Seberg Contra Todos / Seberg

Nota: ★★☆☆

(Disponível na Netflix em 8/2022.)

A melhor coisa deste Seberg, no Brasil Todos Contra Seberg, co-produção Inglaterra-EUA de 2019, é o fato de ele ter sido feito, de ele existir. Porque é importante que seja conhecida a história real que ele conta – a terrível, insana, criminosa perseguição exercida pelo FBI, a polícia federal americana, contra a atriz Jean Seberg, no final dos anos 60 e início dos 70.

A perseguição do FBI, a manipulação por seus agentes de colunistas de jornais e revistas de fofocas, com revelações de algumas verdades e muitas mentiras sobre a vida de Jean Seberg levaram a atriz a não mais filmar em Hollywood, e contribuíram decisivamente para deteriorar sua saúde mental. Como informam aqueles letreiros com que os filmes baseados em histórias reais resumem eventos ocorridos após os narrados ali, Jean Seberg morreria em 1979, em Paris, aos 40 anos de idade, em consequência de “provável suicídio”.

O filme retrata os acontecimentos na vida da jovem e belíssima atriz entre maio de 1968 e janeiro de 1971. As datas são mostradas aos espectadores em letreiros que aparecem no início de várias das sequências. (Acho esse tipo de coisa extremamente positiva, de grande utilidade.) De maio de 1968 a janeiro de 1971 – exatamente o período em que atraiu as atenções do Federal Bureau of Investigation, por seu apoio aberto, público, inclusive com vultosas colaborações em dinheiro, ao grupo Panteras Negras.

Infelizmente, Seberg não é, na minha opinião, um belo filme.

Tenho, assim como seguramente a imensa maioria das pessoas que gostam de cinema da minha geração, grande admiração por Jean Seberg. E tenho simpatia por Kristen Stewart, essa boa atriz que foi escolhida para interpretar a colega de ofício que morreu 11 anos antes de seu nascimento. Vi esse Seberg com o maior interesse, e sem qualquer tipo de pé atrás, de idéia preconcebida.

Quando o filme terminou, não conseguia entender bem o que estava sentindo, o que tinha achado. A única coisa que consegui expressar para a Mary foi que tinha achado o filme frio, distante – ele não me envolveu, não me emocionou.

À medida em que o tempo foi passando, no entanto, fui vendo defeitos claros no filme. Alguns deles – não há por que não admitir – me foram apontados pela crítica ao filme no site RogerEbert.com, um belo texto assinado por Monica Castillo, que dá a Seberg apenas 1.5 estrela em um total de 4.

Aos 17 anos, escolhida entre 18 mil

Antes de prosseguir, um pouco que seja sobre Jean Seberg.

Nascida na pequenina cidade de Marshalltown, menos de 30 mil habitantes, no interiorzão de Iowa, em 1938, de pai descendente de suecos e mãe descendente de ingleses e alemães, Jean Dorothy Seberg tinha 17 aninhos quando participou de um concurso, junto com outras 18 mil garotas (!!!), para a escolha de quem iria interpretar Joana D’Arc em um filme a ser dirigido pelo famoso, respeitado e temido Otto Preminger, baseado na peça de teatro escrita por George Bernard Shaw.

Ela jamais havia aparecido em um filme antes, nem sequer como extra. E, entre 18 mil jovens, foi escolhida para interpretar a maior heroína da História da França, uma santa da Igreja Católica, em meio a grandes atores – John Gielgud, Anton Walbrook, Richard Todd, Richard Widmark – e sob a direção de um realizador com a fama de tratar as pessoas como se fosse um general do exército prussiano.

Durante as filmagens da sequência climática de Joana D’Arc sendo queimada na fogueira, ocorreu um trágico acidente. A coisa se descontrolou, e a garota Jean Seberg sofreu queimaduras.

Seberg, o filme, abre com um close-up do rosto de Kristen Stewart no papel de Jean Seberg no meio da fogueira do set do filme Santa Joana. Mais tarde, numa sequência em que Jean e o ativista negro Hakim Jamal (o papel de Anthony Mackie) estão começando a transar, ele se assusta ao ver os sinais de queimaduras na barriga dela.

É de se ficar pensando: seria preciso que aquela mocinha de 17 anos do interiorzão perdido da América mais profunda tivesse um caráter, uma personalidade muito forte, muito bem formada, muito saudável para aguentar o impacto de virar estrela de cinema daquele jeito. O que se poderia dizer então de uma jovem mulher na faixa dos 30 anos que passa a ter suas conversas gravadas pelo FBI, e tem suas intimidades – algumas verdadeiras, outras falsas – expostas ao público nos jornais e revistas?

Nem todo mundo é Edson Arantes do Nascimento na vida – e Jean Dorothy, seguramente, não tinha segurança psicológica para aguentar o que viria.

Três filmes sem sucesso, Aí veio Acossado

Drama histórico sério, pesadão, Santa Joana não foi sucesso de bilheteria. Nem seu segundo filme, também dirigido por Otto Preminger, Bom Dia, Tristeza (1958), drama romântico baseado no livro da francesa Françoise Sagan e passado na Riviera Francesa. Nem o terceiro, O Rato Que Ruge (1959), uma sátira sobre os tempos da Guerra Fria com Peter Sellers.

Foi no seu quarto filme que, afinal, chamou a atenção dos cinéfilos do mundo inteiro – ela foi escolhida para o papel da jovem americana que vende exemplares do New York Herald Tribune na Champs-Elysées, em Paris, em Acossado/À Bout de Souffle (1960), o primeiro filme de Jean-Luc Godard, com roteiro de François Truffaut, que se tornaria o marco da nouvelle vague, um filme absolutamente cult. (Na foto acima, Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo em cena de Acossado.)

Tinha, no filme marcante, o cabelinho bem curtinho, tipo Joãozinho – ainda efeito do corte quase total para o papel de Joana D’Arc.

Uma americaninha do interior bravo – e seus quatro primeiros filmes todos se passavam na Europa!

Os melhores filmes de sua curta carreira foram todos feitos na Europa. O único grande filme americano passado nos Estados Unidos de Jean Seberg foi Lilith (1964), de Robert Rossen, em que interpreta uma jovem esquizofrênica.

Quando a ação de Seberg começa – em maio de 1968, repito –, Jean está casada com Romain Gary, escritor, diplomata, diretor de cinema bissexto, veterano da Segunda Guerra Mundial, 24 anos mais velho que ela. (Gary é interpretado por Yvan Attal.) São pais de Diego, então um garoto de uns 6 anos de idade. E ela está se preparando para voltar a Los Angeles; viaja com seu agente, Walt Breckman (Stephen Root), eu creio, que está interessadissimo em que ela aceite se candidatar a um papel no musical que o diretor Joshua Logan está para dirigir.

São feitas algumas menções a esse filme de Joshua Logan, e fica muito claro que Jean não tem interesse naquele projeto – um musical faroeste, coisa que ela visivelmente considera menor. Não se fala o nome do filme – mas minha cabeça de fã de filmes ficou tique-taqueando à procura do título dele. Consegui me lembrar ainda enquanto víamos esse Seberg: Paint Your Wagon é o nome do faroeste musical que Joshua Logan dirigiu, com Jean Seberg no elenco, depois de uma série de filmes europeus. Paint Your Wagon, no Brasil Os Aventureiros do Ouro, de 1969. Direção do cara que fez, entre outros filmes marcantes, Férias do Amor/Picnic (1955), Nunca Fui Santa/Bus Stop (1956), Sayonara (1957). No elenco, Lee Marvin, Clint Eastwood e Jean Seberg.

Na chegada aos EUA, o apoio aberto aos Panteras Negras

É no avião que faz a rota Paris-Nova York – mostra o filme – que Jean Seberg, atriz americana de fama maior na França do que nos Estados Unidos, 30 anos de idade, casada pela segunda vez, agora com o famoso escritor Romain Gary, fica conhecendo Hakim Jamal, nome importante dos Panteras Negras.

Ao descer no aeroporto de Los Angeles, a branquela louríssima de cabelo curtinho se aproxima do grupo de jornalistas que cerca Hakim Jamal e os companheiros que haviam ido recebê-lo. Faz declarações de apoio à causa dos Panteras Negras, e repete o gesto típico deles, a mão direita erguida, fechada, no sinal de luta, de vitória.

Entre os agentes do FBI no aeroporto fotografando a chegada daquele que o Bureau de J. Edgar Hoover considerava o representante de grupo subversivo que lutava contra o governo e o Sistema, uma grande ameaça aos United States of America, havia um rapaz chamado Jack Solomon (o papel de Jack O’Connell). Muito jovem, seguramente não um grande apreciador de filmes, Jack não sabe quem é aquela loura. Outro agente, mais velho, mais graduado, informa que é Jean Seberg, atriz que fez grande sucesso na França.

Esse jovem agente do FBI, Jack Solomon, terá imensa importância no filme Seberg. Vamos ficar conhecendo sua jovem mulher, Linette (o papel da linda e excelente Margaret Qualley). Vamos acompanhar os dois em um compromisso social com a família dele, vamos assistir a discussões entre os dois. Sobretudo, vamos ver as ações de Jack Solomon para instalar aparelhos de escuta telefônica na cinematográfica casa que Jean Seberg mantém em Los Angeles, vamos seguir os passos da atriz juntamente com ele.

E vamos ver que esse jovem a rigor é um técnico extremamente competente em gravação e em sonoplastia, muito mais que um policial. Que ele na verdade não tem o DNA de um agente do Bureau comandado por aquele sujeito paranóico, anticomunista ferrenho, radical, vítima de cegueira ideológica, que era J. Edgar Hoover. Na verdade, Jack vai se horrorizar com os métodos que o Bureau usará contra Jean Seberg – e vai ficar obcecado por ela.

O filme não se concentra em Jean Seberg

Jack Solomon, o jovem agente do FBI, acaba tendo quase a mesma importância do que Jean Seberg no filme Seberg.

A rigor, o filme poderia se chamar Seberg & Solomon.

Essa última frase é talvez grosseira, inapropriada – mas a verdade é que o maior problema do filme é o roteiro, escrito a quatro mãos por Joe Shrapnel & Anna Waterhouse.

O segundo personagem mais importante no filme é esse agente do FBI – que não sei se existiu realmente, ou se é um compósito, um personagem que reúne as características de várias pessoas.

A sensação que se tem é de que os roteiristas e o diretor Benedict Andrews pretenderam fazer não uma biografia, um relato de um período da vida de uma estrela de cinema que foi perseguida e teve sua vida virada ao avesso pela polícia federal do seu país – e sim um thriller, um filme de mistério, suspense.

Diabo: o interesse que o espectador pode ter é em saber a história de Jean Seberg, ou esse pedaço da sua história.

E, ao tentar transformar essa história em um filme de mistério, suspense, os realizadores deixaram de lado o que mais importava, que era a atriz, a figura pública, essa mulher de vida tão curta, tão intensa, tão dramática.

Jack Solomon aparece mais no filme do que Romain Gary, o sujeito que, mais do que apenas o segundo marido e pai do filho de Jean Seberg, foi seu mais fiel e próximo companheiro, mesmo nos anos finais de sua vida, enquanto sua sanidade mental ia indo embora pelo ralo.

Mais ainda: o filme não consegue nos dar um belo retrato de Jean Seberg. Não consegue mostrar quem ela era, o que pensava, o que queria.

Pelo que o filme mostra, Jean Seberg aderiu à causa dos ativistas negros do seu país mais porque se interessou por um dos líderes dos Panteras Negras do que por qualquer outra coisa. Ora, não foi assim: sabe-se que ela tinha simpatia pelo movimento dos negros antes de conhecer Hakim Jamal, e já contribuía financeiramente para grupos de ativistas.

É isso. A verdade é esta: o filme mostra uma Jean Seberg um tanto deslumbrada, uma moçoila não muito ou nada séria, que se entregou a uma causa radical (os Panteras Negras eram radicais, sim) mais por tesão do que por qualquer outra coisa. E que entra em absoluto parafuso não propriamente por perceber o descomunal tamanho do crime que é uma instituição de Estado do país que se diz o defensor mundial da liberdade lançar toda a sua força, o seu poder, contra uma cidadã indefesa, mas pelo choque de ver a imprensa mentir que seu bebê tem como pai o ex-amante negro, quando na verdade o pai era um mexicano que ela havia conhecido enquanto filmava lá.

E, em vez de se concentrar na própria Jean Seberg, dedica mais da metade de seus 102 minutos a mostrar a vida de um jovem agente do FBI e os ataques de ciúme da mulher do jovem agente e também os de Dorothy (o papel de Zazie Beetz, com o cabelo de Angela Davis), a mulher de Hakim Jamal.

O filme não faz justiça à atriz

Sem dúvida alguma, estava certíssima a crítica Monica Castillo quando disse que este Seberg não faz justiça a Jean Seberg. Para quem se interessar, o texto de Monica Castillo está aqui.

Ah, sim, um registro necessário. O título brasileiro, Seberg Contra Todos, é imbecil, e não tem nada a ver nem com o filme, nem com os fatos reais da vida da atriz. O certo seria o contrário: Todos Contra Seberg.

O último registro que faço é quanto aos letreiros finais, apresentados após o encerramento da narrativa, antes dos créditos (não há nenhum tipo de crédito inicial, apenas o registro das companhias produtoras).

Eis a íntegra dos letreiros, do epílogo:

“Em março de 1971, ativistas invadiram um escritório de campo do FBI e expuseram o programa ilegal de vigilância de Hoover, Cointelpro. O Congresso condenou o programa secreto, que visava principalmente os movimentos pelos direitos civis e dos negros nacionalistas. Jean permaneceu em Paris, de onde continuou a doar para o Partido Panteras Negras e a apoiar causas políticas. Ela nunca voltou a trabalhar em Hollywood. No dia 8 de setembro de 1979, Jean foi encontrada morta em seu carro, tendo desaparecido por dez dias. Sua morte foi considerada um ‘provável suicídio’ com ‘questões não resolvidas’. Ela tinha 40 anos de idade.”

A frase “Sua morte foi considerada um ‘provável suicídio’ com ‘questões não resolvidas’” me parece, na melhor das hipóteses, não acurada, não exata. E, na pior, um convite às teorias conspiratórias da história.

Querendo dar a entender algo tipo assim: pode ser que na verdade ela tenha sido assassinada pelo FBI…

Romain Gary convocou uma entrevista coletiva, poucos dias depois da morte de Jean Seberg, e, nela, culpou a campanha empreendida pelo FBI contra a atriz por sua morte. Ele mencionou a mentira plantada pelos agentes do Bureau de que a gravidez de Jean em 1970 era resultado de sua relação com o líder dos Panteras Negras, e afirmou que o trauma sofrido por ela acabaria resultando na morte da criança. (O bebê viveu dois dias, como mostra o filme.) Afirmou ainda que em diversos 25 de agosto – o dia do nascimento do bebê – ela tentou suicídio.

O escritor culpou o FBI por ter, com sua infame campanha contra a atriz, desestabilizado sua saúde mental, o que acabaria levando à sua morte.

A frase final do letreiro que encerra o filme não é fiel à verdade dos fatos. É quase uma fake news.

Jean Seberg, essa atriz tão fascinante, não merecia isso.

Um longo close-up do rosto da atriz

A segunda melhor coisa de Seberg, na minha opinião (que vale tanto a de qualquer pessoa, nem mais, nem menos), depois do fato de ele existir, é a tomada final, com o rosto de Kristen Stewart-Jean Seberg, em Paris, janeiro de 1971 – uma mulher absolutamente perdida, tristíssima, sem qualquer esperança na vida, enquanto ouvimos Nina Simone cantando a mais bela versão que houve e jamais haverá de “Just Like Tom Thumb’s Blues”, que Bob Dylan havia lançado no disco Highway 51 Revisited, por sua vez uma das mais belas canções desse mago da canção.

“Just Like Tom Thumb’s Blues” é tão desesperançada, triste – e bela – quanto aquela Jean Seberg que vemos na tomada final do filme que leva seu nome.

A gravação de Nina Simone é de fazer chorar um frade de pedra.

Não pensei nisso na hora, no único momento em que o filme Seberg me emocionou, mas é fantástico pensar que, assim como Jean Seberg, Nina Simone escolheu a França para viver, bem longe do seu país natal, aquele que é o pais mais rico que já houve na história da humanidade.

É, não tenho dúvida alguma: a melhor coisa do filme é ele ter sido feito, ele contar essa história absurda para mais gente. A segunda melhor coisa é vermos o rosto de Kristen Stewart-Jean Seberg ao som de “Just Like Tom Thumb’s Blues” com Nina Simone.

Anotação em agosto de 2022

Todos Contra Seberg/Seberg

De Benedict Andrews, Inglaterra-EUA, 2019.

Com Kristen Stewart (Jean Seberg)

e Jack O’Connell (Jack Solomon, agente do FBI), Anthony Mackie (Hakim Jamal, do grupo Panteras Negras), Margaret Qualley (Linette, a mulher de Jack Solomon), Yvan Attal (Romain Gary, o marido de Jean Seberg), Colm Meaney (Frank Ellroy, do FBI), Zazie Beetz (Dorothy Jamal, a mulher de Hakim), Vince Vaughn (Carl Kowalski, do FBI), Gabriel Sky (Diego Gary, o filho de Jean e Romain), Stephen Root (Walt Breckman), Victoria Barabas (a aeromoça), Celeste Pechous (Betsy Ellroy), Laura Campbell (Mary Kowalski), Jade Pettyjohn (Jenny Kowalski), Misha Gonz-Cirkl (Eugenia, a empregada de Jean Seberg em LA),

Roteiro Joe Shrapnel & Anna Waterhouse  

Fotografia Rachel Morrison

Música Jede Kurzel

Montagem Pamela Martin

Casting John Papsidera

Desenho de produção Jasmin Assa

Produção Marina Acton, Fred Berger, David Diliberto, Kate Garwood, Stephen Hopkins, Brian Kavanaugh-Jones, Bradley Pilz, Alan Ritchson, Phreaker Films, Bradley Pilz Productions, Automatik Entertainment, Indikate Productions, Ingenious Media.

Cor, 102 min (1h42)

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