O Terceiro Tiro / The Trouble with Harry

Nota: ★★★½

O Terceiro Tiro/The Trouble With Harry é um Hitchcock menor – um filme propositadamente pequeno, despretensioso. Parece que o diretor quis descansar um pouco de filmes sérios, pesados, grandes. Quis simplesmente se divertir.

É também o único filme da fase americana de Hitchcock que não fala de crimes, nem faz suspense – é apenas e tão somente uma comédia.

E é fantástico: embora feito nos Estados Unidos, com atores americanos, O Terceiro Tiro é um filme inglês; é um humor inglês, com timing inglês, com uma graça inglesa. Não permite grandes gargalhadas; na verdade, não é feito para o espectador dar gargalhada alguma. É uma comédia a que se assiste com um sorriso eterno. Não há explosões de graça, não há uma grande piada escrachada, visual ou verbal – há um senso de humor leve, brincalhão, gozador, gozativo, durante todo o tempo de duração do filme.

Em muitos de seus filmes, tanto os da fase inglesa quanto da americana, o velhinho louco, tarado, usou o humor. Há humor em Intriga Internacional, em Janela Indiscreta, em Ladrão de Casaca (Grace Kelly dizendo para Cary Grant “você quer peito ou coxa?” o que é, senão o mais rude humor inglês?)

Mas este aqui é um filme único na obra do mestre, porque não é de suspense, não tem crime – é só uma comédia.

Comédia inglesa, é verdade. Cheia de sorrisos, nunca de gargalhadas.

Embora, é claro, tenha um cadáver, um corpse.

Um cadáver muito bem composto, bem comportado, de terno e gravata

Dizem que os mexicanos têm uma fantástica atração pela morte – fazem festas com esqueletos. Dizem também que os argentinos têm fascinação por um morto – e é bem possível, já que, desde Juan Domingo, aquela espécie de Getúlio Vargas mais ao Sul, eles foram caindo mais e mais no túmulo, até adorar Cristina, essa espécie esdrúxula de Imelda Marcos para quem ninguém seria capaz de compor um tango. Mas nenhum outro povo, nenhum, nenhum, me parece tão fascinado por um corpse do que o que habita aquela ilhota à esquerda do continente europeu no mapa.

Toda a ação de O Terceiro Tiro se desenvolve em torno de um cadáver, um morto, a dead body, um corpse.

O corpo de Harry (Philip Truex) está lá estendido no chão, numa colina, em meio a uma paisagem maravilhosa, um campo com belíssimas árvores – e é outono, então as árvores têm aquela maravilhosa coloração outonal, as folhas variando entre o amarelo e o marrom. Não se explicita onde se passa a ação, mas pode-se imaginar que é no interior de um daqueles Estados do Leste americano, ao Norte de Nova York, a Nova Inglaterra em suma. O filme foi rodado em Vermont.

O que, aliás, não é nada típico de Alfred Hitchcock. O homem adorava um estúdio, detestava filmar ao ar livre, nas ruas. Pois boa parte da ação de O Terceiro Tiro se passa ao ar livre, naquela bucólica paisagem campestre.

Harry é um cadáver bem composto, bem comportado. Está vestido com terno, gravata, sapato novo. Tem apenas, na testa, um pequenino filete de sangue – bem pequenino. Não há sinal de violência. Está deitadinho de costas. A gente poderia até imaginar que ele se deitou na grama para descansar de uma caminhada e tomar um solzinho outonal.

De repente, diversas pessoas andam no campo e dão de cara com o cadáver de Harry

O primeiro a ver Harry é o garotinho Arnie (Jerry Mathers), de uns cinco, seis anos de idade. Arnie está passeando pelo campo com uma espingarda de brinquedo – e aqui Hitchcock faz uma tomada brilhante, ainda que bem rápida: a câmara está junto do chão, mostrando, em primeiro plano, os pés de Harry, mais exatamente as solas do sapato de Harry; em segundo plano, no meio da tela, está o rosto de Arnie. O garotinho sai correndo.

O segundo a ver Harry é o capitão Wiles (Edmund Gwenn), um ex-marujo, hoje provavelmente aposentado, vivendo no pequenino vilarejo ali perto. O capitão Wiles saiu para caçar coelhos com sua espingardinha que parece de brinquedo, quase como a do garoto Arnie. Deu três tiros. Agora vai andar para ver no que acertou. Anda falando sozinho, como muitos velhos fazem. Vê uma latinha furada – seu primeiro tiro. Depois vê uma placa que diz que ali é proibido caçar – ali parou seu segundo tiro. Anda mais um pouco e dá com Harry – e tem imediatamente a certeza de que seu terceiro tiro matou o homem:

– “Acertei nele. Uma inocente mirada num coelho, e eu sou um assassino, um matador. Minha mãe bem que dizia que eu me daria mal. (Aí vira-se para Harry.) O que você estava fazendo aqui, afinal?”

Mete a mão no bolso interno do paletó do falecido, e vê uma carta endereçada a Harry Worp, endereço tal, Boston, Massachussetts.

Resolve esconder o cadáver atrás de uma árvore, para depois cavar uma cova e enterrá-lo. Está começando a puxar Harry pelos pés quando chega a srta. Gravely (Mildred Natwick), uma senhora solteirona, conforme veremos em seguida.

– “Qual é o problema, capitão?” – pergunta a srta. Gravely, gravemente. Em inglês é ainda mais engraçado – “What seems to be the trouble, captain?”

Que senhora solteirona poderia, ao ver um vizinho arrastando um cadáver, perguntar, gravemente, como diz o seu próprio nome: “Qual parece ser o problema, capitão?”

Só numa história inglesa. Só num filme de Hitchcock.

“Graças à Providência, Harry se foi”

Assim que a srta. Gravely vai embora, após ter combinado que guardaria segredo a respeito do cadáver, volta à cena o garotinho Arnie; tinha ido buscar a mãe para contar de sua descoberta. O capitão se esconde atrás de uma árvore. A jovem mãe de Arnie, Jennifer Rogers, olha para o rosto do morto:

– “Não pode ser! Harry! Graças à Providência, Harry se foi.”

E Arnie: – “Quem é a Providência, mamãe?”

– “Uma boa amiga.”

Assim que Jennifer Rogers e Arnie vão embora, chega um senhor de cabelos brancos, caminhando e lendo um livro. Tropeça no corpo de Harry, cai no chão, perde os óculos, procura os óculos, encontra, põe no rosto, levanta, e continua caminhando e lendo. Nem vê Harry.

Escondido atrás da árvore, o capitão desabafa:

– “Se eu tivesse vendido ingresso, não teria vindo tanta gente.”

“Introducing Shirley MacLaine”

O filme está aí com uns dez minutos O problema com Harry está só começando. Ao longo dos deliciosos 80 minutos seguintes, Harry será enterrado e desenterrado umas três vezes – ou seriam quatro?

São quatro os personagens centrais da história – além de Harry, coitado, a quem não cabe uma única fala: o capitão Wiles, a srta. Gravely, a jovem Jennifer Rogers e, finalmente, Sam Marlowe.

Sam (John Forsythe) é um pintor; pinta um monte de quadros, que dá para a sra. Wiggs (Mildred Dunnock) vender em seu armazém, aparentemente o único estabelecimento comercial do vilarejozinho. Nunca havia conseguido vender um quadro – até porque raríssimos são os estranhos que passam por aquele lugar.

John Forsythe como Sam, Edmund Gwenn como o capitão, Mildred Natwick como a solteirona srta. Gravely. Não era um elenco assim propriamente estelar. São todos bons atores, é claro, e ninguém dirigido por Alfred Hitchcock trabalha mal, e estão todos extraordinários em seus papéis – mas não são nomes famosos, importantes, de astros.

Era de fato o projeto de um filme menor, despretensioso, uma brincadeirinha.

Para o quarto papel principal, o da jovem mãe do garotinho, Jennifer Rogers, contrataram uma moça que iniciava sua carreira no teatro. Estava trabalhando como substituta de uma atriz em uma peça em cartaz na Broadway, e foi vista por alguém da produção do filme, na época dos preparativos para a filmagem. Gostaram dela, contrataram-na. Como era seu primeiro filme, nos créditos iniciais o nome dela aparece depois dos outros atores, embaixo de um “Introduzindo”. “Introducing Shirley MacLaine”.

Todos os atores, repito, estão ótimos, excelentes. Mas o filme seguramente teria muito menos graça se não tivesse a jovem Shirley MacLaine, lindinha, olhos verdes faiscantes, cabelinho ruivo curtíssimo, talento imenso para mostrar.

Tinha então 21 aninhos, a maravilhosa Shirley MacLaine, em 1955. Apenas cinco anos depois, quando fez o principal papel feminino em Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder, já era uma estrela.

A primeira das muitas colaborações entre Hitch e Bernard Herrmann

Um elemento fundamental de O Terceiro Tiro é a trilha sonora.

Foi a primeira das várias colaborações entre Hitchcock e Bernard Herrmann. A trilha que Herrmann compôs dá todo o tom da trama – e está presente em praticamente todo o filme. É, em geral, uma música alegre, uma melodia galhofeira, bem humorada. A leveza, a graça das melodias – várias delas apresentadas com solos de oboé – só se interrompe, de tempos em tempos, em geral quando a câmara mostra o cadáver de Harry, com acordes graves de violinos, feitos para aterrorizar o espectador. Claro, não para aterrorizar, porque estamos em uma comédia, mas para lembrar o espectador de que, afinal de contas, estamos diante um homem morto, algo muito grave, perigoso para nossos heróis que o enterram e desenterram ao longo de todo um comprido dia que parece não terá fim.

Conta-se que, de todas as trilhas que Bernard Herrmann compôs para filmes de Hitchcock, a preferida do mestre era a de O Terceiro Tiro.

“O melodrama sai da noite negra e é levado à luz do dia”

Para situar o filme na obra de Hitchcock: O Terceiro Tiro veio depois dos três filmes com Grace Kelly – Disque M para Matar e Janela Indiscreta, de 1954, e Ladrão de Casaca, de 1955. Depois dele, Hitch faria O Homem Que Sabia Demais, segunda versão, e O Homem Errado, ambos de 1957, e em seguida Um Corpo Que Cai, de 1958.

Hitchcock e François Truffaut não se alongaram sobre O Terceiro Tiro, na série de entrevistas que o então jovem francês fez com o já veterano inglês, e que resultou no maravilhoso livro Hitchcock Truffaut. Mas o realizador confirma que foi uma opção pessoal dele fazer o filme, e que tem carinho pelo resultado:

“Foi um filme que fiz muito livremente sobre um assunto que tinha escolhido, e, quando ficou pronto, ninguém sabia o que fazer com ele, como distribuí-lo. É muito especial, mas para mim não tinha nada de especial. É uma adaptação bem fiel de um romance inglês de Jack Trevor Story e, para meu gosto, era cheio de um humor riquíssimo.”

Aí Truffaut observa: “Sinto que você tem muito afeto por esse filme”.

E Hitch: “Ele correspondia a meu desejo de trabalhar no contraste, de lutar contra a tradição, contra os estereótipos. Em O Terceiro Tiro, o melodrama sai da noite negra e é levado à luz do dia. É como se mostrasse um assassinato à beira de um riacho que canta, em cuja água límpida eu derramasse uma gota de sangue. Desses contrastes surge um contraponto, e talvez até uma súbita elevação das coisas cotidianas da vida.”

É isso. Um Hitchcock menor – propositadamente menor. Uma beleza, uma maravilha, uma delícia de filme, desses que sempre dá vontade de rever mais uma vez quando estamos precisando de uma diversão. E que fica melhor a cada nova revisão.

Anotação em setembro de 2011

O Terceiro Tiro/The Trouble With Harry

De Alfred Hitchcock, EUA, 1955

Com Edmund Gwenn (capitão Albert Wiles), John Forsythe (Sam Marlowe), Shirley MacLaine (Jennifer Rogers), Mildred Natwick (Miss Graveley), Mildred Dunnock (Mrs. Wiggs), Jerry Mathers (Arnie), Parker Fennelly (o milionário), Barry Macollum (o mendigo), Dwight Marfield (Dr. Greenbow), Philip Truex (Harry Worp)

Roteiro John Michael Hayes

Baseado em livro de Jack Trevor Story

Fotografia Robert Burks

Música Bernard Herrmann

Montagem Alma Macrorie

Produção Paramount Pictures. DVD Paramount

Cor, 99 min

R, ***1/2

Título na França: Mais… qui a tué Harry?

3 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 21 dezembro 2011 às 8:51 pm | Permalink

    Muito certa a sua análise, gosto do filme embora seja de facto uma obra menor.
    Li algures que a Shirley MacLaine apareceu em casa de Hitch completamente ensopada em chuva, vinha do teatro, e foi a esposa do realizador que tratou dela.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 21 dezembro 2011 às 9:33 pm | Permalink

    Nos especiais do DVD, conta-se a história. Alguém envolvido na produção do filme viu Shirley MacLaine substituindo a atriz de uma peça na Broadway que havia ficado doente. (Shirley era a substituta eventual; com a ausência da atriz, ela atuou exatamente no espetáculo visto por essa pessoa da produção.) Chamaram-na para uma entrevista – não na casa de Hitch, mas no hotel em que ele estava hospedado. No dia da entrevista, chovia a cântaros, e ela chegou ao hotel absolutamente ensopada, a maquiagem toda desfeita pela chuva. A mulher de Hitch cuidou dela, deu-lhe roupas secas enquanto punha as delas – roupas simples, pobres – para secar…

  3. Miguel
    Postado em 4 junho 2015 às 7:59 am | Permalink

    Vi hoje pela primeira vez The trouble with Harry e gostei bastante. Completamente inovador, estranho, dado ser uma comédia ligeiramente negra, sem cair no mau gosto. A música, as interpretações estão boas, se bem que a personagem do Capitão parece, pelo menos ao inicio, ter um discurso um pouco teatral, pouco natural. Mas até se entende, visto estar a fazer um monólogo. De resto, gostei do filme e surpreendeu-me. A questão da porta do armário que abre sozinha não interessa nada para o filme mas é uma questão deliciosa que causa suspense (isto fez-me lembrar a questão do quadro em Suspeita, que o policia observa e que não interessa para nada). Leve, despretensioso, este é The trouble with harry. E, apesar de ser simples, é opimo. cheio de qualidade, não fosse realizado por Hitchcock

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