Reencontrando a Felicidade / Rabbit Hole

Nota: ★★★½

Anotação em 2011: Belo, duro, sério, cortante, nada contemporizador filme do cinema independente americano sobre perda, e a dificuldade de continuar tocando a vida depois.

Baseia-se numa peça de teatro; o próprio autor, David Lindsay-Abaire, escreveu o roteiro – um roteiro simples, direto, quase seco, sem floreios, sem fogos de artifício quaisquer.

Começa mostrando o dia-a-dia de uma mulher em uma daquelas belas casas de subúrbio, a uma distância confortável da agitação da grande metrópole. Não se especifica qual é o lugar, mas deve ser Connecticut, de onde os maridos saem pela manhã para tomar o trem até Nova York e retornar à noite, enquanto as mulheres, muitas delas, ainda hoje ficam em casa.

A mulher, Becca (o papel de Nicole Kidman), cuida das flores do jardim, quando a narrativa começa. Cuida das flores com cuidados que chegam perto da mania, na acepção psiquiátrica do termo. Uma vizinha vai até o jardim de Becca, convidá-la para jantar em sua casa naquela noite. Becca agradece, mas é evidente que não aceitará o convite. A vizinha, sem querer, pisa numa das florzinhas que Becca acabava de plantar, e isso a deixa irritada.

O marido, Howie (interpretado pelo ótimo Aaron Eckhart), chega do trabalho. Não há beijo ou abraço. Becca mais tarde conta do convite da vizinha. Não se tratam mal, marido e mulher – mas não há demonstração de afeto; há um clima de tensão.

Com uns cinco minutos de filme, é de noite, Becca aproxima-se da sala de estar, percebe que Howie está vendo um filme em seu celular, e então ela não entra na sala – volta atrás, sem fazer ruído.

No filmete no celular, há uma criança.

Howie e Becca perderam seu único filho, Danny.

Oito meses depois, marido e mulher vivem vergados sob o peso da dor

As informações vão vindo aos poucos para o espectador, à medida em que a narrativa vai acompanhando o dia-a-dia de Becca e Howie. A conta-gotas, vamos ficando sabendo que Danny morreu oito meses atrás, quando tinha quatro anos de idade; seu cachorro atravessou a rua do subúrbio calmo, pacífico, ordeiro, Danny correu atrás, um carro o atropelou.

Passaram-se oito meses, e Howie e Becca não se recuperaram, nem um pouco. Vivem amargurados, vergados pelo peso da dor. Howie tenta matar a saudade observando sempre o filmete em que o filho aparece sorridente, brincando. Becca é um vulcão de dor, revolta, desânimo.

Freqüentam um grupo de terapia; numa sessão, em que outro casal fala da sua própria perda, e fala de Deus – Deus sabe o que faz, nós não sabemos. Becca não se contém, solta frases agressivas, duras, contra Deus, a fé em Deus, os que acreditam em Deus.

Uma irmã grávida, a mãe que também perdeu um filho

Somos apresentados à família de Becca. Sua irmã mais nova, Izzy (Tammy Blanchard), é muito diferente dela; é jovial, alegre. Segundo Becca, Izzy recusa-se a crescer, quer ser uma eterna adolescente. Izzy está agora namorando um músico, Auggie (Giancarlo Esposito), e, embora o namoro esteja no começo, está grávida.

Tudo é motivo de irritação para Becca – a gravidez da irmã não poderia deixar de irritá-la.

A mãe delas, Nat (Dianne Wiest, numa interpretação extraordinária), teve ela própria a sua perda: um filho dela morreu aos 30 anos de idade. Becca se irrita profundamente quando a mãe faz qualquer tipo de comparação entre a perda do filho dela e a perda de Danny.

Não há outras infelicidades. Basta uma

Há outros bons filmes recentes, ou relativamente recentes, sobre perda e a dureza da vida para levar depois – alguns falando especificamente sobre a perda de filho, essa coisa anti-natural, que vai contra a lei normal da natureza. O que me impressionou muito neste Reencontrando a Felicidade/Rabbit Hole é que, aqui, a perda de Danny vem desacompanhada de outras infelicidades. Em As Coisas Impossíveis do Amor, por exemplo, o casal que perde a filhinha – interpretado por Natalie Portman e Scott Cohen – tem que enfrentar, além da dor da perda em si, as dificuldades do relacionamento da mulher com o filho do primeiro casamento do marido.

Em Busca de uma Nova Chance/The Greatest também parte da perda de um filho. O casal interpretado por Pierce Brosnan e Susan Sarandon acabou de perder o filho mais velho, um garoto inteligente, promissor, aí de uns 19 anos de idade – mas tem que enfrentar, além de tudo, o fato perturbador de que o filho deixou uma namorada grávida, o papel da maravilhosa Carrey Mulligan.

Em Vida Que Segue/Moonlight Mile, um casal (interpretado por Dustin Hoffman e a mesma Susan Sarandon) que vive confortavelmente na Nova Inglaterra perde de repente a filha, uma jovem que estava noiva, com o casamento marcado, e passa a abrigar em casa o noivo da filha.

São três filmes muito bons, estes três de que me lembro que abordam o mesmo tema da perda – mas, como já foi dito, em todas aquelas tristes histórias os pais são obrigados a enfrentar outros problemas, além da dor da perda em si.

Não quero, evidentemente, comparar perdas, dizer que uma pode ser mais pesada que outra. Só quis realçar que neste filme aqui o casal tem apenas um tema para enfrentar: a perda em si. Não tem outras preocupações além dela.

É uma dor imensa, a que Becca e Howie carregam – e que as interpretações de Nicole Kidman e Aaron Eckart realçam, tornam ainda mais vívida, mais dilacerante.

Há pouca explosão; é tudo em tom menor, com mais elipses que explicitude

Uma outra característica do roteiro que impressiona é que tanto Becca quanto Howie enfrentam a dor, na maior parte do tempo, de uma forma surda, abafada. Becca aqui e ali tem explosões, demonstra sua dor, sua irritação – mas são explosões quase em tom menor. Howie joga seu desespero nas lembranças do filho guardadas no telefone celular – ou então no esforço agressivo das partidas de squash com o colega e amigo.

Howie terá ainda instantes de tentação com a colega de grupo de terapia, Gaby (Sandra Oh). A forma com que o autor e roteirista David Lindsay-Abaire e o diretor John Cameron Mitchell mostram o relacionamento de Howie e Gaby é não menos que brilhante. É tudo em tom menor, mais em elipses do que em explicitude.

E Becca terá o reencontro com um rapazinho que vê num ônibus escolar, e passa, incontrolavelmente, a seguir. Esse reencontro é de onde vem o título original da peça e do filme, Rabbit Hole, toca do coelho.

Há pouca explosão, na relação entre marido e mulher, oito meses depois da perda do filho. A dor é surda, pesada, onipresente, com pouca explosão.

Um ótimo elenco, belas interpretações. Dianne Wiest é o maior destaque

Nicole Kidman recebeu indicações ao Oscar 2011 e ao Globo de Ouro pela sua interpretação de Becca. (Ao todo, o filme recebeu 20 indicações a prêmios.) É uma bela interpretação, assim como a de Aaron Eckhart. Mas, na minha opinião, a melhor atuação de todas, neste filme de ótimo elenco, é a da veterana Dianne Wiest (foto abaixo). É uma interpretação soberba, emocionante.

Embora seja um detalhe menor, já que este é um filme belo e sério, não consigo deixar de registrar que o que mais me impressionou quanto a Nicole Kidman foi como seu rosto está diferente do original. Há momentos em que a achei simplesmente irreconhecível; não conseguia ver naquele rosto dela os traços da Nicole Kidman que conhecia. Por que tanta plástica, meu Deus do céu e também da terra? Uma mulher tão bela, tão jovem. Nasceu em 1967, estava com apenas 43 anos quando o filme foi feito. Tudo bem que não poderia ter exatamente o mesmo rosto que tinha por exemplo em Terror a Bordo/Dead Calm, de 1989, quando tinha ridículos 22 aninhos, mas precisava mudar tanto? Na tentativa de esconder a passagem do tempo, perdeu a beleza – ou, pelo menos, jogou fora a beleza que tinha.

Mas eu não tenho nada a ver com isso.

A decisão de fazer o filme foi de Nicole Kidman, e ela é uma das produtoras

Algumas informações mais importantes que minha opinião pessoal sobre as plásticas de La Kidman:

A peça estreou na Broadway em 2006. Segundo o IMDb, Nicole Kidman não viu a peça, mas, depois de ler críticas, pediu a um produtor que entrasse em contato com o autor, David Lindsay-Abaire, para negociar a venda dos direitos. Nicole é uma das produtoras do filme, e, ainda segundo o IMDb, foi ela escolheu Aaron Eckhart para fazer o papel de Howie, o marido. Pode não saber escolher o cirurgião plástico, mas sabe escolher bem as histórias que deseja transformar em filme e o ator com quem vai contracenar.

John Cameron Mitchell, um texano nascido em 1963, tem no currículo quase 30 filmes e/ou episódios de TV como ator. Este aqui foi o terceiro filme que dirigiu; não vi os anteriores, Hedwig – Rock, Amor e Traição, de 2001, e Shortbus, de 2006. Mas, pelo que demonstra aqui, tem talento. E tinha um motivo pessoal para se envolver com esta triste história. Diz o IMDb que, quando tinha 14 anos, Cameron Mitchell perdeu um irmão mais novo, de dez anos, morto por um problema cardíaco.

O filme teve um orçamento de US$ 5 milhões – uma bagatela, para uma produção americana. Tom Cruise, o ex-senhor Nicole Kidman já ganhou o dobro disso por participação em cada um de vários filmes que estrelou.

É uma maravilha ver que uma estrela do porte de La Kidman usa seu prestígio e seu talento em uma produção independente como esta.

Infelizmente, no entanto, o filme não fez nem um pouco do sucesso que merecia. Rendeu até agosto de 2011 US$ 3,409 milhões.

Atenção: a partir daqui, um spoiler

O título brasileiro do filme, Reencontrando a Felicidade, é imbecil. Indica que se trata de uma história de superação – e o filme não é uma história de superação, até porque não se supera a morte de um filho.

É um belo filme, que não inventa um happy ending para satisfazer a maioria do público chegada a isso. O final da narrativa, a forma com que os autores concluem a narrativa é um absoluto brilho.

Reencontrando a Felicidade/Rabbit Hole

De John Cameron Mitchell, EUA, 2010

Com Nicole Kidman (Becca), Aaron Eckhart (Howie), Dianne Wiest (Nat), Miles Teller (Jason), Tammy Blanchard (Izzy), Sandra Oh (Gaby), Giancarlo Esposito (Auggie), Jon Tenney (Rick)

Roteiro David Lindsay-Abaire, baseado em sua peça teatral

Fotografia Frank G. DeMarco

Música Anton Sanko

Produção Olympus Pictures, Blossom Films, Odd Lot Entertainment. Blu-ray e DVD Paris Filmes

Cor, 91 min

***1/2

Título em Portugal e na França: Rabbit Hole

4 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 5 novembro 2011 às 8:42 pm | Permalink

    Meu comentário contém SPOILER:

    Eu não gostei muito desse filme; não que ele seja ruim, só achei pesado, depressivo. Nesses que vc citou existiam outras atividades, coisas paralelas acontecendo que não deixavam as histórias muito pra baixo (com exceção de Vida Que Segue, que lembro vagamente de ser um pouco arrastado tb). Mas este aqui vai o tempo todo na mesma toada. A personagem da irmã da Nicole até que tenta trazer um pouco de frescor ao filme, mas é podada o tempo todo. Não é mais permitido ficar alegre naquela família.

    Me irritou ela querer ficar “amiguinha” do rapaz que atropelou o filho deles. Não consigo me ver com essa capacidade de perdão, acho meio loucura essa coisa de querer conhecer e manter contato com o algoz. Tanto que ela escondeu a situação do marido até onde pôde.

    Mas o filme mostra algumas coisas interessantes como o fato de depois de 8 meses ela ainda não sentir vontade de transar (e o marido sim). Mais um exemplo de como homens e mulheres reagem de modo diferente a determinadas situações.
    Gostei de ver a Sandra Oh, ainda que num papel pequeno. Ela é ótima.

    Em suma: o filme é bom, só que é um super drama, tem que ter estômago. Não é meu tipo de filme preferido; eu gosto de dramas, mas de dramas leves, digamos assim, não os desse tipo “vamos ver quem está sofrendo mais.” Sem querer fazer pouco caso da dor imensurável que é perder um filho, claro.

    No mais, concordo com tudo o que vc disse sobre o excesso de plástica da Nicole Kidman. Ela vem sendo sofrendo transformações no visual há muitos anos, praticamente desde que ficou famosa. Alisou o cabelo, mudou o desenho das sobrancelhas e por aí vai. Olha o tamanho que era a boca dela, e olha como está agora. Haja preenchimento labial!

  2. Postado em 10 novembro 2011 às 6:53 am | Permalink

    Adorei Reencontrando a felicidade. A melhor cena acontece quando o casal faz terapia em grupo e alguém diz que o filho morreu porque Deus precisava de um anjo, então a personagem de Nicole Kidman diz estalando o dedo: Se ele precisava de um anjo, então porque não fez assim?

  3. Renan Machado Guerra
    Postado em 17 novembro 2011 às 9:36 pm | Permalink

    Achei o texto ótimo! O filme é realmente incrível. Minhas cenas preferidas são a do grupo, em que ela comenta sobre Deus, que você mencionou, e a cena em que Nicole e Diane conversam no porão, e Diane, a mãe, compara a perda de um filho com um tijolo que se carrega para sempre no bolso, acho essa passagem de uma beleza sórdida, de um dor pesada.

  4. Ivan
    Postado em 20 junho 2012 às 7:40 pm | Permalink

    Acabei de assistir e vim aqui. Gostei muito,
    muito mesmo deste filme. É o tipo de filme
    que “faz minha cabeça”,Gosto de dramas assim,
    não diría pesado mas, forte.
    Ótimas atuações da Nicole e do Aaron e, como
    voce disse, Sergio, sobretudo da Dianne.
    E, é aí, que fico me perguntando, como pode
    um filme deste porte, arrecadar até aquela
    data, essa quantia irrisória e, Avatar, ser
    aquele estrondo? Não gostei de avatar e, nem vi até o fim. Tudo certo, milhões gostaram
    mas, será que foi tão mais fácil gostar dele
    e, deste aqui, não?? Certas coisas (como diz
    Lulu Santos)sinceramente, eu não sei dizer.
    Assim como a Jussara, tbm não gostei dela
    querer ficar amiga do “atropelador”, é uma
    coisa que irrita mesmo. Não dava prá “ofere-
    cer a outra face”.
    E, concordo contigo e com Jussara sôbre as
    plásticas da Nicole. Sabe, no caso dela, é o
    bonito querendo de tudo ficar feio.
    Lembras da Rosana (cantora), essa conseguiu.
    Ficou um monstro. E, era tão linda.

Um Trackback

  1. […] no original The Railway Man, co-produção Austrália-Inglaterra-Suíça de 2013 com Colin Firth e Nicole Kidman, demora um pouquinho a dizer a que vem. Bem pouquinho: exatos 13 minutos. Não que isso seja uma […]

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