Armadilhas do Amor / Serious Moonlight

Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2010: Tadinha da Meg Ryan. Que danada de descida ao mais fundo do fundo do poço deu a carreira dela, para ela ir parar neste Armadilhas do Amor/Serious Moonlight – uma absoluta, total imbecilidade, um coisa pavorosa, horrenda, de deixar o espectador morrendo de vergonha.

Em 2008, Meg Ryan havia feito Mais do que Você Imagina/My Mom’s New Boyfriend, dirigido por um certo George Gallo, em que ela contracena com Antonio Banderas. Interpretava a mãe de um garoto que era gordíssima no início da ação, e, quando o rapaz volta para casa, algum tempo depois, ela havia emagracido um 380 quilos e estava namorando um gatão – o papel de Banderas. Um coisa grotesca; com dez, 15 minutos de filme, tivemos o bom senso de apertar a tecla stop.

Este Armadilhas do Amor é grotesco – se não apertei a tecla stop e fui até o fim, o problema é meu, de insanidade absoluta. Mais do que Você Imagina é um horror, mas não pode ser pior do que este aqui. Nada no mundo pode ser pior que este filme aqui.

Nunca consigo fazer um rápido resuminho da trama. Conto o começo:

Nego chega de táxi, carregado de flores, muitas flores, a uma casa de campo. Bota flores em vasos, diversos vasos; espalha pétalas de rosa pela casa, no caminho entre a porta de entrada até o quarto, passando pela escada toda para o andar de cima.

Em ação paralela, vemos mulher num posto de gasolina ligando para a secretária, dizendo que resolveu viajar naquela sexta-feira, que volta na segunda à tarde, que é para cancelar todas as reuniões marcadas para a segunda.

Telefonema terminado, mulher recebe ligação do cara, dizendo que está entrando numa reunião, e só vai chegar no sábado à tarde.

Mulher chega na casa de campo, vê as flores todas, liga para a secretária, diz que vai transar muito – e sai pela casa berrando o nome do marido, Ian (Timothy Hutton). O qual, evidentemente, fica muito surpreso ao ver chegar a mulher, Louise (o infeliz papel de Meg Ryan), muito antes da hora combinada.

É o óbvio, o absolutamente óbvio: confiante em que Louise só chegaria no sábado de tarde, Ian tinha marcado encontro com a amante. Mas quem chegou foi a esposa.

Pego com a boca na botija, Ian conta tudo para Louise.

E aí Louise diz que não, que não aceita aquilo de jeito nenhum, que ele jurou amá-la para sempre quando se casaram, e vai ter que continuar amando – e o amarra numa cadeira.

Daí a pouco chega a jovem amante de Ian, Sarah (Kristen Bell).

         Sobre o sagrado livre arbítrio, a liberdade de dar stop

Péra lá – mas não era para ser uma comedinha romântica?

Ah – vai ser uma comédia de humor negro, então. Idiota, cretina, babaca, absurda.

Tudo bem – o botão de stop existe, está lá. Eu poderia ter usado o botão. (Ou, se estivesse numa sala de cinema, poderia ter usado a faculdade de levantar e cascar fora.) Ninguém é obrigado a ver um filme idiota.

Os idiotas do esquerdoidismo vivem falando em “controle social”, expressão que na Novilíngua significa na prática proibir que sejam feitos ou exibidos filmes ou programas ou sejam divulgadas notícias de que não gostam – e o melhor argumento contra isso é sempre a liberdade, o livre arbítrio: meu, se você não gosta da Rede Globo, mude de canal; se você não gosta da Veja, compre outra revista, as bancas têm 200 milhares de títulos diferentes, tem Carta Capital, tem Caros Amigos…         

Ih, acho que tergiversei.

         E o filme só vai piorando, piorando

É óbvio que eu tinha a liberdade de apertar o botão de stop. Não fiz – porque sou louco mesmo, fazer o quê? A culpa é inteiramente minha.

E o fato é que, a partir desse começo idiota, o filme só piora, e piora muito, e piora demais.

Na última seqüência, tentam – com uma incompetência abissal – nos convencer de que poderia ter havido uma reviravolta. É uma tentativa idiota, até porque o eventual espectador que tiver mais do que 35 de Q.I. já havia pensado nessa possibilidade, mas já a tinha descartado porque o que é mostrado no início do filme torna inverossímil e improvável e absurda a saída que se tenta na última tomada.

         Meg Ryan, gracinha, já foi adorável e adorada

Então é assim: neguinho pode, evidentemente, fazer o filme mais idiota que quiser. É um direito dele – it’s his privilege, como se diz, com acuradíssima exatidão, em inglês. Nada contra.

Eu, pessoalmente, fico espantado com o fato de algum produtor ter dado o sinal verde para esse roteiro idiota, obtuso, calhorda, de mau gosto, vomitativo.

Mas, ao mesmo tempo, imagino que é assim mesmo – devem ter feito alguma pesquisa de mercado, devem ter achado que haveria público para isso. A economia precisa andar, a indústria tem que fazer filmes, os cinemas têm que ter novos títulos para exibir, as locadoras, etc e tal.

Dá é uma peninha grande de Meg Ryan.

Em Harry e Sally – Feitos um para o Outro/When Harry Met Sally…, de Rob Reiner, de 1989, Meg Ryan protagonizou uma das seqüências mais antológicas de toda a história da comédia romântica, aquela extraordinária série de tomadas em que finge um orgasmo, para o absoluto espanto de Harry, o personagem de Billy Cristal, de todos os presentes à lanchonete e da audiência.

Cabelos louros cacheados, olhos do mais brilhante azul, um domínio de tempo cênico extraordinário, virou a namoradinha da América – e do mundo. Foi adorada, e adorável, em um bando de comedinhas românticas. Em duas que fez ao lado do então namoradinho da América, Tom Hanks, homenageou os antigos – e jovens que sabem reconhecer os antigos são bons, são louváveis: em Sintonia de Amor/Sleepless in Seattle, de Nora Ephron, ela e Tom Hanks nos lembraram o amor triste de Cary Grant e Deborah Kerr em Tarde Demais para Esquecer/An Affair to Remember. E, em Mens@gem para Você/You’ve Got Mail, de novo de Nora Ephron, elas atualizaram, com a então recém-chegada novidade dos e-mails, e falando também da coisa de empresa come empresa e demite gente, A Loja da Esquina/The Shop Around the Corner, o delicioso clássico do mestre Lubitsch de 1940, com James Stewart e Margaret Sullavan.

“A pretty face may last a year or two”, disse John Lennon, morrendo de ódio e de inveja do talento e da beleza de seu ex-parceiro.

Meg Ryan não tem apenas uma carinha bonita. É uma boa atriz. Tentou se reinventar. Em 2003, aos 42 anos, fez uma personagem que jogava no lixo todas as comedinhas românticas, no drama barra pesada de Jane Campion Em Carne Viva/In The Cut.

Voltou à boa comédia romântica em 2008, na refilmagem de um clássico de George Cukor, Mulheres – O Sexo Forte/The Women. No mesmo ano, no entanto, fez a besteira Mais do que Você Imagina/My Mom’s New Boyfriend, e em 2009 fez essa besteira maior ainda aqui.

Não está bem no filme, a gracinha da Meg Ryan. Está careteira, ridícula, absurda; não consegue criar um personagem. Mas a culpa não é dela – neste filme, não daria para fazer nada bom.

Torço para ver Meg Ryan, agora mulher madura, sempre linda, maravilhosa, em bons filmes, em bons papéis, em boas interpretações. Gracinha. Não mereceria este horror. Que consiga sair desta fase, dê a volta por cima.

Armadilhas do Amor/Serious Moonlight

De Cheryl Hines, EUA, 2009

Com Meg Ryan (Louise), Timothy Hutton (Ian), Kristen Bell (Sara), Justin Long (Todd)

Roteiro Adrienne Shelly

Fotografia Nancy Schreiber

Música Andrew Hollander

Montagem Steven Rasch

Produção Night and Day Pictures

Cor, 84 min

Bola preta

7 Comentários

  1. Postado em 10 setembro 2010 às 10:20 am | Permalink

    Não vi esse filme, mas estou triste, triste por Meg. Harry e Sally é, entre os filmes pós década de 60, um dos dez mais pra mim. Que ela consiga se reinventar. Torço junto com você.

  2. Glória
    Postado em 12 setembro 2010 às 10:30 pm | Permalink

    Sempre penso naquela mássima: uma coisa é não ter; a outra é ter e perder. Perdoem-me, mas Meg Ryan encaixa-se nas duas.

  3. Telmo Junges
    Postado em 23 setembro 2010 às 3:27 pm | Permalink

    E tem mais, as plásticas estão deformando o rosto, quase não a reconheci neste filme.

  4. Carol
    Postado em 2 outubro 2010 às 11:42 am | Permalink

    Na minha opinião o filme fala sobre a necessidade das mulheres de se sentirem amadas e como abrem mão de si mesmas e não se valorizam. Há uma hora que Ian diz: -Vovê tem opiniões demais Loise. Ela responde: -Tudo bem Ian, não vou mais ter opiniões. Encarei como uma crítica e sendo assim, achei o filme razoável.

  5. Carol
    Postado em 2 outubro 2010 às 11:43 am | Permalink

    Há, mas sim, a Megan devia parar com os preenchimentos e com as plásticas.
    Mais que você imagina pra mim é o pior filme do mundo.

  6. Bruna
    Postado em 14 julho 2011 às 11:43 am | Permalink

    Gente eu assisti, não tinha o que fazer, mas perdi algumas parte e não consegui entender aquele final imbecilll… se alguém souber me explicar agradeceriaaa.

  7. Heidi
    Postado em 23 Janeiro 2012 às 12:43 am | Permalink

    Eu queria entender a última cena – ela reconheceu o ladrão na rua e evitou olhar pra ele? Foi isso? E qual seria a interpretação disso? Ela planejou este assalto?

3 Trackbacks

  1. […] Michael e Alice são lindos (eles aparecem na tela sob a pele e os rostos belos de Andy Garcia e Meg Ryan), são absolutamente apaixonados, bem humorados, alegres, vivem de forma bastante confortável, […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Burlesque em 30 Janeiro 2012 às 12:40 am

    […] (Eric Dane), um empresário muitíssimo bem sucedido, que namora a maior estrela da casa, Nikki (Kristen Bell), e está interessadíssimo em comprar o cabaré. Faz sua oferta: US$ 1 milhão, US$ 500 mil para […]

  3. […] que eu não conhecia ou de que não me lembrava (Kevin Connolly, Bradley Cooper, Ginnifer Goodwin, Justin Long). O elenco é tão bom, e tão bem escolhido, que o filme se dá ao luxo de ter Kris Kristofferson […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*