Simplesmente Complicado / It’s Complicated

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Uma gostosa comédia romântica em que os protagonistas, ao contrário de 98% das comédias românticas das últimas décadas, têm, graças a Deus, mais de 50 anos de idade. Só por isso já seria um filme agradável. E a protagonista é Meryl Streep – e só por isso já seria um filme que vale a pena ver.

Nada contra as comédias românticas em que os personagens estão na faixa dos 30, ou dos 40. As com garotos de menos 25, talvez as mais numerosas, são de perder a paciência. Mas as que falam de gente madura, que maravilha.

A diretora e roteirista Nancy Meyers é reincidente. Em 2006, fez O Amor Não Tira Férias/The Holiday, em que os protagonistas estão na faixa dos 30 anos – as personagens interpretadas pela inglesa Kate Winslet e pela americana Cameron Diaz trocam de casa durante os feriados de fim de ano, e, no outro país, conhecem tipos interessantes, interpretados por Jude Law na Inglaterra e Jack Black nos Estados Unidos. Mas a diretora aproveita para botar em cena um velho roteirista de cinema, interpretado pelo veterano Eli Wallach, e através dele fazer um elogio à maturidade, à experiência, à velhice.

Em dois outros filmes, Nancy Meyers focalizou personagens mais velhos, passados dos 40, dos 50. Em Do Que As Mulheres Gostam, de 2000, um publicitário quarentão, interpretado por Mel Gibson, se envolve com uma colega de trabalho na sua faixa etária, feita pela fascinante Helen Hunt. E em Alguém Tem Que Ceder/Something’s Gotta Give, de 2003, um sessentão que gosta de gatinhas (Jack Nicholson) acaba trocando a namorada (Amanda Peet) pela mãe dela (Diane Keaton, então com belos 57 anos).

         A ex-mulher tem ciúme e inveja da gatinha que roubou seu marido

A ação de Simplesmente Complicado começa numa festa, numa bela, riquíssima casa próximo do mar da Califórnia, na região de Santa Monica, perto de Los Angeles. Dois casais estão conversando; a festa é para comemorar a formatura do filho de um dos dois casais; o outro terá daí a alguns dias a festa de formatura de um de seus três filhos, que está com uns 20 anos.

Esse segundo casal é formado por Jake (Alec Baldwin, 51 anos quando o filme foi feito) e Jane (Meryl Streep, 60 gloriosos anos). Jane olha para uma gatinha jovem que está na festa, toda gostosa, perfeita, exibindo seus atributos com aquela presunção das gatinhas jovens gostosas, perfeitas – e a câmara dá uma levíssima ralentada, quase um slow motion, para realçar a gostosura da moça. E lá vem ela, aproximando-se dos dois casais maduros; vem chegando, vem chegando, e gruda-se em Jake. Assim os espectadores ficam conhecendo Agness (Lake Bell, 30 aninhos, corpitcho de 20), a atual sra. Jake, e ficam sabendo que Jake e Jane estão separados há dez anos.

Na hora em que se despedem um do outro, na festa, Jane dá uma olhadinha furtiva para Jake. E Jake também dá uma olhadinha sorrateira para ela.

Nenhuma separação é propriamente tranqüila, e a separação de Jake e Jane não havia sido nada fácil. Foram vários anos de muita dor; os dois tinham tido longo período em que não podiam se falar – os três filhos se lembram muito bem disso. Só agora, dez anos depois da separação, começam a conviver civilizadamente.

Com cinco minutos de filme, a diretora e os dois atores já contaram para o espectador: dez anos após o fim do casamento, Jake e Jane de alguma forma ainda sentem atração um pelo outro. E Jane ainda tem ciúme e inveja da gatinha jovem que lhe roubou o marido.

Isso com uns cinco minutos de filme.

Surge na trama um homem bonito, charmoso, educado – Adam (Steve Martin, cabelo todo branco há muito tempo, 64 anos quando o filme foi feito), o arquiteto que está planejando a reforma e a ampliação da já ampla e bela casa de Jane, num bairro afastado, quase uma chácara. Sabemos – é o óbvio, é uma comédia romântica – que em algum momento Jane e Adam vão ter um caso.

Mas quem tem um caso com Jane, ali pelos 15 minutos de ação, é Jake, o ex-marido.

         Grandes atores à vontade, se divertindo com os papéis

Alec Baldwin, 25 prêmios e 37 outras indicações nas costas largas, grandão como Gérard Depardieu, está solto, à vontade, como o sujeito de meia idade bem sucedido, filhos criados, com problemas no casamento com a gatinha jovem que tem um filho de cinco anos de outro homem. Parece estar se divertindo com o papel, se divertindo porque está atuando ao lado da mais brilhante atriz de sua geração. Funciona bem – mesmo nos momentos em que peca por algum exagero cômico.

Steve Martin, veterano, experientíssimo, ator, diretor e roteirista de sucesso, que não precisa provar mais nada, está suave, contido, como o arquiteto que está mal saindo de um divórcio e só quer entrar em outra história se tiver certeza de que a canoa não é furada. Deixa as caretas e os gestos mais amplos apenas para a seqüência – hilária – em que chega a uma festa de jovens chapadão por um baseado bravo.

Meryl Streep… Meryl Streep é um dos grandes prazeres que o cinema dá para a gente. É sempre uma enorme alegria ver aquela mulher atuar, seja em drama pesado, seja em comédia leve, leviana. Bastaria a carinha que ela faz, na primeira seqüência do filme, ao olhar para a mulher gostosa do ex-marido, para que sua atuação fosse marcante – mas a cada seqüência ela está ainda melhor.

Me lembrei, agora, enquanto fazia esta anotação, do que disse sobre ela Jane Fonda, a atriz que eu mais admiro na vida:

“Dentre os atores do elenco de Julia havia uma novata, no papel de uma mulher de cabelos negros, Anne Marie.”

(O filme Julia é de 1977; Jane Fonda, que em Julia faz o papel da escritora Lillian Hellmann, já era atriz havia 17 anos, era uma grande e consagrada estrela. A narrativa que está sendo transcrita aqui está na autobiografia Jane Fonda – Minha Vida Até Agora. O Bruce citado a seguir, Bruce Gilbert, era sócio da atriz em uma produtora.)

“Lembro de quando vi as tomadas da primeira edição, em que ela aparecia. (…) Logo que as cenas terminaram, corri ao telefone para ligar para Bruce, na Califórnia. ‘Bruce’, eu disse, quase sem fôlego, ‘preste atenção: há uma jovem atriz, com um nome muito estranho, Meryl Streep. Sim, M-e-r-y-l, com y. Eu não via uma atriz tão impressionante desde Geraldine Page. Estou lhe dizendo, ela vai ser uma grande estrela. Precisamos tentar, agora mesmo, consegui-la para o papel da outra mulher em Amargo Regresso.’ No fim, Meryl não estava disponível, comprometida com uma peça. Mas me sinto sortuda por ter tido aquela visão precoce de seu talento ímpar.”

         Um pecadinho: é tudo cor-de-rosa demais

Mais algumas pequenas observações sobre Simplesmente Complicado:

Uma coisinha chata do filme, talvez seu maior senão, acho eu, é o fato de que tudo que se mostra ali envolve gente rica, muito bem de vida, com dinheiro sobrando. Todos os ambientes são ricos, sofisticados, caros, ostensivamente caros. Dinheiro não é problema. Aliás, não há qualquer problema material, para nenhum dos personagens, nunca. Acho isso meio cor-de-rosa demais. Me incomoda um pouco.

Mas é um detalhe.

Um detalhe interessante é a história da maconha. O filme faz uma pequena elegia à maconha, mostrada como uma coisa gostosa, fonte de prazer, satisfação, assim como um bom vinho. Interessante vermos isso num filme do cinemão comercial de Hollywood, o típico filme mainstream, padrão, teoricamente nada ofensivo, nada rebelde, nada contestador.

Uma outra característica interessante da história é como os três filhos já crescidinhos do casal Jake e Jane – a mais nova está aí com uns 18, 20, a mais velha com 27, preparando-se para casar – ficam transtornados com o fato de pai e mãe estarem tendo um caso. Um deles – acho que é a filha do meio – diz: “A gente ainda nem se recuperou direito da separação e vocês estão ficando juntos de novo?”

Em outro filme bem recente, do cinemão comercial francês, Rindo à Toa/LOL – Laughing Out Loud, de Lisa Azuelos, há coisa bem semelhante: a adolescente Lola acha esquisitíssimo o fato de sua mãe dar umas transadas com seu próprio pai, algum tempo depois do divórcio dos dois. Pai e mãe, ex-marido e ex-mulher, têm que se encontrar meio às escondidas, para não chocar os filhos.

Um interessante sinal dos tempos.

Um outro detalhinho é que, mais uma vez, o cinema cita A Primeira Noite de um Homem/The Graduate, o hoje clássico filme de Mike Nichols de 1967 que tornou Dustin Hoffman um grande astro. É impressionante como The Graduate merece citação em diversos filmes. Quer dizer, é impressionante, mas é compreensível: é um filme maravilhoso, foi importantíssimo, marcou toda uma geração. É a segunda vez que a diretora Nancy Meyeres cita o filme de Nichols – já havia feito isso em O Amor Não Tira Férias, numa seqüência gostosa, engraçada, em que contou com uma participação especialíssima do próprio Dustin Hoffman, fazendo papel dele mesmo numa locadora de DVDs de Los Angeles.

         Sob a aparência ingênua, um filme subversivo

Para encerrar, volto ao início. É realmente uma maravilha que Nancy Meyers faça filmes como Alguém Tem Que Ceder e este Simplesmente Complicado, falando de sentimentos, amores, desejos de pessoas com mais de 50 anos, num cinemão mainstream que cada vez mais se volta para os adolescentes – e com isso, inevitavelmente, muitas vezes se infantiliza. Ela expõe os corpos de gente mais velha, coisa rara – em Alguém Tem Que Ceder, Jack Nicholson anda pelo corredor do hospital com aquele avental aberto atrás, mostrando a bunda. Aqui, por duas vezes Alec Baldwin mostra o corpanzil grande sem roupa. E a diretora – ela própria com 60 anos de idade – exibe os ombros nus, os pés e as belas pernas de Meryl Streep, até os joelhos, numa seqüência engraçada e linda, um elogio à maturidade, ao passar dos anos.

E ainda por cima, remando contra toda a corrente, faz uma ode à boa comida, aos doces, aos sorvetes, ao chocolate.

De uma certa maneira, esta comedinha romântica do cinemão comercial de Hollywood é mais subversiva que o discurso pretensamente revolucionário mas na verdade pateticamente retrógado, reacionário, de um Plínio de Arruda Sampaio.

Simplesmente Complicado/It’s Complicated

De Nancy Meyers, EUA, 2009

Com Meryl Streep (Jane), Alec Baldwin (Jake), Steve Martin (Adam), Lake Bell (Agness), John Krasinski (Harley), Mary Kay Place (Joanne), Rita Wilson (Trisha), Alexandra Wentworth (Diane), Hunter Parrish (Luke), Zoe Kazan (Gabby), Caitlin Fitzgerald (Lauren)

Argumento e roteiro Nancy Meyers

Fotografia John Toll

Música Heitor Pereira e Hans Zimmer

Montagem Joe Hutshing e David Moritz

Produção Universal Pictures, Relativity Media, Waverly Films. Estreou em São Paulo 26/2/2010

Cor, 118 min

***

2 Comentários

  1. Maria B.Marques
    Postado em 27 Fevereiro 2011 às 7:25 pm | Permalink

    Estava vendo Simplesmente…no cinema e tive que sair para atender a um telefonema importante. Ontem, a NET (que eu tanto critico) novamente me salvou e eu vi o filme por inteiro. Gostei muito. Tudo o que Sergio diz se cumpre. Só não concordo em achar muito cor-de-rosa. Leveza está em falta. Não me chamem para ver “Tropa de …” Todos os dias vejo esses dramas nos noticiários. Machuca muito e a gente não pode consertar. Então, vamos apreciar coisas mais suaves. Cinema forte também é bom, mas tem que ser bom pra valer…

  2. Jussara
    Postado em 29 junho 2013 às 7:17 pm | Permalink

    Filme bonzinho, uma comédia romântica agradável, como todas as outras dessa diretora. No geral eu gosto dos filmes dela. Nunca ri tanto como na primeira vez em que vi “Alguém Tem Que Ceder”.

    Só achei desnecessários os papéis dos filhos. São todos bobos, nenhum se destaca ou tem grande importância; ficaram sobrando. Talvez se apenas se falasse sobre eles teria sido menos pior. O personagem do futuro genro também é um desperdício, o rapaz é chato e não menos bobo que os filhos.
    Ainda bem que a atriz (?) que faz a mulher do Jake teve poucas falas e nos poupou de todo o seu talento.

    Nunca gostei do Steve Martin, acho que porque ele fez muitas comédias, um gênero que não curto. Só vi um filme sério, escrito e dirigido por ele, onde ele também atuou: “A Garota da Vitrine”, com a Claire Daines; achei a atuação dele correta, lá e aqui (embora a mega plástica que ele fez tenha me incomodado o filme inteiro – seus olhos quase sumiram; assim como o nariz grande, que sempre foi uma marca, diminuiu com tanto botox). Por que eles não aprendem e se miram no exemplo de Mrs. Streep? É óbvio que ela também já fez algumas plásticas, mas soube fazer, não ficou uma coisa berrante nem deformada.

    Fiquei surpresa ao ler aqui que o Alec Baldwin já ganhou vários prêmios. Sempre o considerei canastrão, e no filme ele está bem porque o papel não pede muito.

    Por fim, eu gosto e não tenho nada contra comédias românticas ou de qualquer outro gênero com pessoas de meia idade. Até porque é para lá que nós mais jovens vamos, ou ao menos pretendemos ir. Também não me incomoda ver cenas com eles pelados ou seminus, nem barrigudões como o Baldwin. =D

    Tirando os pontos que considerei fracos, o filme me agradou; e só a ode, como você bem disse, que ele faz à comida (engordativa, diga-se de passagem) já vale, nesses tempos de atrizes anoréxicas e esqueléticas e de perseguição à comida de verdade. Um filme para assistir com o estômago cheio, se não quiser passar vontade.

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Química do Amor / Novocaine em 24 outubro 2010 às 5:02 pm

    […] que se pode imaginar. Mas vamos em frente. Começa como uma comedinha sobre um dentista, Frank (Steve Martin, parecendo estar com um pouco de preguiça do papel, mas fazer o quê, né? tem-se que pagar o […]

  2. […] longos, dois filmes apenas em seu currículo, teve um pequeno papel em Manhattan. Depois disso, Meryl Streep teria 84 indicações a prêmios, e o reconhecimento universal como uma das melhores atrizes que […]

  3. […] Que ator, em sã consciência, recusaria um convite de Woody Allen? Estão lá os veteranos Alec Baldwin e Judy Davis, ele numa boa fase da carreira, com imenso sucesso na série de TV 30 Rock, que já […]

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