À Margem do Rio Sagrado / Water

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: À Margem do Rio Sagrado é um ótimo filme – e um filme importante. Mostra uma realidade que, com certeza, pouca gente fora da Índia conhece: a absurda, inacreditável, desumana forma com que são tratadas as viúvas no segundo país mais populoso do mundo.

 O filme abre com um trecho de As Leis de Manu, texto sagrado do hinduísmo:

 “A viúva deve sofrer até a morte, preservada e casta. Esposa virtuosa que permanece pura após a morte de seu marido vai para o paraíso. Uma mulher infiel a seu marido irá renascer no útero de um chacal.”

A ação se passa em 1938. Quando o filme começa, estamos no interior, numa zona rural. Uma carroça leva uma família: um homem doente, uma garotinha de uns sete, oito anos, e outras pessoas.

Logo em seguida, há um diálogo entre a garotinha e seu pai. Ele pergunta se ela se lembra da cerimônia do casamento dela – a garotinha não se lembra. E o pai a informa que o marido dela morreu; agora ela é uma viúva.

Sim, a gente não sabe disso, ou se esquece: na Índia, aquele planeta tão distante, tão desconhecido quanto o Planeta China, é costume homens adultos se casarem com criancinhas.

Depois do diálogo entre o pai e a garotinha – seu nome é Chuyia, e ela é interpretada por uma menina chamada Sarala, na foto acima, que tem desempenho impressionante –, veremos que o pai e a mãe dela a entregam a uma grande casa onde só vivem viúvas. Algo como um asilo, quase uma prisão – só não há uma estrutura definida de comando. Há, naturalmente, algumas mulheres que se destacam na convivência ali dentro, por sua força natural. Há uma velha, uma bruxa medonha; uma mulher de meia idade, Shakuntala (Seema Biswas), que tem coragem de enfrentar a velha; e uma jovem belíssima, Kalyani (Lisa Ray), que toma afeição pela garotinha Chuyia e se torna amiga e um tanto protetora dela.

O filme acompanha a vida de Chuyia naquela casa durante alguns meses.

         Uma realidade brutal, inaceitável, que permanece até hoje

Chuyia está com a jovem Kalyani um dia em que ficam conhecendo um jovem rico e bonito, Narayan (John Abraham), que está de volta à sua cidade natal depois de estudos fora. Inevitavelmente, Kalyani e Narayan ficarão atraídos um pelo outro – embora o romance entre eles seja proibido pelos costumes religiosos quanto à viuvez e também pela estrutura de castas ainda vigente na Índia.

Narayan, rico, estudado, jovem, idealista, é um seguidor dos ensinamentos de um grande líder que está, naquela época, conquistando mais e mais adeptos – Mahatma Ghandi. A adesão de mais e mais indianos aos ensinamentos de Ghandi, que acabaria resultando na independência da Índia do Império Britânico em 1947, é o pano de fundo histórico, enquanto acompanhamos a louca, inadmissível realidade daquele grupo de viúvas.

Assim como abre com um letreiro que nos informa sobre o texto sagrado do hinduísmo que condena as viúvas à eterna condição de párias da sociedade, o filme também se encerra com um letreiro, informando que há na Índia hoje milhões e milhões de viúvas que continuam enfrentando a mesma duríssima realidade.

         Extremistas de direita impediram as filmagens na Índia

A diretora Deepa Mehta, autora também do roteiro, nasceu em 1950 na cidade indiana de Amritsar, filha de um distribuidor de filmes. Cursou a Universidade de Nova Delhi, e imigrou para o Canadá aos 23 anos, em 1973. Toda sua carreira no cinema foi construída no Canadá, mas seus filmes tratam em geral da vida de indianos. Em 1996, fez Fire, a primeira parte do que seria conhecido como A Trilogia dos Elementos; Earth veio logo depois, em 1998.

A diretora começou a filmar este Water em 2000 na Índia, na cidade santa de Varanasi, mas as filmagens tiveram que ser interrompidas: um partido político de extrema direita insuflou a população contra a diretora e contra seu filme, argumentando que era uma obra contra o hinduísmo; uma multidão tentou agredir a equipe, que teve que ser protegida pelo exército.

Deepa Mehta retomou as filmagens quatro anos mais tarde, no Sri Lanka (o antigo Ceilão, logo ao Sul da Índia). O filme é de 2005.

         A realidade que o filme mostra é chocante, mas o tom não é de panfleto

É um belo filme, sob todos os aspectos. A produção é de primeiríssima: o elenco é todo excelente, a música, do grande Mychael Danna e mais A.R. Rahman, é suntuosa. A fotografia, do inglês Giles Nuttgens, é excepcional. Há dezenas e dezenas e dezenas de tomadas belíssimas, de um visual apuradíssimo. Giles Nuttgens criou, a pedido da diretora, dois visuais completamente diferentes – um, o interior do asilo das viúvas, é cinzento, sombrio. As cenas fora do asilo, ao contrário, são de cores vivas, fortíssimas.   

Deepa Mehta não conta a história apavorante em tom panfletário. Ao contrário: a narrativa é suave, serena. Não era preciso mesmo qualquer tom de discurso. A realidade que a história desvenda já é chocante nela mesma. É uma aterradora afronta aos direitos humanos mais fundamentais.

O filme mostra explicitamente que leis aprovadas na esteira do crescimento da importância de Mahatma Ghandi, nos anos 40, procuraram garantir o fim desse tratamento desumano às viúvas. Mas, pelo que ele nos conta, as leis não conseguiram extinguir hábitos milenares impostos por crenças religiosas.

É apavorante.

Um belíssimo diálogo, entre a viúva Shakuntala e a garotinha Chuyia, depois da morte natural de uma de suas companheiras de asilo, é especialmente marcante. A mulher experiente diz para a garotinha:

– “Espero que, quando ela reencarnar, seja um homem.”

Sociedade maluca: pune viúvas, segrega as pessoas em diferentes castas, e é profunda, profundamente machista.

Deepa Mehta diz, num especial do DVD, que costumam perguntar a ela se se definiria como uma cineasta feminista. Ao que ela responde que gostaria de ser vista como humanista.

É o que seu filme é: uma bela, belíssima obra humanista.

À Margem do Rio Sagrado/Water

De Deepa Mehta, Índia-Canadá, 2005,

Com Sarala (Chuyia), Seema Biswas (Shakuntala), Buddhi Wickrama (Baba), Rinsly Weerarathne (o marido de Chuyia), Iranganie Serasinghe (a sogra), John Abraham (Narayan)

Argumento e roteiro Deepa Mehta

Diálogos Anurag Kashyap

Fotografia Giles Nuttgens

Música Mychael Danna e A.R. Rahman   

Produção Deepa Mehta Films, Flagship International, David Hamilton Productions, Echo Lake Productions

Cor, 117 min

***

2 Comentários

  1. Paula
    Postado em 12 janeiro 2012 às 10:20 am | Permalink

    Olá…
    Gostaria de saber o nome da música,que é tocada com flautas,na hora do encontro de Kaliane e Narayan….

  2. Isabel A. Oliveira
    Postado em 28 fevereiro 2014 às 6:08 pm | Permalink

    Chorei muito em saber o quanto a vida é cruel para as mulheres deste lugar.
    Deepa Mehta sou grata por você existir!

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*