Te Amarei Até te Matar / Love you to Death


Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2009: A direção é de Lawrence Kasdan, que fez vários ótimos filmes. O elenco reúne atores de primeira linha – Kevin Kline, Joan Plowright, River Phoenix, William Hurt, Keanu Reeves. E, no entanto, este filme é um horror, um nojo, uma ofensa à inteligência do espectador.

É uma ofensa aos italianos, aos imigrantes em geral. É nojentamente preconceituoso. Como é possível?

Não sei como é possível. Não dá para entender.

love2Relembrando: como roteirista, Kasdan participou da criação, da gênese dos tremendos sucessos Caçadores da Arca Perdida e Guerra nas Estrelas: O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi. Estreou na direção em 1981 com um belíssimo noir de belo clima sensual, Corpos Ardentes/Body Heat, com William Hurt e uma lindíssima, sensacional Kathleen Turner. Em seguida fez o excelente O Reencontro/The Big Chill, de 1983, em que vários amigos se reúnem para o funeral de um dos membros do grupo, e fazem um balanço do que sobrou de seus sonhos e ideais da juventude. William Hurt e Kevin Kline estavam no belo elenco. Kevin Kline participou também de Silverado, um bom western de 1985, que tinha também Kevin Costner e Danny Glover.

Em 1988 veio O Turista Acidental, em que reuniu de novo William Hurt e Kathleen Turner, numa sensível história do final de um casamento e o início de um a princípio absolutamente improvável romance. Em Grand Canyon, de 1991, de novo com Kevin Kline e Danny Glover, mais Steve Martin, Mary McDonnell e Mary Louise Parker, fez um belíssimo painel da sociedade americana, contrapondo violência e solidariedade. Wyatt Earp, de 1994, é uma boa reconstituição, com mais de três horas de duração, da vida inteira do delegado do Velho Oeste, que já havia aparecido em bons filmes (Paixão dos Fortes/My Darling Clementine, de John Ford, de 1946, Sem Lei e Sem Alma/Gunfight at the O.K. Corral, de John Sturges, de 1957), com Kevin Costner no papel título, que nos dois outros filmes citados havia sido de Henry Fonda e de Burt Lancaster. E Surpresas do Coração/French Kiss é uma comédia romântica gostosa, com Meg Ryan como uma noiva que vai atrás do noivo na Europa e se envolve com um francês que a princípio, é claro, detesta, interpretado por Kevin Kline em ótima atuação. 

         Uma horrível caricatura

Pois é: como é possível que Lawrence Kasdan tenha feito esse horroroso, patético Te Amarei Até Te Matar?

Não dá para entender.   

O mesmo Kevin Kline, ator de fato versátil, que fez um ótimo francês em Surpresas do Coração, aqui faz um italiano caricatural. E põe caricatural nisso. Joey, dono de uma pizzaria e de um pequeno prédio de apartamentos, em uma pequena cidade, come demais, está sempre bem disposto e com apetite, fala alto. É também um tremendo garanhão; come cinco mulheres diferentes por semana – e vai à igreja se confessar. Na sua pizzaria, há fotos do papa, do presidente Kennedy e de Frank Sinatra. Os tais apartamentos, aluga só para mulheres, e come várias delas. Todo mundo está cansado de saber das aventuras de Joe, menos sua santa mulher, Rosalie (Tracey Ullman), uma imigrante da Iugoslávia (o filme é de 1990, e se passa nos anos 80, quando a Iugoslávia ainda existia). Para justificar as freqüentes visitas às inquilinas, Joey diz que vai cuidar do encanamento, e Rosalie acredita.

love1Até que um dia, numa biblioteca pública, Rosalie flagra Joe aos amassos com uma mulher. Pensa em se matar, mas em seguida, insuflada pela mãe, Nadja (Joan Plowright), resolve que Joe é que tem que morrer. Vão se seguir ridículas tentativas de assassinato do safado, no que Rosalie e a mãe terão a ajuda de um jovem empregado da pizzaria, apaixonado pela patroa (o papel de River Phoenix), e por uma dupla de absurdos, patéticos trapalhões (interpretados por William Hurt e Keanu Reeves).

E é tudo caricatural, patético, grotesco. É preconceituoso: trata os imigrantes como imbecis, idiotas.

Por duas vezes – antes dos créditos iniciais, e também nos créditos finais –, o filme avisa que foi baseado em uma história real. O iMDB traz a informação: “Levemente baseado na história verdadeira de Frances Toto e suas quatro tentativas mal sucedidas de matar seu marido que a traía, Anthony Tato, em Allentown, Pensilvânia, em 1984.”

Transformar uma tragédia familiar numa comédia de humor negro (de humor, na verdade, o filme tem muito pouco; não consegui dar sequer um sorriso) é uma danada de uma falta de gosto – algo que não seria de se esperar de Kasdan. Agora, além de tudo fazer um filme preconceituoso contra imigrantes é crime.         

 Os outros não viram tanto preconceito assim

Fui checar algumas outras opiniões – e fiquei um tanto chocado. Não achei nenhuma crítica dura ao filme; não encontrei quem fale da coisa do preconceito, da gozação estúpida com os imigrantes italianos. Mas também não há muitos elogios.

Leonard Maltin dá 2.5 estrelas (em 4), define o filme como uma “desajeitada comédia de humor negro”, diz que é divertido ver a atuação de Kevin Kline e que Joan Plowright está “hilariante” como a sogra eslava, mas conclui dizendo que o filme não levanta vôo. 

Pauline Kael, em 99,9% do tempo mordaz, impiedosa, arrasadora, poupa o filme de sérios ataques. Diz que o filme em geral chega perto de ser realmente engraçado, mas não tem muita energia e carece de precisão cômica até que, perto do fim, a ótima Miriam Margolyes, que faz a mãe de Joey, bate na cabeça enfaixada do filho; “seu timing explosivo leva as cenas aos píncaros”. 

No AllMovie há a observação que achei mais pertinente. Em seu texto, Karl Williams estranha que Lawrence Kasdan, um dos mais talentosos roteiristas do show business, tenha resolvido dirigir um filme cujo roteiro foi escrito por outra pessoa, John Kostmayer. “Qualquer que tenham sido suas razões, Kasdan é um artista sério, introspectivo, para quem o humor negro não parece uma especialidade.”   

Admito que eu posso ter visto o filme num dia de mau humor.  Mas não sou tão louco assim. Ou sou? 

Te Amarei Até Te Matar/I Love You To Death

De Lawrence Kasdan, EUA, 1990.

Com Kevin Kline, Tracey Ullman, Joan Plowright, River Phoenix, William Hurt, Keanu Reeves, Miriam Margolyes, Heather Graham

Roteiro John Kostmayer

Música James Horner

Produção Columbia Pictures, Chestnut Hill Productions

Cor, 97 min

Bola preta

4 Trackbacks

  1. […] e as ações do banco não paravam de despencar. Fuld pede ajuda a Henry Paulson (o papel do grande William Hurt, na foto sbaixo), ele próprio ex-CEO do Lehman’s, e naquele momento secretário do Tesouro – o […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Inquietos / Restless em 14 abril 2012 às 7:01 pm

    […] cena, me peguei pensando que, de uma maneira não propriamente óbvia, ele se parece demais com River Phoenix. Não exatamente por ser parecido, ter traços semelhantes, mas por dar os ares, como dizia minha […]

  3. […] O roteiro, delicado, sensível a não mais poder, foi escrito a quatro mãos pelo casal Meg e Lawrence Kasdan. […]

  4. […] coincidência, River Phoenix – morto tão absurdamente cedo – está também no elenco de outro filme que fala de grupos […]

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