Dorothy Dandridge – O Brilho de uma Estrela / Introducing Dorothy Dandrige

Nota: ★★★☆

Em 1999, quando se completavam 34 anos da morte extremamente prematura de Dorothy Dandridge, a diretora Martha Coolidge realizou para a HBO uma cinebiografia da bela atriz e cantora, Introducing Dorothy Dandrige, que no Brasil ganhou o título de Dorothy Dandridge – O Brilho de uma Estrela.

Não tinha visto o filme na época do lançamento; vi só agora, 21 anos depois, porque o filme voltou ao cartaz em um dos canais da HBO no Brasil, o HBO Signature.

Quem quiser ser muito cricri, muito chato – como aquelas pessoas de narizinho empinado que dizem só gostar de “cinema de arte” e detestar “filmes americanos” – poderia dizer que é só mais um de tantos e tantos filmes que contam as histórias tristíssimas, trágicas, de grandes e/ou importantes artistas que viveram vidas tristíssimas, trágicas.

Há desses filmes às pencas. Me lembrei de um que vi quando era adolescente, a cinebiografia de Jean Harlow, em que a platinum blonde dos anos 30 era interpretada por Carroll Baker, Harlow: A Vênus Platinada (1965).

Diana Ross interpretou Billie Holiday em O Ocaso de uma Estrela (1972), Forest Whitaker interpretou Charlie Parker em Bird (1988). Mais recentemente, em 2017 Annette Benning interpretou a maravilhosa Gloria Grahame em seus últimos anos de vida, em Estrelas de Cinema Nunca Morrem. Isso para só citar alguns poucos.

Problemas na família, famílias infelizes, disfuncionais. Traumas. Problemas com sexo. Grandes desilusões amorosas. Depois de um período de grande fama, a queda, o esquecimento. O fundo do poço com álcool, drogas, pílulas.

Todos os filmes citados têm vários desses elementos.

A vida de Dorothy Dandrige (1922-1965) tem todos eles. Misturados. Grandes, gigantescos, poderosos, opressivos. Mais as marcas terríveis, horrorosas, nojentas, do racismo.

É uma história barra pesada, tristíssima.

Mas a característica mais fascinante deste bom filme talvez não esteja exatamente na trajetória de Dorothy Dandridge, e sim nos laços que ligam a estrela biografada à atriz que a interpreta.

Consta que outras atrizes foram pensadas para o papel – Whitney Houston, Janet Jackson, Jasmine Guy.

Acabou ficando para Halle Berry. Ainda bem.

É fantástico.

Halle Berry nasceu (em 1966) no mesmo hospital de Cleveland, Ohio, em que Dorothy Dandrige havia nascido, 44 anos antes.

Dorothy Dandrige (na foto logo abaixo) foi a primeira negra a ser indicada ao Oscar de melhor atriz – por Carmen Jones, de 1954. Estava com 32 anos.

Halle Berry (na foto mais abaixo, no filme) foi a primeira negra a vencer o Oscar de melhor atriz – por A Última Ceia/Monster’s Ball, de 2001. Estava com 35 anos.

Do Cotton Club para a cerimônia do Oscar

O roteiro do filme é assinado por Shonda Rhimes e Scott Abbott – e é preciso registrar que Shonda Rhimes nascida em 1970 em Chicago, é uma roteirista e produtora respeitável; tem mais de 20 títulos no currículo como roteirista e outros tantos como produtora. É a criadora da série Grey’s Anatomy, 16 temporadas, tremendo sucesso na TV americana e vista em um monte de países, o Brasil inclusive, claro.

Shonda Rhimes e Scott Abbott se basearam no livro Dorothy Dandrige, de Earl Mills – e Earl Mills é um personagem importantíssimo da história da atriz e cantora: foi o agente dela durante praticamente toda a sua carreira. Ele é interpretado por Brent Spiner, um ator que eu não conhecia.

O filme abre no momento em que Dorothy Dandrige-Halle Berry está chegando ao tapete vermelho na calçada do teatro de Nova York em que se realizava a cerimônia de entrega dos Oscars, na noite de 30 de março de 1955. (Naquele ano, houve cerimônia em Los Angeles, com Bob Hope como mestre-de-cerimônias, e em Nova York, com Thelma Ritter como M.C.)

A irmã de Dorothy, Vivian (Cynda Williams), vai à frente dela, enquanto a atriz caminha bem devagar no seu momento de maior glória, os flashes dos fotógrafos espocando, as pessoas falando seu nome. Vivian a chama – “Venha, venha!” –, como se a irmã estivesse paralisada de medo e não conseguisse se mover.

E, numa sacada esperta dos roteiristas, voltamos anos e anos atrás, e Dorothy-Halle Berry está sendo chamada para o palco, e fica parada por alguns segundos, talvez com um pouco de medo, stage fright, talvez apenas emocionada. Em seguida há a apresentação, no palco do lendário Cotton Club, do Harlem, o bairro negro de Nova York, das Dandridge Sisters – três belas jovens.

Ao sair do palco, as três moças se encontram por um breve instante com os artistas que vão se apresentar em seguida, os Irmãos Nicholas – muitíssimo mais famosos do que as Irmãs Dandridge. O mais velho dos Nicholas, o líder do grupo, Harold, faz elogios às irmãs, mas vê-se que ele está mirando a mais bela das três, Dorothy. As irmãs Dorothy e Vivian explicam que uma das três na verdade não é irmã – o nome Dandridge Sisters é levemente falso.

Harold Nicholas é interpretado por Obba Babatundé, ator, cantor, dançarino, diretor, roteirista e produtor, de quem o IMDb diz que “a amplitude do trabalho é conhecida no mundo inteiro por audiências de todas as idades, e seu rosto é um dos mais conhecidos da indústria do entretenimento”. Seu irmão, Fayard, é o papel de Darrian C. Ford; Fayard é pouco importante na narrativa, diferentemente de sua mulher, Geri (interpretada pela bela Tamara Taylor), que se torna a maior amiga de Dorothy.

Nos primeiros 20, 25 minutos do filme, vemos que Dorothy é paquerada por Harold – e logo pedida em casamento por ele.

A partir daí, haverá muito drama, muita tragédia.

Dois homens ajudaram Dorothy a virar estrela

Usei aí acima a data da entrega do Oscar de 1955, para os filmes lançados ao longo de 1954, mas a data não é mencionada no filme. (Tirei a informação do belo livro Tudo sobre o Oscar, de Fernando Albagli, Zit Editora.)

Diferentemente de tantos filmes que retratam histórias reais, este Introducing Dorothy Dandrige não mostra letreiros com a data e o local das sequências principais. Assim, não dá para saber quando exatamente se deu a sequência em que Earl Mills fica conhecendo a jovem cantora e atriz que ele iria acompanhar pelo resto da vida.

Um amigo dele, um músico, o convidara para ir à sua casa ouvir uma jovem cantora sensacional. Earl vai até a casa do músico, que está dando uma festa. A casa está cheia de gente. O músico, sempre ao piano, diz que a moça está aí na casa, em algum lugar, que ele logo iria encontrá-la. Embaixo de uma mesa, perto dele, Earl vê três pares de pernas de moças. O agente se impacienta com aquilo, e se encaminha para a porta – quando, é claro, uma bela voz começa a cantar.

Earl pára na porta, volta para perto do piano. Quando a música termina, ele se abaixa para ver as tais moças. Elas se apresentam: – “Marilyn Monroe”, diz uma. – “Ava Gardner”, diz outra.

As tomadas são muito rápidas, mal dá para o espectador ver o rosto delas; Kerri Randles faz Marilyn, Jon Mack faz Ava.

A terceira das moças, claro, é Dorothy. Earl Mills se dirige a ela; sabe, instintivamente, que era ela que estava cantando.

Earl Mills será o responsável por tornar Dorothy Dandrige uma grande estrela. Earl Mills e um outro sujeito que aparece mais adiante – o diretor e produtor Otto Preminger (1905-1986), um dos mais importantes realizadores da História de Hollywood, autor de um monte de grandes filmes, famoso e temido nos anos de ouro como um sujeito que tratava os atores e todo o pessoal das equipes como um general prussiano dava ordens aos seus soldados rasos.

A jovem Dorothy chamou Preminger de buldogue

Os filmes baseados em histórias reais têm todo o direito de cometer licenças poéticas, enfeitar um pouco o bolo com uma cerejinha. Uma licença poética, uma cerejinha aqui ou ali não prejudicam nada, muitos antes ao contrário.

Dá para ter 99% de certeza de que não houve uma ocasião em que se sentaram juntas, lado a lado, embaixo de uma mesa, em festa em Los Angeles, as então iniciantes Marilyn Monroe, Ava Gardner e Dorothy Dandridge. Pelo menos teoricamente poderia ter acontecido? Difícil. Marilyn estreou em 1947, e em 1950 já fazia papéis pequenos mas importantes. Dorothy começou em pontas e em curtas cedo, em 1935, mas só por volta de 1940 seu nome passou a aparecer nos créditos, ainda em papéis pequenos. Mas Ava, que estreou em 1941, ali por 1945 já tinha papéis importantes

Mas que mal faz aquela bela, interessante sequência, aquela licença poética?

Voltará a haver menção a Marilyn Monroe, já perto do fim das 2 horas de filme, quando o rádio noticia a morte da fantástica estrela, a maior de todas, vítima de uma overdose de barbitúricos, e Dorothy, ela mesma, estava se enchendo de pílulas – e de álcool. Era, então, agosto de 1962.

A carreira de Dorothy havia atingido o auge, o cume, com Carmen Jones, o filme de 1954 em que Otto Preminger encenou a história da ópera Carmen, de Bizet, com um elenco todo composto por negros. Em 1962, quando Marilyn morreu, Dorothy estava roçando o fundo do poço.

O filme que começa com Dorothy chegando à cerimônia do Oscar de 1955, em que ela concorria ao prêmio de melhor atriz por Carmen Jones, dá grande importância, é claro, ao encontro da jovem atriz com o buldogue nascido no Império Áustro-Húngaro.

Competente, bom profissional, insistente, o agente Earl Mills tanto faz que consegue que Otto Preminger o receba com Dorothy Dandridge, na época em que ele estava escolhendo o elenco de seu filme seguinte, Carmen Jones. De novo, pode ter havido aqui um pouco de licença poética, de cereja no bolo, mas o fato é que, quando Preminger disse que toparia submeter Dorothy a um teste para o papel secundário de Cindy Lou, e não para o de Carmen, ela foi embora batendo a sola dos sapatos no chão depois de chamar o general prussiano de buldogue.

Isso é fato. Está registrado na História de Hollywood.

Se não fosse por Halle Berry, o filme não seria o que é

Recentemente, Otto Preminger foi personagem – de alguma importância, embora apareça apenas em algumas sequências – em outro filme sobre os bastidores de Hollywood, outra cinebiografia, Trumbo (2015), de Jay Roach. Ali ele foi interpretado por um ator pouco famoso, creio, Christian Berkel – que falava com um sotaque carregado de quem tem o alemão como língua mãe.

Aqui, Otto Preminger não fala com um sotaque tão forte, tão pesado. Sim, claro, tem um sotaque, mas é bem mais leve. E é interpretado por um ator que, diferentemente de Christian Berkel, tem o alemão como língua mãe – e é grande, gigantesco. O austríaco Klaus Maria Brandauer – o ator do Mephisto do húngaro István Szabó, de 1981, o barão Bror de Entre Dois Amores/Out of Africa de Sydney Pollack, de 1985 – dá um absoluto show no papel de Preminger.

Assim como está brilhante essa moça de beleza fora do comum, essa garota de Cleveland filha de um negro e uma branca descendente de ingleses e alemães, que foi miss aos 17 anos. Halle Berry está sensacional no papel de sua conterrânea Dorothy Dandrige – uma mulher que tinha medo de sexo e no entanto transmitia uma sensualidade explosiva, à flor da pele. Ao contrário da mulher de vida trágica que representa, Halle não é cantora – as canções que seu personagem interpreta no filme são dubladas pela cantora profissional Wendi Williams. Se não usa a voz, meu Deus do céu e também da Terra, como sabe usar o corpo! Ela está de matar, simplesmente de matar, nas sequências em que Dorothy se apresenta no palco de nightclubs cantando preciosidades – “I got rhythm”, dos irmãos Gerswhin, “You do something to me”, de Cole Porter.

Sensualíssima no palco, gelada na cama, possessa, à beira de uma explosão de raiva diante do racismo nojento, combalida, destruída pelos azares da vida e pelo vício – ao longo de todo o filme Halle Berry excede.

É absolutamente fascinante saber que, se não fosse por Halle Berry, este filme não seria o que é.

O orçamento do filme estourou. Os produtores queriam cortar a sequência em que a narrativa volta ao tapete vermelho da cerimônia do Oscar de 1955, onde o filme começa. Ora, diacho, a volta ao ponto de partida, o dar o lanço na narrativa-laço era absolutamente fundamental. E então Halle Berry entrou com dinheiro dela mesma para que a sequência fosse filmada.

Mais tarde a HBO reembolsou a atriz, registra o IMDb.

Dois anos após o lançamento deste Introducing Dorothy Dandrige, em 2001, como já foi dito, Halle Berry foi a primeira mulher negra a ganhar o Oscar de melhor atriz.

Nos anos 50, conquistar a indicação já havia sido uma grande vitória de Dorothy Dandridge – e a verdade é que a disputa naquele ano estava duríssima. Concorriam com ela Judy Garland por Nasce uma Estrela; Audrey Hepburn por Sabrina; Jane Wyman por Sublime Obsessão e Grace Kelly por Amar é Sofrer. Grace Kelly levou o Oscar.

Um sensacional diálogo com o chefão da Fox

O filme mostra que a Dorothy cometeu um imenso erro ao recusar, após o final das filmagens de Carmen Jones, o papel de Tuptim em um filme que iria ser feito em seguida pela 20th Century Fox, O Rei e Eu.

Lembro que o filme se baseia na biografia de Dorothy escrita por seu agente e amigo de muitos anos. É a versão dele, portanto, que o filme apresenta. Se fosse dado a apostar, eu seria capaz de apostar todas as minhas fichas que essa é a versão correta da história.

O filme mostra uma reunião de Dorothy e Earl Mills com o chefão da Fox, Darryl F. Zanuck (1902-1979), na imensa sala dele. A sequência da reunião é dividida – uma parte é mostrada quando estamos com uns 60 minutos de filme; a outra, mais adiante, quando estamos com uns 80.

O poderosíssimo Zanuck está absolutamente suave, amigável, sedutor. Está fazendo uma proposta de contrato:

– “Quando eu vejo uma artista com esse talento extraordinário, quero ter certeza de que a 20th Century Fox vai contratar essa pessoa. Eu vi os dailies de Carmen Jones. (Dailies são os filmes brutos, o que foi filmado naquele dia, antes de qualquer tratamento.) Você pega fogo – e eu senti o calor.”

A sequência é extraordinária, uma maravilha.

Nesse momento, no exato momento em que fala essa última frase, “Você pega fogo – e eu senti o calor”, Zanuck (interpretado por William Atherton), está acendendo um charutão, aquela coisa que parece um pauzão ereto, sobre a qual Freud teria dito que às vezes um charuto é só um charuto, e não uma referência a um pauzão.

Dorothy-Halle Berry responde: – “Espero que você não pense que as moças de cor tiram suas calcinhas toda vez que um homem branco faz um elogio.”

Earl Mills interfere, tenta baixar a bola, mas Zanuck o corta e responde, com um tom de voz calmo:

– “Esse é o problema de vocês. Os direitos das pessoas de cor. Vocês estão sempre preocupados com o tratamento que vocês esperam, e não com o tratamento que vocês recebem.”

Uau! Uau! Uau! Uau! Que absoluta maravilha de frase!

Coloured people. Coloured girls. Essas são as palavras que os personagens usam. Ali, 1954, usava-se coloured. Em vários outros diálogos usa-se “black”.

As palavras para definir as pessoas de pele escura foram-se tornando cada vez mais importantes, daquele tempo para cá. Há que tomar muito cuidado, porque o uso de uma palavra errada pode levar quem a pronunciou a ser chamado de racista fascista filho da puta. Nos Estados Unidos, a palavra “nigger” virou a pior coisa do mundo. Black is beautiful, mas dizer negro é criminoso. No Brasil o movimento é negro, e não preto.

As coisas não são simples, depois que o movimento do politicamente correto resolveu definir que algumas palavras são boas e outras são fascistas.

Exemplos do mais tenebroso, nojento racismo

O filme exibe em diversos momentos o quão nojento, horroroso, pecaminoso, vergonhoso é o racismo.

Quando, após assinar contrato com o agente Earl Mills, Dorothy vai cantar em Miami, vemos que ela não poderá usar os banheiros – os banheiros são “white only”. E o único banheiro que ela poderia usar para urinar seria uma garrafinha.

Algo tão absurdo, tão degradante, tão humilhante, tão absolutamente não aceitável acontece quando ela, já com bastante fama, tendo já filmado Carmen Jones, mas antes do lançamento do filme, vai se apresentar em um dos maiores hotéis de Las Vegas.

O gerente do hotel conta que ela terá a melhor suíte do hotel – mas não poderá entrar no cassino, nem nos restaurantes, nem na piscina.

Esse detalhe – a proibição de usar a piscina – aconteceu de fato.

No filme, Dorothy põe o pé na piscina, só o pezinho – e, numa sequência seguinte, vemos que a piscina havia sido esvaziada e estava sendo limpa por um monte de operários, como se o toque de um pé de uma jovem negra transmitisse as mais terríveis doenças.

Na realidade, aconteceu que, numa das vezes em que Dorothy Dandridge foi se apresentar em um grande hotel de Las Vegas, a gerência mandou previamente esvaziar a piscina, para evitar que a estrela de pele escura conspurcasse a água.

Recusou o papel de escrava – e a carreira despencou

Voltando um pouco atrás, para tentar deixar as coisas mais claras.

Darryl F. Zanuck – segundo mostra o filme – ofereceu a Dorothy um contrato de mais três filmes na Fox, após Carmen Jones. E explicou para ela que era uma estratégia: depois de mostrá-la em papéis secundários em três filmes que seguramente teriam imenso sucesso de bilheteria, aí então ele a colocaria como protagonista.

Primeiro Dorothy reage com o fígado, com aquele “Espero que você não pense que as moças de cor tiram suas calcinhas toda vez que um homem branco faz um elogio.”

Pouco depois diz que aceita a oferta, topa fazer, em O Rei e Eu, o papel de Tuptim. Sela o acordo com um aperto de mão com Zanuck.

Mais tarde, volta atrás. Por influência de Otto Preminger, e contra os argumentos de Earl Mills, decide que não fará o papel de Tuptim, uma escrava. Não quer mais fazer papéis de escravas.

Earl Mills diz que desistir de um papel com o qual já havia concordado iria deixá-la muito mal não apenas com a Fox, mas com todos os estúdios de Hollywood.

Dorothy insiste: não, não vai fazer o papel de Tuptim. Não aceita mais fazer papel de escrava.

Fiquei curioso: não me lembrava quem, afinal, fez o papel de Tuptim em O Rei e Eu, aquela absoluta maravilha. Foi Rita Moreno, a bela porto-riquenha nascida em 1931.

O Rei e Eu, como perfeitamente previa Darryl F. Zanuck, foi um extraordinário sucesso de público. Fortaleceu a carreira de Rita Moreno. Dali a alguns poucos anos, ela ganharia o Oscar de melhor atriz coadjuvante por West Side Story (1961).

A volta atrás, a recusa de Dorothy de fazer o papel de Tuptim depois de ter dito que faria, é mostrada no filme, repito, como o ponto de virada na vida da atriz. Juntamente com o fim da relação com Otto Preminger, que aconteceu, segundo o filme, na mesma época.

A partir daí, a carreira da atriz se afundou, e ela se afundou no álcool e nas drogas.

Ao ver o filme agora, ficou muito claro, muito nítido para mim que os realizadores quiseram realçar algumas verdades básicas.

O racismo é uma chaga horrorosa, uma doença, uma peste que deve ser combatida. Isso é óbvio.

Mas a exacerbação das questões de diferenças raciais é prejudicial, venha de onde vier – dos que se julgam superiores, ou dos que foram humilhados no passado.

Ao longo das últimas muitas décadas, já diminuiu demais a força, o poder do racismo. É sempre necessário lembrar que até meados dos anos 1960 o apartheid ainda era absolutamente legal nos Estados Unidos. Só com lei federal de 1965, do governo Lyndon B. Johnson, foram desautorizadas e banidas todas as leis segregacionistas ainda vigentes nos Estados sulistas.

Sim, o racismo continua aí, é claro.

Mas não é a exacerbação, o xiitismo, a radicalização que vai nos levar a um bom porto.

E me parece que é isso que este bom filme quer dizer, ao contar a trágica história dessa artista admirável.

Anotação em julho de 2020

Dorothy Dandridge – O Brilho de uma Estrela/Introducing Dorothy Dandrige

De Martha Coolidge, EUA, 1999

Com Halle Berry (Dorothy Dandridge)

e Brent Spiner (Earl Mills, o agente e amigo de Dorothy), Klaus Maria Brandauer (Otto Preminger), Obba Babatundé (Harold Nicholas, o primeiro marido), Loretta Devine (Ruby Dandridge, a mãe), Cynda Williams (Vivian Dandridge, a irmã), LaTanya Richardson Jackson (a “tia”), Tamara Taylor (Geri Nicholas, a concunhada e amiga), William Atherton (Darryl Zanuck), D.B. Sweeney (Jack Denison), Don Gettinger (funcionário do hotel), Nicholas Hormann (mestre de cerimônias do Oscar), Sharon Brown (Etta Jones), Darrian C. Ford (Fayard Nicholas, o cunhado, o irmão de Harold), André Carthen (Harry Belafonte), Benjamin Brown (Sidney Poitier), Kerri Randles (Marilyn Monroe), Jon Mack (Ava Gardner)

Roteiro Shonda Rhimes e Scott Abbott

Baseado no livro Dorothy Dandridge, de Earl Mills

Fotografia Robbie Greenberg

Música Elmer Bernstein

Montagem Alan Heim   

Casting Aleta Chappelle

Produção HBO Films, Esparza/Katz Productions, Berry/Cirrincione.

Cor, 120 min (2h)

Disponível no Now em julho de 2020

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