Criminal: Alemanha / Criminal: Deutschland

Nota: ★★★☆

Os realizadores da série Criminal: Alemanha criaram, para o primeiro dos três episódios, uma história que não poderia acontecer em nenhum outro lugar do mundo – só mesmo na Alemanha.

Toda a trama do episódio 2 é também em cima de uma realidade alemã – embora, a rigor, pudesse ocorrer também em outros países ricos da Europa Ocidental.

Da mesma maneira, a trama do episódio 3 a rigor poderia se dar em outros países ricos, desenvolvidos – só que, nele, brilha mais que tudo a alemãzíssima Nina Hoss, essa atriz absolutamente extraordinária.

Essa característica da série – tudo nela realçar de alguma forma o fato de que aquilo ali acontece na Alemanha, especificamente na Alemanha – me impressionou muito. É a característica mais impactante, me pareceu, de Criminal: Alemanha – ao lado, claro, da sua extrema qualidade.

Criminal – como muita gente sabe, mas é necessário registrar – é um conjunto de quatro séries curtas, de três episódios cada, cada uma delas realizada e passada em um país: Reino Unido, França, Alemanha, Espanha.

É uma idéia interessantíssima, fascinante.

Cada série mostra um grupo de policiais interrogando suspeitos – um suspeito em cada um dos episódios. Cada episódio tem o nome do suspeito que está sendo interrogado.

Há, assim, uma fantástica unidade temática, e também de ambientação: todos os episódios das quatro séries se passam dentro de uma central de polícia. Basicamente na sala de interrogatório e na sala ao lado, em que ficam policiais que observam o interrogatório mas não são vistos pelo suspeito – aquele esquema de duas salas contíguas separadas por uma grande janela que de um lado é vidro, simplesmente, e do outro lado é espelho.

Os policiais da sala ao lado observam todos os movimentos do suspeito, que está sendo filmado quase todo o tempo. Já na sala de interrogatório, em que há apenas uma grande mesa e cadeiras, o que se vê é apenas um grande espelho.

Há também, é claro, um corredor, um hall externo com máquinas com refrigerantes e salgadinhos e doces.

E aí os realizadores optaram por algo surpreendente: todo o conjunto de salas, corredor e hall, todo o espaço físico da central de polícia das quatro cidades – Berlim, Madri, Paris, Londres – é exatamente o mesmo. Todos os 12 episódios foram filmados num estúdio usado pela Netflix na região de Madri.

No aspecto físico, na parte visual, é tudo absolutamente idêntico – por mais diferentes que sejam as economias, as tradições, os costumes, as formas com que cada polícia se organiza naqueles quatro países.

Mudam os métodos de interrogatório, assim como mudam as leis penais de país para país. Muda um tanto a forma com que os policiais se relacionam entre eles, é claro. Muda muita coisa – enquanto muitas características são idênticas.

A série alemã faz absoluta questão de demonstrar o tempo todo que aquilo ali é alemão, que aquilo se passa na Alemanha.

Uma trama que só poderia acontecer na Alemanha

O primeiro episódio tem o título de “Jochen”, porque todos os 12 episódios dos quatro conjuntos de séries têm como título o prenome do interrogado, como já foi dito – mas na verdade o prenome Jochen é usado bem poucas vezes. Usa-se muito mais o sobrenome dele, Müller – até porque os investigadores que o interrogam, Nadine Keller, uma jovem aí na faixa de uns 30 e tantos anos de idade, grávida de uns 7 meses, e Karl Schulz, homem aí de uns 60, são educados. Firmes, mas educados. E Jochen Müller é um também um homem de meia-idade, seguramente de mais de 60 anos, talvez chegando aos 70.

Não conhecia nenhum dos atores. A inspetora-chefe Nadine Keller é interpretada por Eva Meckbach. O inspetor-chefe Karl Schulz, por Sylvester Groth. E Jochen Müller, por Peter Kurth (na foto abaixo).

Jochen Müller, o interrogado, tem toda a aparência de um homem rico. Esse ator Peter Kurth poderia perfeitamente interpretar um dos milionários dos filmes de Frank Capra: é grande, volumoso, com aquela barriga ampla apertada pelo colete e pelo paletó cbiquetérrimos, que seguramente custaram uma boa quantidade de marcos, perdão, de euros.

É um bem sucedido empresário da construção da civil. Recebeu um convite para comparecer àquela central de polícia, e foi – mas não tem idéia de por que, afinal, está ali.

Os investigadores Nadine e Schultz o questionam sobre um tal Jens Krahl. Sim, Herr Müller havia de fato conhecido Jens Krahl, muitos, muitos anos atrás, ali por volta de 1991, logo após a queda do Muro. Ele, Herr Müller, do lado ocidental, tinha algum dinheiro, e, quando o Muro caiu, comprou um apartamento do lado oriental – eles eram todos do Estado, os preços eram baixíssimos. E, sim, ele havia contratado Jens Krahl para fazer uma reforma do apartamento.

A partir daí, havia passado a comprar imóveis a preços baixos e vender a preços altos; ganhara muito dinheiro com isso, e assim havia iniciado sua empresa da área de construção civil. Mas e daí? Por que ele está sendo interrogado agora sobre fatos acontecidos lá atrás, em 1991?

Os interrogadores demonstram que Herr Müller, aquele respeitabilíssimo cidadão, empresário bem sucedido, rico, é suspeito de ter assassinado Jens Krahl.

O que vem a partir daí, neste primeiro dos três episódios de Criminal: Alemanha, é absolutamente, mas absolutamente surpreendente.

Dos seis episódios que já vimos até agora – três espanhóis, estes três alemães –, este “Jochen” nos pareceu, a Mary e a mim, a melhor história, a trama mais fascinante, mais bem urdida.

E é Alemanha, especificamente Alemanha, o tempo todo. Não poderia se passar, repito, em qualquer outro lugar do mundo.

Tudo tem a ver com a existência dos “ossis” e dos “wessis’ – os alemães do Leste e os alemães do Ocidente, que viveram apartados desde pouco depois do final da Segunda Guerra, em 1945, até justamente 1991, quando caiu o Muro e houve a reunificação do país.

Fala-se bastante, neste extraordinário primeiro episódio de Criminal: Alemanha, dos “ossis” e dos “wessis”. Esse estranho, peculiar fenômeno de um mesmo povo que durante décadas foi dividido entre os que viviam no regime capitalista e os do regime comunista.

OK, a Alemanha não foi o único país do mundo que se dividiu em dois depois do fim da Segunda Guerra, com o início da Guerra Fria entre Ocidente capitalista x União Soviética comunista. Há Coréia do Norte e Coréia do Sul, houve Vietnã do Norte e Vietnã do Sul. Mas são realidades bem diferentes. No Vietnã – o outro único país, além da Alemanha, que se reunificou – não havia uma Berlim cravada no meio do lado comunista dividida em duas por um muro.

Um imigrante que tem um advogado caríssimo

O suspeito interrogado no segundo episódio é um imigrante (ou filho de imigrantes, não se explicita esse detalhe) turco. O que é algo extremamente comum na Alemanha de hoje: o país tem uma grande colônia de imigrantes vindos da Turquia, como mostram, por exemplo, os belos filmes de Fatih Akin, alemão de Hamburgo, filho de turcos – In July (O Outro Lado das Férias)/Im Juli (2000), Do Outro Lado/Auf der Anderen Seite (2007), Soul Kitchen (2009), Em Pedaços/Aus dem Nichts (2017), para citar só alguns.

Yilmaz Yussef (o papel de Deniz Arora), um sujeito jovem, aí por volta de uns 30 anos, é suspeito de ter agredido a mulher, que havia sido levada para um hospital com ferimentos graves. Jovem, e filho de imigrantes, Yussef, no entanto, se apresenta diante dos inspetores Nadine Keller e Karl Schulz junto com o dr. Marquardt (Christian Berkel), conhecido, bem sucedido e caríssimo advogado.

Os policiais que ficam do outro lado da janela/espelho se perguntam como um imigrante pode pagar por aquele advogado, pela babá que o casal tinha.

Raposão felpudo, astuto, experientíssimo, o advogado Marquardt garante aos inspetores que seu cliente não falará nada. Ele responderá pelo cliente – e o que aconteceu foi simplesmente que a mulher do cliente tropeçou e levou um tombo na escada de casa.

Infelizmente a babá – uma moça do Leste Europeu empobrecido pelas décadas de comunismo – já não poderia dar a sua versão: tinha voltado para sua terra.

A grana do casal – e é muita grana – vem da moça, a jovem esposa de Yussef. Ela é a filha de fulano de tal, um dos maiores nomes do mercado financeiro da Alemanha.

A questão que os inspetores terão que responder é: por que o financista milionário está pagando uma fortuna para aquele advogado medalhão defender o genro, se tudo indica que ele agrediu a filha?

No papel de uma criminosa, a fantástica Nina Hoss

O argumento e o roteiro dos três episódios alemães são assinados pela dupla de criadores das quatro séries, os ingleses Jim Field Smith e George Kay, pelos alemães Sebastian Heeg e Bernd Lange e pelo espanhol Alejandro Hernández.

Por algum motivo que essa equipe de roteiristas optou não por deixar muito claro, a chefia de polícia de Berlim havia decidido mandar para aquela central como uma espécie de interventora, de corregedora, a jovem inspetora-chefe Nadine Keller (na foto acima, a atriz Eva Meckbach). Bem, pode ser que tenha sido falha minha, que tenha sido dada uma explicação e eu não tenha entendido direito.

Mas o fato é que, naquele momento em que se passa a ação, em que acontecem os interrogatórios mostrados nos três episódios alemães de Criminal, o veterano inspetor Karl Schulz está tendo que trabalhar ao lado dessa garota bem mais jovem do que ele, mas que vem com clara carta branca da chefia para supervisionar os trabalhos ali.

O interrogatório a que Schulz submete Claudia Hartmann no terceiro episódio da série vai contra as normas, os regulamentos. É algo irregular – e portanto algo que poderia render ao inspetor uma punição. Mesmo assim ele resolve fazer – bem cedinho, contando que terminará antes da chegada de Nadine Keller.

É uma história um tanto complexa.

Vários anos antes do momento em que se passa ação, uns 18 anos antes, Karl Schulz havia participado da equipe que acabou conseguindo identificar e prender um casal que assassinou cinco garotas adolescentes. Em cada um dos casos, o monstruoso sujeito estuprava a garota – e em seguida o casal a matava.

O corpo de uma das garotas não foi localizado. Preso, o casal indicou a localização dos corpos de quatro das vítimas, mas não chegou a apontar o de uma delas.

O casal foi condenado a um monte de anos. O homem se matou na prisão.

Ao longo dos anos, Schulz havia se apegado à mãe da garotinha cujo corpo nunca havia sido encontrado. Ficaram amigos; Scnulz a ajudava no que pedia, inclusive financeiramente. Agora ela estava com câncer terminal – e seu grande desejo era, antes de morrer, dar um enterro digno à filha.

E foi por isso que, indo contra as regras e os regulamentos, contando com o apoio de conhecidos no presídio, Schulz tinha agora retirado de lá Claudia Hartmann, para fazer com que ela finalmente confessasse onde haviam enterrado o corpo da garota.

Claudia Hartmann é interpretada por Nina Hoss (na foto abaixo) – e só pela interpretação dela vale ver a série Criminal: Alemanha.

É interessante. Criminal: Alemanha não precisava da presença de uma atriz de grande fama para ser uma série de respeito. Tinha já o respaldo de ser parte desse projeto desenvolvido em quatro diferentes países. E contava ainda com o nome de Oliver Hirschbiegel como diretor – o cara que realizou, entre outros, A Queda! As Últimas Horas de Hitler (2004), aquele belo filme em que Bruno Ganz dá um show como o ditador ensandecido que foi o principal responsável por mais de 60 milhões de mortes.

Mas a verdade é que Nina Hoss aumenta ainda mais o status deste Criminal.

É uma bela série.

Anotação em outubro de 2021

Criminal: Alemanha/Criminal: Deutschland

De Jim Field Smith e George Kay, criadores, Alemanha, 2019

Direção Oliver Hirschbiegel

Com Eva Meckbach (inspetora-chefe Nadine Keller),

Sylvester Groth (inspetor-chefe Karl Schulz),

Florence Kasumba (policial Antje Borchert), Christian Kuchenbuch (Martin Ludwig), Jonathan Berlin (policial Stefan Proska), Peter Kurth (Jochen Müller, o interrogado do episódio 1), Deniz Arora (Yilmaz Yussef, o interrogado do episódio 2), Christian Berkel (Marquardt, o advogado do episódio 2), Nina Hoss (Claudia Hartmann, a interrogada do episódio 3), Oscar Navarro Alvarez (comissário de polícia)

Argumento e roteiro Jim Field Smith, George Kay (criadores), Sebastian Heeg, Alejandro Hernández, Bernd Lange

Fotografia Pau Mirabel

Música Robin Foster

Montagem Ana Álvarez Ossorio

Casting Simone Bär

Produção Idiot Lamp.

Cor, cerca de 120 min (2h)

Disponível na Netflix em outubro de 2020

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