Nada a Esconder / Le Jeu

Nota: ★★★☆

Le Jeu, o jogo, no Brasil Nada a Esconder, co-produção França-Bélgica de 2018, é um filme muito interessante. Uma daquelas boas surpresas: parece ser apenas uma comedinha, um divertissement, e se revela bem mais do que você esperava.

É uma comédia dramática, uma inteligente, sensível, fina análise do comportamento de um grupo de pessoas comuns, ”normais”, gente como a gente. Focaliza sete grandes, velhos amigos – três casais e um solteiro – que se reúnem para jantar, numa noite em que está acontecendo um eclipse total da Lua. Lá pelas tantas, um deles propõe uma espécie de jogo da verdade: todos os sete devem pôr na mesa seus celulares, e o que vier neles a partir daí – ligações, mensagens de texto, de voz, fotos – será necessariamente exposto para todos, visto e ouvido por todos.

É claro, é óbvio, não há dúvida nenhuma: dá merda. Mas não é pouca, não – é muita merda. É uma quantidade explosiva de merda. Nenhum relacionamento ficará de pé depois daquela exposição de segredos até então muito bem guardados.

São sete atores experientes, embora nenhum deles seja propriamente uma grande estrela internacional – e suas interpretações valorizam ainda mais o filme.

E tem mais: a trama muito bem engendrada acabará surpreendendo totalmente o espectador com uma virada, uma reviravolta fantástica quando faltam poucos minutos para o fim do filme.

Depois do fim do filme, naquela primeira rápida olhada em dados sobre ele na internet, fui surpreendido por informação impressionante, inacreditável – tão fascinante quanto a própria reviravolta final da trama.

E fiquei pensando sobre o sentido do que se escreve sobre filmes. Sobre o que eu escrevo sobre filmes aqui neste meu + de 50 Anos de Textos.

Uau!

A mesma história foi filmada em 18 países!

Se eu tivesse lido um pouquinho sobre este Nada a Esconder/Le Jeu antes de me sentar para ver o filme, muito provavelmente não o teria visto. Teria decidido não vê-lo.

E teria perdido a experiência de ver um bom filme, um filme bastante interessante.

Não sabia, quando decidimos ver isso que parecia ser uma comedinha francesa, que Le Jeu é a refilmagem de um filme italiano feito dois anos antes.

Por princípio, não gosto de refilmagens. Prefiro os originais. Assim, se soubesse, teria ido atrás do original italiano.

Mas este caso aqui é bastante diferente de todos, todos, todos os casos de refilmagem. O filme italiano original, Perfetti Sconosciuti, Perfeitos Desconhecidos, foi refilmado 18 vezes, em 18 países diferentes, do México à Coréia, da Turquia à China!

E em um pequeníssimo espaço de tempo – apenas quatro anos, já que Prefetti Sconosciutti é de 2016.

É um fenômeno!

Um fenômeno raríssimo. A rigor, a rigor, inédito! Nunca soube de outra obra que tenha tido essa quantidade de refilmagens.

Coisa fantástica, siô!

Bem. Vou tentar encontrar esse Perfeitos Desconhecideos/Perfetti Sconosciuti, dirigido por Paolo Genovese, baseado em história original criada por ele mesmo. Diferentemente desta versão francesa aqui, e de várias outras refilmagens, não está na Netflix, mas vou tentar encontrar.

Mas agora vamos a Le Jeu.

Toda a ação se passa em uma única noite

Fred Cavayé escreveu o roteiro e os diálogos e dirigiu.

Nasceu em Rennes, em 1967; trabalhou como fotógrafo de moda, e em 2000 escreveu e dirigiu seu primeiro curta-metragem. Seu primeiro longa, de 2008, Tudo por Amor/Pour Elle, com Vincent Lindon e Diane Kruger, é uma beleza. Não havia guardado o nome dele, mas fiquei absolutamente encantado quando vi Tudo por Ela.

“Uma maravilha de filme, um drama humano pesado, denso, que é também um thriller eletrizante, envolvente, e um belo estudo de personagens”, escrevi. “O diretor Fred Cavayé consegue criar um clima forte, que deixa o espectador em suspense o tempo todo, torcendo desesperadamente pelos protagonistas.”

Não vi nenhum dos três filmes que ele realizou entre Tudo por Amor e este Nada a Esconder/Le Jeu aqui. Este é, assim, o quinto longa escrito e dirigido por Fred Cavayé.

Toda a ação se passa numa única noite, e praticamente todas as sequências acontecem dentro do amplo, confortável apartamento do casal Marie e Vincent (os papéis de Bérénice Bejo e Stéphane De Groodt, ele na foto abaixo).

Marie é psiquiatra, Vincent é cirurgião plástico. Ele mesmo se define como um cirurgião plástico de mulheres simples – não ricas ou famosas. Os dois estão aí na faixa dos 40 e muitos, e têm uma filha adolescente de uns 17 anos, Margot (Fleur Fitoussi). Margot – veremos – não se dá nada, nada bem com a mãe, mas tem boa relação com o pai.

Charlotte e Marco (os papéis de Suzanne Clément e Roschdy Zem) são da mesma faixa de idade dos anfitriões, mas tiveram filhos mais tarde: o garoto e a garota deles devem estar aí com uns 10 a 12 anos. Nós os vemos rapidamente, numa rápida sequência em que Charlotte liga para casa para saber se as crianças já foram dormir. Não tinham ido dormir nada: estavam na sala, felizes da vida, pulando, brincando. A mãe de Marco, que mora com o casal, tinha ficado tomando conta deles.

Veremos que a mãe de Marco (Tassadit Mandi) é um problema na relação do casal; Charlotte não gosta que a sogra viva em sua casa, gostaria que ela fosse para uma casa de idosos.

Algum tempo depois que o casal chega à casa dos amigos, Charlotte vai ao banheiro e tira a calcinha, guarda-a na bolsa. É claro que o espectador fica intrigado com aquilo, imaginando o que poderia significar. O espectador verá também que Charlotte bebe mais depressa e mais vorazmente do que todos os demais.

Todos bebem vinho o tempo todo – como quase absolutamente todas as pessoas fazem durante um jantar, uma reunião com amigos. Mas Charlotte destoa um tanto.

Vincent, o dono da casa, é quem faz a comida – diversos pratos, servidos pouco a pouco. Aquela coisa de cozinheiro por diletantismo, por prazer – algo também absolutamente comum. Mas o espectador vai reparar que os amigos não são grandes admiradores dos pratos que ele prepara.

O segundo casal de convidados, Léa e Thomas, parece um pouquinho mais novo do que os anfitriões e Charlotte e Marco – especialmente Léa. (A atriz Doria Tillier, na foto abaixo, é de 1986, e estava portanto com 32 na época do lançamento do filme; o ator Vincent Elbaz é de 1971, e tinha 47,)

Ainda não têm filhos. Léa quer muito ser mãe – e Thomas faz questão de dizer que estão tentando com empenho e muita assiduidade. Os dois se mostram bem apaixonados, bem carinhosos um com o outro – diferentemente dos outros dois casais. Aquela coisa tida como a mais normal possível: casamentos mais antigos, menos demonstrações de afeto, menos grudação.

Os três casais aguardavam com curiosidade a chegada do amigo Ben (o papel de Grégory Gadebois), que tinha ficado de levar a nova namorada. Mas Ben chega sozinho: a namorada, explica, tinha tido problemas, não podia vir.

As revelações podem mudar os relacionamentos todos

No inicinho da narrativa, antes de os convidados chegarem, a televisão está ligada na sala do amplo apartamento de Marie e Vincent, e o noticiário é todo sobre o raro eclipse total da Lua que iria acontecer naquela noite – exatamente enquanto os amigos do casal estariam lá.

Na TV, o repórter está dizendo: – “Atenção: não sejam supersticiosos. Há lendas que dizem que, durante os eclipses lunares, coisas incríveis podem ocorrer. No momento exato em que toda a Lua é encoberta, diz-se que o tempo pára e seus pecados mais profundos serão perdoados. Sua alma é condenada a um limbo pelo resto da eternidade. Mas tudo isso são apenas lendas, é claro.”

Enquanto ouvimos isso, vamos vendo Vincent, na cozinha, examinando fotos de seios de mulheres – seios vastos, à la coelhinhas da Playboy de décadas atrás. E é impossível que o espectador deixe de reparar que Marie, que caminha pela casa em direção à cozinha, é uma bela mulher, mas seus seios são pequenos.

A questão de seios será tema das conversas, durante um momento, mais tarde, depois que todos os convidados tiverem chegado. Mas o fato de Vincent estar examinando fotos de seios fartos não tem necessariamente a ver com tesão, fixação – afinal, o cara é um cirurgião plástico, trabalha com aquilo.

Dificilmente, no entanto, o espectador prestará atenção, nessa abertura do filme, à conversa do repórter da TV sobre as lendas que cercam os eclipses da Lua. Não parece ter qualquer importância. Mas tem. Bem no final do filme, quando houver a surpreendente reviravolta, o espectador poderá ligar uma coisa a outra.

Não teria sentido algum, é claro, relatar aqui qual é a reviravolta inesperada que acontece quando faltam pouquíssimos minutos para o fim do filme. Seria um spoiler absoluto, totalmente inaceitável.

Assim como não tem sentido relatar qualquer um dos diversos segredos que serão revelados para todos aqueles sete amigos, quando resolvem, por sugestão de Marie, a anfitriã, fazer aquele tal jogo da verdade – colocar na roda, para todos, o que surgir em cada um dos sete celulares.

Seria spoiler.

Basta insistir, dizer de novo que serão revelados segredos profundos, que não poderiam ser revelados. E que os relacionamentos todos daquele grupo de amigos serão duramente abalados pelas revelações. (Na foto abaixo, Bérénice Bejo, que faz Marie, e Suzanne Clément, que faz Charlotte.)

As pessoas gostam de ler sobre o filme que acabaram de ver

Gostaria de aproveitar para falar um pouco dessa coisa de spoiler, de ler sobre os filmes antes de vê-los.

Eu, pessoalmente, prefiro ver os filmes sem ter muita informação sobre eles. Quanto menos informação se tem sobre a história, a trama, maior a surpresa ao ver a obra, maior o prazer. É o que eu penso. O ideal para mim, e também para Mary, é saber apenas quem é o diretor, quem são os atores, qual é o gênero. Com base nisso já dá para definir se vale a pena ver o filme ou não.

Mas é claro que é muito difícil a gente não ficar sabendo alguma coisa da trama. Os títulos das matérias nos jornais, as linhas finas sob os títulos, as legendas já dão informações sobre do que trata a história. Mesmo que a gente não leia as matérias, a gente passa os olhos pelos jornais, pelos sites. O IMDb traz uma sinopse básica de cada título – é impossível não passar os olhos por ela.

Bem, mas se eu acho isso tudo, por que raios então escrevo trocentas linhas sobre cada filme que vejo? Não vai aí uma gigantesca incoerência?

Ahnnn… Vai. Acho que há uma certa incoerência, sim.

Mas há dois pontos, aí. O primeiro é egoísta: é que, diacho, eu gosto de escrever sobre filmes. É uma coisa que me dá enorme prazer. O segundo é um pouco melhor: acho absolutamente correto que haja textos sobre filmes para que as pessoas leiam depois de ver os filmes!

É a coisa mais natural do mundo você querer ler sobre o filme que acabou de ver. Ler a opinião de outras pessoas, comparar com a sua. Procurar informações sobre a produção, sobre elementos da trama. Eu faço isso, todo mundo que eu conheço faz isso. As pessoas fazem buscas no Google – e muitas acabam caindo aqui no site.

Então, apesar de haver uma certa incoerência, há também lógica, sentido, razão, em escrever sobre os filmes…

Quem quiser ler antes de ver… Bem, aí é uma opção da pessoa, uai… (Na foto abaixo, Doria Tillier, que faz Léa, e Vincent Elbaz, que interpreta Thomas.)

Segredos todo mundo tem. Assim como celular

Assim que terminamos de ver este Nada a Esconder/Le Jeu, e comecei a fazer uma pesquisinha sobre ele, constatei que era a refilmagem de uma obra italiana. E logo em seguida Mary achou uma matéria num site que eu não conhecia, PlanetaFlix, que parte da refilmagem mexicana (Perfeitos Desconhecidos, 2018, direção de Manolo Caro) para falar que o original italiano virou um fenômeno:

“Trata-se de um fenômeno mundial. No mesmo ano em que foi lançado na Itália, rendendo altas bilheterias, Perfetti Sconosciuti (que pode ser alugado no YouTube Filmes) ganhou uma versão na Grécia, batizada de Teleioi Xenoi. Em 2017 veio a versão espanhola e em 2018 a comédia foi refilmada na Turquia (Cebimdeki Yabanci), na França (Le Jeu, aqui Nada a Esconder), na Coréia do Sul (Wanbyeokhan Tain), na China (Lai Dian Kuang Xiang) e no México.” Em 2019, continua o texto, chegou à Polônia.

Segredos todo mundo tem – seja chinês, coreano, italiano, mexicano. Assim como telefone celular. O italiano Paolo Genevose de fato criou uma história atraente – e absolutamente universal.

O diretor Fred Cavayé e os sete atores fizeram uma bela encenação. Le Jeu é um bom filme.

Anotação em abril de 2021

Nada a Esconder/Le Jeu

De Fred Cavayé, França- Bélgica, 2018

Com Bérénice Bejo (Marie) e Stéphane De Groodt (Vincent),

Suzanne Clément (Charlotte) e Roschdy Zem (Marco),

Doria Tillier (Léa) e Vincent Elbaz (Thomas),

Grégory Gadebois (Ben)

e Fleur Fitoussi (Margot, a filha de Marie e Vincent), Tassadit Mandi (a mãe de Marco), Méline Ouamar e Sabri Ouamar (filhos de Charlotte e Marco)

Roteiro, diálogos, adaptação Fred Cavayé

Baseado no filme “Perfeitos Desconhecidos/Perfetti Sconosciuti”, de Paolo Genovese, argumento de Paolo Genovese, roteiro de Filippo Bologna, Paolo Costella, Paolo Genovese, Paola Mammini & Rolando Ravello   

Fotografia Denis Rouden

Música CHristophe Julien

Montagem Mickael Dummontier

Casting Mivchael Laguens

Direção de arte Phillippe Chiffre

Produção Camilla Nesbitt, Pietro Valsecchi, Stéphane Célérier, Valérie Garcia    

Cor, 90 min (1h30)

Disponível na Netflix em abril de 2021.

***

Título na Inglaterra e nos EUA: Nothing to Hide.

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