Katyn


Nota: ★★★½

Anotação em 2009: Aos 81 anos de idade, 50 anos depois do belo e chocante Kanal, o polonês Andrzej Wajda, um dos maiores cineastas do mundo, volta à Segunda Guerra Mundial. E faz outra grande obra de arte, outra belo e chocante filme.

Em Katyn, ao contar os dramas de três mulheres fictícias – Anna, Agnieszka e a esposa sem nome de um general –, Wajda reconstitui, com a precisão exata de um mestre, o bisturi afiado de um cirurgião, com imagens de uma violência e uma crueza de assustar, um dos episódios mais absurdos da Segunda Guerra: o massacre de cerca de 12 mil oficiais poloneses pela União Soviética, na floresta de Katyn. Muitos deles, uma boa parte, não eram soldados profissionais; eram engenheiros, médicos, professores. Assim, uma parte significativa da elite intelectual da Polônia foi massacrada ali.

O filme abre com uma seqüência esplendorosa, bem realizadíssima, uma metáfora forte sobre a Polônia esmagada pelos exércitos de dois ditadores assassinos, dois dos maiores genocidas da História, Hitler e Stálin. Uma ponte sobre um rio – de um lado, uma multidão que foge do avanço dos soldados nazistas vindos do Oeste; do lado oposto, um monte de gente que foge do avanço dos soldados soviéticos vindos do Leste. Um letreiro informa que estamos em 17 de setembro de 1939. Letreiros vão informar, ao longo de todo o filme, os locais e as datas.

No meio da multidão que vem do Oeste estão Anna e sua filha Nika, uma garotinha de uns sete, oito anos. (Anna é interpretada por Maja Ostaszewska, bela mulher, excelente atriz.) Anna quer reencontrar o marido, o capitão Andrzej (Artur Zmijewski). No tumulto no meio da ponte, multidão indo para um lado, outra multidão indo para o outro, Anna encontra uma conhecida, a mulher de um general, que está indo em sentido contrário e aconselha Anna a fazer o mesmo. (A mulher do general, interpretada por Danuta Stenka, não tem nome; até mesmo na relação de personagens do site oficial do filme ela aparece apenas como “a mulher do general”). Anna não atende ao apelo, segue em frente. Vai reencontrar o capitão Andrzej, que está preso, junto com milhares de companheiros, pelo exército soviético; os soviéticos haviam chegado em número muito maior, muito mais fortemente armados, e haviam dominado com facilidade os poloneses; os soldados foram soltos, os oficiais ficaram presos.

akatyn2Anna tenta convencer o marido a fugir enquanto dá tempo – a vigilância dos soviéticos, naquele momento, não parece tão grande. Mas Andrzej diz que não pode abandonar o posto, os companheiros, a honra, a dignidade. Manda a mulher sair dali, levar a filha para longe, para a Cracóvia. Anna não tem como resistir; obedece à ordem do marido.

A narrativa vai avançando no tempo seguindo a ordem cronológica, que acompanhamos pelos letreiros. Há seqüências em novembro e dezembro de 1939, depois na primavera de 1940. Dali há um salto até abril de 1943, quando vemos a mulher do general sendo chamada a um quartel dos invasores nazistas; ali entregam a ela uma medalha que era do marido (Jan Englert), e exibem para ela um filme que mostra a descoberta, numa cova rasa, de milhares e milhares de corpos de oficiais poloneses assassinados com tiros na nuca pelos soviéticos, no massacre de Katyn, em 1940.

Mais tarde, já no final da guerra, com a expulsão dos nazistas e os soviéticos ocupando toda a Polônia, os novos donos do poder querem fazer crer que o massacre ocorreu em 1941, e que os assassinos foram os nazistas. E ai de quem questionar a nova verdade oficial – estará automaticamente condenado à morte.

            Diálogos fortes, cortantes

Numa seqüência impressionante, Wajda resume boa parte do que havia mostrado em Cinzas e Diamantes, sua obra-prima de 1958: os efeitos da troca de poder, a nova ordem sendo estabelecida, invasores nazistas expulsos, invasores soviéticos dominando agora a Polônia. É janeiro de 1945; a senhora que havia sido empregada na casa do general vai visitar a viúva, agora empobrecida; a ex-empregada ascende socialmente no novo regime – seu marido havia se aliado aos russos, e nomeado prefeito de uma pequena cidade. Da janela de sua casa, a viúva do general vê a ex-empregada aproximar-se do carro com motorista que a espera, e ouve este diálogo:

O marido, impaciente com a demora: – “Pensei que você tivesse se decidido a ficar como empregada de novo.”

A mulher, justificando ter ficado um tempo na casa da ex-patroa: – “Eu não vi a esposa do general durante toda a guerra.”

O marido: – “Agora você é a dama.”

A viúva do general tem um diálogo também impressionante com Jerzy (Andrzej Chyra), que tinha sido tenente sob as ordens do general; Jerzy era um grande amigo do capitão Andrzej, o marido de Anna. Conseguiu escapar da morte e alistou-se no exército soviético. Quando ele volta à Cracóvia, em 1945, reencontra Anna, e também a mulher do general; anda com ela à noite, em um parque (as tomadas são maravilhosas, a iluminação, a neblina, tudo dá um visual quase surrealista, algo impossível de estar acontecendo de verdade); passam oficiais russos, ele bate continência.

A viúva do general: – “Você cumprimenta os assassinos como se fossem vencedores”.

Jerzy: – “Não faz diferença se são soviéticos ou alemães. Ninguém ressuscitará os mortos. Temos que sobreviver, perdoar. Temos que viver”.

A viúva: – “Você é igual a eles”.

Agnieszka (Magdalena Cielecka), a irmã de um tenente piloto também assassinado no massacre de Katyn, vai se confrontar com sua irmã, diretora de uma escola que não quer problema com os invasores, os novos donos do poder, os soviéticos. Apesar de saber de todos os riscos, Agnieszka quer que a verdade – quem de fato foram os responsáveis pelo massacre – seja mostrada. A irmã que defende a pax soviética diz:

– “Você escolhe os mortos. Isso é mórbido.”

E Agnieszka retruca:

– “Não. Eu escolho os assassinados, e não os assassinos.”

            É preciso saber pelo menos um pouco da História

akatyn1O filme de Wajda é forte, poderoso, denso, um libelo violento contra as duas ditaduras, a nazista e a comunista, que trouxeram à Polônia aquela quantidade imensa de tragédia. E é um filme extraordinário, bem realizadíssimo. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro; recebeu 12 prêmios e cinco outras indicações. Mas ele não é, de forma alguma, um filme fácil. Para quem não é polonês, não conhece um pouquinho que seja a história do país durante e logo após a Segunda Guerra, é difícil acompanhar e compreender as situações. E nem de longe o cineasta pretendeu dar ou procurar alguma explicação para as causas do massacre absurdo, insensato, insano, dos 12 mil oficiais poloneses a mando de Stálin. Como se diz em inglês, numa expressão que não tem tradução exata, he took for granted que todos já sabem o que aconteceu. Deu de barato que todo mundo já deveria saber a história.

Bem no início do filme, quando Anna reencontra o marido Andrzej preso pelos soviéticos, vemos oficiais nazistas se congraçando com oficiais russos. Como ficou na nossa memória a aliança de Grã-Bretanha, Estados Unidos e União Soviética e muitos outros países, Brasil inclusive, contra o Eixo (a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini e o Japão), fica difícil entender aquilo. Seria preciso que o espectador se lembrasse do pacto de não-agressão assinado em 24 de agosto de 1939 entre o Terceiro Reich de Hitler e a União Soviética de Stálin. É na vigência deste pacto que o filme começa – por isso toda a insistência de Wajda em mostrar as datas; 17 de setembro de 1939, o dia em que começa a ação, na ponte, foi o dia em que o exército soviético entrou na Polônia. Foi na vigência do pacto entre Stálin e Hitler que ocorreu o massacre de Katyn; o pacto só foi rompido quando as tropas nazistas invadiram a União Soviética, em 22 de junho de 1941.

O site oficial do filme informa que, enquanto durou o domínio soviético sobre a Polônia, ou seja, entre 1945 e o esfacelamento do império comunista, no início dos anos 90, “a verdade sobre o crime de Katyn foi inescrupulosamente falsificada”, e “os que defendiam a verdade sobre o massacre eram perseguidos e severamente punidos”. “Apenas em 1989 a verdade sobre Katyn veio à luz do dia. Em 1990, as autoridades da URSS admitiram pela primeira vez que o crime foi cometido pelo NKVD soviético. Dois anos depois Yeltsin declarou oficialmente que aconteceu seguindo ordens de Stálin.” (NKVD é a sigla para o Comissariado do Povo para Assuntos Internos, a polícia secreta da era stalinista.) 

Na minha opinião, o que Wajda pretendeu mesmo, com Katyn, foi mostrar essa grande e trágica verdade: para a Polônia, as duas invasões, a nazista e a comunista, foram igualmente cruéis, bárbaras, assassinas, genocidas. Diametralmente opostas no espectro ideológico, elas a rigor davam na mesma. Eram a mesma coisa.

Grande, imenso Wajda. Combateu os invasores imperialistas estrangeiros enquanto eles mandavam em seu país, continua sempre, incansável, querendo mostrar a verdade, revolvendo as covas, resistindo ao esquecimento. Tomando partido dos assassinados, e não dos assassinos. Não se pode esquecer a barbárie, nunca.  

Katyn

De Andrzej Wajda, Polônia, 2007

Com Maja Ostaszewska, Artur Zmijewski, Danuta Stenka, Andrzej Chyra, Magdalena Cielecka, Maja Komorovska, Jan Englert

Roteiro Przemyslaw Nowakowski, Wladyslaw Pasikowski e Andrzej Wajda

Baseado no livro Katyn. Post Mortem, de Andrzej Mularczyk

Fotografia Pawel Edelman

Música Krzysztof Penderecki   

Produção Akson Studio, TVP, Polski Instytut Sztuki Filmowej, Telekomunikacja Polska

Cor e P&B,

***1/2

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