O Palhaço Que Não Ri / The Buster Keaton Story

Nota: ★½☆☆

A vida de Buster Keaton, um dos maiores gênios da comédia de todos os tempos, parece ter sido riquíssima, fascinante. Num curto espaço de tempo, ele saiu da pobreza para os píncaros da glória. Infelizmente, a cinebiografia dele, feita em 1957, nove anos antes de sua morte, não me pareceu um bom filme.

The Buster Keaton Story, no Brasil O Palhaço Que Não Ri, é um melodramão esquemático demais, convencional demais. E, embora tenha recebido a chancela do próprio autografado – Buster Keaton aparece nos créditos iniciais como conselheiro técnico – não parece muito fiel à história real. Parece uma simplificação.

Bingo!

Depois que escrevi os dois primeiros parágrafos, fui checar os alfarrábios. E eles confirmam minha sensação. O livro The Paramount Story diz que o filme distorceu muito da comédia e da tragédia que foram abundantes na vida do artista, e jogou fora o drama real para dar espaço a um roteiro novelesco.

E Leonard Maltin, que dá ao filme 1.5 estrela em 4, exatamente a cotação que eu havia dado, diz: “Ficção fraca ignora os fatos sobre o astro do mudo Keaton, criando os seus próprios. Mais vida privada do que momentos na tela são detalhados, com Blyth como seu verdadeiro amor e Fleming como uma sereia. Pouca comédia nessa história de um grande comediante.”

Blyth é Ann Blyth (na foto abaixo); Fleming é Rhonda Fleming. O próprio Buster Keaton é interpretado por Donald O’Connor, que, por grande coincidência (ou não), foi um dos três principais atores de Cantando na Chuva, o clássico dos clássicos dos musicais, que também retrata a Hollywood na passagem do cinema mudo para o sonoro.

Donald O’Connor (na foto à esquerda) não está mal como Buster Keaton (na foto à direita), de forma alguma, e Ann Blyth, além de atriz correta, tem uma beleza fulgurante que ilumina a tela. A culpa de o filme ser ruim não é deles. É do roteiro, e da direção.

E o fato é que fico contente por meu faro ter indicado que o filme não é fiel à história real.

Sidney Sheldon, o autor de um punhado de best-sellers, mostra que não é um bom diretor

O roteiro foi escrito por Sidney Sheldon e Robert Smith; a direção é de Sidney Sheldon. E não se trata de um homônimo: é o mesmo Sidney Sheldon autor de 18 romances, todos com lugar na lista dos best-sellers do New York Times (A Outra Face, O Outro Lado da Meia-Noite, A Ira dos Anjos, Se Houver Amanhã).

Os livros de Sheldon (1917-2007) venderam mais de 300 milhões de cópias em todo o mundo, com traduções para 51 idiomas distribuídas em cerca de 180 países. É tido como um dos dez autores que mais venderam livros em todo o mundo e, segundo o Guinness, é “o escritor mais traduzido do mundo”. Prolífico, escreveu também 250 roteiros para a televisão, seis peças de teatro e os roteiros de 25 filmes.

Dirigiu apenas três filmes. Este aqui é um desses pouquíssimos.

Nunca li uma página de Sidney Sheldon na vida, certamente influenciado pelo fato de que todo mundo o considera um escritor menor. Não posso dizer nada sobre o escritor de best-sellers, mas depois de ver The Buster Keaton Story tenho o direito de achar que o cara não é um bom diretor.

No início, um desolador retrato de uma família muito pobre

Logo após os créditos iniciais, temos um texto introdutório: “Esta é a história triste, feliz, amorosa de um dos imortais do cinema mudo”.

A ação começa em 1904, em Nova York, onde Os Três Keatons se apresentam em teatros de vaudeville, em espetáculos com diversos artistas. Os Três Keatons – Joe (Dave Willock), sua mulher Myra (Claire Carleton) e seu filho Buster, aí com uns 7 anos (Larry White) – são os últimos nomes dos cartazes à porta dos teatros.

Vemos um número dos Três Keatons. O garotinho Buster está em cima de uma mesa. A mesa quebra – acidentalmente, é claro –, o garoto cai no chão desacordado, e a platéia vem abaixo. Enquanto papai e mamãe Keaton tentam ver exatamente o que houve com o garoto, o diretor do espetáculo passa por eles e diz que o quebrar da mesa e a queda do garoto têm que entrar no show, dali em diante.

Os Keaton chegam a um pensão, pedindo um quarto. Buster está faminto, e os pais autorizam que ele vá para a grande mesa em que os hóspedes se juntam para a refeição. O garoto tem dificuldade em conseguir pegar um pedaço de carne. Quando finalmente pega, atraca-se com a comida, sem usar talheres, como um pequeno selvagem.

Um rápido, desolador quadro de uma família pobre, muitíssimo pobre, enfrentando com dureza a tarefa de ganhar o pão de cada dia.

Corta para 1920. Manchetes de jornais informam que o cinema – que se espalha feito uma praga pelo país todo, pelo mundo todo – está matando o teatro de variedades, os espetáculos de vaudeville. E que muitos artistas do vaudeville estão indo para Hollywood tentar a sorte no cinema.

Vemos então Buster Keaton, já interpretado por Donald O’Connor, chegar a um estúdio de Hollywood, o Famous Studio. Tem que usar um estratagema para conseguir chegar lá, porque os guardas têm ordens de impedir a entrada de quem não foi convidado – se não fosse isso, os estúdios seriam invadidos por hordas de pessoas procurando emprego.

Em sua primeira visita ao Famous Studio, consegue atrair as atenções da chefe da equipe de casting, a bela e seriíssima Gloria Brent (o papel de Ann Blyth), o ódio eterno de um dos mais respeitados diretores do estúdio, Kurt Bergner (Peter Lorre, na foto abaixo), e a admiração do chefão, do patrão, Larry Winters (Larry Keating).

Uma única visita a um estúdio, e o Buster Keaton do filme já sai de lá com um contrato para atuar e dirigir seus próprios filmes.

A vida, na ficção de Sidney Sheldon, é muito simples.

O roteiro simplifica tudo; as três esposas da vida real viraram uma só no filme

Na verdade, Buster Keaton (1895-1966) começou a carreira no cinema em 1917, com o grupo de Fatty Arbuckle. Trabalhou como ator para a Comic Film Corp., sob a supervisão de Joseph Schenck. Naquele mesmo ano, mudou-se, junto com a companhia, para a Califórnia. Entre 1917 e 1919, apareceu em 15 curtas, de apenas dois rolos, produzidos pela Comic. Em 1918, alistado no exército, passou 7 meses na França, na época final da Primeira Guerra. Em 1919, o mesmo Schenck ofereceu a Keaton a chance de ter a sua própria companhia produtora dentro da então Metro Pictures Corp.

Ali ele fez, entre 1920 e 1923, 19 curtas de dois rolos, e, entre 1923 e 1928, 10 longa-metragens.

Antes do cinema, sim, de fato ele havia trabalhado, junto com os pais, desde criancinha, no vaudeville.

Não se trata de exigir que uma cinebiografia, um biopic, como dizem os americanos, seja extremamente, rigorosamente fiel aos fatos, se atenha a todos os detalhes. Não é isso. A questão é que o roteiro deste The Buster Keaton Story simplifica absolutamente tudo.

Assim como simplificou o início da carreira no cinema, o filme irá simplificar o sucesso – o auge, o apogeu – e também a queda. Irá simplificar a vida afetiva, e a própria entrega ao álcool.

Entre 1921 e 1940, Buster Keaton teve, na vida real, três casamentos. Sidney Sheldon e seu co-roteirista simplificaram as três mulheres em um único personagem, o de Gloria Brent, feito por Ann Blyth.

Na ficção simplificada e simplista de Sheldon, Buster Keaton bate o olho na maior estrela do fictício Famous Studio – Peggy Courtney, o papel de Rhonda Fleming (na foto abaixo) – e imediatamente a convida para jantar. Como essa Peggy Courtney é sobretudo uma alpinista social, uma absoluta falta de caráter que faria tudo para subir na vida, e percebe que o rapaz está chegando com a bola toda, aceita o convite.

E então Buster Keaton põe na cabeça que basta comprar uma gigantesca mansão e pedir a estrela em casamento. Ao saber que a moça se engraçou por um barão europeu, pega não uma, mas duas garrafas de destilado e vira alcoólatra.

Na vida simplificada pela ficção de Sidney Sheldon, não há processos. É tudo de primeira. Buster mergulha na garrafa com a mesma facilidade com que depois sairá dela.

A vida da pobre Gloria Brent, resultado da compressão de três mulheres em uma, então, tadinha, é um eterno mergulhar repentino.

No filme, a carreira de Keaton acaba com a chegada do cinema falado. Não foi assim

De fato, o ápice da carreira de Keaton foi entre 1920 e 1928. Foi nesse período que ele criou os filmes que o tornaram um dos maiores comediantes do cinema – Marinheiro por Descuido/The Navigator, O Vaqueiro/Go West, Boxe por Amor/Battling Butter, Amores de Estudante/College, e, sobretudo, A General, tido por muitos como sua obra-prima, lançado em 1927 – exatamente o ano de O Cantor de Jazz, que inaugurou a era do cinema falado, dos talking movies.

Porém, ao contrário do que quer fazer crer esta sua cinebiografia, a carreira cinematográfica de Buster Keaton não acabou de repente, com a chegada do som. Em 1928, ele de fato dissolveu sua própria companhia, e tornou-se assalariado da MGM. Em 1933, anunciaria que estava se aposentando nas telas, mas, entre 1934 e 1939, estrelaria 16 comédias para a Educational Pictures, e, entre 1937 e 1950, trabalharia intermitentemente como escritor de gags para a MGM. E a partir de 1949 começaria a trabalhar na televisão.

No mundo do rock’n’roll, parece valer a lei, expressa numa letra especialmente angustiada de Neil Young, de que é melhor se queimar totalmente do que ir desaparecendo aos poucos, virando cinza. Aparentemente, Sidney Sheldon também prefere a ficção assim. Mesmo que com isso a ficção passe longe da vida.

Quatro anos antes de morrer, Buster Keaton recebeu emocionante homenagem em Paris

Ao realizar a cinebiografia do outro imenso gênio da comédia muda, Chaplin, de 1992, o ator e realizador inglês Richard Attenborough deu grande importância à cerimônia do Oscar de 1972 em que seu conterrâneo Charlie Chaplin recebeu um prêmio honorário “pelo incalculável efeito que obteve em transformar o cinema na forma de arte do século”.

Fez bem, Sir Richard Attenborough. Deve ter sido de fato um momento especialmente emocionante na vida do inglês criado na miséria da Londres do final do século XIX ver aquela audiência toda, diretores, atores, roteiristas, técnicos, todas as pessoas que fazem cinema nos Estados Unidos, se pondo de pé para aplaudi-lo – isso depois de o país o ter considerado estrangeiro indesejável por suas supostas crenças comunistas.

Enquanto via The Buster Keaton Story, um filme feito em 1957, me lembrei que naquela época Chaplin realizava seus últimos filmes. Luzes da Ribalta/Limelight – a história da queda de um grande veterano comediante – é de 1952; Um Rei em Nova York, sua penúltima realização, é exatamente de 1957. (Ele se despediria em 1967 com A Condessa de Hong Kong, com Marlon Brando e Sophia Loren.)

É bem possível que, quando e se vier a ser feita uma cinebiografia de Buster Keaton digna dele, de sua obra fabulosa, de seu talento e criatividade, uma cerimônia tenha especial importância, assim como no filme Chaplin teve importância a cerimônia dos Oscars de 1972.

A festa não aconteceu nos Estados Unidos, e sim em Paris, a cidade que é sinônimo de cinema. Aconteceu em 1962, cinco anos após a realização de The Buster Keaton Story e quatro anos antes da morte do artista, precisamente na Cinémathèque Française, ao final de uma grande retrospectiva da obra de Buster Keaton.

(E, entre parênteses, como eu poderia deixar de agradecer a Mary por ter me levado um dia àquela cidade? Ir a Paris sem ir à Cinémathèque é pior que ir a Roma e não ver o papa. Então, estando lá, claro que fomos à Cinémathèque, onde vimos um Bergman seguido de debates.)

Creio que Jean Tulard esteve lá, naquele dia em que a cidade sinônimo de cinema homenageou o velho Buster Keaton. Eis o que escreve o mestre, em seu Dicionário de Cinema:

“Em 1962, ao apresentar sua obra em Paris, no espaço da Cinemateca, Keaton entrou por uma porta, enquanto era esperado por outra; pegou o microfone que lhe deram e o utilizou como um barbeador elétrico: com alguns gestos, resumiu toda a sua arte. A ovação que lhe foi feita por um público bastante jovem de cinéfilos foi a maior e mais espontânea já registrada na Cinemateca. E também a mais merecida.”

Anotação em outubro de 2010

O Palhaço Que Não Ri/The Buster Keaton Story

De Sidney Sheldon, EUA, 1957.

Com Donald O’Connor (Buster Keaton), Ann Blyth (Gloria Brent),

e Larry Keating (Larry Winters), Rhonda Fleming (Peggy Courtney), Peter Lorre (Kurt Bergner), Richard Anderson (Tom McAffee), Dave Willock (Joe Keaton), Claire Carleton (Myra Keaton), Larry White (Buster Keaton aos 7 anos)

Roteiro Sidney Sheldon e Robert Smith

Fotografia Loyal Griggs

Música Victor Young

Produção Paramount.

P&B, 91 min.

*1/2

 

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 15 dezembro 2012 às 9:37 pm | Permalink

    Taí um filme que eu sempre quis ver. Buster Keaton era gênio.

6 Trackbacks

  1. […] personagens femininas do filme são o que mais noir pode haver. Dorothy (a personagem da belíssima Rhonda Fleming), a mulher do herdeiro Walter Kyne, é uma serpente letal, uma serpente mais venenosa do que as que […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Mildred Pierce em 16 junho 2013 às 4:47 pm

    […] melhor fotografia, melhor atriz para Joan Crawford, melhor atriz coadjuvante para Eve Arden e Ann Blyth. Só Joan Crawford ganhou o prêmio, mas o filme é sem dúvida um dos melhores melodramas já […]

  3. […] em que Norma joga cartas em sua mansão com um grupo de amigos, eles são representados por Buster Keaton, H. B. Warner e Anna Q. Nilsson, que na vida real foram contemporâneos e companheiros da atriz […]

  4. […] ainda não passados 20 minutos de filme, os três filhos já aparecem interpretados pelos atores Donald O’Connor (Tim Donahue, o primogênito), Johnnie Ray (Steve Donahue) e Mitzi Gaynor (Katie […]

  5. Por 50 Anos de Filmes » Festa Selvagem / The Wild Party em 28 janeiro 2015 às 2:17 pm

    […] Star is Borb (1937, depois 1954, depois 1976). Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard (1950). O Palhaço Que Não Ri/The Buster Keaton Story (1957). A Malvada/All About Eve (1950), para citar só alguns que vêm rapidamente à […]

  6. Por 50 Anos de Filmes » A General / The General em 15 dezembro 2015 às 1:59 pm

    […] Estranho: não me lembro de ter ficado tão absolutamente impressionado, mesmerizado com o filme quando o vi pela primeira vez, em 1971, segundo minhas anotações. Vi no cineclube bissexto que funcionava no Equipe, se não me engano dirigido pelo Serginho Groisman, na época em que o cursinho ocupava o prédio do Des Oiseaux, na Rua Caio Prado; Suely fazia o cursinho lá, e vimos lá alguns filmes, como Os Deuses Malditos, de Visconti, Blow Up, de Antonioni, e esta pérola de Buster Keaton. […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*