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Nota: ★★★½

O Chile é um país fascinante. Foi o primeiro país do mundo a eleger, em eleições livres, diretas, um presidente socialista. E foi também o primeiro – e talvez tenha sido o único – a derrubar uma ditadura nas urnas.

No, do jovem chileno Pablo Larraín, é uma maravilha de filme, tão fascinante quanto o país. Não só porque é extremamente bem realizado, em todos os quesitos, mas também pelo fato histórico excepcional que retrata: como se preparou a campanha publicitária pelo “não” no plebiscito de 1988, que acabaria pondo fim à sangrenta ditadura do general Augusto Pinochet Ugarte.

É um relato ao que tudo indica absolutamente fiel à verdade histórica. Mas o roteirista Pedro Peirano criou personagens fictícios – o principal deles, em torno do qual a trama se estrutura, chama-se René Saavedra, interpretado belissimamente por Gael García Bernal. É, portanto, uma ficção histórica, uma recriação de fotos reais com uma ponta de ficção.

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O roteiro partiu de uma peça do escritor chileno Antonio Skármeta, que ficou internacionalmente conhecido a partir do filme O Carteiro e o Poeta/Il Postino, de 1994, dirigido pelo inglês Michael Radford, em que o francês Philippe Noiret interpreta o poeta chileno Pablo Neruda, e que se baseia no livro Ardiente Paciencia, que Skármeta lançou em 1985.

Curiosamente, apesar de toda a fama de Skármeta, sua peça El Plebiscito jamais foi encenada. Diz o roteirista Peirano:

– “A peça foi o ponto de partida. Havia um único personagem. O que eu fiz foi desenvolvê-la, falar com as pessoas que fizeram a campanha. Foi um processo muito interessante. As pessoas que eram a favor do ‘não’ falavam com facilidade, e os que votaram pelo ‘sim’ sentiam vergonha. O motor para a adaptação foi minha própria curiosidade em saber como foi feita a campanha. No filme, cada personagem representa um grupo inteiro de pessoas da realidade. São como arquétipos.”

Um jovem publicitário que viveu fora do país, e parece apolítico

O filme abre com letreiros que resumem os fatos básicos. O texto de abertura é rápido, simples, didático, esclarecedor – e me pareceu bastante objetivo, o que é algo bastante difícil em relação à ditadura de Pinochet. Transcrevo:

“Em 1973, as forças armadas do Chile deram um golpe de Estado contra o governo do presidente Salvador Allende. O general Augusto Pinochet assumiu o controle do país. Depois de 15 anos de ditadura, Pinochet enfrentou fortes pressões internacionais para legitimar seu regime. Em 1988, o governo convocou um plebiscito. O povo votaria sim ou não à sua permanência por mais oito anos. A campanha duraria 27 dias, com 15 minutos diários de televisão para a opção sim e 15 minutos para a opção não.”

zzno3Na primeira sequência do filme, René Saavedra está apresentando para um grupo de executivos de uma indústria de bebidas um filme publicitário de sua autoria, para um refrigerante daquela empresa. No preâmbulo, antes de mostrar o comercial, ele explica que a idéia é mostrar algo moderno, alegre, voltado para a juventude.

E aí vemos o filmete.

Veremos rapidamente que René é um geninho da publicidade. Não é dito com todas as letras, mas as indicações são de que René é o diretor de criação daquela grande agência de publicidade, uma das maiores do Chile de 1988; o dono da agência, Lucho Guzmán (Alfredo Castro), gosta dele, admira-o. Têm uma boa relação.

(Até faz lembrar a relação entre os patrões Sterling e Cooper com o diretor de criação da agência deles, Don Draper, nas temporadas iniciais de Mad Men.)

Empresário bem sucedido, rico, dono de agência que tem boa carteira de clientes, Guzmán é abertamente pró-Pinochet, pró-ditadura.

Já René parece apolítico. Parece, ou se finge de; é workaholic, pensa no trabalho o tempo todo. Havia passado muitos anos fora do Chile, começara a carreira de publicitário no exterior e voltara não fazia muito tempo. (Esse fato serviria, talvez, para explicar para as audiências latino-americanas que sabem diferenciar sotaques o sotaque mexicano de Gael García Bernal.)

Haverá menções ao pai de René, um homem respeitado pelos opositores do regime militar. E veremos que René está separado de sua mulher Verónica (Antonia Zegers, mulher do diretor Pablo Larraín na vida real), uma ativista de esquerda que volta e meia é presa pelos milicos.

René é então procurado por José Tomás Urrutia (Luis Gnecco), um experiente político de oposição à ditadura que havia sido companheiro e amigo do Saavedra pai, conhecia René desde sempre e sabia de sua competência como publicitário. Urrutia quer que René o ajude na campanha pelo “não”.

Gúzman, o patrão, se assusta com aquilo. Tudo o que não queria na vida era que seu pupilo, seu geninho, seu diretor de criação se envolvesse com “os comunistas”.

Para Gúzman e os demais apoiadores de Pinochet (o filme mostra isso várias vezes, de maneira clara), quem se opunha ao regime era comunista. O patrão pergunta como René conhecia aquele comunista, e René insiste: ele não é comunista, nunca foi comunista, é um democrata-cristão.

O entendimento geral era de que não havia possibilidade de o “sim” ser derrotado

E aqui é preciso lembrar de alguns fatos que o filme, é claro, não fica explicando. O filme mostra essa realidade, em diversos momentos, mas é bom lembrar. Em 1988, após 15 anos de ditadura, centenas de opositores do regime haviam sido assassinados ou estavam presos. Dezenas de milhares haviam fugido para o exílio em diversos países, numa trágica diáspora. Os principais líderes de esquerda da época do governo Allende ou estavam mortos ou fora do país ou na clandestinidade.

zzno4Para o governo americano, que havia apoiado o golpe de 1973, a ditadura de Pinochet tornara-se sangrenta demais; não era mais de bom tom continuar apoiando aquele regime.

Ao ceder às pressões internacionais e admitir a realização do plebiscito, o governo militar tinha plena certeza da vitória do “sim” à permanência de Pinochet. A oposição estava estraçalhada, a imprensa oposicionista ou independente havia sido silenciada, a economia do país ia bem, com farto investimento estrangeiro, o Chile se modernizava.

Não havia possibilidade de o “sim” ser derrotado.

O filme mostra diversos exemplos de como a frase do parágrafo acima é verdadeira.

Havia 17 partidos políticos reunidos lutando pelo “não” – e não eram apenas “os comunistas”, como dizia Guzmán. Até porque o Partido Comunista e diversos outros de esquerda haviam sido banidos. Havia de tudo entre os 17 partidos – da esquerda até a centro-direita, inclusive o Partido Democrata Cristão, que a princípio apoiara o golpe, ou no mínimo não havia se rebelado contra ele.

O regime de Pinochet contava exatamente com os inevitáveis desentendimentos entre as diversas forças desse grande balaio de gatos para vencer. Era algo assim como o gigantesco Golias da direita contra o enfraquecido, pequenino, frágil – e cheio de dissensões – Davizinho do que restara de oposição.

O publicitário diz que a campanha do “não” tem que ser alegre, colorida, musical

A princípio, René resiste aos convites de José Tomás Urrutia. Depois vai a uma reunião daquele bando de gente representando no mínimo 17 correntes diferentes. Mostram para ele o material que haviam preparado para apresentar na TV: cenas reais do Palácio de la Moneda, a sede da Presidência, sendo bombardeado em 13 de setembro de 1973; a polícia e o exército reprimindo violentamente manifestações contra a ditadura; os números de mortos, desaparecidos, exilados.

René diz que aquilo é muito triste, feio e ruim.

Para vencer, diz ele, o ‘não’ deveria fazer filmes alegres, coloridos, com música pra cima, dança.

Há protestos violentos contra o geninho da publicidade. Como assim, alegria? É preciso denunciar os crimes da ditadura, a violência, os direitos humanos pisoteados.

E há ainda os que entendiam que participar da campanha do “não” era fazer o jogo de Pinochet, legitimar um plebiscito que havia sido proposto apenas porque todo o país sabia que o “sim” ganharia.

A própria ex-mulher de René, Verónica, diz isso para ele. Algo do tipo: “Você vai participar dessa farsa, vai ajudar a dar legitimidade a uma fraude”.

Tudo isso que relatei acontece nos primeiros 20 minutos de filme, por aí.

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O filme mostra trechos das campanhas que foram ao ar na TV em 1988

Quando estive em Santiago de Chile pela segunda vez na vida, em meados de 2011 (a primeira havia sido no princípio de 1973, durante o governo Allende, poucos meses antes do golpe), fui com Mary ao sensacional Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, construído entre 2008 e 2009 e inaugurado em janeiro de 2010 pela então presidente Michelle Bachelet, com a presença de dois ex-presidentes do período pós-golpe, Eduardo Frei Ruiz-Tagle e Ricardo Lagos.

No Museu, vimos diversos trechos das campanhas do “sim” e do “não” exibidos durante os 27 dias na TV chilena em 1988.

Reconhecemos, no filme No, alguns trechos que havíamos visto lá no Museu. (Nos créditos finais do filme, aparece, entre as instituições que apoiaram a realização da obra, o logotipo do Museo de la Memoria.)

Uma das genialidades do filme é a forma da mistura de cenas de ficção com as da TV da época

No mescla imagens de agora, do filme de ficção, com muitas imagens de TV da época. Diversas peças publicitárias das campanhas do “sim” e do “não”, como as que estão no Museo de la Memoria, diferentes aparições de Pinochet em cerimônias públicas, cenas da violenta repressão a manifestações de rua.

Embora me considere um espectador razoavelmente atento, não reparei nisto enquanto via o filme: as imagens de 1988 se misturam à perfeição com as imagens filmadas agora, 24 anos depois – o filme é de 2012.

Não fica evidente a diferença entre as imagens – como em geral acontece em filmes que mostram cenas de TV. É exatamente o contrário.

Isso é uma das genialidades do filme. O grande pulo do gato, em termos visuais.

O realizador Pablo Larraín e seu diretor de fotografia Sergio Armstrong tiveram a grande sacada de fazer seu filme usando não uma câmara digital moderníssima, de altíssima definição, mas com uma câmara de vídeo U-matic 3:4 fabricada em 1983.

zzno8Por causa disso, a imagem do filme aparece quase quadrada; numa TV widescreen, dessas de hoje, o filme ocupa apenas o centro da tela, deixando nos lados grandes faixas pretas. (Quando começamos a ver No,  até achamos que o player ou a TV poderiam estar com algum defeito.)

Essa belíssima sacada faz com que as cenas de ficção, filmadas agora, se integrem à perfeição com as imagens feitas em 1988.

Para misturar ainda mais a recriação da realidade histórica, muitos dos artistas que participaram da campanha do “não” quase um quarto de século atrás aparecem como extras no filme.

O locutor de TV que apresentou os comerciais do “não” faz o papel dele mesmo.

A cantora Isabel Parra, filha de Violeta, aparece rapidamente no papel de si mesma.

Patricio Aylwin, que viria a ser o primeiro presidente eleito após a queda da ditadura (1990-1994), aparece tanto em cenas de 1988 quanto em feitas agora.

Pablo Larraín disse em entrevistas – com algum exagero, talvez, mas ele tem todo o direito – que às vezes ele mesmo não sabe dizer que tomada é de 1988 e que outra é do seu filme.

“Cresci nos anos 80, durante a ditadura”, ele disse numa entrevista. “O que víamos na televisão, esse vídeo de baixa definição, era um imaginário sujo que não podia registrar de maneira perfeita. A memória coletiva está cheio dessas lembras de escuridão, de impureza. Filmar com as câmaras de cinema ou com as digitais de alta definição atuais teria criado uma distância com as imagens da época. Era importante essa fusão e agora ao vê-la não sei bem qual é o material nosso e qual é o da TV.”

O diretor é filho de dois políticos de direita

Larraín é muito jovem. Nasceu em Santiago em 1976, três anos após o golpe – estava, portanto, com apenas 35 quando lançou este No.

É interessantíssimo saber que o pai dele, Hernán Larraín, foi senador e presidiu a UDI, Unión Demócrata Independiente, um partido político de direita fundado em 1983, durante, portanto, a ditadura, cinco anos antes do plebiscito. E que sua mãe, Magdalena Matte, foi ministra de Habitação e Urbanismo no governo de Sebastián Piñera, o primeiro presidente de direita a ser eleito desde 1958, e que sucedeu Michelle Bachelet, a quarta a ser eleita presidente consecutivamente pela Concertación de Partidos por la Democracia, após o fim da ditadura.

zzno9No é o quarto filme dirigido por Pablo Larraín. E é o último de uma trilogia sobre a ditadura de Pinochet. Post Mortem, de 2010, fala sobre a origem da ditadura; Tony Manero, de 2008, sobre o momento mais violento daqueles 15 anos, enquanto No fecha o ciclo com os estertores do pinochetismo.

Apesar de tão novo, Larraín já é um realizador respeitado. A HBO confiou a ele a direção geral de uma de suas séries produzidas na América Latina, Prófugos; a primeira temporada é de 2011, e a segunda, de 2013.

Os filmes anteriores do diretor para o cinema haviam sido produções com orçamentos mais baixos. Quando perceberam que o filme exigiria um orçamento alto, Pablo e seu irmão Juan de Diós Larraín – o produtor – procuraram se associar a empresas estrangeiras. A americana Participant Media entrou no projeto, e o filme é uma co-produção Chile-EUA-França-México.

Para derrotar a ditadura de direita, foi preciso usar a arma capitalista da publicidade

Uma das muitas características fascinantes de No é a demonstração de que, para derrotar a ditadura, foi necessário que a oposição, aquele amplo arco de forças políticas diferentes entre si, adotasse a linguagem da então moderna publicidade. Não dá para afirmar, é claro, mas o filme dá a entender que dificilmente o “não” teria vencido se tivessem prevalecido as idéias mais puras e duras de fazer uma campanha na base de denunciar a violência do regime contra quem discordava dele.

E o fato é que a campanha do “não” se baseou em boa parte naquela coisa de jingles alegres, gente dançando, cantando. Foi com as imagens que horrorizaram a velha esquerda que a direita fascista foi vencida. Foi com a publicidade, essa arma capitalista, que a maioria do povo chileno apeou os militares do poder.

No foi a obra escolhido pelo Chile para participar da corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2013. E o filme conseguiu a indicação – se não me engano, a primeira indicação de um filme chileno ao prêmio. Concorreu com War witch, do Canadá, O Amante da Rainha, da Dinamarca, Kon-tiki, da Noruega, e Amor, da Áustria, que venceu.

É uma beleza de filme.

Agora gostaria ir atrás de Post Mortem e Tony Manero.

Anotação em agosto de 2013, postada na véspera do 40º aniversário do golpe militar

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De Pablo Larraín, Chile-EUA-França-México, 2012

Com Gael García Bernal (René Saavedra), Alfredo Castro (Lucho Guzmán), Luis Gnecco (José Tomás Urrutia), Néstor Cantillana (Fernando), Antonia Zegers (Verónica Carvajal), Marcial Tagle (Alberto Arancibia), Pascal Montero (Simón Saavedra), Jaime Vadell (ministro Fernández), Elsa Poblete (Carmen), Diego Muñoz (Carlos), Roberto Farías (Marcelo)

Roteiro Pedro Peirano

Baseado (em parte) na peça teatral El Plebiscito, de Antonio Skármeta

Fotografia Sergio Armstrong

Música Carlos Cabezas

Montagem Andrea Chignoli

No DVD. Produção Fabula, Participant Media, Funny Balloons, Canana Films. DVD Imovision

Cor, 118 min

***1/2

Um Comentário

  1. Postado em 10 setembro 2013 às 5:58 pm | Permalink

    Também gostei muito de “No”, Sergio, e da sua sacada sobre uma arma do capitalismo ser usada para por fim à ditadura de direita. Ferocidade repele. Não foi à toa que a vitória do Lula em 2002 deu-se graças à criação do “Lulinha Paz e Amor”, substituindo o visual de sindicalista esbravejador.

Um Trackback

  1. […] o país na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro – e obteve a indicação. Concorreu com o chileno No, o canadense War witch, o norueguês Kon-tiki e Amor, de Michael Haneke, indicado pela Áustria, […]

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