O Super Lobista / Casino Jack / Bagman

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: O Super Lobista é um ótimo filme, mais um dos tantos recentes baseados em histórias reais, em fatos políticos acontecidos muito pouco tempo atrás, produzidos pelo cinema independente da América do Norte. É bem feitíssimo em todos os quesitos técnicos, a história que conta é fascinante, mas o que mais impressiona é a atuação extraordinária de Kevin Spacey, esse grande ator.

Kevin Spacey está brilhante – e, como muito bem observou Mary, é fantástico vê-lo interpretando um personagem que é o oposto do que o próprio ator é na vida real, um antípoda, em termos de pensamento político, de valores, dele próprio.

Ele interpreta Jack Abramoff, figura real, um republicano até a medula, que teve uma carreira extraordinariamente bem sucedida como lobista em Washington, em especial durante as duas administrações de George W. Bush (2001-2009), com grande acesso a representantes (o equivalente ao nosso deputado federal) e senadores republicanos – muitos dos quais ajudou com polpudos cheques para suas campanhas de reeleição, e de quem teve ajuda para legislar em favor de seus clientes.

Kevin Spacey, muito ao contrário, é um democrata convicto, da ala mais liberal – no sentido americano da palavra, é claro, e que em português significaria progressista, anti-conservador. O problema é que, aqui, o termo progressista, como todos sabemos, foi tomado de assalto, usurpado, roubado, pelos que apóiam o lulo-petismo.

Mas o fato é que Spacey é democrata firme, na vida pessoal e artística; apoiou desde o início a campanha de Bill Clinton, deu generosas contribuições ao partido. Participa de campanhas em defesa de ideário de fato progressista – pró-direito ao aborto, contra a pena de morte. Um de seus melhores desempenhos no cinema é no panfletaço do inglês Alan Parker contra a pena de morte, A Vida de David Gale, filme extraordinário e, lamentavelmente, subestimado, menos reconhecido do que mereceria. Recentemente, fez o papel principal em Recontagem/Recount, ótimo filme da HBO que mostra como foi fraudada a eleição presidencial na Flórida (então governada por Jeb Bush), que acabou dando a reeleição a George W. Bush, embora o democrata Al Gore tivesse obtido mais votos populares.

Um grande ator, um homem engajado em causas nobres

Política à parte, ou não, Kevin Spacey é um dos grandes atores de sua geração; nasceu em 1959, a mesma época de Tim Robbins, Gary Oldman, Hugh Grant, Sean Penn, Kenneth Branagh, Daniel Day Lewis – credo, que geração!

Já ganhou dois Oscar – um como melhor ator coadjuvante por Os Suspeitos/The Usual Suspects, de 1995, outro como ator principal por Beleza Americana, de 1999. Foi indicado três vezes para o Bafta, o Oscar inglês, e levou o prêmio por Beleza Americana.

Ao todo, Spacey coleciona 43 prêmios e 28 outras indicações. Dedicado ator teatral, desde 2003 exerce o cargo de diretor artístico do respeitabilíssimo Old Vic Theatre de Londres, a terra da melhor escola de atores do mundo.

Para mim, uma das mais perfeitas interpretações de Kevin Spacey é no belo Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, que o grande Clint Eastwood lançou em 1997. Ele faz um milionário de Savannah, a maior cidade da sulista, confederada e metida a aristocrática Georgia, onde nasceu o compositor e letrista Johnny Mercer (todas as músicas da trilha sonora são da autoria dele); Jim Williams, seu personagem, é colecionador de arte e de antiguidades, elegante, com aquele tom aristocrático de que o Sul escravagista e retrógado sempre se orgulhou – e, além disso, homossexual não assumido e suspeito de ter matado o amante.

Solteiro, absolutamente reservado, recusando-se sempre a falar de sua vida privada, Spacey desperta fofocas a respeito de sua opção sexual na imprensa voltada para celebridades. Numa entrevista a um jornal inglês, disse: “Não é que eu queria criar uma mística de merda ao manter silêncio sobre minha vida pessoal. É só que, quanto menos se souber sobre mim, melhor fica para convencer as pessoas que eu sou aquele personagem na tela. Isso permite que a platéia me veja no cinema e acredite que sou uma pessoa.”

Uma figura, o tal de Kevin Spacey. Um de seus grandes projetos pessoais foi o de dirigir (e estrelar) uma cinebiografia do cantor e ator Bobby Darin, uma figura hoje bastante desconhecida, mas que teve fama e brilho no final dos anos 1950 e início dos 1960. Embora hoje bastante obscuro, Bobby Darin foi um grande showman – e um grande cantor. É dele, por exemplo, uma das melhores gravações – entre as dezenas e dezenas que foram feitas – de “Mack the Knife”, a canção de Kurt Weill com letra de Bertold Brecht para a Ópera dos Três Vinténs. (Essa gravação, num andamento muitíssimo mais lento do que o habitual, que acrescenta imensa dramaticidade à letra de Brecht, foi usada por Robert Redford para encerrar seu belo e também subestimado Quiz Show.) Depois de passada sua época de maior sucesso, Bobby Darin dedicou-se ao engajamento político, em canções contra a guerra do Vietnã.

Na abertura, uma ode ao capitalismo, à competição feroz

Acabei me estendendo bastante sobre Kevin Spacey – mas acho que isso tem sentido, porque, de fato, a atuação dele é a coisa mais impressionante do filme – e o fato de que ele, da esquerda dos democratas, interpreta uma figura da direita dos republicanos é realmente fascinante.

Não que os méritos do filme se restrinjam à interpretação de Spacey. De forma alguma.

A história, a trama, é interessantíssima – e se torna ainda mais fascinante quando sabemos que é tudo real, que tudo aquilo aconteceu de fato -, e o roteiro, assinado por Norman Snider, é muito bem costurado.

Como tantos filmes recentes, usa o que chamo de narrativa laço: começa num momento de clímax, e depois volta atrás num longo flashback que ocupa a maior parte dos seus 108 minutos. Tem algumas idas e vindas no tempo, mas basicamente vai seguindo a ordem cronológica dentro do flashback, até chegar de volta ao ponto em que a ação começou, para então ir um pouco mais adiante no tempo.

As primeiras tomadas são super-hiper-close-ups, algo que demonstra que o diretor George Hickenlooper deve ter experiência na publicidade: a tela inteira tomada pela ponta de uma torneira que se abre, a tela inteira tomada por uma escova de dentes onde se deposita o creme dental – e aí vemos a figura de Kevin Spacey diante de um espelho, escovando os dentes e ensaiando um discurso, uma defesa de suas ações, uma ode, uma loa ao capitalismo, à competição feroz entre as pessoas, ao que vença quem for melhor, ao que se dê bem quem for mais esperto, mais ágil. Uma homenagem à democracia estilo americano: quem tiver dinheiro para pagar os melhores lobistas se dará bem, porque os bons lobistas conseguirão boas leis em defesa daquele determinado grupo, e os outros que se danem.

Com uns cinco minutos de filme, o super lobista Jack Abramoff, riquíssimo, amigo de muitos políticos importante, possuidor de fotos em que aparece ao lado de vários dos presidentes dos Estados Unidos da América – todos republicanos, é claro: Reagan, Ford, Bush pai, Bush filho –, está sendo fotografado de frente e de perfil e levado para uma cela de prisão federal, onde já estão um negro forte e sonolento e um branco cheio de tatuagens que cometeu crimes segundo ele próprio pequenos, tipo agressão e resistência à prisão.

E aí, com uns seis minutos de filme, volta-se atrás no tempo, para que vejamos os crimes de colarinho branco que Jack Abramoff cometeu, e como eles foram cometidos.

Um lobista que adora imitar artistas de cinema

A frase a vida imita a arte seguramente é anterior ao cinema, essa arte que tem apenas cento e poucos anos. Mas este filme demonstra, como tantos outros, que seguramente a vida imita o cinema.

Jack Abramoff, o protagonista, é um apaixonado por cinema. Adora imitar atores – e isso é uma maravilha, porque Kevin Spacey é um exímio imitador de seus colegas. Quando ele imita o jovem Al Pacino em O Poderoso Chefão II, é como se estivéssemos vendo não Kevin Spacey, mas Al Pacino em pessoa, quer dizer, na pessoa de Michael Corleone.

Há trocentas mil citações de frases de filmes sobre gângsteres, bandidos, policiais. É tanta citação que a mulher de Abramoff (interpretada por Kelly Prestonna foto) reclama – e eu, fanático por citações, me senti meio perdido.

Lá como cá mazelas há. Mas lá depois do crime vem o castigo

Jack Abramoff não era funcionário do Estado, nem roubou propriamente do Estado, dinheiro meu, seu, nosso, dos pagadores de impostos. Certo: os crimes incluíam evasão de divisas, e portanto não pagamento de impostos, o que acaba prejudicando quem paga – eu, você, nós. Mas, ao contrário do que estamos vendo no festival de demissões de ministros do lulo-petismo após longas séries de denúncias de roubo de dinheiro dos pagadores de impostos, o que se mostra no filme não tem nada a ver com a tomada de assalto do governo por uma quadrilha.

É bastante diferente. Totalmente diferente.

Até porque lá, ao contrário daqui, depois do crime vem o castigo – algum tipo de castigo, pelo menos.

Lá, ao contrário do que acontece aqui, o lobby é uma atividade legal, institucionalizada, aberta, às claras. O problema que houve com Jack Abramoff – se é que entendi direito o filme – foi que ele extrapolou todos os limites admitidos e admissíveis. Como eu dizia na época do Collor: achou que poderia roubar todos os elefantes do circo ao mesmo tempo sem que ninguém percebesse. As ações de Abramoff foram tão escandalosas, revelaram tanto o tamanho da corrução, da troca de favores escusa, entre lobistas e políticos, que provocou um gigantesco escândalo nacional. Os demais lobistas sentiram-se traídos, expostos.

No mesmo ano, dois filmes sobre o super lobista republicano

A ascensão e a queda de Jack Abramoff foi mostrada, além de neste filme, em um documentário, também de 2010, com o título duro, agressivo, de Casino Jack and the United States of Money, dirigido por Alex Gibney. Leonard Maltin diz que o documentário é um retrato provocativo e alarmante da corrupção do processo político e do abuso de poder, que parece assim uma versão real de Mr. Smith Goes to Washington – só que sem o final feliz. O documentário reproduz muitas das cenas de Mr. Smith Goes to Washington, no Brasil A Mulher Faz o Homem, o belo clássico feito em 1939 por Frank Capra, aquele incansável idealista, cheio de fé nos homens e na capacidade de o sistema ser aperfeiçoado.

Diálogos idênticos aos registrados em telejornais

O filme com Kevin Spacey interpretando Jack Abramoff avisa de cara que é “inspirado em fatos reais”. Em geral, quando se usa essa expressão indica-se que a história foi alterada, romanceada; a expressão “baseado em fatos reais”, diferentemente, índica que se procurou ser bastante fiel à realidade.

Interessante, porque, ao final, durante os créditos, vemos a cena real de Jack Abramoff discursando numa reunião do Partido Republicano – e as palavras que ele diz são exatamente, literalmente as mesmas que, no filme, Kevin Spacey pronuncia. E, no encerramento dos créditos, é dito que o roteiro se baseou nas reportagens sobre os fatos, e muitos dos diálogos são a transcrição fiel, ipsis literis, de falas dos personagens reais registradas em gravações.

O filme foi lançado aqui em DVD e Blu-ray com o estranho título de O $uper Lobista – com um cifrão no lugar do S. Coisa de distribuidor brasileiro. O mais interessante, no entanto, é que, nos créditos finais (não há qualquer tipo de crédito inicial), o filme tem o nome de Bagman, o homem da mala. E o IMDb o registra com outro título completamente diferente – Casino Jack. Segundo o IMDb, Casino Jack foi o título original canadense – o filme é uma produção do Canadá. Nos Estados Unidos, virou Bagman. Coisa de louco.

O filme custou cerca de U$ 15 milhões. Não é uma soma imensa para os padrões americanos, e o filme tem uma produção requintada, caprichada. Tem cenas em Washington, Miami, Los Angeles. Mas parece ter sido um fracasso comercial – segundo o Box Office Mojo, o filme, que estreou nos Estados Unidos em dezembro de 2010, até outubro de 2011 rendeu apenas US$ 1 milhão.

Fazer filmes sérios, e bons, sobre temas políticos, parece que não está dando lucro.

Mas dá prazer a quem gosta de cinema – e também a quem gosta de se informar sobre os fatos do mundo real, com uma visão crítica mas não sectária, doutrinária. Para essas pessoas, é um filme altamente recomendável.

O Super Lobista/Casino Jack/Bagman

De George Hickenlooper, Canadá, 2010

Com Kevin Spacey (Jack Abramoff), Barry Pepper (Michael Scanlon),

Jon Lovitz (Adam Kidan), Kelly Preston (Pam Abramoff), Rachelle Lefevre (Emily Miller), Daniel Kash (Gus Boulis), Graham Greene (Bernie Sprague)

Roteiro Norman Snider

Fotografia Adam Swica

Música Jonathan Goldsmith

No Blu-ray. Produção Rollercoaster Entertainment, An Olive Branch Productions, Vortex Words Pictures, Hannibal Pictures. DVD Vinny Filmes.

Cor, 108 min.

***

Um comentário para “O Super Lobista / Casino Jack / Bagman”

  1. O SUPERLOBISTA

    09/07/2012

    O “lobby” será discutido por ocasião de uma reforma política entre nós. Provavelmente ele é a causa do que Ilich chamou o “parlamentarismo”, enquanto o fracasso da representação pelos políticos eleitos.

    Também acarreta o que Lukàcs chama de “corrupção desenfreada” no seu “Legalidade e ilegalidade”.

    É estrutural à hegemonia capitalista e o que Mészáros entende ser o capital como uma força “extraparlamentar ‘par excellence’” .

    Paradoxalmente, não é regulamentado entre nós, não sei se para melhor ou pior…

    Mas nos EUA, como se vê no filme “O Superlobista” ele o é !

    Ao se levar ao STF a denúncia do “mensalão”, tenha existido ou não, o que assume a maior importância diante dele – pois, estávamos com governo de centro-esquerda – é o “lobby” !

    Conforme clama Jack Abramoff diante da comissão do senado que o julgava, cena fundamental do filme, quem devia estar na cadeira dos réus eram os hipócritas que se valiam do dinheiro que ele lhes levantara.

    Mas certamente fica também por se considerar o “lobby” enquanto força extraparlamentar como uma anomalia formal da estrutura capitalista.

    É como se ele fortalecesse a não-representatividade e criasse a necessidade de forças – extraparlamentares lutando por uma ordem jurídica com preocupações sociais mais abrangentes.

    Não seria assim ?

    Fernando Neto

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