O Inocente / El Inocente

Nota: ★★½☆

Para quem gosta de série com muita violência, reviravolta, mulheres sendo duramente espancadas, sexo com altas doses de sujeira, tara, violência, reviravolta, tomadas de cadáveres rasgados, decompostos, violência, reviravolta, trama artificial que nem plástico sem qualquer coisa a ver com a vida real, situações que só existem em ficção criada por escritores especialmente imaginativos, violência e reviravolta, O Inocente é a mais absoluta perfeição.

E é muito bem realizada, em cada um dos aspectos técnicos – fotografia, direção de arte, montagem. Há achados engenhosos no roteiro, há cortes e junções com as cenas seguintes inteligentes, há diálogos bem construídos, há algumas ótimas interpretações. Verdade que há também interpretações exageradas demais, e uma especialmente ruim, de um ator que faz personagem importante – mas, no geral, é um bom elenco. Bom elenco e artesanato de primeiríssima qualidade têm sido constantes nos filmes e nas séries produzidos na Espanha já faz décadas.

O Inocente, série de oito episódios de cerca de 50, 55 minutos cada, lançada mundialmente em 30 de abril de 2021, é o resultado da união do aclamado veterano escritor americano Harlan Coben, o aclamado jovem diretor e roteirista espanhol Oriol Paulo e essa potência que é a Netflix.

O problema da série, na minha opinião (e também na opinião da Mary, que viu tudo com profundo desgosto, muito maior que o meu), é exatamente a base de tudo: a trama. A história que é contada.

Um acidente, uma fatalidade – e toda a vida muda

O ponto de partida é bem interessante – e tem, sim, tudo a ver com a vida real, é factível, verossímil: Uma briga besta, a partir de um desentendimento bobo na pista de dança de uma boate, e então vários dos rapazes saem e, lá fora, partem para pancadaria.

No meio da brigam mostrada com um trabalho de câmara não menos que excepcional, o rapaz que será o protagonista da história, o inocente do título – The Innocent, como o romance de Harlan Coben lançado em 2005, El Inocente como a minissérie espanhola – dá um empurrão em um outro jovem. Ele cai no chão, bate com a cabeça numa pedra, morre.

Em um segundo, um empurrão, um acidente, uma fatalidade – e Mateo Vidal  estragou sua vida.

(Mateo Vidal é interpretado por Mario Casas, cerca de 50 títulos na filmografia, inclusive O Fotógrafo de Mauthausen, 2018, e O Bar, 2017, vencedor de 16 prêmios, fora outras 16 indicações,)

Não foi por querer, não foi intencional, não foi premeditado – foi um acidente, uma fatalidade, mas ele pôs sua vida a perder. Pôs a perder a vida dos pais do jovem Daniel (Eudald Font), filho único.

Mateo é condenado a quatro anos por homicídio culposo, não intencional – a pena máxima para aquele crime. Um infinito para um rapaz aí de uns 20 e poucos anos, que fazia o curso de Direito. Pouco demais para o pai da vítima, Jaime (Gonzalo de Castro), um médico bem de vida, que fica obcecado com a perda do filho.

Quatro anos na prisão. Meu Deus do céu e também da Terra, que horror absoluto pensar nisso. Quatro anos de doutorado no crime, em vez de na Faculdade de Direito.

Não que a série se aprofunde nisso. A série até demonstra, sim, que presídio é lugar de se fazer doutorado no crime – mas não é essa a preocupação dela.

O que a série quer é mostrar muita violência, reviravolta, mulheres sendo duramente espancadas, sexo com altas doses de sujeira, tara, violência, reviravolta, tomadas de cadáveres rasgados, decompostos, violência, reviravolta…

A partir daqui, embora sem dar detalhes, revelo alguns pontos da bistória que aparecem a partir do segundo episódio. A rigor, a rigor, portanto, pode ser considerado spoiler. Se o eventual leitor tiver intenção de ver a série, é melhor parar de ler por aqui – ou pular até o outro intertítulo.

Atenção: a rigor, a rigor, aqui vão spoilers

Surge na trama a morte de uma freira que trabalha como professora em um internato católico – parece ser um suicídio, mas também parece não ser um suicídio. Revela-se que a freira María Luján (a bela colombiana Juana Acosta) era uma danada de uma trepadeira dadivosíssima. Revela-se depois que no passado ela foi dançarina de uma boate de pole dance e prostituição e baita sacanagem. A boate pertencia a um bandidaço chamado Aníbal, a crueldade pura (Miki Esparbé). Implantou um esquema de entrega de menores de idade virgens a orgias selvagens a que tinham acesso apenas biliardários, figuras importantíssimas da República. Aníbal filmava tudo, para depois chantagear os ditos biliardários.

Surge uma competentíssima investigadora de polícia, Lorena Ortiz (Alexandra Jiménez, na foto abaixo), que, quando era uma criança aí de uns dez anos de idade, praticamente testemunhou o suicídio do pai. Como tinha adoração pelo pai e detestava a mãe, foi parar num orfanato, virou vítima de bullying, mas conseguiu resistir e sobreviver dedicando-se de corpo e alma ao trabalho na polícia, sem se dar um minuto para uma vida pessoal.

Surge um alto oficial da UDE, a Unidade de Delitos Especiais, um troço que parece o FBI, com poder para mandar a polícia comum parar as investigações. O cara, Teo Aguilar, não é nada simpático, muito antes ao contrário – e é interpretado por um sujeito, Jose Coronado, que deveria ter procurado outro ofício na vida. Meu Deus, como trabalha mal! É aflitivo.

Olívia Costa (Aura Garrido, na foto acima), a doce, bela, fofa mulher com quem Mateo após os quatro anos de prisão se encontrou, namorou e casou, de repente diz que tem que fazer uma viagem a Berlim – e logo depois aparece em vídeo enviado ao celular de Mateo com todo jeito de que acabou de transar com um cara de maus bofes. O cara, veremos mais tarde, se chama Sáez (Xavi Sáez), e trabalhou para o bandidão Aníbal na boate da sacanagem.

E dá-lhe close-up de rosto desfigurado de cadáver. E dá-lhe sequência de mulher sendo brutalmente espancada. E dá-lhe sequência que pretende ser chocante de menores sendo encaminhadas para orgias com biliardários – pretende ser chocante, mas no máximo consegue ser ridícula, para não dizer pateticamente risível.

E, a cada momento, dá-lhe reviravolta.

Twist.

Let’a twist again.

A Netflix pretende filmar 14 livros de Coben

Numa entrevista à Variety, a grande, tradicional publicação americana sobre o show business, publicada em 27 de abril de 2021, dias, portanto, antes da estréia mundial da série, o escritor Harlan Coben disse que gostou demais trabalhar com o espanhol Oriol Paulo, entre outros motivos porque os dois têm em comum a adoração pelas reviravoltas.

“Eu me lembro ter visto The Invisible Guest antes mesmo de ter me encontrado com Oriol e pensado: ‘Eis um cara que é tão louco por reviravoltas quanto eu’. Entre nós não creio que haja uma reviravolta que nós tenhamos encontrado e de que não gostamos. Assim, esse casamento de nós dois significa que em cinco minutos você já teve uma dúzia de reviravoltas.”

The Invisible Guest é um filme de 2016, Um Contratempo/Contratiempo, escrito e dirigido por Oriol Paulo, com exatamente o mesmo Mario Casas que aqui faz Mateo Vidal como o protagonista. Não vi o filme, e definitivamente não tenho qualquer interesse em ver, mas a trama, segundo informa o IMDb, é a seguinte: “Um empresário bem-sucedido acusado de assassinato e um especialista em preparação de testemunhas têm menos de três horas para apresentar uma defesa perfeita”.

Digo que não tenho qualquer interesse em ver o filme de Oriol Paulo porque dele já vi esta série aqui e também o filme Os Olhos de Júlia, de 2010, argumento e roteiro dele e mais Guillen Morales. Quando vi Os Olhos de Júlia, escrevi: “É um slasher movie. Finge que tem uma história pra contar, a respeito de duas irmãs gêmeas que têm uma doença degenerativa que as levará à cegueira, mas na verdade, na verdade, quer mesmo é mostrar garganta cortada e o sangue esguichando. Ou seja: uma merda. Há uns dez mil filmes feitos no mesmo no ano, todos melhores do que este blefe aqui.”

Harlan Coben, nascido em Newark, Nova Jersey, em 1962, é daquele tipo de escritor prolífico: já publicou mais de 30 romances, todos de crime e mistério, que foram traduzidos para 45 idiomas e venderam mais de 75 milhões de exemplares. No Brasil, seus livros são editados pela Arqueiro – O Inocente, por exemplo, que é de 2005, foi lançado aqui em 2013.

Coben recebeu os três prêmios mais importantes da literatura policial dos Estados Unidos, o Anthony, o Shamus e o Edgar Allan Poe.

Com tanto sucesso, é claro que o cinema foi atrás das obras do autor. E quem primeiro adaptou obra dele foi o cinema francês: o ótimo ator e também diretor Guillaume Canet lançou em 2006 Ne le Dis à Personne, no Brasil Não Conte a Ninguém, baseado no livro Tell No One. O filme me deixou encantado.

Em seguida, e antes de O Inocente, foram feitas seis séries baseadas em livros dele – e o fascinante é que todas são européias. A Inglaterra produziu The Five (2016), Safe (2018) e The Stranger (2020). Na França foram feitas Não Há Segunda Chance (2015) e Just un Regard (2017). E na Polônia foi feito Silêncio na Floresta (2020).

A partir de Safe – que começa com o desaparecimento de uma adolescente em um condomínio fechado –, a Netflix fechou um contrato de cinco anos com Harlan Coben para produzir séries e filmes baseados em nada menos de 14 de seus livros. A britânica The Stranger e a polonesa Silêncio na Floresta já são resultado dessa parceria, assim como este O Inocente aqui.

Creio que O Inocente foi a última obra baseada em Harlan Coben que vi na vida. Chega. Já deu.

No fim, a moral da história é correta

Há uma belíssima fala em O Inocente, quando a série – ufa! – já se aproxima do fim, creio que no sétimo dois oito episódios. É dita pelo comissário Oliete (Josean Bengoetxea), o chefe da competente policial Lorena Ortiz (o papel, como já foi dito, de Alexandra Jiménez). O comissário foi forçado pela UDE, a Unidade de Delitos Especiais, a mandar Lorena parar com a investigação da morte da freira María Luján. A fala refere-se, portanto, especificamente à carreira policial – mas creio que vale para várias outras:

– “Progredir na carreira é como escalar uma montanha. Quanto mais alto você sobe, mais você perde o ar e a mochila pesa.”

O interessante, o fascinante mesmo é que, depois de tanta violência, tanta reviravolta, tanto prazer em oferecer sequências e eventos respulsivos, O Inocente entrega ao espectador uma moral da história boa, correta, positiva.

Ao contrário de tantos filmes que pregam, aberta ou mais camufladamente, a vingança, o olho por olho dente por dente, a Lei do Talião, O Inocente faz exatamente o oposto. Exatamente o oposto.

Faz um duro ataque a quem vive se nutrindo do ódio, da vontade de se vingar. Mostra que isso não leva a nada – a não ser a mais dor, tristeza, infelicidade ampla, geral e irrestrita.

E defende o que reacionários, os conservadores radicais mais odeiam: o direito a uma segunda chance.

É bem verdade que, mesmo depois de apresentar essa moral da história, a série ainda oferece uma última reviravolta. Mas o que fica, me parece, é a moral boa. A correta.

Anotação em maio de 2021

O Inocente/El Inocente

De Oriol Paulo, Espanha, 2021

Com Mario Casas (Mateo Vidal),

Aura Garrido (Olivia Costa, a mulher de Mateo),

Alexandra Jiménez (detetive da Polícia Nacional Lorena Ortiz),

Martina Gusman (Kimmy Dale, a maior amiga de Olívia), Juana Acosta (freira María Luján), Susi Sánchez (irmã Irene, a diretora do orfanato), Miki Esparbé (Aníbal Ledesma, o bandidão), Anna Alarcón (Zoe, a detetive particular), Jose Coronado (Teo Aguilar, o agente da UDE), Oriol Vila (Bruno Soto, o parceiro de Teo), Xavi Sáez (Sáez, o cafetão), Santi Pons (Gallardo, o investigador bandido), Josean Bengoetxea (comissário Oliete, o chefe de Lorena), Aysha Daraaui (Lavanda), Mima Riera (Mara, a cunhada de Mateo), Javier Beltrán (Oscar Crespo), Lluïsa Mallol (coronel Amanda Prieto, da UDE), Gonzalo de Castro (Jaime, o pai de Daniel, o rapaz morto), Ana Wagener (Sonia, a mãe de Daniel, o rapaz morto), Jordi Coll (Isma, o irmão de Mateo), Oriol Guinart (Carlos), Asia Ortega (Cassandra), Eudald Font (Daniel, a vítima), Pedro Hernández (Roberto Aranda, preso), Roteiro Oriol Paulo, Jordi Vallejo, Guillem Clua

Baseado no romance homônimo de Harlan Coben

Fotografia Bernat Bosch

Música Fernando Velázquez

Montagem Guillermo de la Cal, Pau Itarte, Judith Miralles

Casting Irene Roqué      

Na Netflix. Produção Sospecha Films, Think Studio, Netflix.

Cor, cerca de 465 min (7h45)

Disponível na Netflix em maio de 2021

**1/2

5 Comentários para “O Inocente / El Inocente”

  1. Boa tarde, Sérgio
    Queria dizer que gostei de seu texto sobre a série e que mesmo não sendo fã dos livros de Harlan Coben, você teve uma visão parecida com a minha ao assistir a série. Se não se importar, colocarei a resenha que fiz para que veja o que penso.
    Poderia ser melhor…
    Baseada em um livro de Harlan Coben, O Inocente traz boa parte da trama que os fãs leitores do escritor amam por serem enganados totalmente ao finalizar o livro.
    Muito bem realizada esteticamente e com boas atuações do elenco, destacando os protagonistas Olivia, Mateo e Lorena, a série poderia ter seguido o rumo do livro com a história e assim evitaria os riscos que correu exatamente porque para quem é leitor assíduo do Coben percebeu, a trama da série deixou algumas pontas soltas devido aos criadores inventarem de buscar novos personagens e alterar algumas subtramas que fazem todo o sentido no livro, mas que não funcionou na tela. Pode ser que a intenção deles fosse exatamente essa e deixar as pontas para uma possível segunda temporada (que não existe no livro).
    Fora isso é uma série interessante para quem curte mistérios e principalmente reviravoltas em larga escala.
    Aqui faço um adendo sobre seu receio em assistir ao filme Um Contratempo, eu indico ele para quem gosta de tramas diferentes sobre vingança, exatamente por evitar o mote sanguinário que anda presente em várias películas mundo afora.
    É um filme inteligente e sagaz na maneira que vai aprofundando na história e as atuações são excelentes.
    No mais, gostaria de me desculpar sobre um comentário que pode ter parecido “babaca” que fiz sobre seu texto do filme Hearts in Atlantis. Não quis em momento algum ter esse tipo de atitude, mas tentei defender as obras do Stephen King como um fã do escritor.
    Espero que consiga te dissuadir do receio e que veja seu texto sobre o filme logo mais.
    Um grande abraço!

  2. Caro Junior,
    Muito obrigado pelo seu excelente comentário.
    Fiquei curioso sobre que personagens foram criados para a série, que não estão no livro.
    Quanto ao seu comentário sobre o “Hearts in Atlantis”, não tenha a menor preocupação! Não achei, de forma alguma, que você foi agressivo, mal educado, grosseiro. De forma alguma! Muito ao contrário. Achei super educado – e fiz logo uma correção no texto!
    Um grande abraço, e, de novo, muito obrigado!
    Sérgio

  3. Fico feliz em saber disso porque admiro o modo como escreve seus textos, principalmente quando admira algo realmente bem feito.
    Sobre os personagens:
    Mateo na realidade é Matt no livro está em uma festa de fraternidade quando um amigo próximo arranja uma briga e dai acontece a fatalidade. Essa é uma mudança entre livro e série.
    Outra mais brusca é que a Lorena (Loren no livro) conhece o mateo porque estudaram juntos e a pessoa que implica com ele, no livro é um policial que também possui uma relação entre eles.
    A mãe da Loren é uma personagem interessante no livro, pois faz com que a história da detetive cresça e se desenvolva.
    O acréscimo que teve foi a superintendente que não existe no livro e os personagens que aparecem na questão do abuso no livro também não existem porque a história é diferente nessa parte.
    Entendo que a passagem do livro para a tela é algo complexo, mas Frank Darabont (utilizo ele sempre como exemplo de adaptações) mostra em seus filmes baseados em livros que dá para ser fiel à mensagem que o escritor quis passar ao leitor.
    Em resumo é isso, mas para ter uma visão mais aprofundada, sugiro que leia O Inocente (é um livro curto e bem acelerado em questão de ação).
    Agradeço pelo espaço disponibilizado para que eu consiga expôr esse tipo de informação.
    Um abraço

  4. Olá!

    Concordo com o Junior Rodrigues, não descarte totalmente o “Um Contratempo”, é um bom filme e não tem esse viés de violência explícita, é mais focado nas reviravoltas e no mistério. Se ele aparecer na sua tela como sugestão, considere dar uma chance a ele. E se assistir, depois nos conte o que achou, claro!

    Fique bem!

    Abs,
    edilson

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