Ato de Violência / Act of Violence

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Nota: ½☆☆☆

Nem todo filme de grande diretor e com bons atores presta. Não é porque é noir – um dos gêneros mais adorados pelos cinéfilos mundo afora – que um filme é necessariamente bom. Ato de Violência, que Fred Zinnemann lançou em 1948, é mais uma prova dessas verdades inescapáveis.

Mas é também um filme que mereceu muitos elogios, muitas loas, muita louvação, ao longo das décadas. Portanto, pode ser uma prova de que algumas obras ruins viram objeto de culto, e não há o que se discutir. Ou então mais uma prova de que é muito comum a gente simplesmente não conseguir se sintonizar com determinados filmes.

Porque eu achei um pavor. Pode, naturalmente, ter sido um problema meu, de falta de sintonia com o filme.

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Um homem tenso, de expressão cerrada. E um outro alegre, saudável

Primeiro o espectador fica conhecendo Joe Parkson, o personagem de Robert Ryan. Na primeira sequência do filme, Joe – que manca de uma perna, e está sempre com uma expressão cerrada, pesada, amedrontadora, no rosto, este por sua vez sempre suarento – vai até seu pequeno apartamento, em Nova York, pega uma arma e embarca num ônibus em direção ao outro extremo dos Estados Unidos, a Califórnia.

Dentro do ônibus, o rosto está sempre tenso e suado – mas Joe insiste em usar um sobretudo, na viagem interminável.

Fiquei pensando que foi a primeira vez que vi no cinema alguém fazendo a viagem de uma costa a outra dos Estados Unidos de ônibus, em vez de por trem – na época em que as passagens aéreas ainda eram impensáveis para boa parte da população. Mas isso é detalhe, bobagem – embora o detalhe do sujeito suando e mantendo o capotão seja bem desagradável.

Depois ficamos conhecendo o outro personagem central, Frank Enley – o papel do grandão feioso Van Heflin. Frank Enley nos parece, de cara, o oposto de Joe Parkson. Tínhamos conhecido Joe à noite, uma figura tensa, mal-humorada, sombria, que manca. Vemos Frank pela primeira vez num belo dia de sol, e ele está muito sorridente, em perfeita saúde, carregando a filhinha no cangote e ao lado da jovem e bela esposa, Edith – o papel da jovenzinha Janet Leigh.

Frank é um empreiteiro de obras, sua pequena empresa foi responsável pela construção de um conjunto habitacional em Santa Lisa, a pequena cidadezinha da Califórnia em que ele vive com a família, e na primeira sequência em que o vemos está acontecendo justamente a inauguração do conjunto, a entrega das casas a seus compradores. É um evento festivo, e o sujeito importante da comunidade que está discursando chama o capitão Frank para falar algumas palavras.

Capitão Frank. O filme é de 1948, a Segunda Guerra havia acabado em meados de 1945. Então, antes de voltar à vida civil e se estabelecer ali como um pequeno empreiteiro de obras, Frank havia servido nas Forças Armadas contra o inimigo.

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Uma sequência de eventos que me pareceu frouxa, sem sentido

Bem rapidamente fica claro que Joe atravessou o país em busca de Frank. Em busca de vingança contra Frank. É de se supor que, naquela noite em que primeiro o vimos, indo até seu apartamento para pegar a arma, tinha acabado de ficar sabendo o paradeiro do outro.

O motivo pelo qual Joe quer se vingar de Frank só será revelado quando a narrativa já está lá pelo meio deste filme que dura apenas 82 minutos.

É quase um spoiler, e então não vou entrar em detalhes, mas adianto aqui que os fatos que levaram Joe a querer se vingar de Frank aconteceram ainda durante a guerra, na Europa.

Frank – que tínhamos conhecido como um ativo e próspero empresário da construção, com uma jovem mulher linda que o ama e uma filhinha fofa que o adora, vai se mostrando, vai se revelando, a cada nova sequência, um sujeito covarde, fraco, tíbio. Um calhorda.

A cadeia de eventos montada pelo roteirista Robert L. Richards, com base em história de Collier Young, me pareceu absolutamente frouxa, boba, fora de propósito, sem sentido.

Ela incluiu, entre outros elementos, uma patética convenção de empreiteiros em Los Angeles, o encontro com uma quadrilha formada por uma prostituta simpática, interpretada por Mary Astor (na foto abaixo), por um advogado facínora e um bandido violento, uma longa sequência de bebedeira no submundo da maior metrópole californiana, e um enfrentamento final numa estação de trens que lembra um pouco uma dezena de westerns que criaram melhores sequências de enfrentamentos em estações de trens.

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Leonard Maltin dá 3 estrelas em 4 e revela o motivo da perseguição

Leonard Maltin deu a Act of Violence 3 estrelas em 4: “Drama cru, bem interpretado, com Ryan aleijado e amargo perseguindo Heflin, que havia sido seu oficial superior e traiu seus homens enquanto prisioneiro de guerra. Ótima vinheta com Astor com uma call girl simpática.”

A opinião do mestre da crítica francesa Jean Tulard é uma indicação de que com toda certeza eu de fato não entrei em sintonia com o filme. Diz ele, em seu Guide de Films, sobre Acte de Violence: “Um bom filme noir em que a tensão cresce à medida em que se multiplicam as cenas noturnas. Magnífica fotografia de (Robert) Surtees e interpretação soberba de Van Heflin e Robert Ryan.”

Diz Steven H. Scheuer em seu ótimo guia de filmes: “Melodrama bem interpretado e bem dirigido, porém rotineiro, sobre um sujeito que traiu seus colegas em um campo de prisioneiros dos nazistas.” Apesar da rispidez do texto, Scheuer deu 3 estrelas em 4 para o filme.

Em seu livro O Outro Lado da Noite: Filme Noir, o professor e estudioso carioca A.C. Gomes de Mattos realça o seguinte:

“As consequências remotas da guerra sobre a psicologia de ex-combatentes, o defeito físico de Parkson, os sentimentos de culpa e de vingança e a notável fotografia contrastada, tanto nos exteriores em locação – filmados realmente de noite –, como nos interiores, são elementos dignos dos melhores filmes noir, que valorizam este drama realista, no qual o som e a imagem têm um papel preponderante.”

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Nem os olhos de Janet Leigh são claros neste filme noir!

Quatro anos depois deste Ato de Violência, Fred Zinnemann (1907-1997) faria um dos melhores filmes de Hollywood de todos os tempos, na minha opinião – Matar ou Morrer/High Noon, de 1952. E emendaria no ano seguinte com outro filmaço, A Um Passo da Eternidade/From Here to Eternity, de 1953.

Já era em 1948, um nome respeitado. Tanto que este seu filme aqui foi admitido na mostra competitiva do Festival de Cannes de 1949.

Achei Janet Leigh muito diferente da Janet Leigh que conheci bem garoto, entrando na adolescência, em filmes como Scaramouche (1952), O Preço de um Homem (1953), Príncipe Valente (1954).

Janet Leigh é de 1927, e estava, portanto, com 21 aninhos em 1948, quando Ato de Violência foi lançado. Tinha começado a carreira no ano anterior, 1947 – este aqui foi seu quinto filme.

Mary, que detestou o filme tanto quanto eu ou talvez até um pouco mais, sintetizou mais rapidamente do que: não só Janet Leigh ainda não era loura – seus cabelos aqui são castanhos – como, mais estranho ainda, seus olhos não parecem azuis claros como se vê nitidamente até mesmo em outro filme preto-e-branco como este aqui, Psicose, de 1960, em que, ao final da antológica cena do chuveiro, a câmara se fixa num super extra big close-up do olho claro dela.

Nem os olhos de Janet Leigh são claros neste filme noir!

O qual, na verdade, para mim tem pouquíssima coisa de noir. Para mim, Ato de Violência é um melodrama chinfrim, sem qualidade qualquer a não ser a boa fotografia de Richard Surtees.

Anotação em abril de 2016

Ato de Violência/Act of Violence

De Fred Zinnemann, EUA, 1948

Com Van Heflin (Frank Enley), Robert Ryan (Joe Parkson), Janet Leigh (Edith Enley), Mary Astor (Pat), Phyllis Thaxter (Ann), Berry Kroeger (Johnny), Taylor Holmes (Gavery), Harry Antrim (Fred), Connie Gilchrist (Martha), Will Wright (Pop)

Roteiro Robert L. Richards

Baseado em história de Collier Young

Fotografia Robert Surtees

Música Bronislau Kaper

Montagem Conrad A. Nervig

Produção William H. Wright, Metro-Goldwyn-Mayer. DVD Versátil

P&B, 82 min

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2 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 3 agosto 2016 às 9:48 pm | Permalink

    Oooooba, estava com saudade dos filmes preferenciais…

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 6 agosto 2016 às 7:22 pm | Permalink

    Eu tento sempre manter o equilíbrio, Senhorita: um filme mais novo, um filme mais velho, um filme mais novo, um filme mais velho…
    Um abraço.
    Sérgio

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