Um Golpe Perfeito / Gambit

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Nota: ★★½☆

Um Golpe Perfeito, no original Gambit, é uma gostosa, escrachada, salutar gozação do universo dos ricos apreciadores da grande pintura, que transformam as obras de arte em objetos de desejo, de consumo, de ostentação.

Nesse sentido, o filme faz lembrar uma bela linhagem que inclui o elegante, simpático Como Roubar um Milhão de Dólares, de William Wyler (1966), com Audrey Hepburn e Peter O’Toole, e Verdades e Mentiras/F for Fake (1973), de e com Orson Welles, para citar apenas dois.

O roteiro é dos irmãos Ethan e Joel Coen (com base em um conto de Sidney Carroll). Não quiseram, por algum motivo, assumir também a direção da comédia, que ficou a cargo de Michael Hoffman, competente realizador de filmes de vários gêneros: O Outro Lado da Nobreza/Restauration (1995), Um Dia Especial (1996), O Clube do Imperador (2002), A Última Estação (2009).

O resultado é que o filme tem o espírito de sátira feroz, corrosiva, típica dos irmãos Coen, e ao mesmo tempo a solidez das realizações de diretor seguro, maduro.

Três bons atores britânicos que exageram e parecem estar se divertindo à beça

zzgambit2É uma daquelas histórias passadas entre a Inglaterra e a mais poderosa de suas ex-colônias. Uma pequena parte da ação se passa no Texas, num fim de mundo perdido no meio do nada, e a grande maior parte em Londres – o que abre espaço, é claro, para ótimas brincadeiras sobre os estereótipos de como se comportam os rudes, rústicos americanos do Texas e como se comportam os elegantes, educados ingleses.

A ação começa com dois ingleses num carro percorrendo os cafundós do Texas. Um deles, o Major (interpretado pelo veterano Tom Courteney, aparentemente muito à vontade num raro papel cômico), é o narrador da história – assim como outro médico veterano das campanhas do Exército de Sua Majestade na Índia e em outras paragens distantes, o doutor John Watson, é o narrador das aventuras do herói, seu amigo Sherlock Holmes.

O outro é o herói da história, o protagonista sobre o qual o narrador fala: Harry Deane, um erudito expert em artes plásticas, curador da coleção particular de um biliardário, um magnata dos meios de comunicações, fanático por possuir originais de grandes mestres, Lionel Shahbandar. Harry Deane, o empregado que se julga oprimido pelo patrão filho da mãe, e que pretende executar uma vingança terrível contra ele, vem na pele de Colin Firth; o multimilionário, na de Alan Rickman.

Três bons atores britânicos, a quem o americano nascido no Havaí e criado em Idaho Michael Hoffman parece ter dado a seguinte instrução: divirtam-se, rapazes. Exagerem o quanto quiserem.

E, de fato, a sensação que se tem é a de que Colin Firth, Alan Rickman e Tom Courteney se divertiram à beça durante as filmagens. Como se estivessem de férias.

 Diversos elementos diferentes na abertura da narrativa

zzgambit0O início da narrativa é uma maravilha. Misturam-se vários elementos. O Major está começando a contar – com uma voz um tanto empostada e uma prosa bastante literária, cheia de palavras pomposas – a história de Harry Deane, explicando que eles estão na América como parte do plano de vingança contra o desalmado, abusivo, despótico patrão miliardário. E então vemos sequências em que Shahbandar faz de todos os seus empregados gato e sapato, submete-os aos mais grotescos tipos de humilhação.

Enquanto isso, vemos também o Major e Harry Deane percorrendo de carro estradas no meio do gigantesco nada texano – o Major, claro, figura secundária da dupla, assim como Watson em relação a Sherlock, é quem dirige. Os dois ingleses estão à procura de uma pessoa chamada PJ Puznowski.

Vão a um rodeio num determinado lugarejo. Uma das atrações é um bando de micos amestrados que cavalgam cachorros idem. Caros ingleses, sejam bem-vindos ao Texas.

Depois do número circense vem a atração principal: um rodeio mesmo. Solta-se o animal selvagem no picadeiro. Com rápidos golpes absolutamente certeiros, PJ Puznowski domina a fera. O público aplaude e pede bis, o locutor vai à loucura para apresentar aquele monumento do mundo cowboy.

PJ Puznowski tira o chapéu para agradecer ao respeitável público, vira-se pela primeira vez de frente para a câmara, e de dentro do chapéu sai um imensidão de cabelos louros: o campeão dos rodeios PJ Puznowski é interpretado por Cameron Diaz.

Rapidíssima nota muito pessoal: não saberia explicar por que, mas não tenho simpatia por essa moça, filha loura de pai cubano que tem feito bastante sucesso nos últimos 10, 15 anos. Pois devo dizer que Cameron Diaz me pareceu bastante bem no papel da texana simples, direta, trabalhadora braçal para sobreviver e heroína dos rodeios nas horas vagas.

O golpe perfeito é executado bem no início do filme – mas é que as aparências enganam

zzgambit4Logo depois da aparição de Cameron Diaz no papel de PJ Puznowski (e aí estamos com apenas uns 5 minutos de filme), vem uma sequência deliciosa – uma bela sacada narrativa dos irmãos Coen.

Na noite após a apresentação sensacional de PJ no rodeio, o Major e o grande golpista Harry Deane vão ao bar em que a moça está tomando umas. Os dois estão sentados a uma mesa, PJ está de pé no balcão conversando animadamente com um sujeito. Harry Dean vai até lá, interrompe a conversa com a frase que ele julgava fatal, definitiva: – “O que você acha de ganhar meio milhão de libras esterlinas?”

Nos dez minutos seguintes, executa-se, com absoluta perfeição, todo o plano bolado por Harry Deane para se vingar do malvadérrimo patrão e tirar dele 11 ou 12 milhões de libras esterlinas por um suposto quadro para sempre perdido de Monet – na realidade, um trabalho forjado, uma fraude, uma imitação criada pelo Major, homem bom de briga e de falsificação de obras de arte.

Temos então que, quando o filme ainda não chegou aos 20 minutos, o Major está dirigindo o carro em que, no banco de trás, um feliz Harry Deane diz a PJ Puznowski que, em breve, ela receberá, lá no Texas, a sua parte no plano perfeito, meio milhão de libras.

Ué – então a história acabou!

Não. Está só começando. Voltamos ao bar, no momento em que o educadíssimo inglês Harry Deane se aproxima daquela cowgirl simplória do interiorzão bravo do Texas para lhe propor meio milhão de libras.

A frase com que o narrador, o Major-Tom Courteney, brinda o espectador naquele momento é uma maravilha:

– “Apesar de seus muitos talentos, Mr. Deane tinha uma fraqueza específica: ele via o mundo como gostaria que o mundo fosse. E um otimista é simplesmente um homem que não ouviu as notícias.”

A reviravolta, quando o filme ainda não tem sequer 25 minutos, é uma delícia. O espectador verá a comprovação daquele mote “As Aparências Enganam”, com que o cartunista Carlos Estévão brincava semanalmente na revista O Cruzeiro. Nem é tão brutalmente odioso assim o patrão biliardário, nem esperto, sagaz, inteligente é o herói. Na verdade, Harry Dean vai parecer tudo, menos esperto, sagaz, inteligente.

No finalzinho haverá nova reviravolta. Nem precisava. Mesmo antes de ela se revelar, esse Um Golpe Perfeito já tinha valido a pena.

A história original já havia dado origem a um belo filme em 1966

zzgambit8A história original de autoria de Sidney Carroll – um roteirista da velha guarda, indicado ao Oscar por Desafio à Corrupção/The Hustler – já havia sido filmada em 1966; o filme teve o mesmo título original deste aqui, Gambit (no Brasil, chamou-se Como Possuir Lissu). É uma deliciosa comédia com Michael Caine e Shirley MacLaine. Mas a trama deste filme de 2012 tem poucas, pouquíssimas semelhanças com o Gambit original. Nele, o personagem central pretende roubar uma estátua de um milionário – aqui, o plano do protagonista é vender um Monet falso para um milionário. A rigor, a rigor, a única coisa que as duas histórias têm em comum é o fato de que todos os planos dos nossos heróis dão errado. Bem, quase todos.

Não reconheci a atriz que faz a Grandma Merle, a avó de PJ Puznowski. Ela aparece bem rapidamente, nas sequências em que o Major e Harry Dean vão à casa da bela cowgirl – um trailer bem pobre. É Cloris Leachman, que teve papéis marcantes em filmes dos anos 70, como A Última Sessão de Cinema e Daisy Miller, ambos de Peter Bogdanovich, e O Jovem Frankenstein, de Mel Brooks. Por seu papel em A Última Sessão de Cinema, Cloris Leachman ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Um ator que brilha no filme é Stanley Tucci. Ele faz o papel de Zaidenweber, um afetadíssimo expert em artes plásticas que o milionário Shahbandar pretende colocar no lugar de Harry Deane, o herói-anti-herói da história. Stanley Tucci está impagável.

É isso aí: Um Golpe Perfeito é uma gostosa, agradável diversão.

Anotação em julho de 2014

Um Golpe Perfeito/Gambit

De Michael Hoffman, EUA, 2012.

Com Colin Firth (Harry Deane), Cameron Diaz (PJ Puznowski), Tom Courtenay (o Major), Alan Rickman (Lionel Shahbandar), Stanley Tucci (Zaidenweber), Cloris Leachman (vovó Merle)

Roteiro Joel e Ethan Coen

Baseado em história de Sidney Carroll

Fotografia Florian Ballhaus

Música Rolfe Kent

Montagem Paul Tothill

Produção Crime Scene Pictures, ArtPhyl, FilmNation Entertainment, Michael Lobell Productions.

Cor, 89 min

**1/2

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » 45 Anos / 45 Years em 25 Fevereiro 2016 às 3:15 pm

    […] Como é um filme inglês, 45 Anos tem dois atores esplendorosos – Charlotte Rampling e Tom Courteney. Por isso, é um belo, sensível […]

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