem de bom caráter, trabalhadora, séria, a detetive investigadora Kip Glaspie consegue sucesso em sua missão de desvendar o crime. Mas o final – como tantas vezes, na vida real, em casos que envolvem criminosos poderosos – não é feliz.

Anotação em abril de 2021

Collateral

De S.J. Clarkson (direção) e David Hare (argumento e roteiro), Inglaterra-EUA, 2018   

Com Carey Mulligan (detetive investigadora Kip Glaspie)

e (na polícia) Nathaniel Martello-White (detetive-sargento Nathan Bilk), Vineeta Rishi (Rakhee Shah), Rob Jarvis (Euan Johnson), Ben Miles (Jack Haley), 

(no entorno do local do crime) John Simm (deputado David Mars), Billie Piper (Karen Mars, a ex-mulher do deputado David), Nicola Walker (reverenda Jane Oliver), Kae Alexander (Linh Xuan Huy, a amante da reverenda Jane), Alaïs Lawson (Genevieve, a babá), Jacqueline Boatswain (Monique, a secretária do deputado David), Kim Medcalf (Suki Vincent, a quase namorada de David), Saskia Reeves (Deborah Clifford, a líder do Partido Trabalhista), Jonathan Coy (o bispo),

(na pizzaria e entorno) Hayley Squires (Laurie Stone, a gerente), Ahd Ahd (Fatima Asif, irmã de Abdullah, a vítima), July Namir (Mona Asif, irmã de Abdullah, a vítima), Brian Vernel (Mikey Gowans, motoboy), Sam Otto (Abdullah Asif, a vítima), Siobhan McSweeney (Petra, guarda no campo de estrangeiros ilegais), Nicola Duffett (Alice Stone, a mãe de Laurie, a gerente),

(entre os militares e o MI5) Jeany Spark (capitã Sandrine Shaw), Robert Portal (major Tim Dyson), Richard McCabe (Peter Westbourne, ex-militar, amigo da família Shaw), John Heffernan (Sam Spence, oficial do M15), Maya Sansa (Berna Yalaz, ligada a Peter e a Sam), Deborah Findlay (Eleanor Shaw, a mãe da capitã Sandrine), Orla Brady (Phoebe Dyson, a mulher do major Tim),

(outros) George Georgiou (Mehmet Akman), Guy List (Bhuran Demir), Tom Turner (Gerald), Alex Reid (Amanda Hall), Mark Umbers (Robert Walsh), Adrian Lukis (Xan Schofield), Joanna Bobin (Sarah Lawson), Molly Simm (Elfie Mars),

Argumento e roteiro David Hare

Fotografia Balazs Bolygo

Música Ruth Barrett

Montagem Jamie Trevill, Sacha Szwarc

Casting Lucy Bevan      

Direção de arte John Stevenson

Produção BBC, The Forge Entertainment, Netflix.

Cor, 230 min (3h50)

Disponível na Netflix em abril de 2021

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