Viver é Fácil com os Olhos Fechados / Vivir es Fácil Con los Ojos Cerrados

Nota: ★★★½

Em 1966, no auge da beatlemania, John Lennon interrompeu as turnês e as gravações, abandonou os colegas e foi para o Sul da Espanha trabalhar como ator em um filme ambientado na Segunda Guerra Mundial, Como eu Ganhei a Guerra/How I Won the War, que estrearia no ano seguinte.

O filme, uma sátira antibélica sobre um oficial inglês que conduzia suas tropas por uma série de situações terríveis no Norte da África e na Europa, era dirigido por Richard Lester, o jovem iconoclasta que havia feito os dois filmes dos Beatles, A Hard Day’s Night (1964) e Help! (1965).

Com base nesses fatos reais – e partir das lágrimas de Palmira, segundo se explica nos créditos finais –, o diretor e roteirista David Trueba criou este Viver é Fácil com os Olhos Fechados. (Ele, no entanto, não esclarece quem é Palmira.)

É um encantador, delicioso road movie, cheio de carinho pelas pessoas simples, uma ode à amizade, à solidariedade, uma beatlemaníaca forma de mostrar no cinema aquela verdade básica, fundamental, de que all you need is love, love is all you need.

Conta a história de um professor de inglês de uma cidade próxima de Madri, Antonio San Román, profundamente, mas profundamente apaixonado pelos Beatles, que bota na cabeça que vai conseguir chegar até John Lennon nos arredores de Almeria, onde a equipe estava filmando, e conversar com ele.

Não quer tietar. Quer dar um recado a John: quer pedir que os discos dos Beatles passem a trazer as letras das canções. Ele – assim como milhões e milhões de jovens de países de outras línguas que não o inglês, como o adolescente Sérgio Vaz e seus amigos todos – tirava as letras de ouvido, mas sempre escapava uma ou outra palavra que não compreendia perfeitamente. E então Antonio queria mostrar para John o caderno em que ele anotava as letras das canções – e algumas delas tinham lacunas, palavras que ele não conseguia identificar.

(É delicioso, esse detalhe, porque isso acontecia de fato comigo, e devia certamente acontecer no mundo inteiro, de Nairóbi a Moscou, de Roma a Santiago do Chile, de Estocolmo a Tóquio.)

O professor quarentão atravessa meia Espanha com uma garota e um garoto    

Na longa viagem perseguindo o sonho de sua vida, da região central da Espanha até o Sul, junto do Mediterrâneo, não muito distante de Málaga, Antonio San Román, um homem aí nos seus 40 e muitos anos, terá a companhia de dois jovens: Belén, uma moça de uns 20 e poucos, e Juanjo, garoto de 16.

Belén é interpretada por uma jovem linda e que demonstra muito talento, Natalia de Molina, nascida em 1989 na Andaluzia. Já tem 20 títulos na filmografia. Juanjo é feito por Francesc Colomer, garoto, como o primeiro nome indica, catalão, nascido em 1997 em Barcelona – novo demais, mas já experiente: com 13 anos, foi o principal ator de Pão Negro/Pa Negre (2010), um drama barra pesada, duro, sombrio, sobre camponeses da Catalunha logo após o fim da guerra civil espanhola. E trabalhou também no mais recente Noite de Verão em Barcelona (2013).

O papel central, o desse professor de coração tão imenso quanto sua paixão pelos Beatles, coube a Javier Cámara, experiente, veterano, grande ator de belos filmes como Fale com Ela (2002), O Que os Homens Falam (2012) e Truman (2015).

O roteiro – escrito pelo diretor David Trueba, com base em história criada por ele mesmo diretamente para o filme – é quase didático ao apresentar as bases da trama para o espectador. Primeiro, ouvimos (junto com Antonio) um noticiário de rádio inglesa sobre o que estava acontecendo com John Lennon naqueles dias de 1966. Depois vemos uma sequência com Antonio, uma sequência com Belén, uma sequência com Juanjo. Em seguida, mais uma rodada, seguindo a mesma ordem – Antonio, Belén, Juanjo.

Um noticiário de rádio situa para o espectador o que acontecia com os Beatles

O noticiário é do rádio (Antonio consegue captar uma emissora britânica), mas David Trueba se permite uma certa licença poética e, enquanto ouvimos a voz do locutor, vemos fotos e reproduções de jornais da época, que nos ajudam a acompanhar as informações.

John Lennon não andava muito contente com a vida, diz o locutor. Estava um tanto cansado da maratona de shows mundo afora; incomodava a ele o fato de se apresentarem em ditaduras, como as Filipinas de Ferdinand Marcos e a Espanha de Francisco Franco, quando os Beatles tocaram numa praça de touros em que “havia mais policiais do que o número necessário para invadir Gibraltar”.

Falava-se até que os Beatles poderiam se separar.

Com vontade de experimentar outras áreas, de usar sua criatividade em outros desafios, John Lennon havia – depois daquela declaração que chocara o mundo, de que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo – resolvido atuar como ator e estava filmando no Sul da Espanha, numa cidade chamada Almeria. “Você sabe onde fica Almeria? Nós também não”, dizia o locutor – enquanto vemos um mapa que indica que a cidade fica ali no extremo Sul, junto do Mediterrâneo, não muito longe de Málaga e também de Gibraltar.

Corta, e vemos o professor Antonio na sala em que dá aula, numa escola católica. Está pedindo que seus alunos recitem a letra de “Help!”.

É um achado cinematográfico. Assim que termina o noticiário que situa o espectador no contexto, vemos o rosto de um garoto em close-up dizendo “Help!” Corta, e outro garoto diz “I need somebody”. Corta, e outro garoto diz “Not just anybody” – e por aí vai.

Antonio pergunta aos alunos o que eles acham que John Lennon quis dizer na letra. Vai caminhando por entre as cadeiras. Numa determinada altura, flagra um garoto com o pôster da página central de uma Playboy. O garoto jura que não é dele.

Fica nítido que os alunos gostam do professor de inglês. Tiveram sorte grandes, aqueles garotos – assim como eu tive, no Colégio de Aplicação, por aprender inglês com Mr. Hélcio, um autêntico gentleman londrino, e francês com Vivina, mas esta é outra história,

Antonio está caminhando entre as carteiras dos alunos quando olha para a porta da sala, com a parte superior de vidro. No corredor, um padre bate num aluno que havia sido expulso da sua classe.

Belén é solteira e ficou grávida; Janjo briga com o pai por causa do cabelo grande

Corta, e vemos uma bela jovem no jardim de uma casa ampla, passando a mão pela grade que separa a propriedade da rua. De repente, uma outra moça surge no passeio, aflita, nervosa, e pergunta sobre seu filho. Ela quer o ver o filho, onde ele está? Belén, a moça que está do lado de dentro da casa, se assusta. Distancia-se do muro, dá alguns passos em direção à porta da casa. Naquele exato instante, chega da rua uma senhora, obviamente a dona daquela grande casa, junto com um homem mais jovem. A senhora trata a moça com muita dureza, diz que já falou que é para ela não aparecer mais por ali, que pode chamar a polícia, que é para ela sumir dali – e enche a moça de porrada.

Do lado de dentro do portão, Belén se assusta com a violência, da mesma maneira que o espectador.

Corta, e estamos em uma confortável, ampla casa de família grande. Estão ali o pai (Jorge Sanz), a mãe (Ariadna Gil, mais de 50 filmes no currículo, ex-mulher do diretor David Trueba), e seis filhos – três meninas, três meninos.

Juanjo, aos 16 anos, é o filho mais velho. Tem o cabelo grande como o dos Beatles, o dos Rolling Stones. (Veremos mais tarde que ele não gosta tanto dos Beatles – prefere os Stones e os Kinks.) O cabelo grande é motivo de discussão entre ele e o pai, sargento da polícia. O pai dá um peteleco no garoto. Juanjo resolverá fugir de casa – assim como Belén, grávida de três meses e meio, resolverá fugir daquela casa ampla  que é um refúgio para mães solteiras. Não se diz com todas as letras, mas dá para supor que a dona da casa, aquela mulher violenta que bateu na outra moça, venda os bebês para famílias que não podem ter filhos.

Apresentados assim o contexto histórico e os três personagens, estamos prontos para começar a viagem.

A viagem será empreendida por Antonio num carrinho verde, pequeno e pouco possante, pertencente ao pai dele. Na estrada ele dará carona primeiro para Belén e depois para Juanjo.

O professor e seus caroneiros param na periferia de Almeria, junto ao mar

A caravana Rolidei, como ela se chamaria se estivesse em Bye, Bye, Brasil (1980), de Cacá Diegues, dá uma parada na beira da estrada para comer uma comida que o próprio Antonio havia preparado. O espectador tinha visto a cena: quando ele estava terminando de fazer a comida que levaria para a estrada, o gás acabou. Antonio então terminou de cozinhar a gororoba usando como trempe o ferro de passar roupa virado para cima e segurado por dois montes de livros.

Para os seus jovens caroneiros, Antonio mente que a comida havia sido feita pela empregada. Uma pequenina mentira para esconder o fato um tanto óbvio de que ele é muito duro, o dinheiro é curtíssimo, não tem empregada nenhuma, mora num apartamentozinho mínimo.

Enquanto estão comendo na beira da estrada, a bela Belén pergunta por que ele não se casou. A resposta que David Trueba escreveu para sair da boca de Antonio é bela e triste, como a vida:

– “Nós, professores, ficamos tanto tempo com crianças que no final acabamos não entendendo muito o mundo dos adultos.”

Duro, com o dinheiro curtíssimo, Antonio havia reservado um quarto num hotel na periferia de Almeria de nome Sol y Mar – um dos quatrilhões de hotéis com este nome mundo afora. É uma espelunca de décima-quinta categoria – mas fica relativamente perto do local das filmagens, diante do Mediterrâneo e ao lado de um bar e restaurante igualmente fuleiro, chamado El Catalón, por pertencer a um catalão que acabou indo parar ali e ali ficou. Chama-se Ramón (o papel Ramón Fontserè, na foto acima), e é – assim como o próprio Antonio – uma figuraça, um sujeito bom, de coração imenso.

Ao chegar ao destino de Antonio, Juanjo diz que ficará por ali mesmo. Belén diz que está indo para Málaga, de onde havia saído, onde mora sua mãe.

Antonio já havia percebido que a moça está grávida – ela vinha se queixando de enjôos, ele a havia visto vomitar. Então oferece a ela um quarto ao lado do seu na espelunca, para que descanse aquela noite e possa viajar para Málaga no dia seguinte.

No bar do catalão, ele vê um cartaz de “precisa-se de ajudante”. Vai chamar Juanjo na praia, e minutos depois o garoto que fugiu de casa com raiva do pai sargento de polícia está servindo os fregueses.

Um camponês gigantesco vai implicar com o cabelo grande do novo garçom do El Catalón. Antonio sai em defesa dele – mas o catalão sugere que ele tome cuidado. Se for enfrentar aquele camponês parrudo, levará um soco que o fará buscar os dentes lá por Málaga.

Estão sempre presentes no filme a força da Igreja Católica e o clima de violência

Um padre que bate num aluno da escola. Uma mulher que acolhe mães solteiras com propósitos nada corretos e espanca uma de suas ex-inquilinas. Um pai que dá sopapo no filho que não quer cortar o cabelo. Um camponês armário que ameaça um garoto cabeludo.

A violência está rondando os personagens, ameaçadora, terrível, sempre presente, naquela Espanha mergulhada no horror da ditadura fascista do generalíssimo Francisco Franco.

A violência ameaçadora e os sinais que mostram a força da Igreja Católica – que, infelizmente, foi uma aliada de primeira hora da ditadura franquista. O filme de David Prueba mostra a onipresença dessas duas coisas o tempo todo.

No dia seguinte ao da chegada de Antonio e seus caronas ao litoral de Almeria, lá pelas tantas, curioso, o catalão pergunta ao outro qual é a relação dele com a garota Belén. Antonio responde com outra das frases marcantes do filme: – “Nada! Ela é uma coitada – como o outro. Os jovens estão desesperados neste país. Fecharam os olhos ao futuro.”

O catalão reage com uma frase tipo “Epa, qual é? Quer fazer discurso pra mim?”

E não falam mais do assunto.

Estão, naquele momento, examinando a plantação de morangos que Ramón tem ao lado de sua casa. Ele vai oferecer uma caixa de morangos fresquinhos a Belén.

Morangos. Fresas, em espanhol. Strawberry.

Estávamos, como já foi dito, em 1966.

Em fevereiro de 1967, sairia o compacto simples com, de um lado, “Penny Lane”, de Paul McCartney, e, do outro lado, “Strawberry Fields Forever”, de John Lennon. Em “Strawberry Fields Forever” John Lennon canta que “living is easy with eyes closed, misuntersdanding all you see”. Vivir es Fácil Con los Ojos Cerrados, como diz o título original deste belo filme.

O diretor nasceu um ano antes de os Beatles se separarem

David Trueba não é da geração que tirava as letras dos Beatles de ouvido, como Antônio, eu e milhões de pessoas nascidas aí entre 1945 e 1955. É muito mais jovem; nasceu (em Madri) em setembro de 1969, exatamente o mês de lançamento de Abbey Road, o penúltimo disco dos Beatles, menos de um ano antes da dissolução da banda. Era criança ainda quando a Espanha se libertou da ditadura franquista e voltou a ser uma democracia plena em 1978.

Não conviveu nem com a beatlemania nem com a ditadura franquista, os dois fenômenos históricos que mostra tão bem em seu filme. Diferentemente de seu irmão mais velho, Fernando Trueba, que é de 1955, e fez filmes que fazem referência a diferentes ditaduras – a chilena, do general Pinochet, em A Dançarina e o Ladrão/El Baile de la Victoria (2009), e a cubana, de Fidel e depois Raúl Castro, em Chico & Rita (2010), dois belíssimos filmes.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados foi escolhido pela Espanha para representar o país na corrida para o Oscar de melhor filme estrangeiro; não conseguiu ficar entre os indicados ao prêmio da Academia de Hollywood, mas obteve 18 prêmios e mais outras 16 indicações em festivais mundo afora. Para o Goya, o Oscar espanhol, foi indicado em sete categorias – e levou seis. Ganhou os Goyas de melhor filme, melhor direção, melhor ator para Javier Cámara, melhor atriz revelação para a gracinha da Natalia de Molina, melhor roteiro e ainda melhor trilha sonora original.

A trilha sonora é de fato um arraso. Nada a ver com rock, mas também nada a ver com flamengo ou algum outro ritmo espanhol. É um dueto violão e baixo, um jazz suave com uma pegada no folk. O belíssimo som vai pontuando o filme o tempo todo, passando para o primeiro plano nas tomadas gerais mostrando o carrinho verde na estrada ou nos momentos sem diálogos.

A trilha me impressionou enquanto via o filme, mas confesso que não consegui identificar a autoria. Só ao final (os créditos iniciais só mostram os nomes das empresas produtoras e dos atores) fiquei sabendo que é a dupla Pat Metheny-Charlie Haden, da qual não canso nunca de ouvir o álbum Beyond the Missouri Sky (1997), uma beleza extraordinária.

O filme faz referências ao cinema espanhol da época da ditadura

O filme, é claro, traz algumas referências ao cinema espanhol dos anos 60. A principal delas é ao filme El Padre Manolo, e ao ator principal, Manolo Escobar, aparentemente o grande astro daquela época. El Padre Manolo está em cartaz no cinema da cidade de Almeria em que, às 20 horas, “os ingleses”, como a população local se refere à equipe que está filmando How I Won the War, vai ver os dailies, as tomadas filmadas naquele dia.

O astro é Manolo Escobar (1931-2013), e há um gostoso diálogo entre os jovens Belén e Juanjo sobre ele. Belén, que havia feito um curso de cabeleireira durante seis meses, conta para Juanjo que Manolo Escobar usa peruca. O garoto fica absolutamente surpreso com a informação.

Jamais tinha ouvido falar em Manolo Escobar, eu, que tenho, modéstia às favas, algumas muitas décadas de informações sobre cinema.

Tudo o que sei de cinema espanhol durante os anos 50 e 60, anos da ditadura franquista, se resume a Marcelino Pan y Vino (1955), danado de um melodramão lacriminoso que foi sucesso em boa parte do mundo, e Sara Montiel (1928-2013), a cantora e atriz de beleza fenomenal que teve passagem por Hollywood, foi casada com o diretor Anthony Mann e estrelou Vera Cruz (1954), western forte, importante, de Robert Aldrich, ao lado de Gary Cooper e Burt Lancaster, e, na Espanha, fez dúzias de melodramões, entre os quais La Violetera (1958), possivelmente o filme espanhol dos anos da ditadura mais famoso internacionalmente. Minha mãe me levou ao Cine Tupi para vê-lo antes mesmo que, aos 12 anos, eu começasse meu primeiro caderno de cinema.

O mais importante realizador espanhol da época, Luis Buñuel (1900-1983), filmou extensamente na França e no México. Em seu próprio país, fez apenas três filmes: Las Hurdes (1933), que foi proibido na Espanha assim que ficou pronto, Viridiana (1961), também proibido, e Tristana (1970).

Os livros falam de dois diretores importantes que conseguiram fazer bons filmes mesmo durante a ditadura – Juan Antonio Bardem e Luís García Berlanga –, mas não conheço o trabalho deles. (Sim, Juan Antonio é tio do ator Javier Bardem.) Para mim, e creio que para todos os cinéfilos da minha geração, o grande realizador que surgiu na Espanha ainda sob a ditadura de Franco foi Carlos Saura. Mas é impressionante: assim que ruiu o franquismo e a Espanha se modernizou, surgiram vários, vários, vários grandes realizadores. Pipocaram talentos – e faz tempo que digo que um dos melhores cinemas que se fazem no mundo, hoje, é na Espanha. Melhor que o cinema espanhol, para mim, só o que se faz naquelas ilhotas ao Norte da Espanha, a Oeste do continente europeu.

As ilhotas que deram ao mundo os Beatles, entre muchas otras cositas más.

David Trueba se mostra um talentoso diretor. Mas não pesquisou direito

Depois que a ação deste belo filme termina, depois que os espectadores ouviram a voz de John Lennon cantando – acompanhada apenas de um violão – que living is easy with eyes closed, misunderstanding all you see, um letreiro diz o seguinte: “Depois da visita de Lennon à Espanha, em 1966, todos os discos dos Beatles incluíram as letras das canções”.

É um belíssimo fecho de um filme que conta a história (fictícia) de um espanhol professor de inglês que queria porque queria se encontrar com John Lennon e pedir que os discos dos Beatles trouxessem as letras das canções.

Pena que não é exatamente a verdade dos fatos.

O jovem David Trueba e sua equipe deveriam ter feito uma pesquisa melhor. Tinha o Google à sua disposição, coisa que nós, da geração que tirava as letras dos Beatles de ouvido, não tínhamos.

Poderia ter perguntado a qualquer um de nós.

Um segundo e meio depois de ter lido essa afirmação que vem em letreiro nos créditos finais do filme, tendo meu HD bem velho de guerra processado as informações, chek, trec, tróin, disse pra Mary com toda a certeza do mundo: – “Não é verdade.”

Mary tentou contemporizar. Disse que a produção do filme não deixaria passar um erro desses. Que talvez na Espanha os lançamentos dos discos tenham sido diferentes.

O velho beatlemaníaco aqui respondeu firme: as edições dos álbuns dos Beatles passaram a ser absolutamente idênticas no mundo todo. Foi uma exigência deles, depois que os primeiros discos foram lançados nos diversos países de forma completamente diferente das edições britânicas originais. Então, a partir de Revolver (lançado em agosto de 1966 na Inglaterra), as gravadoras mundo afora foram obrigadas a reproduzir exatamente o álbum original.

O álbum seguinte dos Beatles, o que viria a ser lançado depois de John Lennon ter filmado How I Won the War no Sul da Espanha, foi Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band, que chegou às lojas de Londres, Nova York, Los Angeles e demais cidades da Inglaterra e dos Estados Unidos em junho de 1967. Este de fato trazia as letras das canções.

Foi uma revolução. Foi o primeiro álbum de música popular lançado ao Norte do Equador – que eu saiba, ao menos – que trouxe as letras das canções.

O disco duplo que viria a ser conhecido como The White Album, O Disco Branco, lançado em novembro de 1968, também tinha as letras.

Mas – desmentindo o que os letreiros do filme afirmam – Abbey Road (lançado em setembro de 1969, repito) e Let It Be (lançado em maio de 1970) não trouxeram as letras impressas.

De onde se conclui que David Trueba é um ótimo diretor, com talento especial para dirigir atores; é um escritor-roteirista de primeira, sensível, um humanista. Pena que não seja muito curioso, e não tenha tentado entrevistar um beatlemaníaco, e seja um tanto preguiçoso, por não ter sequer dado um Google com as palavras Beatles lyrics albuns.

Eu não dei esse Google aí, porque não preciso. Tá tudo no meu HD.

Os Beatles não foram os primeiros a trazer as letras nos discos

Ahnnn.. Isso aí seria um bom fecho de texto sobre Viver é Fácil com os Olhos Fechados. Mas ainda quero falar de uma informação fundamental – e umas considerações finais.

Sgt. Pepper’s foi de fato o primeiro disco a trazer as letras das canções – entre os discos lançados ao Norte do Equador.

Em 1966, num país periférico, um álbum de um artista novo havia já trazido todas as letras – e, cacete, como eram belas aquelas letras. Em 1967, o ano de Sgt. Pepper’s, sairia o segundo disco dele, com, de novo, todas as letras na contracapa. (Na foto acima, John Lennon durante as filmagens de How I Won the War na Espanha.)

Antes dos Beatles, antes de todos os músicos do mundo inteiro, Chico Buarque de Hollanda publicou as letras de suas canções na contracapa dos seus primeiros discos.

Na época, havia quem fizesse comparações entre Chico e Caetano e dissesse que Chico era assim meio para trás, conservador, enquanto Caetano era pra frente, moderno.

Besteira.

Nos últimos anos, houve e há muita gente que falou e fala mal do Chico artista por suas opções políticas.

Besteira.

Desde que os Beatles lançaram o compacto com “Love me do”, em outubro de 1962, há quem diga que John Lennon era genial, maravilhoso, pra frente, moderno, o escambau, e Paul McCartney era careta, bobão, sacarina.

Ah, quanta besteira. Melhor ver ou rever este belo filme. Ou ouvir uma canção dos Beatles. Ou de Caetano. Ou de Chico. Ou de qualquer banda ou cantor que não leve você para a arquibancada de um Fla x Flu.

Anotação em março de 2017

Viver é Fácil com os Olhos Fechados/Vivir es Fácil Con los Ojos Cerrados

De David Trueba, Espanha, 2013.

Javier Cámara (Antonio), Natalia de Molina (Belén), Francesc Colomer (Juanjo)

e Ramon Fontserè (Ramón), Rogelio Fernández (Bruno), Jorge Sanz (o pai), Ariadna Gil (a mãe), Violeta Rodríguez (Julia), Léo Rodríguez (Javi), Tristán Rodríguez (Jesús), Olivia Trueba (Maribel),

Argumento e roteiro David Trueba

Fotografia Daniel Vilar

Música Pat Metheny

Montagem Marta Velasco

Casting Arantza Vélez

Produção Fernando Trueba Producciones Cinematográficas, Televisión Española (TVE), Canal+ España, Audiovisual Aval SGR

Cor, 108 min

***1/2

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